Michael Jackson-This was it, unfortunetely

Michael Jackson-This was it, unfortunetely

Michael Jackson dava instruções detalhadas aos músicos sobre como queria que uma de suas canções fosse executada “exatamente como no disco para agradar aos fãs”, quando um casal se levantou e foi embora do cinema reclamando: “Que filme chato!”. O documentário começara há menos de 15 minutos com “Wanna Be Starting Something”, um dos hits do álbum que mais vendeu em toda a história da música, “Thriller”, de 1982, apresentada em uma edição cuidadosa de imagens de diversos dias de ensaios. “This is it”, o documentário póstumo do Rei do Pop, é, sem dúvida, como registraram algumas críticas, um filme para fãs.  Mas não só: é um filme para quem gosta de música. Para quem vai além de apenas ouvi-la: gosta de saber, e quando possível de testemunhar, o que está por trás de sua composição, de seu arranjo, da criação, enfim. Para aqueles que já tinham ficado embevecidos, por exemplo, ao assistir no especial da BBC sobre Michael Jackson, alguns anos antes de sua morte- e depois da desgastante celeuma em torno das acusações e julgamentos envolvendo pedofilia- ele explicar ao repórter como criou “Billie Jean”: a partir de um solo de baixo que veio a sua mente. “He knows his music”, resume o diretor musical dos shows em um trecho do documentário. Mal comparando, já que neste outro caso trata-se de letras, é um filme até para aqueles que gostariam de saber em que situação ou inspirado em quê Renato Russo escreveu “Andréa Dória” ou “Quase sem querer” (minhas preferências pessoais) e que não terão uma oportunidade como este documentário para fazê-lo. No caso dos fãs de MJ, como insiste em chamar o diretor do documentário, um filme para quem estava com saudades de ver o velho Michael Jackson músico em ação. Como antigamente. A oportunidade de assistir a um making of mais do que raro, único, por razões óbvias.

Ao contrário do que chegaram a afirmar alguns críticos quando o filme foi lançado nos Estados Unidos- apenas dois meses após a morte de Jackson e pouco mais de um mês após seu corpo ter sido finalmente enterrado- tudo o que “This is it” não é, é mórbido. Poucas semanas e, em alguns trechos, poucos dias antes de sofrer o ataque cardíaco causado por excesso de drogas que o levaria à morte, Michael Jackson demonstrava uma vontade enorme de que as pessoas soubessem que ainda estava ali o artista que ele era antes que todos os seus defeitos pessoais serem escancarados pela mídia mundial, durante os anos dos processos. Exigente mas generoso (chega a pedir desculpas aos músicos quando erra), sensível e extremamente vaidoso, profissional e detalhista, dono de uma voz de timbre inconfundível ainda em forma (apesar de ele deixar claro que a estava poupando para o início dos shows que começariam percorrendo a Inglaterra: “Estou tentando conservar a garganta”, justifica-se em um trecho), exímio dançarino (popular, é claro) e coreógrafo. Até mesmo as belas e ágeis pernas que encantavam gerações de meninas e meninos nos anos 80 e 90 a magreza não conseguiu estragar. Ao contrário de mórbido, “This is it” é um resumo vivaz da carreira de um músico cuja inventividade é cultuada não só pelos fãs, mas por seus pares. Os momentos bons são tantos que até nos fazem relevar os elogios repetitivos do diretor a “MJ” e os gritinhos histéricos dos dançarinos-fãs contratados entre milhares de candidatos especialmente para aquela série de eventos. A voz e a dança são tão familiares que por vezes nos fazem esquecer as deformações do rosto de Jackson.

Se o projeto dos shows não tivesse sido interrompido pela morte de Michael, os fãs íam poder se deleitar com canções da época do Jackson Five (“I’ll be there” é acompanhada por imagens históricas do grupo formado pelos irmãos de Michael nos anos 70 e da histeria dos fãs), do início de sua carreira solo, antes do auge do sucesso (estão ali “I just can’t stop loving you”, “Shake your body down to the ground”, que como outras da época da discoteca fará muitos brasilienses se lembrarem das animadas tardes do Roller Center), e culminaria com os grandes sucessos de Thriller (“Human Nature”, “Beat it”, “Billie Jean”, a própria “Thriller”) com vídeos repaginados e dos discos posteriores (“Black and White”, “Man in the Mirror”, “Heal the world”). A produção teria ares de megashow com surpresas tecnológicas que superariam apresentações como as de Madonna ou U2.  O título, “This is it” já dizia tudo: estaria ali um balanço da carreira de Jackson e, aí sim, talvez o único aspecto mórbido da concepção do show: ao decidir pelo retrospecto, parecia que Michael Jackson sabia que aquela seria uma despedida. Tinha que ser completa, tinha que ser definitiva. Não é mais tempo de polêmica. É de música. Não esperem o DVD, corram para o cinema. Só faltam dois dias. And this will be it.

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