Um Oásis no Deserto da Capital

Um Oásis no Deserto da Capital

Hoje acordei com raiva. Muito antes da hora habitual, 40 minutos antes do despertador. Os homens e mesmo as mulheres já acostumadas com a falta de opções de Brasília em certas áreas, certamente me chamarão de fútil ou boba. Não haverão de entender meus motivos. Mas algumas das minhas amigas e as mulheres criativas e de gosto arrojado, a estas, sim, é que estou me reportando. Se não, vejamos: moro em Brasília desde os sete anos de idade, com algumas ricas interrupções: morei em São Paulo por um ano, Nova Iorque por seis meses e Rio de Janeiro por cinco anos e meio.

 Foi em Nova Iorque que comecei a gostar de moda. Afinal, cresci gostando de arte, em suas diversas manifestações e estava em Nova Iorque para estudar História da Arte. Claro, a moda é uma das formas da arte funcional. Meu aprendizado informal sobre moda não de deu nas lojas da 5ª Avenida; mas naquelas da Broadway Downtown, no descolado East Village: enormes, cheias de produtos diferentes feitos pelos artistas locais, típicos de um bairro que abrigou o movimento Hippie, o Punk e todos os “pós” dos anos 90 e 2000. As lojonas, cheias de vendedoras tatuadas, com botas pretas de plataformas bem altas e cabelos curtíssimos, conviviam, ali pelos idos de 1996, com brechós que refletiam bem essa história do bairro. Ainda guardo no fundo do armário um sobretudo preto imitando pele, com enormes botões dourados foscos, bem anos 60/70! O flerte com a moda foi aumentando à medida que todos os dias eu era “obrigada” a passar pelas lojas de Ipanema, aonde fui morar diretamente de Nova Iorque, cobrindo cultura como repórter de alguns canais de TV. Para ir à farmácia, ao supermercado, ao banco, almoçar no natural e até ao dermatologista, “tinha” que olhar as vitrines. Era a época do crescimento de feiras tipo Mercado Mundo Mix: havia pelo menos dois que, a cada 15 dias, davam espaço para os novos designers exporem e venderem suas invenções: um na Fundição Progresso e outro na Barra. Além da Feira do Jóquei Clube (Babilônia Feira Hype) que, como o nome já diz, no começo, era bem alternativa, diferente de hoje, em que mais parece um shopping a céu aberto, já que as grifes se tornaram conhecidas e o grande movimento atraiu outras que já eram consagradas. É bem verdade que a vista para o Cristo Redentor continua lá!

Pois bem: meu sono intranqüilo tem um pouco a ver com tudo isso. Sou daquelas que reclamo da cidade em que vivi a maior parte da minha vida com autoridade, uma vez que também sou uma grande defensora das várias qualidades que Brasília (qualidade de vida, traduzida em quadras para caminhar, verde para respirar, menos trânsito e menos gente que os grandes centros, as melhores bandas de rock e por aí vai). Sempre disse que a cidade carece, dentre outras necessidades da vida moderna, de sapatos criativos, diferentes, arrojados. A mesmice impera (cruzes, ainda tem muita mulher por aí andando com sapatos de bico fino em plena era dos bicos redondos!), com a exceção honrosa de algumas lojas do Lago Sul que trazem de São Paulo exemplares de coleções de marcas como Sarah Chofarkian (que dividem meu armário com os da CAS) e Francesca Giobbi. Mas estas são opções para quem tem mais dinheiro até porque, além de os preços dos sapatos já serem altos, se tornam ainda mais proibitivos quando revendidos aqui.

Não é que, para minha total surpresa e até desconfiança, nas últimas duas semanas, três amigas e conhecidas diferentes me disseram que abriu em Brasília nada menos que uma filial da CAS? A CAS, caras amigas (e amigos de bom gosto interessados em dar bons presentes a suas caras-metades), para quem não teve o prazer de conhecer, é uma das melhores lojas de sapatos do Brasil. A original fica numa casa lindinha da Vila Madalena, bairro uma vez alternativo e hoje cada vez mais fashion de São Paulo. São sapatos com bico quadrado, redondo ou levemente abertos na frente, coloridos, modernos e ao mesmo tempo com um ar retrô. Podem ser baixos e, portanto, ótimos para trabalhar, ou levemente altos. O que eu estou usando agora, já velhinho de tanto caminhar pelos corredores do Congresso Nacional, é vermelho com listras bejes, ideal para calçar com meia grossa num dia frio como hoje. As roupas também são lindas. Tenho uma saia preta godê de um tecido parecido com cortina e uma camisa branca que minha irmã me deu quando eu estava grávida e que uso até hoje. As bolsas seguem o mesmo estilo. Não vou mentir: para se ter qualidade, se paga um pouco mais, por volta de R$ 300 um par de sapatos.

Eu deveria estar feliz. Afinal, uma de minhas duas lojas preferida de sapatos (a outra é a Sarah. Hello, estamos esperando!), aparentemente, chegou à minha cidade! Um oásis no deserto! Depois que tive meu filho, não consegui mais tempo para passear por São Paulo. Me virei comprando os sapatos da Sale e Solas, uma lojinha linda quase na esquina da Henrique Dummond com a Visconde de Pirajá, em Ipanema, em que os produtos são bem originais, mas em que a qualidade e o conforto não se comparam aos da CAS. Comprei no tempo que sobrou de uma viagem a trabalho. Pois não é que a tal da loja da CAS ficaria na minha entrequadra (106/105 sul), a pouco mais de 200 metros do meu armário? Minha descrença com o empreendedorismo dos empresários de Brasília é tamanha que não acreditei que aquela CAS, que eu já tinha visto algumas vezes ao passar de carro do trabalho para casa, poderia ser a CAS paulista dos meus sonhos. Depois das informações destas três pessoas que já pareciam inequívocas- uma delas ex-moradora da Vila- comecei a perceber que o tipo usado nas letras era o mesmo da etiqueta da minha camisa branca. Ando trabalhando demais nos últimos meses e, nestes últimos dias após as informações, não encontrei tempo para checar se aquela CAS é a CAS mesmo. Mas, como todos os sinais indicam que sim, por antecipação, fiquei com muita raiva de mim mesma (a loja já está ali há alguns meses), do departamento de marketing da loja, da gerente da sede de São Paulo (que deveria ter o cadastro de todas as clientes e não deu sequer uma ligada prá chamar as potenciais compradoras brasilienses) e de quebra das minhas amigas que ficaram sabendo e não me contaram, crentes que eu já teria visto pela proximidade que a loja guarda da minha casa.

Na hora do almoço, espero sentir minha raiva se transformando em alegria- um pouco como quando novas designers de Brasília começaram a expor nas Feiras de fim de semana. Vou dar um pulo na CAS. Quero checar se a modernidade finalmente poderá chegar aos pés das brasilienses. E se for a CAS verdadeira, vou fazer esforço prá isso: divulgarei a marca sem cobrar nada (uma vez que a própria loja preferiu não fazê-lo) para que a nova CAS, localizada em uma quadra nada tradicional em termos de moda, entre uma lanchonete e outra, não termine fechando as portas. Destino de muita coisa boa na Capital Federal, infelizmente.

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4 Comentários

  1. Se vc gosta de sapato de bico redondo ou quadrado, com cara retrô, vc vai amar os sapatos da Outlet – uma marca nova que apareceu no Rio há 1 ano e meio mais ou menos. Eles tem lojas no Rio Sul e no Shopping Leblon. Os sapatos são SUPER confortáveis e todos no estilo sapato de boneca (meus preferidos). Vale a pena checar qdo vc for de novo ao Rio.
    Bj!

    • Tenho certeza de que já vi uma Outlet, mas a que conheço mesmo é a Outer do Shopping Leblon, com sapatos lindos, mas o que eu comprei é duríssimo. Trauma!!

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