Rock in Rio- o show a que eu não fui e seu importante legado

Rock in Rio- o show a que eu não fui e seu importante legado

O Rock in Rio original está fazendo 25 anos neste verão. E embora eu não tenha ido ao megashow que foi um marco na história dos concertos de rock no Brasil, este aniversário significa muito para mim. Foi nessa época, aos 16 anos, que comecei a gostar de rock prá valer, a ponto de decidir abandonar a idéia de ser bióloga- que havia alimentado desde criança- e decidir ser jornalista. Naquele janeiro de 1985, em vez de ir para o Rio assistir aos shows do Queen, do Scorpions e do Barão Vermelho- os que mais me interessavam-  e até da Blitz e dos Paralamas do Sucesso -, segui para Recife de onde embarcaria para os Estados Unidos numa temporada de intercâmbio. Mais precisamente para Elsie, uma pequena- pequena mesmo, com seus mil habitantes- cidade de Michigan.

Enquanto eu era recebida por minha futura “mãe americana” e meu “irmão mais velho” no aeroporto da gelada Detroit, no Rio, bandas entre as consagradas internacionalmente e as melhores da época do nascente B-Rock se revezavam nos palcos de Jacarepaguá. Não era fácil me adaptar àquela cidade minúscula, com neve até os joelhos e cheia de jovens alienados. Algumas vezes cheguei a chorar revoltada por ter perdido a oportunidade até então única de ver um evento daquelas proporções. Uma vez tentei dividir minha angústia com meus irmãos americanos que diziam, entre incrédulos e debochados: “Iron Maiden, ACDC, Def Leppard (depois substituído pelo Whitesnake), todos reunidos no Brasil? Impossível!”. Fui obrigada a mostrar, orgulhosa, o catálogo do Rock in Rio com uma página dedicada a cada banda para que eles acreditassem, pasmos.

Pois é, ironicamente foi ali, a continentes de distância do Rock in Rio, que um frio de até 45º (centígrados mesmo) abaixo de zero me proporcionou uma verdadeira imersão no mundo das bandas de rock que fizeram a década de 1980 tão importante para o gênero. Sem entender o rápido inglês falado em Michigan pela dezena de adolescentes que se reuniam em minha casa para beber cerveja e fumar maconha, eu me viciei na MTV. Era o auge do canal de vídeoclips 24 horas por dia nos Estados Unidos, cheio de VJs cabeludos e vinhetas super criativas. Isso numa época em que nós brasileiros tínhamos que nos contentar com uma hora diária de Clip-clip.

Eu que havia chegado com uma fita cassete do Chicago no meu gravador portátil, conheci por meio dos vídeos The Smiths, The Cure, U2, Tears for Fears, Eurythmics, Simple Minds, Dire Straits, A-ha e também os mais regionais Hall and Oates, Tom Petty and the Heartbreakers, Huey Lewis and the News, a inglesa Katrina and the Waves e tantos outros. Havia ainda os vídeos vintage e foi assim que conheci The Doors, The Who e ouvi outras coisas do Led Zeppelin além de Stairway to Heaven. Também foi ali, aliviada pelos treze dias de folga da High School que a nevasca me proporcionou, que assisti revoltada ao fim do meu querido The Police e ao início da carreira solo de seu baixista e principal letrista Sting. Mas sobre ele você me ouvirá falar em outros posts.

Era o primeiro semestre de 1985 e no Brasil essas bandas começaram a ser ouvidas prá valer no segundo semestre e estouraram mesmo em 86. Durante anos, eu não conseguia ouvir Tears for Fears sem me lembrar do dinossauro da Rota 66 do vídeo de “Everybody wants to rule the world” ou ouvir Eurythmics sem que imediatamente viesse a minha mente a imagem de Annie Lennox desfilando na passarela enquanto David Stewart solava em sua guitarra em trechos de “Would I lie to you”. Tom Petty estava sempre no país das maravilhas e Huey Lewis numa praia com um tubarão eletrônico. Ah, e como eu poderia me esquecer de David Lee Roth, aposentado do Van Halen, em frente a uma fila de louras peitudas cantando Califórnia Girls do Beach Boys?!

Voltei para o Brasil em setembro depois de uma breve passagem por Paris onde a imagem de Jim Morrison se solidificava em minha cabeça a cada cartaz dele com os braços abertos espalhados pela cidade. Foi em Paris que o jovem e lindo Morrison se tornou um mito após sua morte ali por overdose em uma banheira em 1971. Só anos depois, já apaixonada pelos Doors, cumpri a obrigação de fã, visitando seu túmulo no Père Lachaise.

Em Brasília talvez se começasse a ouvir “In the name of Love” do U2, mas o que estava na boca dos meus colegas do 2º ano do Inei era uma tal de Legião. Me lembro de ter ouvido uma voz grave e um som meio profundo numa festinha na 206 sul e me recordo de não ter me encantado de primeira. Gostei mesmo dos mais facinhos e pops Ultrage a Rigor e RPM. Foi nos shows dessas duas bandas que começou minha carreira de mochileira de concertos de rock pelo Brasil. O Rock in Rio já fizera história e havia impulsionado os produtores a realizar outros eventos de grande porte no País. Tirei o pé da lama (onde não havia podido colocá-los nos chuvosos concertos de 85) e fui a quase todos os Hollywood Rocks da virada dos anos 80 para os 90.

A essa altura, já estudava jornalismo e cinema na Universidade de Brasília (UnB). Ao contrário da maioria dos meus colegas, minha intenção não era cobrir política. Longe disso. Queria escrever sobre cinema e entrevistar meus ídolos: Sting, Renato Russo, Bono, quem fosse. Não posso dizer que fui totalmente frustrada nessa empreitada. Não sou repórter de cultura até hoje como planejara, mas tive meus tempos. Por pura teimosia, com a credencial do jornal da UnB, participei de uma entrevista coletiva com todos os participantes do show da Anistia Internacional em São Paulo, em 1988. Quando muita fã histérica estava gritando na frente do palco, eu me orgulhava de ter perguntado ao politizado Sting sobre política no Chile e de ter lhe dado de presente, no fim da entrevista, um disco (de vinil, claro) de música brasileira. Muitos anos mais tarde, já repórter da TV Bandeirantes no Rio, pude perguntar a Bono e aos demais integrantes do U2 por que o grupo resolvera entrar na seara da música eletrônica e se essa “tendência” iria continuar. O esperto Bono saiu pela tangente e negou que o U2 estivesse entrando numa onda modista eletrônica.

Fred Mercury e Cazuza morreram antes que eu os tivesse podido ver em ação, mas o Rock in Rio, ou aquela época, com certeza, cumpriu seu papel na minha vida. Num próximo post, conto as aventuras dos shows a que efetivamente fui.

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16 Comentários

  1. Mari, que viagem deliciosa…

    Amei!

    Embora tenha ido ao Rock in Rio, não fui a todos os shows que queria. E, pra falar a verdade, muita coisa eu só fui conhecer melhor bem depois….

    Mas o Queen deixou marcas, graças a deus, até hoje….

    Ai, que saudade daquela época! Às vezes fico pensando se é um fato que a boa música acabou, na virada dos 80 para os 90 – como é a minha opinião – ou se essa sensação acontece para todas as gerações mesmo. Ou seja, depois dos 20 e poucos nada mais supera as emoções que a gente viveu desde a infância até esse início – sopro, por assim dizer – de maturidade. Pra mim, pelo menos, nada superou mesmo.

    Foi uma delícia reviver essa época pelas suas experiências que, embora muito diferentes das minhas, foram tão emocionadas quanto. Nisso a gente se parece: somos duas passionais!!!!

    E que bom!!!!

    Beijos e parabéns, o blog tá ótimo!

    Dani

    • Muito obrigada, Dani! Sua opinião era fundamental prá mim! Sabia que vc gostaria do texto do Rock in Rio, afinal foi a minha única amiga que foi!!!

  2. Tb não fui… queria ter ido! bjs

  3. E eu era o fotógrafo!! Bons tempos!

  4. o, o , o , rock in rioooooo
    amei o post. lembro de vc brigando com o ricky pra cobrir o U2 no Rio, e nossa peregrinacao pra chegarmos ao local do show, altossss engarrafamentos, cidade parada, e o Conde se desculpando dps dizendo q nao esperava q a cidade fosse parar por um show. chegamos com o show comecado, mas deu pra aproveitar bastante, vc ralando e eu curtindo. anos dps em Miami fui a forra e assisti ao melhor show da minha vida ate hj: ELEVATION.
    seu gosto musical eh otimo, aprendi muito de vc. anos 70 e 80 sao os melhores ate hj, nada como um led, um queeen, Pink Floyd, ac/dc (tbm assiti em miami). hj em dia sao tantas porcarias…..deveriam buscar inspiracao nos anos 70 e 80, porque hj em dia ta feia a coisa…..
    bjao amiga querida
    saludos ao maridao e ao filhao….

  5. Boas lembranças! “Se a vida começasse agora, se o mundo fosse nosso de vez…”

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