Posts made in abril, 2010

Gilberto Gil, um show para ficar na lembrança

Foi um senhor de cabelos quase todos brancos que subiu ao palco do Centro de Convenções de Brasília, sozinho e repentinamente, na noite do último sábado (24). Tratava-se do primeiro show de Gilberto Gil na capital depois que ele deixou de ser ministro. A expectativa era grande, até Dilma Rousseff anunciara que iria prestigiar o show do “ex-colega de Ministério”, mas acabou não aparecendo. “Boa noite e parabéns pelos 50 anos, Brasília”, disse Gil, ovacionado pelo auditório lotado, logo após abrir o show com “Flora”, uma das várias canções que fez para sua mulher. A apresentação, acústica, apenas com a presença do violonista Bem Gil, filho do cantor, e do violoncelista Jacques Morelembaum, foi uma retrospectiva emocionante.

O repertório do show com que Gil corre o País é um belo passeio pela carreira do cantor, compositor e letrista desde os anos 70 até hoje. A escolha se deu naturalmente: entrariam as canções que coubessem bem no formato acústico, “de câmara”, como Gil preferiu definir, com bom humor. O disco “Um Banda Um”, de 1982, um dos melhores de sua carreira, foi representado por quatro importantes canções que marcaram o início dos anos 80. “Esotérico” veio logo no início. Depois a linda “Umbanda Um”, que, apesar de ter perdido um pouco de seu vigor original na versão apenas para cordas, valeu para que os fãs tivessem a oportunidade de ouvir Gil cantando uma música que não executava desde a época em que surgiu. “Metáfora” fez a platéia se lembrar de quão genial podem ser as letras de Gilberto Gil. “(…) não se meta a exigir do poeta que determine o conteúdo em sua lata. Na lata do poeta tudo-nada cabe, pois ao poeta cabe fazer com que na lata venha caber o incabível”, cantou o poeta com uma voz já não tão em forma como no auge da carreira- especialmente nos graves- mas ainda cheia de uma emoção genuína.

Houve também lugar para homenagens como ao conterrâneo Dorival Caymmi, com a bossa “Que saudade eu tenho da Bahia”, que deu muito certo no formato acústico; e a Jackson do Pandeiro, com “Chiclete com Banana”. A plateia ouviu e cantou junto a emblemática “Super-homem” e assoviou “Nightingale/Rouxinol”, mais um poema inesquecível do único disco que Gil gravou nos Estados Unidos.

Gilberto Gil continua falando muito durante os shows. Só que, ao contrário dos anos 90, quando o assunto geralmente era política, agora o tema é exclusivamente a música. Lembro-me de um show no Ginásio Nilson Nelson em que ele falou tanto que deu vontade de ir embora. Desta vez, ele contou a história da canção “Das duas uma”. “Compus para uma das minhas cinco filhas, Maria, a única que me pediu para fazer uma música para o seu casamento”. A letra é bonita de chorar. Outra das poucas composições do último disco (Banda Larga Cordel) escolhida para o show foi “Quatro coisas”, mais uma homenagem a Flora. “Nosso amor virou pedra e não temos força para quebrar não”, diz a bela letra. Em “Não tenho medo da morte” mais um diamante lapidado: “não tenho medo da morte, mas medo de morrer, sim. A morte é depois de mim, mas quem vai morrer sou eu, o derradeiro ato meu e eu terei de estar presente, assim como um presidente, dando posse ao sucessor. Terei que morrer vivendo, sabendo que já me vou”, cantou Gil, acompanhado apenas por um pandeiro e uma das cordas de seu violão.

Memória afetiva

Mas a parte mais emocionante da apresentação ficou mesmo com os clássicos dos anos 70, mais precisamente as músicas do legendário álbum “Refazenda”, de 1975: “Lamento sertanejo” e “Tenho Sede”, ambas com belas melodias de Dominguinhos; “Abacateiro”. Todas me tocam de uma forma muito particular, me transportam para a Salvador dos anos 70, em que passei os melhores anos da minha infância, brincando ao ar livre, numa rua sem calçamento, cheia de meninos correndo descalços. Na vitrola de nossa casa térrea, o disco se revezava com outras pérolas da MPB como “Meus caros amigos”, de Chico Buarque. O show “Refazenda” é o mais antigo ao qual me lembro de ter ido. Com minha mãe, meu pai e minha irmã, aos 6 anos de idade, à noite, de vestido de elastex, na Concha Acústica do Teatro Castro Alves. Inesquecível. É claro que eu derramei lágrimas ao ouvir Gilberto Gil cantar essas canções mais de 30 anos depois daquela primeira vez. Reza a lenda que “Abacateiro” foi composta em homenagem a uma fazenda próxima a Brasília, cheia de abacateiros, do também baiano Eduardo Kértesz, que também visitei quando menina. Mas essa história Gil não contou.

Dois clássicos de épocas diferentes foram guardados para brindar o público no bizz: “Andar com Fé” e “Expresso 2222”. Melhor impossível!

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Ode à minha Brasília

Cheguei a Brasília em 1977. Desde então, todas as vezes que saía da capital, fosse para morar em São Paulo e depois no Rio, fosse para passear, ouvia o que todo brasiliense está cansado de ouvir: críticas à cidade sem esquinas ou perguntas do tipo: “Ah, e você gosta de lá?”, de interlocutores sempre com uma descrença estampada no rosto. “Adoro”, respondia, defendendo Brasília muitas vezes em uma cruzada quixotesca. Nos cinco anos e meio em que morei no Rio, então, a missão parecia ainda mais inglória. Afinal, os cariocas são conhecidos por não gostar muito de qualquer lugar que não seja o próprio Rio.

 

Justamente por ter chegado aqui ainda menina, não consigo mensurar direito a estranheza que o fato de alguém “gostar de Brasília” causa nas pessoas de fora. Mas imagino que seja porque não tiveram as experiências de quem cresceu e passou a adolescência aqui como eu. Não passearam nas quadras embaixo das sombras das árvores por quilômetros sem ter que atravessar uma avenida; não tomaram sol em grandes clubes à beira do Lago Paranoá; não atravessaram o Lago a nado ou pelo menos deram umas braçadas nele; não desceram para brincar debaixo do bloco com a turma da quadra; não se deixaram levar ladeira abaixo em carrinhos de rolimã; não jogaram bete sem se preocupar em ser atropelados; não se aventuraram de patins no Rollercenter; não foram à Fofi comprar camisetas personalizadas; nem à Bibabô comprar presentes com a mãe; não fizeram compras de mercado nas Casas da Banha; não comeram pizza no rodízio da Disbrave ou na Pizzaiolo com os pais; não foram a pé ao Cine Karim assistir a Xanadú ou outro filme inesquecível; ou ao Karim Criança ver ET; não viram o King Kong triplicado nas três telas do Cine Espacial; também não assistiram a Guerra nas Estrelas e a tantos outros futuros clássicos no enorme Cine Atlântida… E o que dizer dos churrascos nas mansões dos amigos do Lago ouvindo o rock nascido aqui mesmo; das andadas no bobódromo do Gilberto Salomão aos domingos; do vinho do garrafão nas então desertas quebradas do Lago de madrugada; do show da Legião que virou catástrofe no Mané Garrincha em 1988; das apresentações da Cássia Eller no intimista Bom Demais ou no Projeto Cabeças; do Festival de Brasília; das mostras de cinema europeu na Cultura Inglesa e na Embaixada da França; da possibilidade de “pegar” inúmeras matérias optativas em todos os departamentos da vasta UnB, algo só possível aqui e por obra de Darcy Ribeiro? Isso porque éramos jovens demais para irmos à Roconha e aos shows em frente ao Foods, entre eles o do Aborto Elétrico feito de cima de um caminhão. E não precisamos falar do céu colorido de Brasília na seca e da maior lua do Brasil porque isso qualquer turista consegue ver.

 

Problemas e superação

É claro que uma cidade tão nova tinha seus defeitos e eram graves. Pelo menos três amigos meus de adolescência morreram em decorrência da alta velocidade permitida nas vias e da falta total de controle de carteiras de habilitação. A carteirada era quase normal. “Sabe quem é o meu pai?” Ouvi esta frase da boca de conhecidos algumas vezes. Tinha muito playboy alienado em Brasília. Abusávamos do álcool e da loló muitas vezes. Tínhamos que viajar horas de ônibus para ir aos shows de rock internacionais. Mas, com exceção do problema das drogas, que parece ter se agravado (mas isso vale para todo o Brasil), o resto melhorou e muito.

As opções culturais e gastronômicas aumentaram bastante a partir de meados da década de 90. Quando voltei daqueles cinco anos no Rio em 2002, haviam sido inaugurados o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB); o Conjunto Cultural da Caixa; o Espaço Ecco; umas duas grandes Casas de shows;  todas as salas de cinema da Academia de Tênis, hoje já decadentes; restaurantes bons como o Universal, o Yours e o Lagash. E este movimento só cresceu de lá pra cá. Além das cadeias de Mara Alcamim e Dudu Camargo, do Corrientes 384, do Patu Anu, da Oca da Tribo e de vários outros bons estabelecimentos, podemos nos orgulhar de termos em Brasília um dos melhores restaurantes do País, à altura de qualquer contemporâneo do eixo Rio- São Paulo: o Aquavit. Fomos brindados com iniciativas originais como a abertura do Mercado Municipal na W3 sul e do Mercado Cabogó, de artesanato, na Asa Norte. O Lago Paranoá foi revitalizado, a Orla está sendo ocupada por bons hotéis, shows internacionais de rock e jazz estão chegando à capital e por aí vai. Noutro dia recebi umas fotos do iniciozinho de Brasília. Tão diferentes da cidade atual e tão lindas que resolvi postá-las neste texto, apesar de serem bem anteriores à época em que cheguei. Espero que o autor as reconheça para que eu possa creditá-lo aqui.  

 

Comemorei parte do aniversário de 50 anos de Brasília passeando com meu filho e meu marido pelas quadras da Asa Sul, feliz em poder escolher uma entre três boas sorveterias dos arredores e tomar um sorvete italiano affogato em café olhando para a renovada Igrejinha, erguida graças a uma promessa feita por dona Sarah Kubitschek. Olhava e pensava: seja qual tenha sido a promessa, ela foi muito bem paga.

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Todos os estilos de Anita Malfatti

Expressionismo, cubismo, impressionismo, arte naïf e até academicismo. Toda esta mistura de estilos fez parte da diversificada trajetória de Anita Malfatti, considerada a primeira pintora modernista brasileira. Até o dia 25 de abril, cento e vinte quadros provenientes de museus e de mais de 70 coleções, algumas jamais expostas publicamente, se despedem do público brasiliense na mostra retrospectiva “Anita Malfatti, 120 anos de nascimento” no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). Trata-se da mais completa retrospectiva já feita da obra da pintora. Com uma atrofia congênita na mão e no braço direitos, Anita foi incentivada pelos pais desde pequena a pintar. Começou tendo aulas particulares com a própria mãe, Betty. O primeiro quadro que fez, aos 10 anos, “Burrinho correndo”, abre a exposição. A firmeza dos traços e certa influência impressionista já mostravam o potencial da menina paulista.

Em plena era do Expressionismo Alemão, movimento marcado pela distorção das formas, a subjetividade e a expressão das emoções, Anita foi para a Alemanha dar continuidade a seus estudos. Entre 1910 e 1913, estudou na Academia de Belas Artes de Berlim. Em seguida, ainda nas primeiras décadas do século XX, seguiu para Nova Iorque para completar sua formação. São dessa época, as pinturas claramente influenciadas pelo movimento, expostas na primeira parte da mostra. Paradoxalmente, como se estivesse experimentando com diversos estilos ao mesmo tempo, a pintora flertava com o Impressionismo- anterior e oposto ao Expressionismo, baseado nas sensações despertadas pela observação direta da natureza, cheio de cores e texturas. Alguns retratos têm as cores de Cézanne. Outros trabalhos, como “O Farol”, de 1915, poderiam até ser confundidos com telas de Van Gogh. O cubismo que Picasso já espalhava pela Europa durante a estada de Anita ela também incorporou a algumas pinturas, como “Nu cubista” (1915/1917), o primeiro feito no Brasil.

Na volta ao Brasil, uma exposição individual realizada por Anita em 1917 provocou reações duras por parte da família e dos críticos e escandalizou o meio artístico ainda acostumado à pintura acadêmica. “Não foi para isso que paguei seus estudos”, disse o tio e padrinho Jorge Kurg, que chegou a chamar os retratos expressionistas angulosos da sobrinha de “dantescos”. “Seu talento está a serviço da caricatura”, disparou Monteiro Lobato em uma longa crítica no Estado de São Paulo em 1917. Toda a polêmica faria com que mais tarde fosse chamada de “a mártir do movimento modernista” por Paulo Mendes de Almeida. “No início do século XX, (Anita) superou e enfrentou com coragem e donodo todas as dificuldades inerentes a uma mulher sem fortuna e com uma grave deficiência física, numa cidade provinciana e com rígidas regras sociais”, diz a curadora da exposição, Luzia Portinari Greggio. 

De fato, toda a celeuma causada pela mostra de 1917 não foi suficiente para tirar Anita Malfatti de sua busca e ela logo encontrou eco para sua disposição de romper barreiras. Com Tarsila do Amaral e os escritores Mário e Oswald de Andrade, além de Menotti Del Pichia, formou o que mais tarde ficaria conhecido como “Grupo dos Cinco”. De suas reuniões, surgiria o Modernismo Brasileiro que culminaria na famosa Semana de 22.

A segunda parte da exposição, no subsolo do CCBB, mostra como nas décadas que se seguiram ao início do Modernismo, Anita Malfatti resolveu fazer o movimento inverso. Em viagens ao interior do Brasil, a pintora se voltou para o academicismo, misturando-o a uma espécie de arte naïf. Pintava o cotidiano das pequenas cidades brasileiras, as festas folclóricas, as praças e suas igrejinhas em um estilo primitivista e naturezas-mortas e retratos de forma bastante acadêmica, mas munidos de muita cor. Nunca estava totalmente satisfeita com o caminho que tomava.

“Procurei todas as técnicas e voltei à simplicidade, diretamente, não sou mais moderna, nem antiga, mas escrevo e pinto, o que me encanta”, escreveu em uma Carta Póstuma ao amigo Mário de Andrade. Em 1955, consagrada, Anita realizou uma exposição individual no mais importante museu brasileiro, o Museu de Arte de São Paulo (MASP). Seu título era emblemático:“Tomei a liberdade de pintar a meu modo”.

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A Single Man- o belo filme do estilista

Muito bom o primeiro filme de Tom Ford, A Single Man, que em português recebeu o terrível nome de Direito de Amar, que ficaria melhor em uma novela das 6 da TV Globo ou em um folhetim mexicano. Não resisto à tentação de rotulá-lo de o filme de Tom Ford porque afinal fiquei esperando para ver como seria o longa-metragem de estréia de um estilista que nunca tinha realizado nada em cinema, a não ser que vestir Daniel Craig como 007. Normalmente, os diretores estreantes começam por curta-metragens, como assistentes do diretor principal ou ainda como roteiristas. Só depois de adquirir experiência é que partem para a aventura de dirigir um longa-metragem. Mas o famoso e talentoso estilista americano, que criou sua marca de roupas masculinas em 2006, após anos à frente da Gucci e depois da Yves Saint Laurent, confiou no seu taco. Com a ajuda de um roteirista já da área, resolveu adaptar para as telas uma novela do escritor inglês Christopher Isherwood passada no início dos anos 60. Após alguns anos correndo sem sucesso atrás de um estúdio que topasse produzir o filme, resolveu financiá-lo com seus próprios recursos. Pode-se dizer que foi um bom investimento.

No início, o filme parece estranho, embora esteticamente belo e com uma poesia bem própria. Aos poucos, vamos entrando no clima das lindas imagens coloridas em câmera lenta que dão lugar a outras em tons mais pastéis. A escolha das cores não segue um padrão- flash backs não são necessariamente pastéis, por exemplo. Parece depender mais da mood do diretor. Nada convencional. Fiquei muito feliz ao saber que Colin Firth, mais conhecido pelas comédias e os filmes de época leves, mas sempre muito bom, tenha sido indicado ao Oscar justamente por um papel diferente: o de um professor universitário gay. Na verdade, não tão diferente assim: como em O Diário de Bridget Jones, ele continua fazendo o galã, só que um galã gay e atormentado pela morte repentina de seu companheiro de longa data. Por pouco, Firth não recusou o papel. A resposta negativa a Tom Ford já estava escrita em seu computador quando bateu na porta um homem que ele havia chamado para consertar a geladeira. Foi o tempo necessário para o ator pensar melhor. Quanto ganhou o Bafta (equivalente ao Oscar na Inglaterra) de melhor ator em fevereiro passado, Colin Firth incluiu o “homem da geladeira” em seus agradecimentos. Juliane Moore faz uma participação no filme como a amiga inglesa que tenta ajudar, mas só atrapalha. E modelos que já trabalharam em campanhas das roupas e óculos de Tom Ford ganharam outros papéis no filme.

A Single Man é denso, sem ser pesado. Na medida certa. Tem o bom gosto que se poderia esperar de um homem que cria óculos incríveis e nove entre dez ternos vestidos pelos freqüentadores do tapete vermelho do Oscar e de outras cerimônias hollywoodianas. E uma profundidade que não se esperaria de um homem saído do mundinho da moda.

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O vilão de Saramago

Deus é o grande vilão do Antigo Testamento no último livro de José Saramago, Caim. Na versão do autor Prêmio Nobel e octogenário, Caim é uma espécie de Forrest Gump que toma parte nos principais eventos do Velho Testamento, com o recurso só possível graças a Deus de viajar no tempo.

Depois de matar o próprio irmão Abel, por pura inveja, e culpar Deus em parte, Caim é condenado a assistir a atrocidade após atrocidade nos vilarejos do tempo antigo, bem depois da época de seus pais Adão e Eva. Após cada atrocidade- como o genocídio provocado pela destruição de Sodoma e Gomorra, as milhares de mortes aos pés do Monte Sinai, outras tantas pela queda da Torre de Babel, só para citar alguns exemplos- Saramago se pergunta por que Deus, que tem o controle de tudo, permitiu ou até provocou episódios que tiraram a vida de muitos de Seus filhos.

A resposta é que esse Deus do cristianismo é tudo menos bom, está mais para um assassino cruel. Como um Deus bom poderia mandar para a cruz um filho tão bondoso como Jesus Cristo, pergunta ele. Como poderia permitir que um irmão matasse o outro, se tudo vê, questiona o próprio Caim. E por aí vai. Bem mais ferino do que em O Evangelho segundo Jesus Cristo, sua versão do novo testamento, neste prequal (como os americanos chamam obras em que a ação se passa antes de outras já lançadas), Saramago mostra seu ateísmo como nunca. Em O Evangenho ele já causou polêmica ao humanizar Jesus e Maria. Mas agora, a força de sua crítica contra Deus é de arrepiar os cabelos até de pessoas não tão religiosas, agnósticos ou cristãos não praticantes que foram convencidos, vivendo no maior País católico do mundo, de que alguns males da história bíblica tinham uma razão de ser. Cristo foi crucificado para salvar a humanidade, os habitantes de Sodoma e Gomorra tiveram que morrer para dar o exemplo de que o pecado deve ser estirpado, etc. Nada disso convence o irrascível Saramago.

Para alguns, pode ser difícil agüentar tanta má vontade com Deus, mas cada página de Caim vale a leitura. Está ali toda a genialidade do texto de Saramago – ele não perdeu nada com o passar do tempo-, e trata-se de um pequeno tratado de teosofia, o autor discute de forma filosófica e inteligente, a cada parágrafo, as teses religioso-cristãs. Um tratado muito inventivo, bem à moda do autor, claro. E para aqueles que não tiveram uma formação de história do cristianismo como eu, é, de quebra, uma excelente oportunidade de conhecer algumas das histórias do Velho Testamento.

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