Gilberto Gil, um show para ficar na lembrança

Gilberto Gil, um show para ficar na lembrança

Foi um senhor de cabelos quase todos brancos que subiu ao palco do Centro de Convenções de Brasília, sozinho e repentinamente, na noite do último sábado (24). Tratava-se do primeiro show de Gilberto Gil na capital depois que ele deixou de ser ministro. A expectativa era grande, até Dilma Rousseff anunciara que iria prestigiar o show do “ex-colega de Ministério”, mas acabou não aparecendo. “Boa noite e parabéns pelos 50 anos, Brasília”, disse Gil, ovacionado pelo auditório lotado, logo após abrir o show com “Flora”, uma das várias canções que fez para sua mulher. A apresentação, acústica, apenas com a presença do violonista Bem Gil, filho do cantor, e do violoncelista Jacques Morelembaum, foi uma retrospectiva emocionante.

O repertório do show com que Gil corre o País é um belo passeio pela carreira do cantor, compositor e letrista desde os anos 70 até hoje. A escolha se deu naturalmente: entrariam as canções que coubessem bem no formato acústico, “de câmara”, como Gil preferiu definir, com bom humor. O disco “Um Banda Um”, de 1982, um dos melhores de sua carreira, foi representado por quatro importantes canções que marcaram o início dos anos 80. “Esotérico” veio logo no início. Depois a linda “Umbanda Um”, que, apesar de ter perdido um pouco de seu vigor original na versão apenas para cordas, valeu para que os fãs tivessem a oportunidade de ouvir Gil cantando uma música que não executava desde a época em que surgiu. “Metáfora” fez a platéia se lembrar de quão genial podem ser as letras de Gilberto Gil. “(…) não se meta a exigir do poeta que determine o conteúdo em sua lata. Na lata do poeta tudo-nada cabe, pois ao poeta cabe fazer com que na lata venha caber o incabível”, cantou o poeta com uma voz já não tão em forma como no auge da carreira- especialmente nos graves- mas ainda cheia de uma emoção genuína.

Houve também lugar para homenagens como ao conterrâneo Dorival Caymmi, com a bossa “Que saudade eu tenho da Bahia”, que deu muito certo no formato acústico; e a Jackson do Pandeiro, com “Chiclete com Banana”. A plateia ouviu e cantou junto a emblemática “Super-homem” e assoviou “Nightingale/Rouxinol”, mais um poema inesquecível do único disco que Gil gravou nos Estados Unidos.

Gilberto Gil continua falando muito durante os shows. Só que, ao contrário dos anos 90, quando o assunto geralmente era política, agora o tema é exclusivamente a música. Lembro-me de um show no Ginásio Nilson Nelson em que ele falou tanto que deu vontade de ir embora. Desta vez, ele contou a história da canção “Das duas uma”. “Compus para uma das minhas cinco filhas, Maria, a única que me pediu para fazer uma música para o seu casamento”. A letra é bonita de chorar. Outra das poucas composições do último disco (Banda Larga Cordel) escolhida para o show foi “Quatro coisas”, mais uma homenagem a Flora. “Nosso amor virou pedra e não temos força para quebrar não”, diz a bela letra. Em “Não tenho medo da morte” mais um diamante lapidado: “não tenho medo da morte, mas medo de morrer, sim. A morte é depois de mim, mas quem vai morrer sou eu, o derradeiro ato meu e eu terei de estar presente, assim como um presidente, dando posse ao sucessor. Terei que morrer vivendo, sabendo que já me vou”, cantou Gil, acompanhado apenas por um pandeiro e uma das cordas de seu violão.

Memória afetiva

Mas a parte mais emocionante da apresentação ficou mesmo com os clássicos dos anos 70, mais precisamente as músicas do legendário álbum “Refazenda”, de 1975: “Lamento sertanejo” e “Tenho Sede”, ambas com belas melodias de Dominguinhos; “Abacateiro”. Todas me tocam de uma forma muito particular, me transportam para a Salvador dos anos 70, em que passei os melhores anos da minha infância, brincando ao ar livre, numa rua sem calçamento, cheia de meninos correndo descalços. Na vitrola de nossa casa térrea, o disco se revezava com outras pérolas da MPB como “Meus caros amigos”, de Chico Buarque. O show “Refazenda” é o mais antigo ao qual me lembro de ter ido. Com minha mãe, meu pai e minha irmã, aos 6 anos de idade, à noite, de vestido de elastex, na Concha Acústica do Teatro Castro Alves. Inesquecível. É claro que eu derramei lágrimas ao ouvir Gilberto Gil cantar essas canções mais de 30 anos depois daquela primeira vez. Reza a lenda que “Abacateiro” foi composta em homenagem a uma fazenda próxima a Brasília, cheia de abacateiros, do também baiano Eduardo Kértesz, que também visitei quando menina. Mas essa história Gil não contou.

Dois clássicos de épocas diferentes foram guardados para brindar o público no bizz: “Andar com Fé” e “Expresso 2222”. Melhor impossível!

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13 Comentários

  1. Também estava lá assistindo a esse show maravilhoso. Sua descrição do espetáculo capta perfeitamente a emoção que foi estar presente.

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