O vilão de Saramago

O vilão de Saramago

Deus é o grande vilão do Antigo Testamento no último livro de José Saramago, Caim. Na versão do autor Prêmio Nobel e octogenário, Caim é uma espécie de Forrest Gump que toma parte nos principais eventos do Velho Testamento, com o recurso só possível graças a Deus de viajar no tempo.

Depois de matar o próprio irmão Abel, por pura inveja, e culpar Deus em parte, Caim é condenado a assistir a atrocidade após atrocidade nos vilarejos do tempo antigo, bem depois da época de seus pais Adão e Eva. Após cada atrocidade- como o genocídio provocado pela destruição de Sodoma e Gomorra, as milhares de mortes aos pés do Monte Sinai, outras tantas pela queda da Torre de Babel, só para citar alguns exemplos- Saramago se pergunta por que Deus, que tem o controle de tudo, permitiu ou até provocou episódios que tiraram a vida de muitos de Seus filhos.

A resposta é que esse Deus do cristianismo é tudo menos bom, está mais para um assassino cruel. Como um Deus bom poderia mandar para a cruz um filho tão bondoso como Jesus Cristo, pergunta ele. Como poderia permitir que um irmão matasse o outro, se tudo vê, questiona o próprio Caim. E por aí vai. Bem mais ferino do que em O Evangelho segundo Jesus Cristo, sua versão do novo testamento, neste prequal (como os americanos chamam obras em que a ação se passa antes de outras já lançadas), Saramago mostra seu ateísmo como nunca. Em O Evangenho ele já causou polêmica ao humanizar Jesus e Maria. Mas agora, a força de sua crítica contra Deus é de arrepiar os cabelos até de pessoas não tão religiosas, agnósticos ou cristãos não praticantes que foram convencidos, vivendo no maior País católico do mundo, de que alguns males da história bíblica tinham uma razão de ser. Cristo foi crucificado para salvar a humanidade, os habitantes de Sodoma e Gomorra tiveram que morrer para dar o exemplo de que o pecado deve ser estirpado, etc. Nada disso convence o irrascível Saramago.

Para alguns, pode ser difícil agüentar tanta má vontade com Deus, mas cada página de Caim vale a leitura. Está ali toda a genialidade do texto de Saramago – ele não perdeu nada com o passar do tempo-, e trata-se de um pequeno tratado de teosofia, o autor discute de forma filosófica e inteligente, a cada parágrafo, as teses religioso-cristãs. Um tratado muito inventivo, bem à moda do autor, claro. E para aqueles que não tiveram uma formação de história do cristianismo como eu, é, de quebra, uma excelente oportunidade de conhecer algumas das histórias do Velho Testamento.

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17 Comentários

  1. Nossa, fiquei morrendooooooo de vontade de ler.Agora c/ o fim do mestrado posso me dar ao luxo de ler algo fora da minha área de estudo. Valeu a dica!Beijo gde… e parabéns pelo blog

    • Dri, vá ver, até pq o visual termina lembrando um pouco aquela mudança de coloração do fim do seu último filme, não vou dizer para não spoilar. Bjs.

  2. Seu comentário me instigou… Já estou lendo…
    Ah, se fosse beato faria 10 sinais da cruz a cada página. Mas ultimamente ando tão cético quando o tema é “religião” que a leitura tem sido, como eu diria, interessante…

    • Que bom, Eliande. Não deixe de me mandar uma mensagem via e-mail comentando o final, que eu adorei. Mas não aqui, nem no facebook prá não estragar o livro pros leitores. Bjs!

  3. Luiz Mauricio |

    Eu ganhei o livro e ainda não li, mas vou ler agora. Ele é curtinho e parece ser bem interessante.

  4. Oi Mári,

    li O Evangelho Segundo Jesus Cristo, A História do Cerco de Lisboa, Todos os Nomes, A Caverna, O Homem Duplicado, O Ensaio Sobre a Cegueira, A Jangada de Pedra. Na estante tenho: Caim, As Intermitencias da Morte e Memorial do Convento. Sim, Frankfurt tem essa vantagem: A Feira do Livro. Nessas leituras, conheci pessoalmente alem do Saramago, autores brasileiros conhecidos como Patricia Melo e Luis Fernando Verissimo. Mas nao frequento mais leituras praticamente desde que a Nina nasceu. E quando fui a Feira do Livro a ultima vez, há uns 3 anos, foi para comprar livros infantis brasileiros.

  5. Vejo vc enveredando com competencia pelo caminho da crítica literária. Muito oportuno diante do vazio no país nessa área. Adorei este e os outros textos, primorosos e saborosos de ler. Como diz João,muito bem, paiabens.
    Beijão querido, mãe.

  6. Ótimo texto, Mariana. Já tenho o livro na minha estante, evidentemente. Depois que li o seu texto, com certeza ele vai ser o próximo que lerei. Procuro ler todos os livros do Saramago, eu já fui a duas leituras dele aqui em Frankfurt por ocasiao da Feira do Livro e uma aconteceu algumas horas antes de ser anunciado o Prêmio Nobel. Os livros que mais gostei dele foram A Caverna e Todos os Nomes. Ele é um excelente contador de histórias, com muita cultura. Eu gostava muito da Ray-Güde Mertin,da tradutora dele para o alemao, que infelizmente faleceu há uns 3 anos de câncer. Eu ia, antes de ter filhos, regularmente a leituras de autores brasileiros e portugueses da agência de literatura dela.A única coisa que me incomoda um pouco no Saramago é seu amor pelos cachorros, de que eu nao gosto muito. Ele contou na leitura dele que tem 7 cachorros. Nos livros dele, ele às vezes coloca o cachorro como um personagem que sabe de tudo que está acontecendo, “humaniza” o cachorro. Mas isso nao faz com que ele deixe de ser o meu autor predileto.

    • Dri, depois você reclama da vida! É muito chique mesmo! Leituras com o próprio Saramago! Qual dos livros dele você mais gostou fora os dois bíblicos? Leia Caim, sim, você vai adorar! Bjs.

  7. Gostei do comentário sobre Caim. Apesar de gostar muito do texto, acho Saramago religioso demais para mim, cansa pessoas como eu desligadas de religião.Quase não terminei O evangélio segundo Jesus Cristo. Estou gostando do Blog, Beijo; Dely

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