Ode à minha Brasília

Ode à minha Brasília

Cheguei a Brasília em 1977. Desde então, todas as vezes que saía da capital, fosse para morar em São Paulo e depois no Rio, fosse para passear, ouvia o que todo brasiliense está cansado de ouvir: críticas à cidade sem esquinas ou perguntas do tipo: “Ah, e você gosta de lá?”, de interlocutores sempre com uma descrença estampada no rosto. “Adoro”, respondia, defendendo Brasília muitas vezes em uma cruzada quixotesca. Nos cinco anos e meio em que morei no Rio, então, a missão parecia ainda mais inglória. Afinal, os cariocas são conhecidos por não gostar muito de qualquer lugar que não seja o próprio Rio.

 

Justamente por ter chegado aqui ainda menina, não consigo mensurar direito a estranheza que o fato de alguém “gostar de Brasília” causa nas pessoas de fora. Mas imagino que seja porque não tiveram as experiências de quem cresceu e passou a adolescência aqui como eu. Não passearam nas quadras embaixo das sombras das árvores por quilômetros sem ter que atravessar uma avenida; não tomaram sol em grandes clubes à beira do Lago Paranoá; não atravessaram o Lago a nado ou pelo menos deram umas braçadas nele; não desceram para brincar debaixo do bloco com a turma da quadra; não se deixaram levar ladeira abaixo em carrinhos de rolimã; não jogaram bete sem se preocupar em ser atropelados; não se aventuraram de patins no Rollercenter; não foram à Fofi comprar camisetas personalizadas; nem à Bibabô comprar presentes com a mãe; não fizeram compras de mercado nas Casas da Banha; não comeram pizza no rodízio da Disbrave ou na Pizzaiolo com os pais; não foram a pé ao Cine Karim assistir a Xanadú ou outro filme inesquecível; ou ao Karim Criança ver ET; não viram o King Kong triplicado nas três telas do Cine Espacial; também não assistiram a Guerra nas Estrelas e a tantos outros futuros clássicos no enorme Cine Atlântida… E o que dizer dos churrascos nas mansões dos amigos do Lago ouvindo o rock nascido aqui mesmo; das andadas no bobódromo do Gilberto Salomão aos domingos; do vinho do garrafão nas então desertas quebradas do Lago de madrugada; do show da Legião que virou catástrofe no Mané Garrincha em 1988; das apresentações da Cássia Eller no intimista Bom Demais ou no Projeto Cabeças; do Festival de Brasília; das mostras de cinema europeu na Cultura Inglesa e na Embaixada da França; da possibilidade de “pegar” inúmeras matérias optativas em todos os departamentos da vasta UnB, algo só possível aqui e por obra de Darcy Ribeiro? Isso porque éramos jovens demais para irmos à Roconha e aos shows em frente ao Foods, entre eles o do Aborto Elétrico feito de cima de um caminhão. E não precisamos falar do céu colorido de Brasília na seca e da maior lua do Brasil porque isso qualquer turista consegue ver.

 

Problemas e superação

É claro que uma cidade tão nova tinha seus defeitos e eram graves. Pelo menos três amigos meus de adolescência morreram em decorrência da alta velocidade permitida nas vias e da falta total de controle de carteiras de habilitação. A carteirada era quase normal. “Sabe quem é o meu pai?” Ouvi esta frase da boca de conhecidos algumas vezes. Tinha muito playboy alienado em Brasília. Abusávamos do álcool e da loló muitas vezes. Tínhamos que viajar horas de ônibus para ir aos shows de rock internacionais. Mas, com exceção do problema das drogas, que parece ter se agravado (mas isso vale para todo o Brasil), o resto melhorou e muito.

As opções culturais e gastronômicas aumentaram bastante a partir de meados da década de 90. Quando voltei daqueles cinco anos no Rio em 2002, haviam sido inaugurados o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB); o Conjunto Cultural da Caixa; o Espaço Ecco; umas duas grandes Casas de shows;  todas as salas de cinema da Academia de Tênis, hoje já decadentes; restaurantes bons como o Universal, o Yours e o Lagash. E este movimento só cresceu de lá pra cá. Além das cadeias de Mara Alcamim e Dudu Camargo, do Corrientes 384, do Patu Anu, da Oca da Tribo e de vários outros bons estabelecimentos, podemos nos orgulhar de termos em Brasília um dos melhores restaurantes do País, à altura de qualquer contemporâneo do eixo Rio- São Paulo: o Aquavit. Fomos brindados com iniciativas originais como a abertura do Mercado Municipal na W3 sul e do Mercado Cabogó, de artesanato, na Asa Norte. O Lago Paranoá foi revitalizado, a Orla está sendo ocupada por bons hotéis, shows internacionais de rock e jazz estão chegando à capital e por aí vai. Noutro dia recebi umas fotos do iniciozinho de Brasília. Tão diferentes da cidade atual e tão lindas que resolvi postá-las neste texto, apesar de serem bem anteriores à época em que cheguei. Espero que o autor as reconheça para que eu possa creditá-lo aqui.  

 

Comemorei parte do aniversário de 50 anos de Brasília passeando com meu filho e meu marido pelas quadras da Asa Sul, feliz em poder escolher uma entre três boas sorveterias dos arredores e tomar um sorvete italiano affogato em café olhando para a renovada Igrejinha, erguida graças a uma promessa feita por dona Sarah Kubitschek. Olhava e pensava: seja qual tenha sido a promessa, ela foi muito bem paga.

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57 Comentários

  1. Gostei muito do texto “Ode à minha Brasilia.!”
    Penso e sinto o mesmo, com a diferença que há
    21 anos que nao disfruto mais desse espaço, mas continua no coraçao!

  2. Estou me divertindo com seus textos. Terei muito prazer em te rever. Como te disse, estou em vias finais de mudança, e quem sabe, poderei me juntar a vc em uma caminhada pelas nossas quadras. Beijos.

  3. Calango do cerrado

    Eita cerrado quente,
    Secura rachando os lábios
    O crânio esquenta por dentro
    O calango dá um salto
    E a poeira fica entre os dentes.

    Agosto, Setembro, Outubro.
    O redemoinho gira no centro
    A poeira reveste a gola
    E a saliva vira cimento.

    Olhando pro céu limpinho
    Dá uma tontura danada
    É céu pra tanto lado
    Que a nuvem não vê morada.

    No asfalto, feito miragem,
    Brilha um rio fervente.
    E o que se vê entre os blocos
    É Calango virando gente.

    Humberto Firmo
    humbertofirmo.blogspot.com

  4. Estive presente em todos esses locais, entre outros…Continuo com aquele olhar de uma pequena criança toda vez que passo por um monumento do meu maior ídolo: Oscar Niemeyer.

  5. Luiz Mauricio |

    Pois é, eu também aproveitei muito Brasília. Confesso que thouve momentos em que achei tudo meio boring, principalmente quando voltei de Madrid. Mas essa cidade me deu muita coisa e só tenho que agradecer! Beijos.

  6. Alessandra Anselmo |

    Mari, você contou a mesma história que tenho com Brasília, com a diferença que cheguei aqui em 74, aos 5 anos. Crescer e nos tornarmos adultos aqui foi uma experiência única que tivemos a oportunidade compartilhar. Parabéns (e obrigada!) pelo texto!

  7. Minha irmã querida,
    Nesse texto eu vejo com irmão é importante. Eu me lembro de cada detalhe do que você fala. Eu estava lá e lá e lá também. Suas lembranças são nossas. Estou profundamente emocionada. Com amor, Sua irmã.

  8. Mari,
    Nossa ,fiquei arrepiada tanta saudades de Brasilia,cada lembrança maravilhosa.
    Fui para Brasilia em 1977, foi aonde cresci,eduquei.
    Fui muito feliz em Brasilia.
    Sinto tanta falta de Brasilia, tenho saudades dos amigos, dos restaurantes de Gilberto Salomao, Beirute ( lembre vc sempre ia ), do Clube de nataçao da AABB cada treino puxado para disputar os campeonatos ( A gente nadava juntos ), dos churrascos,brincar na rua morava QI 15, das escolas Maria Imaculada e INEI ( Lembre aquele gicana a gente ganhou uma viagem de Maceio com turma. Porem 3 ano ,nao viajei para Natal que vc tinha ganhado, tive que mudar para Rio de Janeiro ).
    Cada Lembrança de Brasilia ,tudo de bom.
    Adorei Blog, Parabens !

  9. daniela mendes |

    Mari,

    Embora minha vida tenha sido meio nômade (Rio-SP-Minas-NY-SP), Brasília é a cidade onde virei gente (como vc) e as suas referências são minhas também. Me mudei pra Brasília exatamente no dia em que ela completava 22 anos. Faz teeeempo!!!
    bjs

  10. Choro todo dia de saudade, nao quero voltar todo dia para o Brasil, quero voltar todo dia para Brasília. Fui para lá em 1974, foi lá que me criei, que me eduquei. Foi em Brasília que fui feliz plenamente. Sinto tanta falta da cidade, das facilidades, das mordomias, por exemplo, demorar 5-10 minutos para chegar nos lugares, tenho saudades do clima, da minha família, dos amigos, dos restaurantes naturais, do verde de Brasília, da Água Mineral, dos Clubes, dos churrascos nos finais de semana, da Biblioteca da UnB, das escolas onde estudei… Tenho saudades da minha infância em Brasília e tenho pena que os meus filhos nao poderao fazer isso: jogar bete sem ter medo de ser atropelado, descer para brincar embaixo do bloco com a turma da quadra, descer a ladeira com patins ou em carrinhos de rolimã e sobretudo frequentar as escolas que frequentei.

    • Dri, querida, você ainda acrescentou coisas que eu deixei de colocar, mas que também adorava quando criança, como a Água Mineral. Mas olhe: as crianças, embora ainda tenham as quadras e boas escolas (aliás, bem melhores que as da nossa infância) não jogam mais bete e não andam de carrinho de rolimã. Descer prá debaixo do bloco acho que ainda descem, mas beeem menos!

  11. Paulio Guilherme |

    Eu,um dos primeiros brasilenses,nascido no Hospital de Base,cresci nas superqudras,ainda com pouca grama e muuuita terra vermelha. Me identifiquei muito com seu texto. Parabéns!
    Mas, não poderia deixar de fazer uma crítica: você deixou de citar uma das novidades mais marcantes da Brasíla contemporânea – O MERCADO MUNICIPAL! Revitalizador da W3 sul, respeitando a modernidade, trouxe um pouco do tempo dos nossos pais para a cultura boêmia e gastronômica brasiliense.

    • Paulinho, você tem tooooda razão. Até me desculpo por não ter colocado no Mercado Municipal entre as novidades de Brasília. Mas há uma razão: não falei em bares, pode ver que nem o Beirute, que frequentei de 2a a 2a durante um tempão, eu citei. É verdade que poderia ter incluído o Mercado entre os restaurantes porque a Lula grelhada de lá é imperdível!!! E o próprio Mercado. Quando voltar a editar o texto, colocarei. Bjs e parabéns por ser tão pioneiro.

  12. MARI ADOREI O TEXTO E AS FOTOS !!!!!!!!!!

  13. Samirah Araujo Walzberg |

    Amei o texto!! Tenho que admitir que bateu uma saudade grande, meus olhos cheios de lagrimas… Essa cidade esta no meu coracao. E verdade… ninquem intende por que amamos Brasilia… so quem viveu ou vive a muito tempo em BSB sabe como essa cidade e especial. Nasci em Florianopolis, mas sou muito grata aos meus pais pois pude crescer em BSB. Afinal foi la que conheci minha grande amiga Suzana! Sua prima!
    Mais uma tenho que acrescentar… bons tempos aqueles do Pontao, onde paravamos com os carros para ao som do violao passar algumas horas com os amigos. Alua e as luzes refletindo no lago… Brasilia tem seu charme!
    Valeu pela viajem ao tempo! Beijos! Samirah

  14. Marcos e Neusa |

    Olá Mariana!!! Parabéns pelo belo texto. Adoramos!!! Despertou boas lembranças…

  15. Mari,
    Adorei! Tem uma grande parte da minha vida por essas linhas…
    Bjs

  16. Mari,
    que texto gostoso!!!!
    Adorei. Esta é nossa Brasília. Rs

    Beijos

    • Pessoal, obrigada pela leitura e pelos elogios. Acho que este texto, por motivos óbvios, será o mais lido do blog por um bom tempo. Regininha, claro que existem boas excessões. Pati, você deveria escrever o seu, sim. Mauro, sem palavras… Márcio, sua vista é impressionante, não consigo ver a Ouro Fino nem de lupa e adorei o vídeo. Gente, cliquem no comentário do Márcio prá ver o vídeo de Brasília em 1967, é demaaais!

  17. Não tem como não se identificar…
    Aliás, algumas dessas experiências vivenciamos juntas…
    Bj

  18. Como “neocandango” (vim pra cá em 1999), só tenho motivos para celebrar Brasília. Afinal, aqui conheci minha mulher e tive meus dois filhos. Nem precisaria mais…
    O texto ficou saboroso e as fotos também estão demais!

  19. Belas fotos e bons textos.

  20. Regina Vieira de Melo |

    Parabéns ! Sou uma carioca que gosta muito de Brasília.Já tive momentos adoráveis nessa cidade e um deles é ter ficado com você na sua casa, conhecer seus pais,seus amigos e presenciar o início do seu namoro.Melhor ainda é termos mais um cidadão “candango”, o nosso querido João.

    E tem gente boa e amiga que conheci aí ou que conheci no Rio vindos de Brasília: Raquel,Romil,Leila e todos os agregados.Fora as festas, os bares, as visitas pela linda arquitetura brasiliense e a que eu mais gosto: A Catedral.

    Não é só do Rio que gosto!
    Depoimento de uma carioca autêntica.
    Regina

  21. Maria Celina Machado |

    Mariana,
    adorei seu texto. Obrigada por me apresentar Brasília. Mesmo morando no Rio, sempre soube, e acreditei, que há os que amam viver na cidade. Quanto aos demais, certamente não passaram pelas experiências que vc narrou. Fiquei quase com saudades tb…rs…Talvez por ser mineira, e há muitos conterrâneos em Brasília, tenho a sensação de que me sentiria em casa se morasse aí. Na verdade, como vou ao DF sempre a trabalho, quase só conheço o Congresso Nacional, o Ministério da Saúde…rs. E um ou outro dos lugares que vc citou, o que já é ótimo! Parabéns a vc, Patrícia e todos os que fazem por merecer uma linda cidade mais que patrimônio da humanidade!
    Beijo grande,
    Celina.
    PS: Ontem assisti algumas matérias sobre os 50 anos e lendo vc entendi melhor esta história da cidade ter sido planejada para as crianças.

    • Celina, é muito gratificante ouvir comentários elogiosos das pessoas que não são de Brasília. Quando vier da próxima vez a trabalho, consiga um tempinho pelo menos para darmos uma saidinha e conhecermos outros lugares.

  22. ADOOOOOOOOOOOREI O TEXTO. isto mesmo, com letras garrafais e ênfase total. Amo esta cidade ela me deu mtas coisas dentre tantas o meu filho e tenho orgulho de ele ser brasiliense por tudo que aqui significa.
    Parabéns………….

  23. Mari,
    Amei o texto e, é claro, me identifiquei pra caramba. Praticamente nasci em Brasília. Cheguei aqui com um ano de idade, em 1970. E só não nasci na capital porque, como diz meu pai, sou filha do AI5. Congresso fechado em 1969, minha família teve que sair de Brasília para morar em Fortaleza. Amo muito esta cidade. Aqui passei infância, adolescência, juventude. Por isso, minha memória afetiva está ligada à cidade. Como você, brinquei muito na quadra (302 norte, que delícia!!!), andei de patins no RollerCenter, peruei no Gilberto, fui aos primeiros shows do Legião (lembro de um em 1984 na Sala Funarte)… Enfim, cresci aqui e estou criando meus filhos aqui. Sei que a cidade melhorou bastante em termos de opções, mas não deixo de sentir uma imensa nostalgia daquele início de Brasília. Parecia que éramos uma grande família. beijos e parabéns pelo texto, Pati. PS: Estava pensando em escrever sobre Brasília, mas acho que já me senti completa e realizada lendo o seu texto.

  24. O interessante da primeira foto, da 508 sul, é que a Lavanderia Ouro Fino ainda está lá, no mesmo lugar, com o mesmo letreiro.

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