Todos os estilos de Anita Malfatti

Todos os estilos de Anita Malfatti

Expressionismo, cubismo, impressionismo, arte naïf e até academicismo. Toda esta mistura de estilos fez parte da diversificada trajetória de Anita Malfatti, considerada a primeira pintora modernista brasileira. Até o dia 25 de abril, cento e vinte quadros provenientes de museus e de mais de 70 coleções, algumas jamais expostas publicamente, se despedem do público brasiliense na mostra retrospectiva “Anita Malfatti, 120 anos de nascimento” no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). Trata-se da mais completa retrospectiva já feita da obra da pintora. Com uma atrofia congênita na mão e no braço direitos, Anita foi incentivada pelos pais desde pequena a pintar. Começou tendo aulas particulares com a própria mãe, Betty. O primeiro quadro que fez, aos 10 anos, “Burrinho correndo”, abre a exposição. A firmeza dos traços e certa influência impressionista já mostravam o potencial da menina paulista.

Em plena era do Expressionismo Alemão, movimento marcado pela distorção das formas, a subjetividade e a expressão das emoções, Anita foi para a Alemanha dar continuidade a seus estudos. Entre 1910 e 1913, estudou na Academia de Belas Artes de Berlim. Em seguida, ainda nas primeiras décadas do século XX, seguiu para Nova Iorque para completar sua formação. São dessa época, as pinturas claramente influenciadas pelo movimento, expostas na primeira parte da mostra. Paradoxalmente, como se estivesse experimentando com diversos estilos ao mesmo tempo, a pintora flertava com o Impressionismo- anterior e oposto ao Expressionismo, baseado nas sensações despertadas pela observação direta da natureza, cheio de cores e texturas. Alguns retratos têm as cores de Cézanne. Outros trabalhos, como “O Farol”, de 1915, poderiam até ser confundidos com telas de Van Gogh. O cubismo que Picasso já espalhava pela Europa durante a estada de Anita ela também incorporou a algumas pinturas, como “Nu cubista” (1915/1917), o primeiro feito no Brasil.

Na volta ao Brasil, uma exposição individual realizada por Anita em 1917 provocou reações duras por parte da família e dos críticos e escandalizou o meio artístico ainda acostumado à pintura acadêmica. “Não foi para isso que paguei seus estudos”, disse o tio e padrinho Jorge Kurg, que chegou a chamar os retratos expressionistas angulosos da sobrinha de “dantescos”. “Seu talento está a serviço da caricatura”, disparou Monteiro Lobato em uma longa crítica no Estado de São Paulo em 1917. Toda a polêmica faria com que mais tarde fosse chamada de “a mártir do movimento modernista” por Paulo Mendes de Almeida. “No início do século XX, (Anita) superou e enfrentou com coragem e donodo todas as dificuldades inerentes a uma mulher sem fortuna e com uma grave deficiência física, numa cidade provinciana e com rígidas regras sociais”, diz a curadora da exposição, Luzia Portinari Greggio. 

De fato, toda a celeuma causada pela mostra de 1917 não foi suficiente para tirar Anita Malfatti de sua busca e ela logo encontrou eco para sua disposição de romper barreiras. Com Tarsila do Amaral e os escritores Mário e Oswald de Andrade, além de Menotti Del Pichia, formou o que mais tarde ficaria conhecido como “Grupo dos Cinco”. De suas reuniões, surgiria o Modernismo Brasileiro que culminaria na famosa Semana de 22.

A segunda parte da exposição, no subsolo do CCBB, mostra como nas décadas que se seguiram ao início do Modernismo, Anita Malfatti resolveu fazer o movimento inverso. Em viagens ao interior do Brasil, a pintora se voltou para o academicismo, misturando-o a uma espécie de arte naïf. Pintava o cotidiano das pequenas cidades brasileiras, as festas folclóricas, as praças e suas igrejinhas em um estilo primitivista e naturezas-mortas e retratos de forma bastante acadêmica, mas munidos de muita cor. Nunca estava totalmente satisfeita com o caminho que tomava.

“Procurei todas as técnicas e voltei à simplicidade, diretamente, não sou mais moderna, nem antiga, mas escrevo e pinto, o que me encanta”, escreveu em uma Carta Póstuma ao amigo Mário de Andrade. Em 1955, consagrada, Anita realizou uma exposição individual no mais importante museu brasileiro, o Museu de Arte de São Paulo (MASP). Seu título era emblemático:“Tomei a liberdade de pintar a meu modo”.

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38 Comentários

  1. Obrigada pela ajuda, o seu site foi o mais esclarecedor que encontrei, e eu olhei todos os que tinham antes do seu!!:D
    Continue assim..

  2. eu precisei da imagem e só achei nesse site então obrigada!

  3. Luzia Portinari Greggio |

    Mariana
    Li seu blog hoje e agradeço.
    Realmente a exposição de Brasilia foi um grande sucesso e em 52 dias foi visitada por 50 mil pessoas.
    E um recado para Regina Vieira de Melo: a Exposição está indo para o Rio, sim. Dia 30 de julho no CCBB do Rio.
    Luzia

    • Cara Luzia, fico muito feliz com o seu comentário e por você ter encontrado o blog. Foi um prazer enorme escrever sobre a exposição. E mesmo sendo carioca e tendo coberto cultura no Rio por cinco anos e meio, gosto quando uma exposição da importância desta vem primeiro para Brasília. Afinal, por anos e anos fomos tão carentes de cultura por aqui! Obrigada pela leitura. PS- Realmente fiquei devendo esta informação à Regina, mas tinha lido que a exposição iria, sim, seguir pelo Brasil.

  4. Amo o trabalho de Anita e já li algumas coisas sobre ela. Ela cumpriu a missão maior de todo artista, encontrar a própria identidade, livrar-se do externo sem contudo deixar de se relacionar com ele. Lembro muito da Saga do Herói de Campbell(?) e da busca interior. O que Anita me ensina é justamente essa busca, mesmo que dolirida (sempre é) do encontro consigo mesmo. Somos todos estrangeiros, mas não estranhos. Parabéns pelo texto.

    • Aluisio, concordo com a sua conclusão sobre a trajetória da Anita, foi justamente a minha ao ler sobre ela durante e depois da exposição. Tinha ficado intrigada em como você havia chegado ao blog e comentei com minha amiga e colega de trabalho Patrícia Andrade. Ela me contou que você é primo dela e poeta. Entendi o porquê do bom texto, perceptível mesmo em poucas palavras, em seus comentários aqui. Bom tê-lo como leitor! Um abraço, Mariana.

  5. Infelizmente perdi essa exposicao quando estive em Brasília:-(, mas nao tive tempo mesmo. Pena! Gosto muito da Anita, cores vivas, modernismo. Legal voce ter escolhido esse tema para o seu blog, so assim pude sentir um pouco como foi a exposicao.

  6. Regina Vieira de Melo |

    Mari, adorei a publicação sobre Anita Mafaldi.Adoro as pinturas de Anita. São vivas e tem uma força grandiosa,impactantes. Estou ansiosa para saber se a exposição virá para o Rio.Tomara!

    Parabéns pela escolha.

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