Posts made in maio, 2010

Sonhos bons, sonhos ruins

Meus melhores sonhos, ou provavelmente os de que eu me lembro melhor, são os que acontecem de madrugada, aqueles logo antes de acordar. Normalmente são sonhos longos, com várias sequências que vão se encadeando umas nas outras. Diferente das de um filme, na maioria das vezes, as ligações entre as sequências não têm muita lógica. Claro, se tivessem, não seriam sonhos.

Em uma madrugada destas, numa dessas raras exceções, tudo fazia sentido.  Éramos uma turma de amigos do trabalho (do meu trabalho real). Trabalhávamos para um juiz que tinha a cara de um magistrado verdadeiro, com quem já fizemos colaborações no trabalho. Os tais amigos iam navegando pela internet e qualquer link no qual elas clicassem ficava registrado no meu blog como uma referência. Enfim, sonhos não têm graça nenhuma quando contados, não conseguimos transmitir o clima para o interlocutor. Mas tenho que dizer que íamos a um cinema ao ar livre, todos nós, os amigos do trabalho e inclusive o juiz/chefe. Nunca li Freud direto da fonte, o máximo que li de psicologia foi a Teoria da Sincronicidade de Jung por causa das músicas Sincronicity I e II do Police. É que as duas são inspiradas na teoria de Gustav Jung, discípulo de Freud que terminou tomando um caminho muito diverso do mestre, e que, nesta obra, pregava que não existiam coincidências e sim uma série de fatos que já estavam previstos para acontecer juntos na natureza. Uma espécie de destino com explicação científica. Mas voltando a Freud, tenho a convicção de que meus sonhos são um reflexo, uma digestão mesmo do meu dia a dia. Ou uma relação de algo que aconteceu no dia com algo que os neurônios puxam do passado recente ou remoto. Isto aliado a desejos, claro.

Pois bem, quando finalmente chegamos ao cinema, vimos um making of, como se fosse um trailer antes do filme principal, do longa-metragem estrelado por uma amiga minha, Adriana Vasconcelos (a cineasta e atriz, não a jornalista homônima). Ela estava lá muito expressiva, falante e magra, uma estrela mesmo. Desejo pelo seu sucesso? Reflexo do sucesso recente do filme que ela dirigiu? E não é que o juiz também participava do filme? Tenho muita nostalgia das turmas de que participei em minha vida. Por isso, muitas vezes perambulo pelos sonhos em companhia de uma turma. Neste caso, desejo. Quando a coisa está ficando interessante, muitas vezes acordo. Às vezes conseguimos voltar a dormir e o sonho continua. Incrível o cérebro, não?

Nos meus sonhos, muitas vezes o meu melhor amigo é um ator famoso. Reflexo das horas em frente à televisão assistindo ao Oscar ou a filmes no cinema? Conversamos muito sobre todas as coisas, é como se eu o conhecesse muito bem. Mas nestes sonhos, não tem nada de erótico, são só conversas. Já os ex-namorados, especialmente aqueles de quem se tem alguma mágoa, aparecem bonzinhos, sem defeitos. As qualidades são ressaltadas, como se o cérebro, em uma atitude de autodefesa, quisesse nos fazer esquecer as coisas ruins que ficaram em nosso passado mas, ao mesmo tempo, nos torturar com as boas.

E há os pesadelos, claro. Tenho muito mais sonhos bons do que ruins, mas confesso que tenho tido vários pesadelos ultimamente e sei que são reflexos dos maus bocados que passei neste ano com a fase terminal da vida da minha avó e sua subsequente morte. Acordo assustada no meio da noite e dá vontade de chacoalhar meu marido para que ele me conforte e eu consiga dormir bem de novo. Houve pesadelos com assaltos e até seqüestros. O último, há poucos dias, envolvia um antigo desafeto, digamos uma ex-amiga. Ela povoava o pesadelo do início ao fim, me infernizando com sua presença altiva e ainda por cima aliada a um antigo amigo que anda desaparecido e cuja presença no sonho, por causa disso, já era suficiente para me atormentar. Num belo momento, os dois simplesmente me deixavam sozinha em um bondinho que ligava a parte baixa à alta da cidadezinha imaginária onde estávamos em uma viagem de trabalho. Sem conhecer direito o local, eu tinha que voltar, abandonada, para a parte alta da cidade. Para chegar ao hotel, eu teria que vencer um parque de diversões cheio de aviões que rodavam em torno de si mesmos com suas asas ameaçadoras (reflexo claro da obcessão do meu filho de 2 anos por aviões e todas as outras máquinas voadoras). E quem aparece para me resgatar? Meu amoroso marido. Bom, ainda bem que o cérebro às vezes trata de dar um alento no final.

Repetições

E quem nunca teve sonhos que se repetem ao longo da vida? Por boa parte das  minhas infância e adolescência, sonhei reiteradas vezes que estava em cima de um escorregador (ou escorrega, como eu aprendi) localizado bem no meio da jaula do jacaré. Eu tinha certeza que aquela jaula era a do Zoológico do Rio de Janeiro, o primeiro que eu visitei na vida, porque em alguns momentos aparecia o marcante portal antigo daquele parque. Tive este sonho inúmeras vezes, com variações na história, mas sempre com a “cena” do escorrega. Fiquei emocionada no dia em que, já com mais de 30 anos, revi o zoológico, que fica muito bem localizado no meio da Quinta da Boa Vista, e constatei que o portal ainda estava lá, e está até hoje. As ruelas eram iguais às do sonho, mas a jaula do jacaré era diferente, o que foi um anticlímax.

E quem já não sonhou que está voando? Claramente, desejos. Sonho muitas vezes que estou voando baixo, logo acima das árvores e, às vezes, por entre os blocos das quadras de Brasília. Quase tenho certeza que Ítalo Calvino escreveu “O Barão nas Árvores” depois de um sonho desse tipo.

Atualmente, ando sonhando muito com uma outra fase da minha vida no Rio. Dou voltas e voltas pelo bairro do Humaitá. Cada vez estou em um ponto e encontro pessoas diferentes ou não consigo encontrar as que procuro. É o sonho recorrente da vez.    

Tenho uma amiga muito próxima que tem sonhos premonitórios. Ela sonha e muitas vezes acontece. Comigo é o contrário. Sonho sempre com o passado. Poderiam ser acertos de contas com o passado. Mas não são. São só encontros. Às vezes ruins, às vezes muito bons!

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O Fim da Infância- Entrevista com Carmem Manfredini

 Em 1994, em um dos quartos de hotéis em que se hospedaram durante a turnê de “O Descobrimento do Brasil”, da Legião Urbana, Fred Nascimento e Gian Fabra, músicos de apoio da banda, decidiram que gostariam de ter um projeto paralelo fruto de suas afinidades pessoais e musicais. Nascia ali o grupo Tantra, que lançou dois discos antes que Carmem Manfredini- cantora com experiência em um importante coral e um grupo vocal de Brasília e, não por acaso, irmã caçula de Renato Russo- mudasse a cara da banda. Em 2008, Fred, guitarrista e compositor gravado por diversos artistas no meio musical carioca, foi convidado pelo jornalista Marcelo Fróes para participar do Tributo ao “Álbum Branco”, dos Beatles. A idéia era fazer com Carmem uma versão “voz e violão” de uma das faixas do famoso álbum. Mas quando os demais integrantes da banda- àquela altura com Carlos Trilha nos teclados- a ouviram cantar, ficaram fascinados por sua voz “doce e marcante”, como dizem no site do Tantra. O tributo foi a semente de um novo projeto: “Carmem Manfredini e Tantra”, que culminou no CD “O Fim da Infância”, lançado em 2009. O disco mistura pop, rock, blues e até dance em composições fortes, belas e com letras inspiradas e melodias que grudam na mente de quem as ouve. Um disco que ainda está para ter a repercussão de merece. Na entrevista a seguir, Carmem falou a “Escritos do Ócio” sobre o processo de composição das músicas, seu papel como intérprete, as influências do grupo e as suas pessoais e também de lembranças suas com Renato relacionadas a música. Revelou até como uma canção dos Beatles, que ela gravou em “O Fim da Infância” foi provavelmente a fonte de inspiração de um dos maiores Hits da Legião Urbana. Você também pode ouvir aqui no Blog três das faixas do CD.  Ele pode ser adquirido em grandes lojas como a Livraria Cultura ou no site da banda: www.tantra.art.br

 Mariana- Vocês tiveram dificuldades para escolher a música de trabalho? Porque há diversas faixas cuja melodia fica na memória: Luz do Dia, La Strada (ouça a música abaixo da entrevista), Riviera, Novembro só para citar algumas.

Carmem- Olha, por incrível que pareça ainda não temos uma música de trabalho, as pessoas têm escolhido Luz do Dia (ouça esta música abaixo da entrevista), a Rádio Cultura escolheu Luz do Dia e parece que a Rádio Câmara também. Mas a gente pensou que, a princípio seria Mar nos Olhos porque ela é romântica, porque acho que pega o refrão, a gente pensou nessa.

Mariana- As letras são muito pessoais e, no entanto, não foi você, a intérprete, quem as escreveu. Foi principalmente o Gian Fabra, que também é o produtor executivo e o baixista do Tantra. Vocês conversavam em algum momento da composição, você sugeria alguma mudança?

Carmem- É, as letras são 100% dele, ele que escreveu todas as letras, eu me identifiquei totalmente com elas porque parecem até letras pra mulher cantar. Elas são bem emotivas, bem até femininas.

 Mariana- E são no feminino.

Carmem- São no feminino, ele mudou o gênero, né? Mudou pra que eu cantasse, tinha algumas que tavam no gênero masculino. Mas eu fiz uma mudança em Luz do Dia, eu coloquei “falta” em “A sua falta estava lá”.

Mariana- Então, quer dizer, você já se identificava com as letras dele antes.

Carmem- Com, certeza. Eu também fui conhecendo as letras à medida que eu ia gravando. Eu tinha acesso às letras, mas o sentimento ficava mais forte quando você cantava, juntava com a melodia, né? Gostei muito das letras, me identifiquei muito, parecia que muito da minha história de vida emocional tava ali também. 

Mariana- Riviera, a faixa número 6 do CD tem versos muito bonitos, como: “Eu tenho a calma e o desespero que tem um náufrago no mar, que tem um pássaro ferido que ainda sonha em voar”. É do Gian também. Ele se inspira em literatura ou em letras de músicas?

Carmem- Eu acho que ele se inspira em literatura, ele sempre leu muito, sempre me falou que leu muito. Ele tem ótimas referências literárias, que eu não sei agora citar quais são, e escreve muito bem. E engraçado, quando você fala de Riviera (ouça a música abaixo da entrevista), é uma música que eles (da banda) não gostam tanto e é uma das minhas favoritas, tá virando a minha favorita, tem um quê de Beatles muito legal, uma coisa fácil e funcionou muito bem no nosso primeiro show, eles mesmos tiraram o chapéu, disseram: “Realmente, a gente tem que deixar Riviera”. Principalmente o Gian deixou Riviera de lado, não sei se é a letra ou a música ou ela toda e ele mesmo naquele show do O’Rilley (no final de 2009, em Brasília) chegou a concordar que é uma música imprescindível pro repertório.

Mariana- Gian Fabra é um nome conhecido, assim como Carlos Trilha. Gian fez letras para outras bandas conhecidas antes? E Trilha foi produtor?

Carmem- O Trilha produziu os dois CDs solo do Renato Russo, Stonewall (Celebration Concert), ele foi o produtor de tudo, do Stonewall Celebration e do Equilíbrio Distante, em italiano. E o Trilha tem um estúdio no Rio de Janeiro, no Jardim Botânico, que se chama Órbita Estúdio, que é onde a gente gravou. O último disco da Ana Carolina foi todo gravado lá, ele recebe muitos artistas nacionais que vão lá gravar, até de outros estados, então é um estúdio bem legal, bem requisitado. E o Gian participou com as letras do primeiro CD do Marcelo Bonfá, 90% das letras.

Mariana- Luz do Dia (a faixa de abertura do CD), por sua melodia, poderia ser uma música de uma banda de rock famosa dos anos 80, da própria Legião, por exemplo. As influências do Tantra são muito parecidas com as das bandas de Brasília do chamado B-Rock (o rock brasileiro produzido nos anos 1980)?

Carmem- Eu acho que sim, até pela própria faixa etária de todos os componentes, incluindo a mim. Mas principalmente eles que compuseram as letras, o Gian compôs as letras, mas os dois, ele e o Fred (Nascimento, compositor e guitarrista do Tantra) compuseram as músicas, o Gian tem 44, o Fred é mais velho, deve ter 50 e poucos, o Trilha tem 40. Mas todo mundo viveu essa história muito forte, né? Eu acho que Luz do Dia é a mais anos 80, me lembra um grupo inglês que você até viu com a gente que é o The Cult. Me lembra aquela música hit deles que é She sells santuary, a guitarra é a mesma, eu acho muito parecido, acho que você se lembrou muito bem ao fazer essa referência.

Mariana- É a mais rock também, ou uma das mais rocks do CD, que é um CD rock, pop e também tem uma música dance.

Carmem- Exatamente, tem uma música dance. Então, eu acho que o que a gente tem que fazer melhor agora é definir melhor o nosso estilo. Dance eu acho que não vai ser. Ou vai ser rock ou vai ser pop rock.

Mariana- Você sente essa necessidade? Porque o disco talvez seja bom justamente porque tem essa diversidade, não?

Carmem- Pode ser, mas eu já ouvi várias pessoas falando, inclusive amigos músicos, que da metade do disco em diante, de Virgem da Marina em diante, muda, vira outro disco. Eu gostaria que ele fosse bem rock, que o nosso trabalho fosse rock ou blues, uma coisa assim, legal. Agora, tem uma música que eu considero às vezes mais rock que Luz do Dia, que é Outro eu. Pelo menos quando eu canto, eu acho bem visceral, eu tenho que jogar uma voz bem pesada ali.

Mariana- E as suas influências pessoais? Quais são?

Carmem- Ih, muita coisa. O amor da minha vida musical é Billy Joel, eu adoro Billy Joel.

Mariana- Pop.

Carmem- Pop, totalmente pop. Não tem nada de rock, é pop mesmo. Led Zeppelin prá mim é uma das melhores bandas que já existiram, Beatles é a melhor banda prá mim, os Beach Boys também eu amo, Elton John, ih tem tanta coisa… Steely Dan, não sei se você conhece, é maravilhoso, eu gosto muito. E cantoras assim tipo Joni Mitchell que eu amo de paixão, Ella Fitzgerald no Jazz, tem muita, muita, muita coisa realmente, e muita coisa 80.

Mariana- Rock, né?

Carmem- Rock. Rolling Stones nem tanto, eu gosto mais dos Beatles.

Mariana- Doors?

Carmem- Adoro The Doors, adoro The Doors, acho que assim foi “a banda” e anos 80 milhares de coisas: Duran Duran, Japan, que era uma outra banda meio desconhecida no Brasil, Roxy Music, que eu amo, que é o Brian Ferry, né? David Bowey, realmente muita coisa.

Mariana- O Renato (Russo, irmão de Carmem) te incentivava e te orientava como cantora? Na época da Legião você cantava no grupo vocal Spirituals de Porco daqui de Brasília, não?

Carmem- Isso, mas ele nunca chegou a ouvir. Infelizmente, ele tava no Rio esse tempo todo, ele já tava assim uma pessoa famosa, na mídia, na música, então, ele não viu mesmo, não ouviu o grupo, uma pena. Ele sabia da existência do Coro Sinfônico Comunitário da UnB, que eu participei e o maior orgulho dele na minha carreira musical foi quando esse mesmo coro foi cantar no Carnegie Hall, em Nova Iorque. A gente foi em 93, acho, 94. Ele ficou muito orgulhoso e falava pros amigos: “Minha irmã vai pro Carnegie Hall, vai cantar”, claro que eu tava com 300 vozes, né? Mas foi uma experiência bem legal. Mas a única vez que ele me ouviu cantando foi numa fita cassete, ele fez uma comparação que eu cantava que nem a Yoko Ono, eu odiei porque eu odiava a Yoko Ono.

Mariana- Mas a voz dela é bem mais aguda que a sua, não?

Carmem- É, mas ele dizia que era o mesmo tipo de vibrato: “Ah, você vibra igual” e eu odiei, eu odiei porque eu não gosto da Yoko, até como pessoa.

Mariana- Mas ele falou isso de uma forma neutra, nem elogiando, nem…

Carmem- Exatamente, ele gostava da Yoko, ele tinha um Box com três CDs só da Yoko Ono, ele adorava, ouvia… Eu odiava aquilo. Mas eu recebi com uma crítica negativa porque eu não gostava dela, mas você tem razão foi uma coisa neutra, foi uma mera observação que ele fez (risos).

Mariana- Naquela época, acompanhando o processo de composição do seu irmão, você não se animava a compor?

Carmem- Eu tive um grupo de brincadeira, nos primórdios dos anos 80 com duas primas, que se chamava As capitalistas falidas. Nós conseguimos fazer duas músicas muito ruins, eu era tecladista, porque eu tinha um cassiotone, aquele tecladinho pequeno de pilha, e eu estudava piano nessa época, piano básico. Então, eu era tecladista e backing vocal, a Alessandra, minha prima, era a cantora e a Geórgia só ria e fingia que tocava violão. A gente devia ter 17, 18.

Mariana- Aqui em Brasília, então?

Carmem- A gente fez em Brasília. Uma morava aqui comigo e a outra morava no Rio, quando vinha de férias, a gente fazia o grupo. Mas muito ruim (risos).

Mariana- Por que a escolha de Rocky Racoon (para o CD), uma música menos conhecida dos Beatles? No início tem uma citação a Faroeste Caboclo porque são histórias semelhantes de alguma forma?

Carmem- Ótima pergunta, poucas pessoas perguntaram isso depois que a gente gravou e tal, ou quase ninguém perguntou, ou ninguém perguntou. Primeiro, por que Rocky Racoon: eu não tinha muita escolha, quando o Marcelo Fróes que foi o idealizador do projeto, ele tem esse selo Descobertas, disse “Olha, vou fazer uma homenagem de 40 anos do “Álbum Branco” (dos Beatles) e eu quero que você seja uma das pessoas que cante. “Ah, tudo bem, então”. Quando ele me ligou: “E aí tá preparada prá fazer?”, eu disse: “Quê que tem ainda aí?”. “Quase nada, não sei nem se você vai gostar. Tem isso, isso, isso”, tinha umas cinco músicas e ele falou Rocky Racoon. Quando ele falou Rocky Racoon, eu disse: “Eu quero! Rocky Racoon é minha!”. (Ele perguntou:) “Mas por que esse interesse todo?” Porque era uma música que eu ouvia muito com meu irmão, a gente ouvia muito o Álbum Branco quando criança e ele adorava a história, eu adorava a história e era uma música que eu sempre cantei desde a adolescência, se vacilar eu sei cantar de cor.

Mariana- E é longa.

Carmem- E é longa. E eu sempre achei isso, depois que eu ouvi Faroeste, depois de um tempo, né? Provavelmente depois que ele morreu, que você se distancia, eu disse: “Nossa, Faroeste Caboclo tem todo um quê de Rocky Racoon, né?

Mariana- Você acha que ele se inspirou, então, em Rocky Racoon? Você nunca perguntou isso? Você só percebeu depois?

Carmem- Eu só percebi depois, eu não cheguei a perguntar, mas como ele ouvia Rocky Racoon desde 7, 8 anos de idade e ele amava a música e imaginava a história, acho que aquilo ficou no inconsciente dele e mais tarde ele fez Faroeste Caboclo.

Mariana- Que é muito mais longa e uma história muito mais complexa, mas de qualquer jeito é uma pessoa que sai de um lugar prá outro com um objetivo…

Carmem- Exatamente, tem tudo ali, eu acho que tem a ver sim.   

Mariana-Você tem muita facilidade para cantar em inglês, canta bem, foi professora de inglês. Vocês moraram nos Estados Unidos muito tempo?

Carmem- Não muito tempo, a gente morou dois anos, de 67 a 69, eu era bem pequenininha, eu tinha quatro prá cinco anos, voltei com seis prá sete, ele (Renato) voltou com nove anos de idade e ficou com um inglês excelente porque a Cultura Inglesa naquela época era a única escola que tinha e ela só aceitava alunos com nove anos. A gente voltou dos Estados Unidos e foi pro Rio, lá pra Ilha do Governador, que era a casa da gente lá. Então, não tinha milhares de cursos como tem hoje. Ele entrou exatamente quando voltou, então o inglês dele era fenomenal o meu não, eu perdi porque criança ao mesmo tempo que pega tudo rápido, perde muito rápido também.

Mariana- Você perdeu totalmente?

Carmem- Não totalmente, acho que ficou a pronúncia, a facilidade de pronúncia, o ouvido, porque como eu aprendi com quatro pra cinco anos, Jardim de Infância, então ficou uma facilidade grande. Mas a gramática, o falar, o vocabulário eu perdi tudo. E ele não, ele deu aula na Cultura Inglesa, ele foi professor aos 17 anos na Cultura.

Mariana- E você reaprendeu tudo e teve a mesma carreira (que Renato) durante muito tempo, não é?

Carmem- Durante muito tempo, 23 anos que eu fui professora de inglês.

Mariana- Você fez os desenhos da Capa de “O Fim da Infância”, não é? Você já não havia feito desenhos para um dos álbums da Legião?

Carmem- Os desenhos são todos meus sim e fiz também os do CD póstumo do meu irmão que se chama “O Último Solo”.

Mariana- Quais os planos para a divulgação de O fim da infância?

Carmem- Os planos agora são a gente tentar investir mais no nome da banda, na carreira da banda. A gente tá com uma empresária que tá trabalhando pra isso. Mas tentar não fazer shows só esporadicamente, às vezes tem dois seguidos e depois passa um tempo sem ter. A gente vai tentar contratar uma pessoa que trabalhe mais acirradamente nesta coisa de marketing da banda: nas rádios, nas TVs, assessoria de imprensa.

Mariana- Como as músicas e o grupo têm sido recebidos até agora nos shows e também o disco?

Carmem- Olha, muito bem, viu? O problema do CD é o seguinte: nós rescindimos o contrato com a LGK, a nossa gravadora, porque ela não estava num bom momento financeiro. Então, agora a gente tá procurando um novo selo que queira investir na gente porque eu acho que não é simplesmente lançar o disco, mas investir também, na distribuição e tudo. Agora, as pessoas que ouviram o CD ou que tiveram acesso ao site, tão gostando muito, estão realmente gostando. Estão dizendo que é um trabalho bom, de qualidade, que é um rock adulto, de modo geral está sendo bem recebido, bem aceito. E nós fizemos esses dois shows em Brasília eu acho que, apesar de não ter ido muito público, eu acho que o feedback foi positivo.

Mariana- E o primeiro show no Rio, já tem data?

Carmem- O primeiro show no Rio pode ser em julho, mas não seria um show só nosso, seria um tributo a Renato Russo que, dando certo, o Tantra faria a banda base e eu cantaria uma música, mas haveria outros convidados. Eu cantaria Giz.

Mariana- Uma última pergunta: ser irmã do Renato Russo atrapalha, ajuda ou é neutro pra você?

Carmem- Eu acho que atrapalha e ajuda. Atrapalha no sentido de muita cobrança, muita demanda, muita exigência, tipo…

Mariana- “É irmã então tem que ser boa”.

Carmem- Tem que ser boa, tem que fazer alguma coisa que preste, como é que ele era o Renato Russo e vem uma porcaria? Então, tem uma exigência até um pouco cruel até às vezes. Mas ajuda, a partir do momento que o trabalho não é ruim, você tem uma certa coisa a dizer, os meninos tocam bem, a gente tá com um trabalho sério.

Mariana- Eles tocaram junto com a Legião.

Carmem- Tocaram, eles foram músicos de apoio, o Fred, o guitarrista, foi por dez anos. O Trilha tem essa coisa que ele produziu os dois CDs (solo de Renato), então é uma pessoa muito antiga também. Mas ajuda, abre portas, porque prestam atenção em você. Dizem: “Ah, Carmem Manfredini é irmã do Renato Russo”. Então, jornalista fica extremamente interessado, tem muita entrevista, sai na mídia, sai capa de caderno de cultura por conta também do nome e da curiosidade.

Mariana- Mas você não faz esta propaganda. No último show por exemplo, você falou (se referindo a Giz, da Legião, que ela cantou no Complexo Cultural da Funarte durante as comemorações do aniversário de 50 anos de Brasília) em uma música “de uma pessoa daqui de Brasília”. Quem não conhecesse a música não sabia quem era o autor.

Carmem- Exatamente. Eu tô tentando não fazer o “Carmem Manfredini e Tantra”, eu tenho tentado quando subo no palco que a gente fale: “Nós somos a Banda Tantra”. Eu faço parte da banda, eles fazem parte do meu vocal e nós somos uma banda. Eu acho que, aos poucos, se Deus quiser, isso sim: talvez nunca seja separado que nem Betânia irmã de Caetano, todo mundo sabe disso; ou então Ed Motta é sobrinho do Tim Maia, agora já não falam tanto mais, né? Você vê que o Ed Mota construiu a carreira dele e ninguém nem lembra mais. Mas até chegar lá demora, então tem que tentar não eliminar isso, que é impossível, mas amenizar essa coisa de “Carmem Manfredini irmã de Renato Russo”.

 Ouça aqui: Luz do Dia

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Ouça aqui: La Strada

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Ouça aqui: Riviera

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Dramas e alegrias aos 40

Um dia desses fui toda animada a um almoço que prometia ser um daqueles encontros diurnos bem à moda Sex and the City: um monte de amigas falando animadamente sobre suas vidas e também sobre amenidades como cabelos, filmes e homens bonitos. Mas o almoço, aniversário de uma das minhas velhas amigas, que conheço há pelo menos vinte anos, terminou sendo algo totalmente diferente. Uma delas estava passando por um drama familiar, com uma pessoa em estado grave de saúde. E foi assim que todas nós começamos a falar dos nossos próprios dramas recentes e da superação deles numa tentativa de aliviar a dor da nossa amiga. Eu falei sobre a recuperação do meu filho, hoje com dois anos e bastante saúde, que ficou durante dois meses e meio na UTI neonatal após nascer prematuro extremo; outra amiga lembrou como seu filho atualmente com nove anos superou um grave problema de má formação do aparelho digestivo que o fez ter que se alimentar por um tubo ligado ao estômago durante um bom tempo, etc.  Essa conversa pesada só foi interrompida quando chegou um amigo jovem da aniversariante e começamos a falar de amenidades. Foi só ele ir embora que o drama recomeçou: tínhamos nos esquecido de um amigo de outro estado que havia sido diagnosticado com esquizofrenia.

Aquele almoço inicialmente despretensioso terminou me fazendo pensar em como as conversas aos 40 são diferentes dos assuntos dos 30, por sua vez tão diversos daqueles dos 20. Acho que os 40 são aquela idade em que começam a aparecer as doenças, não necessariamente dramas tão grandes como esses por que passamos, mas as dores de coluna, pequenos reumatismos, insônias crônicas, síndromes como a do vaso vagal ou pânico. São as doenças do homem (no sentido geral, não de gênero) moderno. Ou para ser mais explícita, as doenças relacionadas ao estresse, à correria. E por que não dizer, algumas vezes, males graves também, como o câncer e a esquizofrenia, que ninguém vai me convencer de que não têm um componente de estresse no roll de suas causas. Claro que o assunto doença não aparece sempre, falamos muito na opção que encontramos para cobrir nossos fios de cabelos brancos, se decidimos ou não fazer preenchimento nas rugas ao lado da boca, na opção entre Yoga ou pilates; e em que terapia alternativa escolhemos para nos equilibrar. E esses assuntos vêm sempre pontuados pela listagem dos homens mais bonitos e interessantes de Hollywood; pelas melhores viagens que já fizemos ou planejamos fazer pelo mundo; ou pelos últimos bons restaurantes abertos Brasil afora.

Aos 30 anos, concluímos naquele almoço, falávamos muito de trabalho, era a época em que alcançamos alguma realização profissional (claro que a idade em que isso acontece varia dentro de um grupo); em lugares bons para morar; em namorados, já que a maioria de nós se casou bem mais tarde; em filmes italianos divertidos e nos melhores bares da cidade. Aos 20, ah, aos 20! Aos 20, a reunião nem acontecia dessa forma mulherzinha. Nos reuníamos todos, em grandes grupos de amigos da faculdade e não para comer, mas para beber nos bares, quase todos os dias. Os assuntos eram cinema, música, política, religião, filosofia, qualquer coisa que fosse profunda e tivesse potencial para causar alguma polêmica. Afinal, queríamos falar, falar, falar, sempre sob o nosso radical ponto de vista.

No almoço daquele dia, chegamos a uma conclusão comum: apesar da ameaça das doenças e do estresse, somos mais felizes e tranquilas aos 40 do que aos 20. Reduziram-se as inseguranças, abrandaram-se as crises existenciais. Temos nossos filhos, nossos maridos, nossas casas e nossos empregos, mesmo que estes últimos não sejam exatamente aquele com o qual sonhamos aos 20. Quem não se casou e/ou não teve filhos, tem muito mais liberdade para viajar e/ou um alto posto no trabalho que também a satisfaz e/ou um mestrado, um doutorado. O fato é que todas nós estamos sempre buscando novidades na esperança de que o tempo continue passando devagar.

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