Dramas e alegrias aos 40

Dramas e alegrias aos 40

Um dia desses fui toda animada a um almoço que prometia ser um daqueles encontros diurnos bem à moda Sex and the City: um monte de amigas falando animadamente sobre suas vidas e também sobre amenidades como cabelos, filmes e homens bonitos. Mas o almoço, aniversário de uma das minhas velhas amigas, que conheço há pelo menos vinte anos, terminou sendo algo totalmente diferente. Uma delas estava passando por um drama familiar, com uma pessoa em estado grave de saúde. E foi assim que todas nós começamos a falar dos nossos próprios dramas recentes e da superação deles numa tentativa de aliviar a dor da nossa amiga. Eu falei sobre a recuperação do meu filho, hoje com dois anos e bastante saúde, que ficou durante dois meses e meio na UTI neonatal após nascer prematuro extremo; outra amiga lembrou como seu filho atualmente com nove anos superou um grave problema de má formação do aparelho digestivo que o fez ter que se alimentar por um tubo ligado ao estômago durante um bom tempo, etc.  Essa conversa pesada só foi interrompida quando chegou um amigo jovem da aniversariante e começamos a falar de amenidades. Foi só ele ir embora que o drama recomeçou: tínhamos nos esquecido de um amigo de outro estado que havia sido diagnosticado com esquizofrenia.

Aquele almoço inicialmente despretensioso terminou me fazendo pensar em como as conversas aos 40 são diferentes dos assuntos dos 30, por sua vez tão diversos daqueles dos 20. Acho que os 40 são aquela idade em que começam a aparecer as doenças, não necessariamente dramas tão grandes como esses por que passamos, mas as dores de coluna, pequenos reumatismos, insônias crônicas, síndromes como a do vaso vagal ou pânico. São as doenças do homem (no sentido geral, não de gênero) moderno. Ou para ser mais explícita, as doenças relacionadas ao estresse, à correria. E por que não dizer, algumas vezes, males graves também, como o câncer e a esquizofrenia, que ninguém vai me convencer de que não têm um componente de estresse no roll de suas causas. Claro que o assunto doença não aparece sempre, falamos muito na opção que encontramos para cobrir nossos fios de cabelos brancos, se decidimos ou não fazer preenchimento nas rugas ao lado da boca, na opção entre Yoga ou pilates; e em que terapia alternativa escolhemos para nos equilibrar. E esses assuntos vêm sempre pontuados pela listagem dos homens mais bonitos e interessantes de Hollywood; pelas melhores viagens que já fizemos ou planejamos fazer pelo mundo; ou pelos últimos bons restaurantes abertos Brasil afora.

Aos 30 anos, concluímos naquele almoço, falávamos muito de trabalho, era a época em que alcançamos alguma realização profissional (claro que a idade em que isso acontece varia dentro de um grupo); em lugares bons para morar; em namorados, já que a maioria de nós se casou bem mais tarde; em filmes italianos divertidos e nos melhores bares da cidade. Aos 20, ah, aos 20! Aos 20, a reunião nem acontecia dessa forma mulherzinha. Nos reuníamos todos, em grandes grupos de amigos da faculdade e não para comer, mas para beber nos bares, quase todos os dias. Os assuntos eram cinema, música, política, religião, filosofia, qualquer coisa que fosse profunda e tivesse potencial para causar alguma polêmica. Afinal, queríamos falar, falar, falar, sempre sob o nosso radical ponto de vista.

No almoço daquele dia, chegamos a uma conclusão comum: apesar da ameaça das doenças e do estresse, somos mais felizes e tranquilas aos 40 do que aos 20. Reduziram-se as inseguranças, abrandaram-se as crises existenciais. Temos nossos filhos, nossos maridos, nossas casas e nossos empregos, mesmo que estes últimos não sejam exatamente aquele com o qual sonhamos aos 20. Quem não se casou e/ou não teve filhos, tem muito mais liberdade para viajar e/ou um alto posto no trabalho que também a satisfaz e/ou um mestrado, um doutorado. O fato é que todas nós estamos sempre buscando novidades na esperança de que o tempo continue passando devagar.

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14 Comentários

  1. Passei minha vida sonhando ter os 43 que tenho hoje. E não estava errado. É muito melhor que qualquer outra idade que eu tenha tido. O resto, dramas, doenças e alegrias, você já deixou tudo muito bem dito. Bendito ócio.

  2. É isso aí Mariana… qual mulher que nao se identifica com seu texto?? Realmente o tempo passa… os grupos se modificam… os papos mudam. O que fica sao as memórias de cada etapa da vida que passamos. Como é gostoso relembrar… e como é gostoso viver o presente. Nao me arrependo de nada que fiz na minha vida, pois vivi intensamente feliz. Conheci muita gente boa e as dificuldades pelas quais passei me fortaleceram! Amei ter conhecido a sua família! Como amo a sua prima Suzana, suas irmas e seu tia e tio. Que família maravilhosa!!!
    Quanto a beirar os 40… estou sentindo na pele. Mas acho bom! É tao bom ser adulta kkkk! O difícil foi sair dos 20!!
    Bem… chega né?! Adorei o texto!!!
    Beijos, Samirah.

  3. mari, daqui a pouco chego lá!! Adorei o seu texto. bjs

  4. Mariana querida,
    lindo Dramas e alegrias aos 40!Bem adequado para mim, que farei 40 agora em junho.
    bjs

  5. Eliane Trindade |

    Mari,
    O melhor de qualquer idade é ter amigos com quem falar de alegrias e dores e pode sentar para trocar experiências. Aos 40, o repertório dos papos se amplia. O bom é poder oscilar pela leveza dos 20, a busca de certezas dos 30 e chegar à maturidade dos 40. Precisamos marcar um encontro de meninas, que não seja em festinha de criança… Ahahahhaa. Bjs.

  6. Ainda não cheguei aos 40 (tô perto…), mas tudo soa muito familiar já.
    bjos.

  7. Luiz Mauricio |

    Tá ótimo!

  8. Mari. Me emocionei com o texto. Hummmmm. Tive uma invejazinha boba mas tive,,, quisera eu ser o amigo que trouxe o riso por algun tempo. Melhor ainda, quisera poder partilhar com todos os amigos alguns minutos de relax .. Continue escrevendo pq do lado de cá mesmo emocionadíssimo o meu relax foi total.

  9. Tempo passando devagar aos 30 ou 40??? Nossa, me dá a receita pq o meu passa tão rápido!!!
    Bj!

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