Sonhos bons, sonhos ruins

Sonhos bons, sonhos ruins

Meus melhores sonhos, ou provavelmente os de que eu me lembro melhor, são os que acontecem de madrugada, aqueles logo antes de acordar. Normalmente são sonhos longos, com várias sequências que vão se encadeando umas nas outras. Diferente das de um filme, na maioria das vezes, as ligações entre as sequências não têm muita lógica. Claro, se tivessem, não seriam sonhos.

Em uma madrugada destas, numa dessas raras exceções, tudo fazia sentido.  Éramos uma turma de amigos do trabalho (do meu trabalho real). Trabalhávamos para um juiz que tinha a cara de um magistrado verdadeiro, com quem já fizemos colaborações no trabalho. Os tais amigos iam navegando pela internet e qualquer link no qual elas clicassem ficava registrado no meu blog como uma referência. Enfim, sonhos não têm graça nenhuma quando contados, não conseguimos transmitir o clima para o interlocutor. Mas tenho que dizer que íamos a um cinema ao ar livre, todos nós, os amigos do trabalho e inclusive o juiz/chefe. Nunca li Freud direto da fonte, o máximo que li de psicologia foi a Teoria da Sincronicidade de Jung por causa das músicas Sincronicity I e II do Police. É que as duas são inspiradas na teoria de Gustav Jung, discípulo de Freud que terminou tomando um caminho muito diverso do mestre, e que, nesta obra, pregava que não existiam coincidências e sim uma série de fatos que já estavam previstos para acontecer juntos na natureza. Uma espécie de destino com explicação científica. Mas voltando a Freud, tenho a convicção de que meus sonhos são um reflexo, uma digestão mesmo do meu dia a dia. Ou uma relação de algo que aconteceu no dia com algo que os neurônios puxam do passado recente ou remoto. Isto aliado a desejos, claro.

Pois bem, quando finalmente chegamos ao cinema, vimos um making of, como se fosse um trailer antes do filme principal, do longa-metragem estrelado por uma amiga minha, Adriana Vasconcelos (a cineasta e atriz, não a jornalista homônima). Ela estava lá muito expressiva, falante e magra, uma estrela mesmo. Desejo pelo seu sucesso? Reflexo do sucesso recente do filme que ela dirigiu? E não é que o juiz também participava do filme? Tenho muita nostalgia das turmas de que participei em minha vida. Por isso, muitas vezes perambulo pelos sonhos em companhia de uma turma. Neste caso, desejo. Quando a coisa está ficando interessante, muitas vezes acordo. Às vezes conseguimos voltar a dormir e o sonho continua. Incrível o cérebro, não?

Nos meus sonhos, muitas vezes o meu melhor amigo é um ator famoso. Reflexo das horas em frente à televisão assistindo ao Oscar ou a filmes no cinema? Conversamos muito sobre todas as coisas, é como se eu o conhecesse muito bem. Mas nestes sonhos, não tem nada de erótico, são só conversas. Já os ex-namorados, especialmente aqueles de quem se tem alguma mágoa, aparecem bonzinhos, sem defeitos. As qualidades são ressaltadas, como se o cérebro, em uma atitude de autodefesa, quisesse nos fazer esquecer as coisas ruins que ficaram em nosso passado mas, ao mesmo tempo, nos torturar com as boas.

E há os pesadelos, claro. Tenho muito mais sonhos bons do que ruins, mas confesso que tenho tido vários pesadelos ultimamente e sei que são reflexos dos maus bocados que passei neste ano com a fase terminal da vida da minha avó e sua subsequente morte. Acordo assustada no meio da noite e dá vontade de chacoalhar meu marido para que ele me conforte e eu consiga dormir bem de novo. Houve pesadelos com assaltos e até seqüestros. O último, há poucos dias, envolvia um antigo desafeto, digamos uma ex-amiga. Ela povoava o pesadelo do início ao fim, me infernizando com sua presença altiva e ainda por cima aliada a um antigo amigo que anda desaparecido e cuja presença no sonho, por causa disso, já era suficiente para me atormentar. Num belo momento, os dois simplesmente me deixavam sozinha em um bondinho que ligava a parte baixa à alta da cidadezinha imaginária onde estávamos em uma viagem de trabalho. Sem conhecer direito o local, eu tinha que voltar, abandonada, para a parte alta da cidade. Para chegar ao hotel, eu teria que vencer um parque de diversões cheio de aviões que rodavam em torno de si mesmos com suas asas ameaçadoras (reflexo claro da obcessão do meu filho de 2 anos por aviões e todas as outras máquinas voadoras). E quem aparece para me resgatar? Meu amoroso marido. Bom, ainda bem que o cérebro às vezes trata de dar um alento no final.

Repetições

E quem nunca teve sonhos que se repetem ao longo da vida? Por boa parte das  minhas infância e adolescência, sonhei reiteradas vezes que estava em cima de um escorregador (ou escorrega, como eu aprendi) localizado bem no meio da jaula do jacaré. Eu tinha certeza que aquela jaula era a do Zoológico do Rio de Janeiro, o primeiro que eu visitei na vida, porque em alguns momentos aparecia o marcante portal antigo daquele parque. Tive este sonho inúmeras vezes, com variações na história, mas sempre com a “cena” do escorrega. Fiquei emocionada no dia em que, já com mais de 30 anos, revi o zoológico, que fica muito bem localizado no meio da Quinta da Boa Vista, e constatei que o portal ainda estava lá, e está até hoje. As ruelas eram iguais às do sonho, mas a jaula do jacaré era diferente, o que foi um anticlímax.

E quem já não sonhou que está voando? Claramente, desejos. Sonho muitas vezes que estou voando baixo, logo acima das árvores e, às vezes, por entre os blocos das quadras de Brasília. Quase tenho certeza que Ítalo Calvino escreveu “O Barão nas Árvores” depois de um sonho desse tipo.

Atualmente, ando sonhando muito com uma outra fase da minha vida no Rio. Dou voltas e voltas pelo bairro do Humaitá. Cada vez estou em um ponto e encontro pessoas diferentes ou não consigo encontrar as que procuro. É o sonho recorrente da vez.    

Tenho uma amiga muito próxima que tem sonhos premonitórios. Ela sonha e muitas vezes acontece. Comigo é o contrário. Sonho sempre com o passado. Poderiam ser acertos de contas com o passado. Mas não são. São só encontros. Às vezes ruins, às vezes muito bons!

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20 Comentários

  1. Sonho muito,mas às vezes não gosto, muitas vezes o que eu sonho acontece.quase sempre!
    Bjs.

  2. Minha amorosa escritora:
    Gostei muito de aparecer como o “herói” desta história toda. Aliás, ser o “mocinho” – para alguém que, como eu, nunca se lembra de nada ao acordar, a não sem em caso de pesadelo – é o próprio sonho. Gostaria muito de poder me lembrar deles para analisá-los.

  3. Adorei! O universo onírico é realmente mágico, insaciável. Podemos ter inúmeras interpretações dos nossos sonhos — desejos reprimidos, sincronicidade, avisos divinos, neurônios tentando se aprumar depois de um dia repleto de atividades. Na verdade, acho que é tudo isso e mais um pouquinho. Não temos como decifrar alguns sonhos. São malucos demais e aí é melhor se resignar com a insignificância humana diante dos mistérios da mente. beijos e parabéns pelo texto.

    • Pati, pra mim costuma não ser tão difícil fazer as interpretações, costumo saber mais ou menos as razões dos meus sonhos… Maurice, dizem que quando a gente acorda se lembra do último sonho que teve antes de acordar. Eu acordo algumas vezes durante a noite. Pelo jeito, você deve ter um sono pesadão por isso não se lembra dos seus! Bom prá você (dormir pesado)! Samirah, obrigada pelos dois comentários, super carinhosos! Adriana, os premonitórios costumam ser os da Pati, mas quem sabe o meu também não é? Tomara meeeesmo!

  4. Luiz Mauricio |

    Eu nunca lembro bem dos meus sonhos, mas sei que sonho muito.
    Gostei!!
    Bjs,

  5. Super interessante… como é bom escrever sobre um sonho que se teve… só assim ele sai da mente. Conheco muito bem esse tipo de coisa. Às vezes tenho sonhos muito intensos com pessoas que conheco no Brasil e que já nao vejo ou falo a muitos anos. Quando acordo sinto uma vontade de ligar para saber como estao… Quanto a sonhos repetitivos… Quando crianca e adolescente sonhava sonhos diversos, mas o fim era sempre igual. Eu procurava minha mae desesperadamente e acordava antes de encontrá-la. Nunca soube o por que… mas hoje em dia acho que era um sinal de dependência. Preciva mais dos meus pais do que imaginava. Acho que parei de ter esses sonhos quando saí de casa e me tornei mais segura e independente.
    Mariana, parabéns por mais um texto interessante e gostoso de ler! bjs Samirah.

  6. Nossa Mari! q os anjos digam amém ao seu sonho comigo.. q ele seja premonitório!!!…Adoreiiiiiiiii…
    Beijo gde

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