A Copa do Mundo e as meninas

A Copa do Mundo e as meninas

A primeira Copa do Mundo de que me lembro é a de 1978. Me lembro que saíamos para comemorar as vitórias da seleção na caçamba de uma caminhonete antiga que meu pai tinha, em plena W3, principal via de Brasília naquela época. Lembro-me de que adorávamos isso. E também me lembro do Rivelino. E é só. Daí para 1982 parece que passou uma década pelo menos. Tinha 13 anos naquela Copa que, para mim- e acho que pra muita gente- apesar das vitórias seguintes, foi a mais marcante.  

Morávamos em São Paulo porque minha mãe estava fazendo seu doutorado na USP naquele ano. A contragosto meu, que tinha deixado a turma da minha vida em Brasília para me mudar para a fria metrópole, para mim, fria em todos os sentidos, pelo menos no início. A Copa de 82 foi marcante por vários, mas por um motivo principal: 1982 veio depois do glorioso 1981. Poucos meses antes, o Flamengo tinha trazido do longínquo Japão a Taça de Campeão Mundial Interclubes. Uma glória imensurável para mim, uma carioca que, embora praticamente só tivesse feito nascer no Rio (não tenho sangue fluminense), tinha aprendido a nadar nas piscinas do Clube da Gávea aos três anos. Com essa turma da 109 sul (não a famosa gangue da quadra, mas minha turminha de pré-adolescentes), passei a gostar ainda mais de futebol. Meu pai, pernambucano, era um Santa Cruz que chegando ao Rio se encantou pelo Flamengo. Nunca foi fanático, mas não se furtava a jogar suas peladas ou a levar as duas filhas ao Maracanã.

Pois bem, na turma da 109, éramos quatro meninas e pelo menos uns 15 meninos. Sempre fui moleca, adorava plantar bananeira (na verdade, ousava mais, fazia “parada e ponte”) debaixo do bloco e a partir daquele ano comecei a assistir futebol pra valer. A grande maioria dos meninos, muitos filhos de cariocas que migraram para Brasília, era flamenguista como eu (e minha irmã, Joanna). Uma das exceções importantes era o Lívio, um vascaíno tão roxo que durante os 15 anos seguintes, quando nós meninas nem “andávamos” mais com a turma, chamava os meninos pra descer assoviando a primeira estrofe do hino do Vasco. A briga era boa, talvez tão saudosa quanto aquele fenomenal time do Flamengo.  

Longe da turma, me restava São Paulo. Um alento importante para a saudade que eu sentia dos meus amigos foi o fato de um dos professores da escola em que estudávamos, o Vera Cruz, ter indicado a leitura de “Mengo, uma odisséia no Oriente”. Em nada se parecendo com uma obrigação escolar, o livro de Carlos Eduardo Novaes foi para mim uma verdadeira viagem. Imagine acompanhar a trajetória de um grupo de flamenguistas que saem do Rio de Janeiro passando por meio mundo até chegar a Tóquio para a grande final. O outro alento era assistir aos jogos da Copa na casa de duas grandes amigas: Gabi, de quem não tenho notícias há anos, mas era uma boa companheira da 7ª série C “do Vera”, e Juliana, que conheci aos cinco anos, morando na Bahia, e que, coincidentemente, me acompanhou por várias cidades onde vivi. Como não poderia deixar de ser, agora ela e meu primo Tota, com quem se casou, mora aqui em Brasília.

Na casa da Gabi, na mesma rua do nosso apartamento, em um sobrado da Vila Madalena, assisti a alguns jogos com ela, a mãe, Regina, e o padrasto, Orlando. Lembro-me muito de ter ouvido a narração de Sílvio Luiz pela primeira vez lá. Até hoje tenho um misto de sentimentos por ele: acho-o um pouco enjoativo, mas ao mesmo tempo muito engraçado. Atrapalhando o Sílvio Luiz ficava um cachorrinho que eles tinham insistindo em dar suas latidas durante o jogo. O clima não poderia ser melhor.

Na casa da Juliana, que na verdade era a casa de Ceci e Sato, um casal de nisseis amigos de juventude dos meus pais, assisti à derrota do Brasil. Mas não só. Tínhamos visto alguns jogos da Copa ali, onde os animados Sato e Ceci sempre recebiam um grupo de pessoas. O pequeno Hélio, irmão da Ju, então com 2 anos, corria pela sala junto com os dois cachorros pincher da família. Era uma casa grande, de dois andares, com uma agradável claridade e um traçado modernista. Nos fundos, um belo gramado. A festa era grande e, nos intervalos, invariavelmente, saboreávamos o inesquecível patê de ovos e cebolas com maionese feita em casa de Ceci.

Não precisava ser flamenguista para admirar aquela seleção. É verdade que tínhamos Leandro, Júnior e Zico. Mas os corinthianos (meu time em São Paulo, a que tenho direito já que morei na cidade duas vezes) contavam com Sócrates, os são paulinos com Valdir Peres, Serginho e Renato, os atleticanos do Galo tinham ninguém menos que Cerezo, Luisinho e o chutão de Éder… E havia Edinho, Paulo Isidoro, Falcão (o Rei de Roma) e Roberto Dinamite, artilheiro do Vasco e odiado- e temido- por nós flamenguistas. Era a seleção dos sonhos de qualquer treinador, no caso Telê Santana. Um time que fazia jogadas de encher os olhos. Muito diferente do que viriam a ser as equipes a partir dos anos 90, movidas a força e rapidez e nada de beleza.

Mas aquele time dos sonhos perdeu. Foi eliminado pela Itália do carrasco Paolo Rossi, como todos os que têm mais de 35 anos se lembram bem. E foi naquele gramado da casa da família Sato que, desoladas e revoltadas, eu, minha irmã, Juliana e uma amiga dela queimamos a bandeira do Brasil. Chorávamos de raiva e tristeza enquanto a bandeira queimava. Nossos pais devem ter rido por dentro diante da cena cômica, ao mesmo tempo em que sentiam pena de seu lado trágico: suas meninas passavam por uma das maiores desilusões que tinham sentido em suas breves vidas. Afinal, levávamos o futebol e o Brasil a sério.

De volta a Brasília desde o fim de 82, veio 1986, de que me lembro muito pouco. Apenas de que a seleção ainda tinha resquícios da formação de 82 e de que assisti a ela com meus colegas do Segundo Grau do Inei. Foi interessante assistir com eles porque, como qualquer grupo de adolescentes brasileiros, meus amigos adoravam futebol e eu, por outro lado, adorava vê-los jogando na quadra de futebol de salão do colégio durante o recreio. Fred, Samuel e Marco Antônio, pelo menos destes três me lembro bem, não faziam feio.

Fora Galvão

Se em 1990, a Copa praticamente passou em branco- eu estava na faculdade e tínhamos outras prioridades “mais engajadas”- 1994 ficou na memória. Eu era repórter da editoria de “nacional” do Correio Braziliense, cobria alguns Ministérios e os tribunais superiores. Também contribuía muito com a Política pois era ano de eleição e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) estava pegando fogo com os processos de Fernando Henrique contra Lula, Lula contra Fernando Henrique, Brizola contra todos. Portanto, na histórica final de Brasil e Itália eu estava de plantão e escalada para fazer, aqui em Brasília, nada importante, apenas a cobertura da repercussão do resultado nas ruas. Fosse ele qual fosse.

Como naquele tempo eu já tinha horror a Galvão Bueno, tinha assistido até ali a todos os jogos na Bandeirantes, com a narração do meu preferido, o equilibrado Luciano do Vale. Por superstição, não poderia ver a final na Globo, claro. A questão era que todos os demais jornalistas, inclusive os chefes, tinham o problema contrário: também não abririam mão de mexer em time que está ganhando: ou seja, assistiriam a Brasil e Itália com a narração insuportável de Galvão, ganhando de presente os mornos comentários de Falcão. Sem saída, terminei indo para a sala do então Diretor de Redação, Ricardo Noblat. E ali fiquei, sozinha, pelos 90 minutos da partida. Claro que, assim que Baggio jogou a bola para longe do gol, corri para comemorar na redação com meus colegas.     

Sem muito a acrescentar sobre o clima da vitória de 2002, que comemorei com um grupo de gringos do hotel deles numa Copacabana coberta de verde e amarelo, dou um pulo no tempo para os dias atuais. Afora a animação e a riqueza lingüística da torcida sul-africana com suas vuvuzelas, jabulanis e bafanas-bafanas, a tendência retranqueira de muitos times, a decepção causada por alguns favoritos como a Espanha e o aparente neo-favoritismo de Alemanha e Argentina, não sabemos o que será do Brasil nesta Copa de 2010. Mas para mim, com certeza, já desponta como uma daquelas inesquecíveis. É a primeira Copa do meu filho João. Aos dois anos, incentivado pela mãe e com uniforme completo da seleção dado pelo avô, ele abriu o pulmão para gritar “Goooooool do Brasil!” duas vezes encantando até o pai que liga tanto para futebol que assistiu à estreia vestido de roxo.

Também será a primeira Copa de Théo e Nina, os dois filhos da Juliana e netos de Ceci que, com certeza, vai estar acompanhando os primeiros passos de seus netos como torcedores lá da Terra Pura (o céu dos Budistas). A avó de João e sua prima Anita, minha mãe, Rosa, também acompanha entusiasmada daqui de Brasília a estreia dos dois como torcedores da seleção.  Aos três anos recém completados, Anita, a filha da minha irmã Joanna, torce pelo Brasil lá de São Paulo, onde elas moram. João, Anita, Théo e Nina estão começando a construir suas primeiras lembranças de Copas. Quem sabe serão do Hexa? Nunca é demais sonhar.

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19 Comentários

  1. Mariana, venho acompanhando seu blog desde o inicio, apenas não comentava…mas em silêncio eu estive sempre por aqui!!!!

    Gostei de vê-los ontem, ainda que rapidinho!
    vamos combinar novos encontros!
    beijos
    Cacau

  2. A primeira Copa de que me lembro também foi a de 1978, muito mais pelas frustrações do que pelas boas sensações. Que revolta ter visto o Brasil ser roubado naquele jogo entre Argentina e Peru em que os peruanos se deixaram golear por 6×0. Lembro que o nome do goleiro era Quiroga e os brasileiros o apelidaram de “Que Droga”! Bem, e claro, a Copa de 1982 foi inesquecível. A melhor seleção que já vi jogando. Depois da nossa fatídica derrota para os italianos, passei um mês inteirinho chorando. Como todo mundo, fiquei absolutamente desolada com aquela derrota injusta. Mas c´est la vie. Vieram outras copas e outras alegrias. Amo Copa do Mundo!!!! beijos, Pati.

  3. Mariana,

    Acho que quem é da nossa geração certamente não se esquece da Copa de 1982. Lembro até hoje da tristeza profunda do meu irmão Flávio, parecia que tinha morrido alguém da família. Enfim, só vi seu recado de que vc estava aqui em SP na segunda, tarde demais para nosso encontro. Espero que tenha dado tudo certo.
    bjs

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