Dia dos namorados embalado a Madeleine Peyroux

Dia dos namorados embalado a Madeleine Peyroux

Mesmo tendo dado de cara com o último CD de Madeleine Peyroux em destaque na Livraria Cultura do Iguatemi no dia do show da cantora americana em Brasília, tomei uma decisão: desta vez, assistiria à apresentação sem ter ouvido o disco. Queria fazer diferente do que costumo: ter o primeiro contato com as músicas ali, ao vivo. A experiência não poderia ter sido melhor. Acompanhada de seu violão e de uma afiada e animada banda de cinco músicos (piano/teclado, guitarra, baixo/contrabaixo acústico, bateria e trumpete) no palco da Sala Vila Lobos do Teatro Nacional, a cantora soava bem diferente da que se apresentou no Centro de Convenções em 2007: ainda que bastante jazzístico, o som da turnê “Bare Bones” está muito mais moderno, com bastante blues contemporâneo, flertando com o pop, e até com solos de guitarra beirando o rock and roll. É claro que os blues com cara de anos 40/50 que fizeram Madeleine ser comparada a Billie Holiday quando ela apareceu no fim dos anos 90 também deram o ar da graça. Para alegria do público ávido por hits dos discos anteriores, Madeleine voltou a cantar músicas como “Don’t wait too long”, “This is heaven to me” e “Dance me to the end of Love” de seu mais famoso CD, “Careless Love” (2004). Faltou a contundente (e minha preferida) “Between the bars”. Mesmo assim, não poderia ter havido melhor forma de comemorar o Dia dos Namorados. Era como se Madeleine- e sua voz marcantemente romântica- tivesse sido contratada no dia 12 de junho de propósito. E ela foi avisada disso.

“É minha sorte que hoje é o dia dos namorados, então gostaria de brindar ao amor junto com vocês. Saúde!”, disse Madeleine, em português ensaiado, emendando a nostálgica e bela “La javanaise”, do CD “Half the perfect world”, o quarto de sua carreira, de 2006. Em sintonia, os músicos fizeram um semi-círculo em frente ao palco em volta da cantora, empunhando pequenos instrumentos, como se estivessem fazendo uma serenata para os namorados. O super jovem baterista Darren Becket soltava suavemente sua paleta sobre uma mala de metal, o pianista tocava um micro-teclado portátil, o contrabaixo acústico e o trumpete acompanhavam de perto. Nada de guitarras aqui.

Filha de mãe francesa e pai americano, Madeleine Peyroux canta em francês com pronúncia impecável. Nasceu na Geórgia e passou a adolescência entre o sul da Califórnia, o Brooklyn e Paris. Começou a carreira aos 15 anos em grupos que tocavam nas ruas da capital francesa. E escolhe algumas típicas chançons françaises para figurarem em seus repertórios, cuja maioria das letras são em inglês. Até sua forma de se vestir se aproxima mais da de uma francesa descolada do que do visual Nova Iorquino moderninho dos demais integrantes da banda. Os cabelos presos despretensiosamente, a calça de brim e as botas surradas parecem tentar encobrir a beleza do rosto da cantora. Uma das faixas de “Careless Love”, “J’ai deux amours”, confirma: “J’ai deux amours: mon Pays e Paris (Tenho dois amores, meu País e Paris)”. Mas esta, que cairia tão bem na data, infelizmente, ficou de fora do novo show.

 Canções francesas e tradição americana

A mesma intimidade que tem com o cancioneiro francês, Madeleine demonstra com as diversas vertentes da melhor música americana. O jazz nascido em New Orleans e depois levado a Chicago e a Nova Iorque é a grande inspiração de Madeleine, mas sua forma de cantar se aproxima mais do blues. O jazz já “modernizado” dos anos 40/50, eternizado pelas grandes cantoras como Ella Fitzgerald e Billy Holiday foi o cerne de seu início de carreira. No primeiro disco, “Dreamland” (1996), regravações de canções interpretadas pelas duas divas e de Fats Waller dividiam as faixas com três músicas da própria Madeleine. Nos CDs seguintes, que a tornaram famosa, ela regravou alguns standards como “Don’t Cry Baby” (de J. Bernie e J. Johnson) e apostou em composições novas com musicalidade emprestada dos antepassados. Com o timbre realmente parecido com o de Billie Holiday, Madeleine não teve medo de parecer pouco original ao uni-lo ao estilo que imortalizou a cantora negra americana. Cantava jazz e blues antigo e, não fosse a qualidade das gravações atuais, poderia mesmo ser confundida com Lady Day. Na turnê de 2007, deu entrevistas dizendo que não se importava tanto com as comparações e que já estava criando um estilo próprio.

“Bare Bones” veio para mostrar que, agora, sim, Madeleine Peyroux estava pronta para fazer algo bem diferente. Compôs cada uma das 11 faixas. “É uma experiência tão nova que me sinto como se estivesse fazendo o primeiro disco de novo”, afirmou em entrevistas. Isso explica a diferença. “Bare Bones” não é nem melhor nem pior, é ainda muito bom. Na faixa título do CD, que ela classifica como uma das suas “drinking songs” (canções para beber), a bem humorada cantora (nisto bem mais americana que francesa) e sua banda abusam do teclado, do blues, do pop, com um belo resultado. Ao vivo, com a densidade da banda – versátil, passando dos instrumentos acústicos do jazz para os elétricos do pop- “Bare Bones” cresce, revela uma boa compositora de melodias e dá vontade de dançar. Quando uma pessoa da platéia pede um oldie, Madeleine não perde o humor: “I know that song. But don’t you think these other ones are much better?”. 

 

Os músicos da banda dão um show à parte. Em uma típica canção americana, Madeleine canta enquanto o guitarrista Jon Herington, um sósia de Lou Reed, troca a guitarra elétrica por uma espécie de bandolim. Um pouco mais tarde, o bandolim volta para se encontrar com o trumpete de Ron Miles e o público se transporta para o Mississipi dos anos 50. Madeleine resolve cantar um “woman’s blues” e Jim Beard troca o piano pelo órgão com som de igreja, acompanhado apenas da bateria e do contrabaixo. Depois, o baterista empresta uma batida da Bossa Nova para uma canção do canadense Leonard Cohen. Na inédita “Standing on the roof top” o som parece com um bolero futurista.

As mais jazzísticas me fizeram lembrar uma conversa recente com dois amigos do trabalho. Eles comentavam como é bom assistir a shows em lugares como o já saudoso Canecão, onde se pode ouvir ótima música tomando um drink. Show de jazz definitivamente combina com um bom drink. No meu caso, um em especial: a vermelha Tequila Sunrise que me acompanhava em todas as diversas apresentações em clubs de jazz a que fui em minha temporada Nova Iorquina de 1996: Iridium (na época em que ainda ficava perto do Lincoln Center); Sweet Basil, Village Vanguard (Blue Note não porque já era extremamente comercial, com três shows de 45 minutos na mesma noite). Drink sim, barulho não. E, jamais, celulares com câmeras que tiram a atenção da apresentação como neste sábado na Sala Villa Lobos. Isso tem que ser proibido.

Sem o intimismo dos clubs, mas com o gostoso clima de nostalgia do Teatro Nacional, na quarta fileira, graças ao presente do meu dedicado marido, começou ali um Dia dos Namorados para não ser esquecido.

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13 Comentários

  1. Mariana, apesar de você ter me chamado de “rabugento” (uma palavrinha que me soou meio retrô), gostei muito de seu texto. Você coloca bem a relação de Madeleine com a canção tradicional americana. Não vou voltar àquela discussão, até porque acho que ela cabe melhor naquele seu texto de apresentação do que neste aqui. Mas observo que o seu disco mais recente, Bare Bones, é bem mais jazzístico que o primeiro, Dreamland. Beijos.

    • Alexandre, o “rabugento” foi circunstancial. Que bom que você afinal gostouu do texto. Sempre melhor ler o original do que a chamada, né? Ainda não comprei o “Bare Bones” como disse no início do texto, mas vou comprar se não ganhar de aniversário de alguém. E pra mim quanto mais jazz, melhor! Mas gostei do fato de o show ter uma coisa mais pop também. Você foi ao show de 2007? Foi totalmente diferente. Bjs!

  2. “Dance me to the end of love…”
    Que voz!

  3. Apesar do estilo mais “pop”, Madeleine Peyroux certamente tornou o dia dos namorados ainda mais especial. Pra mim, foi um privilégio tomar conhecimento, em primeira mão, das impressões de Mariana sobre o show, que hoje ela divide com os leitores deste blog.

  4. Mariana, faz tempo que ando ensaiando deixar um post aqui no seu blog. Mas hoje seu texto foi irresistivel. Muito bom. Com conhecimento de causa e pele. De quem gosta de música e não faz lá muitas concessões.
    Adoro esta cantora desde que tomei conhecimento de sua existência. Tem bom gosto, é francesa o suficente para não ser deslavadamente americana, ama o que faz, e não pode nunca deixar de cantar “j´ai deux amours: Paris et mon pays”. Mariana, vc está coberta de razão.
    E que bom que vc pôde ouvi-la e vê-la em sua performance mais madura, encantadora.
    Parabéns ao Mauro pela inciativa doce e amorosa, e que bom Mariana, que vc dividiu sua experiência conosco.
    Não pare. Não fique com preguiça, nem com sono, nem com vontade de …qualquer outra coisa. É bom ler o que vc escreve e, por causa disso, é bom estar com vc por aqui.
    Um grande beijo da Sonia

    • Sônia, muito obrigada pelas palavras carinhosas. Realmente, gosto muito de música e, em especial, de jazz. O show foi maravilhoso, mais denso e balançado do que o de 2007, que eu também assisti, daquela vez com minha mãe. O de 2007, foi mais intimista, com menos instrumentistas, muito ela e o violão e mais jazz e blues mesmo. Não deu prá escrever sobre ele, o texto já está gigantesco. Obrigada pela leitura e pelo incentivo! Bjs, Mariana.

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