Viagem ao fundo do mar

Viagem ao fundo do mar

Nas duas últimas décadas, estive em diversas praias magníficas em que o mergulho teria revelado um paraíso ainda mais rico se eu tivesse me aventurado alguns metros abaixo com a ajuda de um escafandro, aquele tanque de oxigênio que permite que o ser humano quase se sinta parte do maravilhoso mundo do fundo do mar. Em Fernando de Noronha cheguei a nadar ao lado de um cação- filhote de tubarão- e vi até um camarão em uma piscininha natural de água azul cristalina. Na Ilha Grande (RJ), vi corais de diversas cores, peixes listrados relativamente comuns, mas ainda assim belos e em quantidade, e o mais emocionante: uma estrela do mar viva lá embaixo na areia. Em Abrolhos, na Bahia, uma reserva ecológica alguns quilômetros mar adentro, nos deparamos com peixes que não se encontra na costa, azuis com a cauda amarela, maiores que uma mão aberta.

Mas foi nas águas translúcidas de Cozumel, no México- que guardam a segunda maior barreira de corais do mundo, atrás apenas daquela famosa da Austrália- que aprendi a colocar o ar do ouvido para fora e desci, ainda sem o escafandro, cerca de cinco metros. Os peixes eram enormes, os corais super diversificados, e havia uma folha de cerca de meio metro de uma cor verde-prateada que nascia do fundo do mar. Lá de cima, eu avistava os escafandristas mais embaixo em bando e me lembrava da música de Chico Buarque. Se vi tanta vida contando apenas com meu fôlego e um snorkel, imagine se tivesse autonomia total. Mas em nenhum destes lugares tive coragem de fazer o tal mergulho inicial, o chamado batismo.

Quando era mais jovem, simplesmente o adiava e, depois que me tornei mãe, o medo aumentou e praticamente desisti de vez. Nunca pensei que justamente em uma viagem em família, com meu marido que nem gosta de se aventurar no mar e meu filho de dois anos que prefere a segura areia da praia, iria finalmente fazer meu primeiro mergulho com o assustador ar comprimido substituindo o ar natural. Nosso destino foi a praia de Maragogi, Alagoas, que está se tornando cada vez mais famosa justamente por causa de suas Galés, arrecifes a cerca de 6 quilômetros da costa que formam piscinas naturais de tamanho considerável. Nosso guia, Felipe Carvalho, era uma mistura de apresentador de vídeos de auto-ajuda com vendedor talentoso. Quando não estava dizendo aos visitantes a sorte que eles tinham de estar ali aproveitando aqueles preciosos momentos bem longe do estafante dia a dia, fazia um bom trabalho convencendo pessoas como eu de como mergulhar não tinha nada de perigoso. O mergulho seria a apenas 3 ou 4 metros de profundidade, rápido e com um de seus auxiliares exclusivamente acompanhando cada aventureiro. Bem, eu já havia mergulhado mais fundo do que isso sem oxigênio e o guia particular dava segurança. Não sei como, mas ali, no catamarã que seguia mar adentro, resolvi que faria minha estreia.

 

Com meu filho a salvo de colete no colo do pai, e a água batendo um pouco acima da cintura de meu marido, me senti segura para começar o rápido treinamento. Ele consistia em submergir o rosto respirando com o bocal que traz o oxigênio do tanque. Foi fácil. Aos poucos, fui perdendo o pânico de ter uma vontade súbita de tirar aquela coisa da boca e tentar subir para respirar livremente. Este sempre foi o meu maior medo. Quando me acostumei e me senti pronta, meu guia particular me levou para perto de uma barreira de corais, colocando a mão contra o tanque de oxigênio preso nas minhas costas. Era preciso fazer pressão para que eu submergisse já que, nesta primeira aula, ainda não se aprende como controlar a quantidade de ar, processo que permite que se suba e desça dentro d’água.

 

Primeiro veio aquela sensação de liberdade que eu sempre pensei que teria. Depois a constatação principal: você está fazendo parte daquele outro mundo, o mundo submarino. Provavelmente lembrei-me de por que gostava tanto dos episódios “O Reino das águas claras” do Sítio do Pica-Pau Amarelo e das aventuras do “Homem do fundo do mar”. A autonomia promovida pelo oxigênio confere ao mergulhador tempo para observar tudo com calma. Os peixes passam por você olhando como se mirassem uma outra espécie que habita o mar. Peixes grandes, do mesmo tamanho e, incrivelmente, da mesma espécie dos que vi em Cozumel: do cumprimento de duas mãos uma em frente à outra, em tons degradês que vão de um verde claro metalizado até o azul. Lindos!

 

Nos arrecifes, vários ouriços grandes e corais amarelos, verdes, brancos, avermelhados, cor de coral mesmo. Dentro de uma caverna, peixes pretos pareciam não querer sair dali. No fundo do mar, uma espécie exatamente da cor da areia fugia se confundindo com o chão quando aproximávamos a mão. E para brindar o fim do mergulho, meu guia encontrou um caramujo enorme, do tamanho de uma mão, com seu devido molusco preto dentro, gigante para os padrões terrenos. Nunca tinha visto nada parecido.

Voltamos cerca de vinte minutos depois. Experimentei um misto de sensação de vitória e deleite pela estreia com uma enorme pena por não ter feito parte do universo que se esconde sob as águas de todos aqueles paraísos ecológicos que havia visitado antes. Nada que novas viagens não possam vir a compensar.

Contatos Felipe Cavalcante (instrutor de mergulho):

E-mail: felipecavalcante2@gmail.com

Telefones: (82) 9177-4260 e 8862-7830

Compartilhe:
  • Print
  • Digg
  • del.icio.us
  • Facebook
  • Google Bookmarks
  • LinkedIn
  • Live
  • MySpace
  • RSS
  • Twitter

17 Comentários

  1. RUI MONTEIRO SOARES |

    Oi Mariana,

    Não sabia de suas aventuras submarinas, porém estou encantado de sabê-las, já que mergulho há muito tempo. Hoje estou meio ¨aposentado¨. Gosto de caça submarina, porém já faz algum tempo que não pratico. Tenho todo o material em Tamandaré. Fiz curso de mergulho no Clube Náutico e meu ¨batismo¨ foi em um navio afundado na costa,na profunidade de 32 metros! Quando vamos para profunidade maiores, temos de obedecer a uma tabela especial para subir a superfície e descompressão.
    Gostei das fotos, acho que o fundo do mar está entre as maravilhas da Terra. Tenho algumas fitas de Jaques Coustau.
    Vou mandar algumas fotos de João, já que não tenho fotos do mar.

    • Tio, que maravilha! Então, você é um mergulhador super experiente. Como eu disse no texto, nem sei se teria coragem de mergulhar a mais de quinze metros, quanto mais 30! Se bem que se a gente vai indo, termina criando coragem. Depois quero saber tudo o que você viu (de bichos). Que batismo é esse?? 32 metros já pra começar?! Beijos grandes e obrigada pela leitura.

  2. Só no Brasil mesmo para ter acompanhante. Eu também quero um! Mas que maravilha! Iremos para o Mar Vermelho em outubro, para o Egito. Lá é muito bom de mergulhar, mas acho que nao vai dar para a gente, com duas criancas… Mas já comprei um snorkel para a minha filha que terá seis anos, já é o comeco para ela. Deve ser ma-ra-vi-lho-so mesmo mergulhar.

    • A Nina é uma menina privilegiada mesmo!
      Fazer o primeiro mergulho da vida dela
      em águas históricas! Snorkel também é
      fantástico, foi como fiz até este
      primeiro mergulho com cilindro. Vocês
      vão revezando, não desperdice esta
      oportunidade. Bjs!

  3. Mari,
    Eu tambem nunca tive coragem de mergulhar de escafandro. Quem sabe agora, depois de ler sobre essa sua aventura maravilhosa eu tome coragem….
    Adorei!!

    • Pois é, Cristina e Suza, a coragem tem que vir de repente. Incrível como a conversa mole do tal Felipe me ajudou a enfrentar o meu. Suza, aventure-se você também! Lugar não falta aí por perto. Walter, onde você está morando? Em Maceió? Muito obrigada pelo elogio ao texto, tem ainda mais valor vindo de um professor de filosofia!

  4. É Mari,
    o mundo é cheio de surpresas igual a vida. Quando voce menos espera, o medo desaparece e surge a coragem e que bom que sua coragem foi encontrada nas aguas brasileiras e ainda jovem.
    Parabéns pelo mergulho.
    Bjs

  5. Mariana,

    As fotos são lindas, mas sua narrativa é muito, mas muito melhor. Parabéns. Eu, que estou pertinho de Maragogi, fiquei até com saudades do lugar.
    Abraços,

Deixe um comentário