Ótimo filme em cinema de luxo

Ótimo filme em cinema de luxo

Pipoca com três opções de azeite: manjericão, alho e pimenta vermelha, e sal com “quatre épices” (quatro especiarias), como diz o orgulhoso e chique atendente, além de guardanapo. Para relaxar, espumante e vinho de boa qualidade em porções individuais. Tudo isto pode ser consumido a preços salgados, mas com tranquilidade em uma mesinha individual instalada à direita de quem for aos novos cinemas de luxo inaugurados no último fim de semana no Kinoplex do Park Shopping. Por R$ 45, assiste-se a filmes selecionados em poltronas de couro enormes, que se reclinam quase permitindo que o espectador se deite e com um apoio completo para os pés. Mesmo na posição “deitada”, sobra espaço para que as outras pessoas (poucas, já que o número de lugares é bem reduzido) passem em frente confortavelmente para ocupar seus lugares. Os comes e bebes são trazidos quando você já está confortavelmente sentado (ou deitado) e o ar condicionado fica em temperatura agradável, nada dos iglús que se vê por aí.  Ficou com vontade de ir ao toalete? Eles são exclusivos destas duas salas de cinema, com decoração moderna e cheiro de limpeza.

E como se a sensação de estar assistindo a um filme no seu próprio hometheater não fosse suficiente, os programadores ainda escolhem a dedo os títulos a serem exibidos nas duas salas: nesta semana, a ficção sobre sonhos A origem, do diretor de Amnésia, prometendo, portanto, ser boa; e Destinos Ligados (Mother and Child, no título original, bastante literal), o mais novo filme do diretor do marcante 10 coisas que se pode dizer só de olhar para ela (1999), o colombiano Rodrigo Garcia. Com saudades de tramas mais profundas desde que a rede de salas da Academia de Tênis fechou as portas após um incêndio em abril passado, optamos pelo último.

 Filme Painel

Robert Altman foi, provavelmente, o inventor do chamado Filme Painel: aquele em que várias histórias sem qualquer relação aparente entre si se desenvolvem paralelamente. Em algum momento dos enredos, é revelado ao espectador que existia ou passará a existir alguma ligação importante entre os personagens dos filmetes que perfazem o filme. Quem não se lembra de Short Cuts, de 1993, o melhor exemplo de um filme painel de Altman? Quentin Tarantino se aventurou pelo “gênero” de forma original em Pulp Fiction e o mexicano Alessandro Gonzáles Iñarritú é um dos maiores seguidores do estilo, que iniciou com o ótimo Amores brutos e continuou, já sem o mesmo efeito surpresa, até chegar a Babel

Não deve ser à toa, então, que Iñarritú é o produtor executivo deste Destinos Ligados, título em português que, aliás, se aplicaria a qualquer dos filmes painel. Inãrritú divide o posto com os outros dois mais importantes nomes da cinematografia mexicana atual: Alfonso Cuarón (de E sua mãe também) e Guillermo Del Toro (de O Labirinto do Fauno). Depois do enorme sucesso de crítica de 10 coisas…, ao longo dos dez anos que separam os dois filmes, curiosamente, Rodrigo Garcia se aventurou pela televisão. Foi atraído pela onda de qualidade que tomou as séries como nunca e dirigiu episódios de algumas das melhores entre as produzidas na última década: de Os Sopranos a A Sete Palmos e, ultimamente, In treatment, da HBO.

Volta agora à película em grande estilo, como roteirista de outro filme painel e também dirigindo um contido e eficaz Samuel L. Jackson, uma Annette Bening capaz de conferir profundidade a toda a amargura de sua personagem e uma Naomi Watts muito bem no papel de uma mulher à primeira vista fria e sarcástica que vai revelando suas outras cores à medida dos novos acontecimentos. Como no painel de mini-histórias de 10 coisas…, Destinos ligados se concentra nas vidas e nos dramas de mulheres. Aqui, elas têm em comum um tema: a maternidade, que acontece sempre de forma dolorosa. Mais a maternidade do que a adoção, que também é comum às três.

A personagem de Annette Bening, talvez a mais forte, tem que viver com o fato de ter tido uma filha na adolescência e tê-la entregado à adoção, sem nunca mais tê-la visto. A de Naomi Watts foi adotada e carrega um grande sentimento de rejeição por nunca ter sido procurada pela mãe biológica. E a da atriz negra Kerry Washington- muito bem no papel, aliás- não consegue ter filhos e parte para a adoção, que também se mostrará difícil. Estas mulheres emocionalmente muito mal resolvidas encontram em seus caminhos pessoas muito generosas e, com exceção da última, materializados nos homens das histórias. O amargor das duas primeiras personagens se mostra forte a ponto de praticamente impedi-las de se entregar a qualquer relacionamento. A cinquentona não aceita ser cortejada, a advogada de trinta e tantos trata os homens como objetos, e há ainda a candidata a entregar seu filho à adoção que coloca mil empecilhos, praticamente torturando a candidata a mãe.

Ao time de primeira linha de intérpretes dos protagonistas, somam-se ainda três ótimos atores: Elpídia Carrillo que brilhou em Um dia sem mexicanos após ser revelada em Pão e Rosas, de Ken Loach; Amy Brenneman (hoje estrela da série Private Practice), que faz uma ponta como uma ginecologista, mais como uma homenagem de Garcia à atriz que teve papel de destaque em seu filme de estreia; e Jimmy Smitts, ator que costuma aparecer mais em filmes de ação ou aventura como Star Wars. Para conferir ainda mais realismo às histórias, o diretor optou por um tratamento visual cru: todos os atores parecem bem mais velhos do que em seus filmes anteriores, sem photoshop, com muitas rugas.

Destinos ligados é um filme sobre a perda, talvez a maior que possa existir. Um filme lento na medida, o que ajuda a lhe conferir densidade. Sobre dramas profundos, mas perfeitamente verossímeis. Quem quer filhos não os tem, quem não os quer, tem. Mostra as peças que o destino pode pregar de forma absolutamente realista, em situações que se vê todos os dias em nossa própria vida. Ainda assim, Garcia consegue transmitir uma mensagem positiva. A de que o destino pode não só separar, mas também ser responsável por grandes e inesperados encontros.

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3 Comentários

  1. Nem sabia que o cinema da Academia de Tênis fechou devido a um incêndio. Ótima crítica. Talvez, quando voltar a ir a cinema, possa ver esse filme.

  2. Mari,
    adorei o texto. Maravilhoso. Boa mescla de luxo e densidade. Vou correndo ver este filme. Deve ser ótimo e profundo, capaz de nos levar à reflexão sobre o sentido da vida. Também vou experimentar as novas salas do ParkShopping. Deve ser uma delícia assistir filmes com tamanho conforto e paparicos!!!! bjs.

  3. Achei ótimo! Vou testar esse luxo todo, apesar de ser uma pessoa super simples. Bjs.

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