Posts made in setembro, 2010

Peter Frampton- Showzaço para os amantes da guitarra

O show de Peter Frampton que passou pelo Brasil na semana passada com certeza agradou mais aos amantes da velha e boa guitarra do rock dos anos 70 e 80 do que propriamente aos fãs que esperavam ouvir as baladas que tornaram o cantor e compositor inglês tão famoso no final da primeira década. Um Frampton com os poucos cabelos curtos, uma barriguinha saliente e um jeito de andar típico de senhor encantou a platéia de sua volta ao Brasil após muitos anos, no confortável Auditório do Centro de Convenções de Brasília: testou palavras recém aprendidas em português, fez piadas e mostrou que, aos 60 anos, ainda é um guitarrista importante e continua dono de uma marcante voz rouca.

“Your language is very sexy, but I don’t speak it”, disse Frampton, arrancando risadas do público, após dar “Boa noite” em português e introduzir a palavra Brasília logo na letra da primeira música. “I need a beautiful young lady to teach me. I’ll have some free time in Rio and I’ll be auditioning (fazendo testes com) ladies to come and teach me”, continuou, passando longe do humor fino inglês, mas esbanjando charme com ar brincalhão. “Sei que estou mais velho, mas isto não significa nada”, concluiu ainda em inglês, novamente arrancando risos de uma platéia raras vezes tão heterogênia em shows de rock: variava de 14 a 65 anos e vestia desde jeans e camiseta de bandas de rock até salto agulha com mini-saia de seda. Alguém guita: “All right, Peter”, e ele mostra o quão britânico é: “Thank you, sir”.

O show começara com um blues, cantado pelo jovem Rob Arthur, um dos dois outros guitarristas que acompanham Frampton. É isto mesmo, a banda tem três guitarras, o que já mostrava de antemão a importância que o instrumento teria ao longo do show. É composta ainda por baixo e bateria e Arthur se reveza entre as cordas e um teclado. Na canção seguinte, Frampton entra e, sem ocupar o centro do palco, dá continuidade à introdução instrumental. Os sets instrumentais, aliás, com as três guitarras soando juntas, ocupariam boa parte do show de mais de duas horas para deleite da parte roqueira do público que balançava a cabeça acompanhando. Peter Frampton foi quase sempre o responsável pelos solos, evidentemente.

Sem arriscar só com novidades por muito tempo, ele ataca de “Show me the way”, um de seus hits mais famosos, daqueles que, parafraseando um colega do Correio Braziliense, será executado mais cedo ou mais tarde quando você ligar uma daquelas rádios especializadas em flashbacks. Na bela balada, Frampton apresenta ao público de Brasília, ao vivo, o instrumento criado por ele e que marcou sua carreira: a caixa vocal (talk box), que permite que sua voz seja emitida com som de guitarra. Aos olhos e ouvidos do público parece incompreensível, um verdadeiro efeito especial. Em entrevistas recentes, Frampton contou que deu o protótipo da caixa para seu amigo David Grohl, vocalista do Foo Fighters. Grohl, que era também o baterista do Nirvana, seria um dos artistas que se inspirou em seu trabalho ao longo da carreira.    

“Show me the way” é daquelas canções capazes de nos transportar imediatamente para 1976, ano em que foi lançado o LP “Frampton comes alive!”, que vendeu 6 milhões de cópias apenas nos Estados Unidos e no qual estava também “Baby I Love your way”, outra figurinha fácil das festas e das boates do Gilberto Salomão naquela época. Mesmo pré-adolescente, já no início dos anos 80, lembro-me de ter dançado, de rosto colado, várias vezes ao som de Peter Frampton nas festinhas que fazíamos nos apartamentos dos amigos na Asa Sul. O auge das canções já havia passado, mas como se pôde notar nos shows da semana passada, Frampton não passa fácil. (A foto abaixo, que tirei no Hard Rock Café de Cozumel (México), mostra a capa da edição da revista Rolling Stone em que o hoje cineasta e na época repórter Cameron Crowe entrevistou Peter Frampton no auge de sua carreira)

“Baby, I Love away”, aliás, vem um pouco mais pra frente na apresentação para acalentar e animar os antigos fãs e também para equilibrar o show entre as velhas e aguardadas baladas, os sets instrumentais e as canções do novo disco, “Thank you Mr. Churchill”. Aqueles e principalmente aquelas que guardam cristalizada na memória a imagem de um Peter Frampton lindo, louro e jovem talvez não saibam, mas ele continuou a carreira depois dos anos 70. Sofreu um acidente de carro quase mortal pouco depois do auge e ficou afastado do showbizz por alguns anos. Continuou gravando entre 1980 e 90, mas só voltou a chamar a atenção novamente em 2006, quando seu CD “Fingerprints” ganhou o Grammy de melhor disco instrumental pop.

O autobiográfico “Thank you Mr. Churchill” traz uma série de canções que se referem à família de Frampton. A canção título é uma espécie de agradecimento pessoal do compositor ao estadista inglês, em que ele afirma que foi graças a Winston Churchill que seu pai, que lutava com as tropas aliadas na Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial, conseguiu voltar à Inglaterra são e salvo. Uma espécie de agradecimento também por ele, Peter, existir. O novo disco vem também em uma versão em vinil. “Agradeço se comprarem os dois”, diz o cantor, sempre bem humorado. Em outra faixa, Frampton desfia seu desprezo pelos executivos do mercado financeiro americano que levaram à recente crise econômica mundial. “This is about greedy (ambiciosos sem limites) pigs of Wall Street”, diz ele, antes do início da canção cuja melodia lembra bastante seus velhos hits. É preciso lembrar que antes de se tornar famoso como cantor solo, ainda adolescente no fim dos anos 60, Frampton fez parte de duas bandas na Inglaterra: The Herd e Humble Pie. Esta última, caracterizada pelo blues elétrico (de guitarras elétricas), chegou a influenciar até grupos importantes como o Led Zeppelin.

Final emocionante

Lá pelo meio do longo show, os sets instrumentais começam a cansar uma parte do público, enquanto outras pessoas continuam eletrizadas pelos riffs e solos infindáveis das guitarras. Nada que “Breaking all the rules”- quem não se lembra do tema do anúncio do cigarro Hollywood?- não resolva, em grande estilo, quando a banda volta para o bizz. Parecia o fim do show. Mas uma surpresa estava reservada para o grand finale: uma versão de Peter Frampton para nada menos que “While my guitar gently weeps”, a linda canção do Beatle George Harrison, guitarrista como ele. Quando Frampton canta o verso “still my guitar gently weeps” (minha guitarra ainda chora), fazendo uma expressão de choro mesmo, entendemos o simbolismo da escolha da música para alguém em cuja carreira este instrumento foi sempre tão fundamental. E é inevitável que nos emocionemos junto com ele.

Leia mais

Constatações de um menino de dois anos

Depois que começou a formar frases, por volta de um ano e meio,  meu filho João- atualmente com dois anos e cinco meses- tem sido responsável por algumas pérolas daquelas que costumam encantar pais, avós e tios babões e deixá-los convencidos- provavelmente só a eles-  de que seu menino “é um verdadeiro gênio”. Pois bem, divido com você, leitor, algumas destas sentenças neste texto que será mutante: irá aumentando à medida que as constatações, ou “tirinhas de filosofia infantil de nosso João”, forem acontecendo.

“Dois João”. Com um ano e 10 meses, vendo a própria e longa sombra refletida sobre o gramado do campo de futebol do Country Club de Brasília, no fim da tarde, com o sol já baixo. A frase foi repetida algumas outras vezes quando João se olhou no espelho do quarto dos pais.

“O lego”. Aos dois anos e dois meses, apontando ao avistar o Plano Piloto de Brasília da janela do avião. 

“We all live in a yellow submarine…”, cantando o clássico dos Beatles, com pouco mais de dois anos.

“O outlo Dr. Nélson vai pegar o palitinho”. Com dois anos e quatro meses, referindo-se ao Dr. Giácomo, médico que o atendia no lugar de seu pediatra habitual, Dr. Nélson de Oliveira, que viajara para o Rio de Janeiro para acompanhar o nascimento de seu próprio neto. João adora os palitinhos próprios para se examinar a garganta, que ele prefere usar como paletas da hélice de seus helicópteros imaginários.

“A vovó vai e vem”. Aos dois anos e três meses, referindo-se às intermináveis viagens da avó materna Rosa que, entre um e outro destino, dá uma parada em Brasília e visita o neto.

“Atenção, João, que o dragão vai cair”. Com a mesma idade, em pé no sofá, antes de jogar seu inseparável amigo dragão (de pelúcia, símbolo da Livraria Cultura) para um vôo até o chão. Havia aprendido poucos dias antes a empregar direitinho a partícula “que”.

“Atenção, dragão, que o João vai cair”. Em seguida, avisando ao amigo, logo antes de se jogar de costas no sofá.

“Canta a do helicóptelo”. Com dois anos e quatro meses, hoje, usando pela primeira vez o imperativo, para o pai que começava a cantar a música do Carangueijo, pedindo que o embalasse para dormir ao som de outro de seus temas preferidos, o do helicóptero de brinquedo de parques de diversões.

“É Bethoven”. Ouvindo a Nona Sinfonia do compositor alemão, que ele aprendeu a identificar escutando o CD e assistindo ao DVD dedicado a Bethoven da série Baby Einstein.

“Ele tá escondido”. Olhando para a barriga de uma grávida em início de gestação, após os pais lhe explicarem que há um bebê ali dentro.

“A hélice do balão. Não, não existe hélice no balão. A hélice do helicóptelo”. Olhando para a casinha de brinquedo que ele “transformou” em um balão.

“O João falou que existe a hélice do helicóptelo”, quando eu, em minha amnésia temporária, tentava me lembrar o que ele havia dito para registrar num caderninho.

“A mamãe tá desenhando a hélice do helicóptelo. HE-LI-CÓP-TE-LO.” Falando pausadamente a palavra à medida que eu escrevia (não desenhava) o que ele havia dito antes.

“O foguete não vai subir. Ele é de tijolo”. Referindo-se ao foguete de legos construído por ele e lembrando-se da casa de tijolo da história dos Três Porquinhos.

“Aqui é o lugar ideal pro João”. Dentro do dragão de madeira de uma das Livrarias Cultura de Brasília, em pleno dia de semana, levado pelo avô. Todas as últimas declarações aos 2 anos e 4 meses.

“Essa é uma lua velha. Não é a lua nova”. Olhando para a lua cheia, aos 2 anos e seis meses.

“Você parece a Cinderela”. Para a mãe, olhando para seu vestido de seda rodado, durante o ano novo. “Você também parece a Cinderela”.  Para a avó, logo em seguida, olhando seu vestido florido comprido. Aos 2 anos e oito meses, agora falando todos os “erres”.

“Esse não é um avião. Essa é só a massinha”, respondendo à mãe que mostrava o avião que fez pra ele de massinha de modelar. Aos 2 anos e 2 anos e oito meses.

“Eu quero nascer do ovo”, na exposição de dinossauros, olhando para o ovo do qual ”nascia” um dos dinos da exposição. Em viagem a Buenos Aires, aos 2 anos e 8 meses.

“Eles tão conversando”, olhando para dois caminhões similares estacionados um em frente ao outro com as cabines viradas uma para a outra, em uma quadra de Brasília. Aos dois anos e 9 meses.

“Esse  Planeta Terra é igual àquele”, olhando para o Globo Terrestre que tem em casa e o comparando à imagem da Terra que aparece no Jornal Nacional no quadro sobre a previsão do tempo.

“Mamãe, me diga uma coisa: seu eu colocar a mão na boca, o vírus vai destruir o meu dente?, aos 2 anos e 11 meses, gripado, para a mãe que lhe havia alertado para tomar cuidado com o vírus da gripe, misturando o vírus com o perigo da cárie.

Leia mais