Peter Frampton- Showzaço para os amantes da guitarra

Peter Frampton- Showzaço para os amantes da guitarra

O show de Peter Frampton que passou pelo Brasil na semana passada com certeza agradou mais aos amantes da velha e boa guitarra do rock dos anos 70 e 80 do que propriamente aos fãs que esperavam ouvir as baladas que tornaram o cantor e compositor inglês tão famoso no final da primeira década. Um Frampton com os poucos cabelos curtos, uma barriguinha saliente e um jeito de andar típico de senhor encantou a platéia de sua volta ao Brasil após muitos anos, no confortável Auditório do Centro de Convenções de Brasília: testou palavras recém aprendidas em português, fez piadas e mostrou que, aos 60 anos, ainda é um guitarrista importante e continua dono de uma marcante voz rouca.

“Your language is very sexy, but I don’t speak it”, disse Frampton, arrancando risadas do público, após dar “Boa noite” em português e introduzir a palavra Brasília logo na letra da primeira música. “I need a beautiful young lady to teach me. I’ll have some free time in Rio and I’ll be auditioning (fazendo testes com) ladies to come and teach me”, continuou, passando longe do humor fino inglês, mas esbanjando charme com ar brincalhão. “Sei que estou mais velho, mas isto não significa nada”, concluiu ainda em inglês, novamente arrancando risos de uma platéia raras vezes tão heterogênia em shows de rock: variava de 14 a 65 anos e vestia desde jeans e camiseta de bandas de rock até salto agulha com mini-saia de seda. Alguém guita: “All right, Peter”, e ele mostra o quão britânico é: “Thank you, sir”.

O show começara com um blues, cantado pelo jovem Rob Arthur, um dos dois outros guitarristas que acompanham Frampton. É isto mesmo, a banda tem três guitarras, o que já mostrava de antemão a importância que o instrumento teria ao longo do show. É composta ainda por baixo e bateria e Arthur se reveza entre as cordas e um teclado. Na canção seguinte, Frampton entra e, sem ocupar o centro do palco, dá continuidade à introdução instrumental. Os sets instrumentais, aliás, com as três guitarras soando juntas, ocupariam boa parte do show de mais de duas horas para deleite da parte roqueira do público que balançava a cabeça acompanhando. Peter Frampton foi quase sempre o responsável pelos solos, evidentemente.

Sem arriscar só com novidades por muito tempo, ele ataca de “Show me the way”, um de seus hits mais famosos, daqueles que, parafraseando um colega do Correio Braziliense, será executado mais cedo ou mais tarde quando você ligar uma daquelas rádios especializadas em flashbacks. Na bela balada, Frampton apresenta ao público de Brasília, ao vivo, o instrumento criado por ele e que marcou sua carreira: a caixa vocal (talk box), que permite que sua voz seja emitida com som de guitarra. Aos olhos e ouvidos do público parece incompreensível, um verdadeiro efeito especial. Em entrevistas recentes, Frampton contou que deu o protótipo da caixa para seu amigo David Grohl, vocalista do Foo Fighters. Grohl, que era também o baterista do Nirvana, seria um dos artistas que se inspirou em seu trabalho ao longo da carreira.    

“Show me the way” é daquelas canções capazes de nos transportar imediatamente para 1976, ano em que foi lançado o LP “Frampton comes alive!”, que vendeu 6 milhões de cópias apenas nos Estados Unidos e no qual estava também “Baby I Love your way”, outra figurinha fácil das festas e das boates do Gilberto Salomão naquela época. Mesmo pré-adolescente, já no início dos anos 80, lembro-me de ter dançado, de rosto colado, várias vezes ao som de Peter Frampton nas festinhas que fazíamos nos apartamentos dos amigos na Asa Sul. O auge das canções já havia passado, mas como se pôde notar nos shows da semana passada, Frampton não passa fácil. (A foto abaixo, que tirei no Hard Rock Café de Cozumel (México), mostra a capa da edição da revista Rolling Stone em que o hoje cineasta e na época repórter Cameron Crowe entrevistou Peter Frampton no auge de sua carreira)

“Baby, I Love away”, aliás, vem um pouco mais pra frente na apresentação para acalentar e animar os antigos fãs e também para equilibrar o show entre as velhas e aguardadas baladas, os sets instrumentais e as canções do novo disco, “Thank you Mr. Churchill”. Aqueles e principalmente aquelas que guardam cristalizada na memória a imagem de um Peter Frampton lindo, louro e jovem talvez não saibam, mas ele continuou a carreira depois dos anos 70. Sofreu um acidente de carro quase mortal pouco depois do auge e ficou afastado do showbizz por alguns anos. Continuou gravando entre 1980 e 90, mas só voltou a chamar a atenção novamente em 2006, quando seu CD “Fingerprints” ganhou o Grammy de melhor disco instrumental pop.

O autobiográfico “Thank you Mr. Churchill” traz uma série de canções que se referem à família de Frampton. A canção título é uma espécie de agradecimento pessoal do compositor ao estadista inglês, em que ele afirma que foi graças a Winston Churchill que seu pai, que lutava com as tropas aliadas na Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial, conseguiu voltar à Inglaterra são e salvo. Uma espécie de agradecimento também por ele, Peter, existir. O novo disco vem também em uma versão em vinil. “Agradeço se comprarem os dois”, diz o cantor, sempre bem humorado. Em outra faixa, Frampton desfia seu desprezo pelos executivos do mercado financeiro americano que levaram à recente crise econômica mundial. “This is about greedy (ambiciosos sem limites) pigs of Wall Street”, diz ele, antes do início da canção cuja melodia lembra bastante seus velhos hits. É preciso lembrar que antes de se tornar famoso como cantor solo, ainda adolescente no fim dos anos 60, Frampton fez parte de duas bandas na Inglaterra: The Herd e Humble Pie. Esta última, caracterizada pelo blues elétrico (de guitarras elétricas), chegou a influenciar até grupos importantes como o Led Zeppelin.

Final emocionante

Lá pelo meio do longo show, os sets instrumentais começam a cansar uma parte do público, enquanto outras pessoas continuam eletrizadas pelos riffs e solos infindáveis das guitarras. Nada que “Breaking all the rules”- quem não se lembra do tema do anúncio do cigarro Hollywood?- não resolva, em grande estilo, quando a banda volta para o bizz. Parecia o fim do show. Mas uma surpresa estava reservada para o grand finale: uma versão de Peter Frampton para nada menos que “While my guitar gently weeps”, a linda canção do Beatle George Harrison, guitarrista como ele. Quando Frampton canta o verso “still my guitar gently weeps” (minha guitarra ainda chora), fazendo uma expressão de choro mesmo, entendemos o simbolismo da escolha da música para alguém em cuja carreira este instrumento foi sempre tão fundamental. E é inevitável que nos emocionemos junto com ele.

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19 Comentários

  1. Rock não é mesmo minha praia, Mariana, mesmo com essa guitarra maravilhosa do Peter Frampton. Mas gostei de ler seus comentários e ver a foto do sessentão, comparado com aquele jovem cabeludo dos anos 70. Em NY foi ver Leny Andrade em uma das boas casas de jazz lotada de americanos. Valeu. E valeu também ver a mais recente intervenção urbana, iniciativa da pujante sociedade civil daquele país e não do governo, de fazer uma High Line por sobre antigas construções portuárias. Beijo da tia.
    E, antes que eu me esqueça do que já estou pra lhe dizer há tempos: parabens por esse blog! Continuarei acompanhando.

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