Posts made in outubro, 2010

Roteiro de charme ou resort?

Desde que nos casamos há quatro anos, eu e meu marido, Mauro, costumamos seguir as dicas de amigos ou simplesmente procurar na internet pousadas incluídas no Roteiro de Charme para nos hospedar em nossas férias. Costumam ser lugares lindos, aconchegantes, com poucos hóspedes e onde o luxo aparece de maneira discreta. Recantos únicos, enfim. Na menor parte das vezes, quando a estadia é bem curta, escolhemos hotéis de design legais (veja “Luxo no Rio de Janeiro e uma comédia de erros”, de março, aqui no blog). Com a chegada de nosso filho João há pouco mais de dois anos, passamos a dividir nossos dias livres: uma semana por ano, normalmente pulverizadas em dois pequenos turnos, ainda dedicamos a nós dois, procurando lugares especiais para descansar ao máximo. O restante do período passou a ser do João, o que significa que, nesta parte das férias, passamos longe das nossas queridas pousadas e hotéis especiais. Para ele é necessário muito espaço ao ar livre, comida caseira simples, brinquedos, areia e alguma água. No início do ano, encontramos tudo isto no maravilhoso condomínio para o qual fomos convidados por um amigo do meu marido (que descrevi em “Idílica integração natureza-civilização” em março, aqui no blog). Em julho, seguindo conselhos de amigas como Daniela Mendes, que tem dois filhos há mais tempo do que eu, procuramos um resort.

Sempre fugi deste tipo de estabelecimento, temendo que o barulho das atividades voltadas para as crianças e a grande quantidade de pessoas fosse significar tudo, menos os desejados descanso e diversão. Mas nossa estreia em resorts, mais especificamente no empreendimento português “Miramar”, em Maragogi, Alagoas (www.miramarmaragogiresort.com), foi bem melhor do que esperávamos. Claro que escolhi um lugar que parecesse paradisíaco nas fotos do site e com quartos o mais separados um do outro possível. Em loco, o Miramar não decepcionou: uma longa piscina dos sonhos passava em frente a todas as casinhas que comportavam quatro quartos cada uma. A parte que dava de cara para “a nossa casinha” (como a chamava João) era rasíssima, com apenas 27 centímetros de profundidade e um módulo (play) com escadas diversas e um escorrega. Perfeito para o João.

O serviço em geral era muito bom, com funcionários quase sempre atentos e muito mais rápidos do que nas pousadas da Bahia. “Elementar”, diriam os engraçadinhos. A comida era bastante boa para um sistema self service e havia ainda um restaurante pequeno e charmoso à la carte, no meio da areia, do qual desfrutamos numa noite um pouco confusa, em que João já dormia no colo do pai.  

Mas havia a temida animação… Um grupo de nada menos que 10 funcionários que se encarregava de criar atividades para entreter crianças e adultos de 9 hrs da manhã até (pasmem) 2 hrs da madrugada! No microfone do bar da piscina uma das “tias” anunciava com voz esganiçada e sotaque propositalmente descaracterizado: “Daqui a pouco, às 9 e meia, teremos alongamento muscular e logo depois aula de dança brasileira!”. Havia também a dança latino-americana, que quase conseguiu me tirar do meu ceticismo e disposição para nada mais do que o descanso e da minha alergia a estas atividades coletivas. Quase. À tarde, bingo e à noite boate! “Alegria, alegria”, pontuava ainda a tia, para logo depois repetir todo o cardápio em um espanhol com sotaque nordestino.

No terceiro dia, fiz o exercício de tentar imaginar aquele lindo resort livre da famigerada animação. Foi difícil, de tão característica que era a presença daquele som e daquela “animação” forçada no local. Seria a visão do paraíso. Paraíso que seria bem mais belo não fosse o fato de que os empreendedores portugueses simplesmente terem aterrado uma boa parte da praia em frente para aumentar a área artificial de areia e coqueiros. Tanto que foi necessário construir um muro (!) para que a água não invadisse esta parte na maré cheia. Claramente um crime ambiental. Descobri isto no dia em que finalmente a maré baixa coincidiu com a manhã e resolvi dar uma caminhada mais longa pelas praias enquanto meu marido protegia nosso filho do sol já alto no clubinho (outra facilidade) de brinquedos de plástico. Todas as outras praias dispõem de certa faixa de areia que resiste mesmo quando o mar começa a encher de novo, além de imensos coqueirais preservados bem em frente. A nossa não. Na praia ao lado, o mar divide espaço com um rio de água escura, formando uma bela e surpreendente paisagem.

João adorou a piscina, em que se refestelou primeiro na parte rasa, sentindo-se livre para andar sozinho pela primeira vez em um ambiente aquático. Ele não faz natação por causa de um problema no ouvido que aos poucos está sendo superado. Em seguida, aventurou-se pela piscina grande nos meus braços, dando as primeiras pernadas. Também adorou ficar em pé na borda molhada de uma espécie de ilha cravada nesta parte funda da piscina.

Estreia

Demorou dois dias para que ele, finalmente, resolvesse entrar no mar pela primeira vez na vida. Seu inseparável dragão de pelúcia, símbolo da Livraria Cultura, com certeza ajudou a lhe dar coragem, mergulhando junto no mar. Em Barra do Una, São Paulo, e em Fortaleza, que antecedeu Maragogi neste tour nordestino, ele preferira a areia. Provavelmente, em pouco tempo, João já não se lembrará de seu primeiro banho de mar, do qual ele ainda falava após quase um mês de volta a Brasília. Mas para nós, os pais, aquele mergulho em meu colo, em frente a uma linda jangada como as da minha infância em Pernambuco, já entrou na galeria dos momentos inesquecíveis.

O primeiro mergulho fez com que, dois dias depois, João topasse entrar na água já mais fria das Galés, a 6 quilômetros da beira da praia (detalhes em “Viagem ao fundo do mar”, aqui no blog). Os peixes aglomerados por causa de um bolo de pão que os guias carregam, com certeza, o animaram a continuar na água por mais de meia hora.

Para crianças da idade de João, um resort tem a grande vantagem de ter muito espaço. Sua diversão preferida era andar para lá e para cá livremente na areia. Ele pouco aproveitou as atividades extras. Mas para crianças de mais de quatro anos com certeza a tal animação deixará boas lembranças. Se os “tios” oferecem atividades para os adultos a toda hora- apreciadas pelo público paulista de classe média que prevalece no resort- o seu grande público são, sem dúvida, as crianças.

As maiores não se esquecerão das oficinas diárias de montagem de bonecos típicos nordestinos ou de pipas depois colocadas para voar na forte brisa das tardes de julho. Também deixarão doces lembranças o ensaio e a conseqüente leitura de histórias com encenação à noite, com a participação do público infantil. E o que dizer da emocionante caça do tesouro dos piratas na areia próxima ao mar nas noites de quinta-feira? Nos deu vontade de esperar João crescer um pouco para aproveitar melhor todo esse clima mágico. Se o famoso e pioneiro resort Salinas de Maragogi tem uma enorme faixa de areia e é grandioso, com certeza o charme de seu concorrente é justamente ser intimista.

Pílula de realidade

Tenho que dizer que dois fatores ajudaram a nos dar certa tranqüilidade: a animação ficava longe de “nossa casinha”, de forma que, à noite, não a ouvíamos. O resort, por sua vez, não estava lotado, talvez por causa do medo dos turistas do sudeste e centro-oeste de que a cheia do Rio Una, que deixara sob a água cidades como Palmares (PE) e Barreiros (PE), tivesse atingido o caminho entre Recife e Maragogi. Na volta para o aeroporto de Recife (mais próximo do que o de Maceió) passamos por Barreiros e avistamos as casas destruídas ao longo do rio já de volta a seu nível normal.

Para nosso alívio, vimos também um acampamento com grandes iglus brancos trazidos por uma empresa de transportes alemã. Dois dos funcionários do resort que têm famílias em Barreiros nos contaram que a ajuda do Governo Federal já havia chegado à cidade e a seus familiares. De alguma forma, em nossa culpa burguesa, sentimos que com o dinheiro deixado no resort estávamos também dando nossa pequena parcela de contribuição à retomada da economia dos municípios próximos.

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