Posts made in maio, 2011

“Cópia Fiel” e o elemento surpresa

Depois que já se assistiu a muitos filmes na vida, o elemento surpresa passa a fazer toda a diferença. Como os cineastas já trataram de quase todos os temas possíveis, especialmente em ficções, a novidade é normalmente contemplada na  narrativa. “Cópia Fiel”, do iraniano Abbas Kiarostami, com Juliette Binoche no papel principal, é o último exemplo de uma leva de filmes recentes que inovam na forma de contar uma história, transformando a narrativa quase em um personagem. Deste grupo faz parte também o ótimo Caché, do diretor alemão Michael Haneke, também com Juliette, coincidência ou não.

Nos primeiros 40 minutos, “Cópia Fiel” parece um estilo de filme, na segunda parte se torna outro quase completamente diferente, numa das referências do diretor e roteirista ao tema da cópia. O filme cresce vertiginosamente da metade para o fim. A premissa é a seguinte: o escritor inglês James Miller (William Shimell) vai a uma cidade da Toscana, Itália, falar sobre seu livro, que trata da originalidade das obras de arte, ou melhor, da falta dela, segundo sua tese. Uma mulher francesa, dona de um antiquário, Elle, que vive na região há muitos anos, aparece na palestra e deixa diversos exemplares do livro para que ele os autografe. No dia seguinte, a leitora e suposta fã leva o escritor para uma viagem a um vilarejo próximo sob o pretexto de lhe mostrar a “cópia perfeita” de um retrato pintado no Renascimento, algo que, para ela, corroboraria a tese de seu livro.

 

Neste início, o filme de Kiarastami (de “O balão branco” e “O gosto de cereja”) promete ser uma produção cerebral, calcada na longa discussão dos dois personagens sobre se as obras de arte são ou não originais, uma vez que se baseiam em uma pessoa ou objeto já existentes na natureza (a Monalisa, exemplifica Miller, retratava a Gioconda. “Será que ela estava mesmo sorrindo no momento em que foi pintada?”, questiona o ensaísta). A densidade é propositalmente intensificada pelos enquadramentos escolhidos por diretor e diretor de fotografia (Luca Bigazzi): planos fechados nos personagens que chegam a lembrar a claustrofobia das produções escandinavas do Dogma, movimento dos anos 90 que primava pelo exagero de realismo.

Em um café da pequena cidade de Lucignano, ocorre o grande “turning point” da história. Um dos melhores diálogos do filme se dá não por acaso quando o escritor se ausenta para atender a um telefonema. Em uma cena misteriosa que parece tirada de um filme de Antonioni, Elle e a senhora dona do café conversam sobre o que se espera de um homem e de uma mulher em um casamento, um assunto que parecia absolutamente deslocado dos eventos que haviam transcorrido até aquele momento.

 A partir daí, Kiarostami flerta com Godard e com o Cinema Novo para mostrar as andanças de James e Elle pela bela e também renascentista Lucignano. A influência do cineasta da Nouvelle Vague serve bem às infindáveis conversas filosóficas sobre relacionamentos entre o casal; já Glauber Rocha ou o Anselmo Duarte de “O Pagador de Promessas” estão nos planos fechadíssimos e silenciosos dos dois personagens com o cenário ao fundo, especialmente na cena da igreja. O roteirista e diretor Jean Claude Carrière faz uma participação hilária na história, como um turista francês que dá conselhos ao escritor inglês.

O diretor lança mão de outros recursos estéticos para transmitir a mudança de clima entre os personagens. À medida que a tensão entre os dois aumenta, eles decidem parar de falar o mesmo idioma (o inglês do início cordial do encontro) para falar cada um a sua língua de origem (ele o inglês, ela o francês). Juliette Binoche, aliás, fala com desenvoltura inglês, francês e italiano no filme que deu a ela o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes de 2010. Kiarostami também foi indicado à Palma de Ouro de direção por “Cópia Fiel”.

 O que era cerebral vai se tornando cada vez mais emocional e pessoal. A mudança de clima acompanha as transformações de fundo da história, inesperadas, dúbias, que fazem de “A Cópia Fiel” um filme incomum e instigante.

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Um Rio de Janeiro para crianças

Quando morei no Rio de Janeiro entre 1997 e 2002, caminhava na orla da Lagoa Rodrigo de Freitas três vezes por semana imaginando que poderia aproveita-la ainda mais se tivesse filhos. Perto do Corte Cantagalo, que liga Ipanema a Copacabana, existe um campo de areia cercado dedicado exclusivamente aos cachorros. Pensava em quanto um menino pequeno iria adorar ver aqueles cachorros de todos os tamanhos e raças correndo de um lado para o outro atrás dos ossos de brinquedo jogados por seus donos. Logo ali ao lado, estão os pedalinhos em forma de cisnes. E as atividades que convidam as crianças a brincar não param: há triciclos para alugar para toda a família, carrinhos motorizados, pula-pulas e piscinas de bolas, além da possibilidade de ver de perto os helicópteros levantarem vôo em direção ao Cristo Redentor. 

No feriado da Semana Santa, resolvemos transformar aquele meu antigo sonho em realidade levando nosso filho de quase três anos para conhecer as atrações infantis da Cidade Maravilhosa. A praia não é a mais convidativa do Brasil para os pequenos. Embora tenha se deleitado com a quantidade de aviõezinhos que passam bem perto da orla de Ipanema carregando faixas com propagandas, João não gostou das ondas. Preferiu ficar se divertindo quando os castelos de areia que construíamos juntos eram destruídos por suas ameaçadoras inimigas. “Tive medo das ondas, mamãe”, disse João depois já em Brasília, confirmando sua preferência pelo mar calmo do nordeste.

Se o mar não agradou tanto a ele, a Lagoa correspondeu às minhas antigas expectativas. Se você vai viajar ao Rio com seu filho, não se limite ao lado dos pedalinhos. Vá também ao lado oposto, na Av. Borges de Medeiros, após a sede do clube do Flamengo. Ali, no local conhecido como Parque dos Patins, fica não só a tal pista onde atualmente há carrinhos para alugar para as crianças, como diversos outros brinquedos. João experimentou vários carros e brincou em duas piscinas de bolas diferentes, mas há também escorregadores grandes para as crianças maiores. Tudo bem despretensioso.

 

No caso de nosso filho, apaixonado por tudo que voa, a maior atração daquele lado da Lagoa foi mesmo o heliponto. Para um menino que é dono de uma coleção de mais de dez helicópteros de brinquedo e que, com menos de dois anos, corria para ver os verdadeiros passarem pela janela de casa, assistir de perto ao pouso e à decolagem de um helicóptero de verdade deve ter sido uma experiência e tanto. No sábado antes da páscoa, o sobe e desce de helicópteros que fazem vôos turísticos até o Cristo estava incessante. João pôde observar suas fantásticas máquinas voadoras por mais de uma hora.

Para os adultos, ficar naquela área da Lagoa não é nenhum sacrifício. Há diversos quiosques de comidinhas, entre os quais o Árabe, que é o mais tradicional. Enquanto comíamos um faláfel e tomávamos um chopp com velhos e bons amigos do meu período carioca, João e Gabriel, filho de uma das amigas, subiam em uma árvore cheia de galhos horizontais bem atrás do quiosque. No fim da tarde, ao lado da árvore, ainda apareceu um artista de rua que fez seus mamulengos dançarem e cantarem músicas de Gilberto Gil e Tim Maia. Coisas do Rio de Janeiro.

 

No pedalinho tínhamos ido no dia anterior (Av. Epitácio Pessoa, próximo ao parque do Cantagalo, Lagoa). A fila enorme típica de feriado andou rápido e logo “nosso” barquinho em forma de cisne estava cercado de água por todos os lados. João, devidamente vestido com um colete salva-vidas- obrigatório para as crianças- ficou entre mim e o pai. Aos poucos, entre uma pedalada e outra, o dia foi indo embora e dando lugar às luzes dos prédios em volta da Lagoa, refletidas na água. Quando olhamos para trás, o Cristo Redentor estava iluminado. E ali, no meio da Lagoa, vivemos um momento mágico: os três no meio de toda aquela água, cercados pelas silhuetas dos enormes morros do Rio de Janeiro- Dois Irmãos de um lado, Corcovado do outro- tínhamos uma enorme sensação de fazer parte da natureza. A esta altura, João já havia dormido.

 

Neste mesmo dia, havíamos ido até Santa Tereza para almoçar com um casal de amigos de Brasília que também estava no Rio. Da piscina do festejado Hotel Santa Tereza, pudemos avistar parte do centro da cidade e, lá atrás da torre art-decô da Central do Brasil, a ponte Rio-Niterói.

Claro que João ficou impaciente durante o almoço no bonito e rústico restaurante Terèze, mas foi compensado depois com a passagem do famoso bondinho amarelo bem perto de nós. Até hoje ele conta como o bondinho estava lotado e, por isto, não pudemos passear nele. Outros bondes, não menos famosos, como os do Cristo e o do Pão de Açúcar só recomendo durante feriados para quem nunca os tiver visitado. Passamos por acaso em frente ao do Cristo e as filas estavam enormes. Deixamos para uma próxima visita.

Lugares simples e próximos ao hotel podem trazer boas surpresas. Durante um almoço na Praça Nossa Senhora da Paz, descobrimos um parquinho cheio de brinquedos de madeira que eu nunca havia visto nos 5 anos e meio em que morei em Ipanema. João e Rafael, filho de meu amigo Bernardo, que almoçava conosco, o descobriram logo. Quando chegamos também com nossa super grávida amiga Joaninha, só havia umas cinco crianças com suas babás. Mas à medida que o sol foi caindo, o parquinho foi sendo invadido por meninos e meninas e seus pais moradores de Ipanema, turistas e até um casal de australianos com dois filhos recém chegados ao País.

 

Além do parque, a maior diversão de muitas crianças era jogar pipoca –com pouco sal, propositalmente- para os pombos. Ver a multidão de pombos correr atrás das pipocas foi, com certeza, um dos programas mais apreciados por João durante a visita ao Rio de Janeiro.

 

No domingo de páscoa, seguimos pela linda Avenida Niemeyer para a Barra da Tijuca com dois objetivos: visitar meu amigo e ex-colega da redação do Telecine, Bernardo , e seu filho Rafael e levar as crianças para brincar no parque de diversões Terra Encantada, que eu mesma cheguei a aproveitar quando ele foi inaugurado na década de 90. No meio da tarde, porém, caiu uma tempestade que lembrava até aquelas que alagam a Praça da Bandeira no verão carioca. Tivemos que deixar o parque para a próxima, mas aproveitamos muito bem a deliciosa piscina com correnteza do condomínio da Barra onde Bernardo mora. Digna de um parque aquático. Por falar em parque aquático, a Barra tem dois, o Rio Water Planet e o Wet ‘n Wild, ótimos programas para uma próxima viagem.

 

Não deu tempo também para repetir programações que havíamos feito com João em nossa primeira viagem ao Rio, quando ele tinha apenas 1 ano. Uma delas é o Baixo Bebê, especialmente no domingo, em que a Avenida Delfim Moreira fica fechada para os carros e os organizadores montam um enorme pula-pula em plena rua da praia tomada pelas pessoas. O famoso baixo bebê, que vive aparecendo nas novelas das 9 hrs da TV Globo, é o lugar para onde mães e babás levam seus filhos para tomar um sol ou, quando já maiorzinhos, brincar nos brinquedos de plástico que estão instalados próximos à barraquinha de água de côco. É mesmo um ponto de encontro. Naquela viagem, há dois anos, eu e meu marido nos encontramos com três amigas, também ex-colegas do Telecine que também levaram seus filhos. Nenhuma de nós tinha filhos quando trabalhamos juntas. Foi emocionante ver aqueles bebês brincarem juntos em uma grande toalha estendida por uma de minhas amigas.

 Programação cultural

A Livraria da Travessa de Ipanema e também a do Shopping Leblon têm uma área muito interessante dedicadas às crianças. Naquela época, ainda com um ano, João já adorou ficar abrindo os livros coloridos nas duas livrarias. Se der para revezar a atenção a seu filho com seu marido ou outra pessoa da família, não deixe de dar uma olhada nos lançamentos de livros. É impressionante como os melhores que li nos últimos anos foram comprados na Livraria da Travessa. Costumo achar os vendedores, a maioria estudantes universitários, bem mais informados do que em outras livrarias.

Outro programa cultural imperdível são as peças de teatro infantil. São diversas, encenadas por bons grupos, que escolhem textos clássicos e contemporâneos. No domingo, o Shopping da Gávea, que tem nada menos que quatro teatros, fica lotado de mães, pais e crianças, várias delas atrizes e seus filhos. Um clima delicioso. Em 2009, me emocionei assistindo a uma peça que vira umas três vezes na minha infância, mais de 30 anos antes! Era “O Rapto das Cebolinhas” de Maria Clara Machado. A primeira peça da vida de João, que prestou atenção a ela quase até o final.

 Decepção nas Compras

 Naquela viagem de dois anos atrás, ainda conseguimos aproveitar uma galeria que era única em termos de roupas para bebês e crianças: a de número 444 da Visconde de Pirajá, mesma avenida da Travessa, o coração de Ipanema. Numa mesma galeria ficavam a Bebê Moderno, loja de São Paulo que tem roupinhas super coloridas e sempre com temas interessantes; a Rock baby, com calças super transadas e camisetas e bodies com fotos de roqueiros (João veste até hoje a sua do Jim Morrison); uma loja de fantasias, a Bebê básico, ótima para abastacer o guarda-roupa de peças coloridas para o dia a dia. Desta vez, para minha decepção, as três primeiras haviam fechado as portas, restou apenas uma especializada em roupinhas extravagantes para meninas e a Bebê Básico. Ainda dá para comprar roupas para crianças em Ipanema, mas o diferencial, a originalidade das lojas da 444 já não existe mais. 

Nestas duas viagens, fizemos muitas coisas, mas também deixamos de fazer diversos outros programas que o Rio oferece para crianças. O que não deixa de ter seu lado positivo: quando voltarmos, ainda teremos à nossa espera o Jardim Zoológico, bem no meio da Quinta da Boa Vista; o Palácio da Quinta, onde os meninos e meninas podem ver o esqueleto de um enorme dinossauro; as estradinhas das Paineiras, ótima para caminhadas e passeios de velocípede e bicicleta; o bondinho do Pão de Açúcar; todos os recantos do Jardim Botânico; os esconderijos do Parque Lage, que lembram a minha infância… enfim, a lista é grande.

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