“Cópia Fiel” e o elemento surpresa

“Cópia Fiel” e o elemento surpresa

Depois que já se assistiu a muitos filmes na vida, o elemento surpresa passa a fazer toda a diferença. Como os cineastas já trataram de quase todos os temas possíveis, especialmente em ficções, a novidade é normalmente contemplada na  narrativa. “Cópia Fiel”, do iraniano Abbas Kiarostami, com Juliette Binoche no papel principal, é o último exemplo de uma leva de filmes recentes que inovam na forma de contar uma história, transformando a narrativa quase em um personagem. Deste grupo faz parte também o ótimo Caché, do diretor alemão Michael Haneke, também com Juliette, coincidência ou não.

Nos primeiros 40 minutos, “Cópia Fiel” parece um estilo de filme, na segunda parte se torna outro quase completamente diferente, numa das referências do diretor e roteirista ao tema da cópia. O filme cresce vertiginosamente da metade para o fim. A premissa é a seguinte: o escritor inglês James Miller (William Shimell) vai a uma cidade da Toscana, Itália, falar sobre seu livro, que trata da originalidade das obras de arte, ou melhor, da falta dela, segundo sua tese. Uma mulher francesa, dona de um antiquário, Elle, que vive na região há muitos anos, aparece na palestra e deixa diversos exemplares do livro para que ele os autografe. No dia seguinte, a leitora e suposta fã leva o escritor para uma viagem a um vilarejo próximo sob o pretexto de lhe mostrar a “cópia perfeita” de um retrato pintado no Renascimento, algo que, para ela, corroboraria a tese de seu livro.

 

Neste início, o filme de Kiarastami (de “O balão branco” e “O gosto de cereja”) promete ser uma produção cerebral, calcada na longa discussão dos dois personagens sobre se as obras de arte são ou não originais, uma vez que se baseiam em uma pessoa ou objeto já existentes na natureza (a Monalisa, exemplifica Miller, retratava a Gioconda. “Será que ela estava mesmo sorrindo no momento em que foi pintada?”, questiona o ensaísta). A densidade é propositalmente intensificada pelos enquadramentos escolhidos por diretor e diretor de fotografia (Luca Bigazzi): planos fechados nos personagens que chegam a lembrar a claustrofobia das produções escandinavas do Dogma, movimento dos anos 90 que primava pelo exagero de realismo.

Em um café da pequena cidade de Lucignano, ocorre o grande “turning point” da história. Um dos melhores diálogos do filme se dá não por acaso quando o escritor se ausenta para atender a um telefonema. Em uma cena misteriosa que parece tirada de um filme de Antonioni, Elle e a senhora dona do café conversam sobre o que se espera de um homem e de uma mulher em um casamento, um assunto que parecia absolutamente deslocado dos eventos que haviam transcorrido até aquele momento.

 A partir daí, Kiarostami flerta com Godard e com o Cinema Novo para mostrar as andanças de James e Elle pela bela e também renascentista Lucignano. A influência do cineasta da Nouvelle Vague serve bem às infindáveis conversas filosóficas sobre relacionamentos entre o casal; já Glauber Rocha ou o Anselmo Duarte de “O Pagador de Promessas” estão nos planos fechadíssimos e silenciosos dos dois personagens com o cenário ao fundo, especialmente na cena da igreja. O roteirista e diretor Jean Claude Carrière faz uma participação hilária na história, como um turista francês que dá conselhos ao escritor inglês.

O diretor lança mão de outros recursos estéticos para transmitir a mudança de clima entre os personagens. À medida que a tensão entre os dois aumenta, eles decidem parar de falar o mesmo idioma (o inglês do início cordial do encontro) para falar cada um a sua língua de origem (ele o inglês, ela o francês). Juliette Binoche, aliás, fala com desenvoltura inglês, francês e italiano no filme que deu a ela o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes de 2010. Kiarostami também foi indicado à Palma de Ouro de direção por “Cópia Fiel”.

 O que era cerebral vai se tornando cada vez mais emocional e pessoal. A mudança de clima acompanha as transformações de fundo da história, inesperadas, dúbias, que fazem de “A Cópia Fiel” um filme incomum e instigante.

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19 Comentários

  1. Oi Mari,
    finalmente eu pude ver Cópia Fiel e foi bom ter ido sem ler o seu texto aqui no blog (para não ter qualquer influência). Eu simplesmente amei o filme. É denso e surpreendente como bem definiu você. É cerebral e emocional ao mesmo tempo. E os diálogos são maravilhosos. Concordo com vc: um dos pontos altos dos diálogos é a conversa de Juliette Binoche com a senhora no café. É de uma poesia… De uma simplicidade. Aliás, uma das frases de que mais gostei foi quando ele disse que “não é simples ser simples”. A vida é uma cópia? Ou um original? O que é original: nossos sonhos ou a realidade? beijos, Pati.

    • É isto aí! O filme é muito legal mesmo.
      Existem outros dele em que ele usa esta
      narrativa que permite que o filme pareça
      ser uma coisa e na verdade, seja outra.
      Vou pegar em vídeo assim que puder.
      Bjs e que bom que vc leu afinal!

  2. Oi Mariana,
    concordo plenamente, tb adorei o filme! E olha que chique, indiquei seu comentário pra duas pessoas…Uma delas é minha filha (que tem 20 anos e até não acho que vai gostar como nós, mas eu tinha exatamente comentado com ela outro dia…).A outra é uma amiga, que coincidentemente esteve em Buenos Aires com a filha de dois anos e adivinha que dicas levou? Um blog praticamente de “utilidade pública” o seu!…
    Beijo, Celina.

    • Celina, que maraviiiilha! Tomara que sua
      amiga tenha gostado dos lugares que in-
      diquei. Bom, acho que gostou, porque
      me dão até saudades, só de me lembrar
      agora. Obrigada e super beijo!

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