Posts made in junho, 2011

Há 40 anos, morria Jim Morrison e nascia um mito

Há 40 anos, a serem completados neste 3 de julho, morria em uma banheira de um quarto de Paris um dos grandes letristas que o rock já teve. Um de seus grandes intérpretes também: James Douglas Morrison, ou Jim Morrison, morreu em circunstâncias nunca totalmente esclarecidas, oficialmente de um ataque cardíaco, extraoficialmente em conseqüência de uma overdose de drogas que teria levado o coração a parar. Eu tinha menos de três anos quando isto aconteceu, mas sou grata por não dependermos apenas da escola pra aprender História.

No caso do The Doors, a banda sessentista que Morrison iria formar com o amigo tecladista e compositor musical Ray Manzarek, o guitarrista Robby Krieger e o baterista John Densmore, minha escola foi a MTV americana (em meus meses de intercâmbio em Michigan na adolescência), as ruas de Paris logo depois, cidade que sempre preservou a memória do cantor que a escolheu para morar, e as boas revistas de música e cadernos de cultura dos anos 80, especialmente a Bizz que, além das novidades, trazia uma seção no final com capítulos importantes da história do rock. Anos luz deste projeto de canal de hoje, a MTV se dedicava exclusivamente aos vídeo clipes, inclusive os vintage, e entre um e outro, dava notícias do mundo da música por meio de VJs que tinham bem mais que um rosto jovem e uma cara bonitinha: tinham informação. Pelas ruas de Paris se espalhavam cartazes de Jim Morrison, de seu rosto emblemático até a célebre foto com os braços abertos tirada em um ensaio promocional em Los Angeles.


De volta do Brasil, eu e minha amiga Adriana Moellman, também roqueira desde sempre, assistimos umas dez vezes ao vídeo “Dance on fire”, com clipes e trechos de shows dos Doors. Aquela música muitas vezes viajante, aquelas imagens da Los Angeles livre da década de 60, a voz grave de Jim, os shows inebriantes nos pegaram de jeito. Atualmente, o vídeo está à venda em DVD. Quando Oliver Stone teve a boa ideia de filmar “The Doors”, eu já conhecia bem aquela história. Um bom retrato da banda, a cinebiografia reconstituía não só os shows memoráveis, como aquele em que Morrison baixou as famosas calças de couro e foi preso e o do Hollywood Bowl, como detalhes de seus relacionamentos e de sua personalidade.

Morrison era tão talentoso, bom poeta, dono de uma bela voz, performer original, que nem precisaria ser tão belo. Mas era e sua beleza com certeza contribuiu para a aura de mito que o envolveu depois de sua morte precoce aos 27. Val Kilmer o interpretou com afinco, os trejeitos foram imitados quase à perfeição, mas não chegava nem perto de fazer jus à beleza física de Morrison. E nem se parecia minimamente com ele. Antes de ver o filme, cheguei a achar que havia sido um caso de miscasting. Mas os Doors não teriam sido o que foram sem outro elemento essencial: a música composta principalmente por Ray Manzarek, mas também por Robby Krieger, um guitarrista de mão cheia, com influências da guitarra espanhola. Uma música muito única, com teclado marcante como nos primórdios do rock, mas com uma sonoridade mais psicodélica. Música rica e variada, que bebia em fontes diversas. People are strange e Whiskie bar não são rock, parecem saídas dos anos 40. A linda Touch me é uma canção permeada por momentos de puro rock. The end é um hino. Aliás, um hino que pode ter diversas interpretações, uma delas a despedida antes da morte na guerra, opção que Francis Ford Coppola imortalizou no filme Apocalypse Now. Muitas, como L.A Woman, Roadhouse blues, Riders on the storm tendem para o blues. E há Light my fire, pop rock mais comercial, encomendado pela gravadora e composto por Krieger, mas dona de um dos refrões mais famosos do rock and roll, reproduzido até hoje em rádios e festas.

Quando os velhos amigos Morrison e Manzarek se reencontraram numa praia da Califórnia e o tecladista convidou o poeta para ser cantor de uma nova banda, Morrison estudava cinema na UCLA, a Universidade da Califórnia. Não à toa, aliás, na mesma época em que Oliver Stone e Coppola.Manzarek havia se encantado com alguns dos versos de Morrison. Filho de pai militar que estava sempre ausente, Jim nasceu na Florida, mas morou em diversos estados com a mãe. Culpava o pai pela ausência e se refugiava nos livros e também no bom humor. Ainda no Ensino Médio, tornou-se leitor de poetas como William Blake e Rimbaud e os beatnicks William Bourroghs, Jack Kerouac e Allen Ginsberg, que pregavam uma nova forma de se viver, oposta ao American Way of Life, ligado ao consumismo e outras drogas lícitas. De outro escritor também dos anos 50, o inglês Aldous Huxley, Jim Morrison tirou o nome da banda. Uma referência às portas da percepção que Huxley pregava que podiam ser abertas com uma ajudinha de drogas lisérgicas como mescalina e LSD, tão em voga nos anos 60. “Se as portas da percepção estivessem limpas, tudo apareceria para o homem tal como é: infinito.”

Baseado nesta citação de William Blake, Huxley assumiu que o cérebro humano filtra a realidade de modo a não permitir a passagem de todas as impressões e imagens que existem efetivamente. Se isso acontecesse, o processamento de tal quantidade de informação seria simplesmente insuportável. De acordo com esta visão das coisas, algumas drogas poderiam reduzir esse processo de filtragem, ou “abrir as portas da percepção”, como é dito metaforicamente. Com o intuito de verificar esta teoria, Huxley começou a tomar mescalina e a descrever os seus pensamentos e sentimentos sob o efeito da droga. A sua principal impressão seria a de que os objetos do nosso cotidiano perdem a sua funcionalidade, passando a existir “por si mesmos”. O espaço e as dimensões tornam-se irrelevantes, parecendo que a percepção se alarga de uma forma espantosa e mesmo humilhante já que o ser humano se apercebe da sua incapacidade para fazer face a tantas impressões.

Jim concordava totalmente com esta teoria a ponto de consumir drogas teoricamente embasado!  Compunha este universo também em sua mente um xamã que o menino Jim havia visto aos cinco anos em uma viagem de carro com a família quando atravessavam o deserto e se depararam com um acidente de carro envolvendo índios. Dois veículos haviam colidido e diversos índios estavam mortos na estrada. “Talvez um ou dois estavam correndo à minha volta e entraram em minha alma”, contaria Morrison mais tarde, explicando quão marcante fora sempre este episódio para ele. A imagem insistiria em habitar seus sonhos e viagens lisérgicas por anos a fio. De espírito inquieto, curioso e inconformado com o stablishment, Morrison logo encontrou na poesia, na música, nas drogas e no álcool maneiras de expressar sua rebeldia. Terminou se tornando um dos produtos emblemáticos da contracultura americana.

As viagens lisérgicas estavam presentes em diversas músicas e até em vídeos dos Doors. Jim Morrison se intitulava o Rei Lagarto, uma criatura proveniente destas viagens de volta ao deserto americano de sua infância. Pode-se dizer, sem medo de errar, que os Doors não seriam os mesmos sem o LSD. O ácido estava ali para o bem e para o mal. Para abrir as portas da percepção na hora da criação e para servir de ponte para outras drogas e fechar as portas na hora da morte. Morte que levou não só Morrison, mas sua namorada Pamela Courson, quatro anos mais tarde.

Depois do êxtase do sucesso do grupo nos Estados Unidos, do enorme assédio das fãs em seu culto especialmente ao cantor, dos altos e baixos causados pelo abuso de álcool e drogas, não foi à toa que Jim Morrison resolveu dar um tempo em Paris. A capital cultural europeia tinha muito mais a ver com suas aspirações poéticas e de vida. Mas, àquela altura, já era difícil encontrar o equilíbrio. A edição de junho da Revista da Livraria Cultura traz um ótimo texto em que o autor Gustavo Ranieri escreve na primeira pessoa, como se fosse Jim Morrison falando do além. Inclusive lançando luz sobre sua própria morte. Em um dos trechos, o Morrison da ficção diz que, aos 67 anos, já não tem tanta paciência para os fãs que vão visitar seu túmulo no (cemitério) Père Lachaise em Paris, embora vez ou outra divida um pouco do vinho que deixam para ele com Janis Joplin e Jimi Hendrix. Não se pode culpar os fãs: além da aura em torno do visitadíssimo túmulo de Morrison, está no lindo cemitério a que em 1993 também eu fui levada por Jim, muita gente importante, de Edit Piaf ao pintor romântico Delacroix. Pois bem, no texto, Morrison diz que “se pudesse recomeçar, procuraria vivenciar a quietude do pequeno e inalterado artista, caminhando pelo seu estreito caminho”. Resta saber se, mesmo perto dos 70, suas inquietações teriam desaparecido. Difícil apostar que sim.

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Uma noite com o “Aborto Elétrico”

Passa das 20 horas de uma sexta-feira de junho em Brasília. Num Teatro de Arena da UnB com menos de vinte pessoas, Tiago Mendonça, Bruno Torres e Daniel Passi sobem a um palco cheio de nomes de bandas dos anos 80 e começam a tocar “Geração Coca-Cola”. Estamos prestes a entrar em um túnel do tempo e “assistir” a um show do Aborto Elétrico- a banda punk que reuniu membros das futuras Legião Urbana e Capital Inicial- acontecido em 1982 na Universidade. Os três, junto com Sérgio Dalcin (que faz André Petrorius), são os atores escolhidos para interpretar os membros do Aborto: Renato Russo (Tiago, o Luciano de “Dois Filhos de Francisco”); Fê Lemos (Bruno, de “O homem mau dorme bem” e atualmente fazendo o funcionário acusado de trocar os combustíveis do avião na novela “Insensato Coração”); e Flavio Lemos (Daniel Passi, do ótimo “À deriva”) no filme “Somos tão jovens”, a história do Renato Russo na juventude, até o início da Legião. Fê e Flávio iriam formar o Capital, onde estão até hoje. Todos os jovens atores tocam os instrumentos de verdade e será a voz real de Tiago Mendonça que aparecerá como a de Renato no filme. Ali ao lado, de olhos e ouvidos bem abertos está Carlos Trilha, tecladista e produtor que tocou na banda de apoio da Legião, e que treinou e orienta os atores na parte musical.

 

A diretora de figurantes avisa a quatro jovens vestidos com roupas dos anos 80 para onde eles devem ir quando a assistente de direção, Alice Gomes, gritar “ação”. Tiago Mendonça agora está na frente do palco, como se estivesse assistindo aos outros shows daquela noite. De costas para nós, que vemos tudo das arquibancadas do Teatro de Arena, todo vestido de jeans, com os cabelos enrolados, ele anda como Renato Russo, nesta época, aliás, ainda Júnior, de Renato Manfredini Júnior. Se parece muito com ele. “Até minha mãe está achando o Tiago parecido com ele”, me conta Carmem Manfredini, a irmã de Renato, com quem assisto àquela noite de filmagens, ao lado da amiga em comum Adriana Vasconcelos, de outros curiosos, jornalistas e cineastas de Brasília. Carmem aparece duplamente no filme, numa ponta que ela ainda não pode me revelar qual é e interpretada pela atriz Bianca Comparato. A personagem Carmem Teresa, como é chamada em família, aparece em casa com o irmão e os pais, interpretados por Marcos Breda e pela premiada atriz de Linha de Passe, Sandra Corveloni. Carmem também participou da produção emprestando fotos e roupas para ajudar a compor o figurino de Renato e dando consultoria sobre como era o quarto do irmão. Professora de inglês, ela também ajuda a aperfeiçoar a pronúncia de Tiago Mendonça, já que a turma do Aborto e os roqueiros de Brasília em geral, fãs do punk britânico e alguns filhos de diplomatas, tinham muita familiaridade com o idioma (Na foto, assistindo às filmagens, eu, Adriana Vasconcelos, Carmem Manfredini e Cláudio Moraes).

 

O veterano diretor Antônio Carlos da Fontoura- de “Copacabana me engana” (1968) e “A Rainha Diaba (1974) e diversas séries de TV como Ciranda, Cirandinha- ensaia agora uma cena que antecedeu àquele show, que fez parte de uma série com bandas de Brasília, que se apresentaram na UnB em 82, entre elas Plebe Rude e Elite Sofisticada. Um rapaz vai até Renato, que conversa com Carmem e uma amiga punk, Gabi, e pergunta: “E aí, Renato, não vai tocar hoje não?”. Renato responde que não. Logo atrás deles, três punks bem caracterizados soltam gritos de ordem reclamando o reinício dos shows.

Bruno Torres se aproxima de nós para cumprimentar Carmem. Pergunto e ele confirma que interpreta Fê Lemos, “o antagonista da história”. Por que antagonista mesmo? “É que ele e o Renato brigavam muito pela liderança da banda. E um dia, o Fê (baterista) jogou uma baqueta na cabeça do Renato, que desistiu e saiu do Aborto”, me relembra Bruno, ator de 30 anos, mas com cara de 20 e poucos, nascido em Brasília e filho do cineasta da cidade Geraldo Moraes. E ele continua me contando: “a seqüência de hoje é justamente o dia em que o Aborto vai tocar com o Iko Ouro Preto (irmão de Dinho, do Capital) nos vocais e ele não consegue subir ao palco”. “Ele tinha mesmo pânico de tocar em público”, confirma Carmem. Por causa disto, Fê vai até a platéia e chama Renato para fazer o vocal como antigamente. “O Renato subiu e foi o melhor show do Aborto Elétrico”, diz Bruno, antes de voltar a gravar (Na foto, Renato/Tiago está no centro, de jeans; Fê/ Bruno, de camiseta branca ao seu lado).

 

Isto explica a cena em que o rapaz pergunta se Renato não vai tocar hoje. Ele não ía. A próxima seqüência a ser ensaiada e gravada é justamente aquela em que Fê convida Renato pra cantar no Aborto novamente. A esta altura os figurantes que fazem o público já são muitos, mais de 40, e é curiosíssimo ficar olhando seus figurinos que vão do hippie ao punk. De camisas de flanela quadriculadas a coturnos sobre jeans apertados. A platéia também já está bem mais numerosa. Chegaram Erik de Castro diretor de “Senta a Pua!” e “Federal”; Giuliano Manfredini, filho de Renato, que fará uma ponta como um roadie; e o ator que interpreta Philippe Seabra, devidamente paramentado com um chapéuzinho de guarda idêntico ao que o vocalista da Plebe costumava usar nos shows.

 

A câmera segue Fê Lemos/ Bruno Torres que vai passando pelo meio do público até encontrar Renato. Não dá para ouvir o que ele lhe diz, mas agora já sabemos que se trata do convite para tocar. Renato/Tiago não demora muito a concordar e os dois saem juntos em direção ao backstage. Percebemos aí pela primeira vez a tendência de Fontoura de lançar mão de licença poética para contar a história. Carmem não assistiu a este show ao lado de Renato. “Ele não deixava. Eu ficava com minhas amigas. Ele era muito protetor e não queria que eu andasse com os amigos dele”, conta a irmã, três anos mais jovem do que Júnior.

A cena mostra um momento surpreendente porque, nesta época, após deixar o punk Aborto Elétrico, Renato entrara em sua fase Trovador Solitário, em que cantava sozinho composições mais voltadas para o folk de Bob Dylan. Às 22 horas, depois de cerca de dez ensaios, sai o primeiro take. “Dá uma acordada aí, galera, tá todo mundo dormindo”, grita a assistente Alice Gomes aos figurantes, num momento em que o frio já se instalou definitivamente no set ao ar livre. A lua quase cheia atrás do palco torna toda aquela viagem no tempo ainda mais interessante. Do fundo do set, dirigindo a partir do monitor, Antônio Carlos da Fontoura pede a Alice pelo rádio que faça uma tomada da mesma cena de outro ponto de vista, com o palco nos fundos. Por volta de 23:30, esta parte estava pronta. A próxima cena seria a do show. Mas antes disto, nós, os convidados de Brasília, ex-alunos da UnB, viveríamos outro momento com alta carga de nostalgia. O jantar seria no bandeijão!

Exatamente vinte anos após minha formatura, entrei naquele lugar que frenquentava quase todos os dias sem muito estranhamento. Aliviada porque não teria que voltar a descascar laranja com colher, mas feliz de estar ali de novo em uma situação completamente diferente, jantando à meia noite no intervalo de filmagens que contavam um pouco da história de Brasília. Em vez do feijão, arroz e bife típicos do local, o menu foi estrogonofe de carne e uma bela salada. Naquele grande salão agora com cadeiras coloridas, onde se misturavam diretores, atores e toda a equipe deu pra notar o tamanho da produção de “Somos tão jovens”. Uma grande produção do cinema nacional. Cerca de 150 pessoas estavam no bandeijão da UnB naquele momento, fora os figurantes, que jantavam em uma sala ao lado (Na foto, o diretor Antônio Carlos da Fontoura à esquerda, de jaqueta jeans, Carlos Trilha no meio de gorro preto, e atores).

 

Mas o que seria o clímax da noite, terminou com uma pontada de decepção. Foi muito bom ver que a banda do filme soa parecida com o grupo original. Tiago capricha pra tornar a voz mais grave, Bruno toca bateria com destreza. Os atores parecem muito bem escolhidos, muitas locações são em Brasília. Mas quando o Aborto Elétrico, com Renato Russo de volta aos vocais, termina de cantar “Geração Coca-Cola”, algo inusitado acontece: um grupo de mais de dez pessoas do “público”, entre eles “membros” de outras bandas como Philippe Seabra, sobem ao palco para cantar e dançar junto, como se tudo fosse uma grande festa. Um deles, com cabelos afros que remetiam mais aos anos 70 e aos dias de hoje do que à década de 80, vibra teatralmente chamando mais atenção do que o próprio Renato. Como se isto acontecesse em um show de punk do início dos anos 80. Punks eram sérios, não festeiros, pensamos nós. A surpresa toma conta de quem assiste às filmagens. “Vão filmar outra versão, mais verossímel?” “Isto não aconteceu assim e nem aconteceria”, diziam pessoas que estiveram presentes ao show. Ficamos esperando. Esperei por mais de uma hora, enquanto se repetiam novos takes da mesma coisa. Fui embora do set por volta de 1 hora, torcendo, esperando sinceramente que a chance de contar de forma fidedigna aquela história tão cara aos fãs da Legião Urbana e do Capital Inicial e do rock brasileiro em geral não estivesse sendo desperdiçada. Afinal, é uma chance praticamente única.

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