Há 40 anos, morria Jim Morrison e nascia um mito

Há 40 anos, morria Jim Morrison e nascia um mito

Há 40 anos, a serem completados neste 3 de julho, morria em uma banheira de um quarto de Paris um dos grandes letristas que o rock já teve. Um de seus grandes intérpretes também: James Douglas Morrison, ou Jim Morrison, morreu em circunstâncias nunca totalmente esclarecidas, oficialmente de um ataque cardíaco, extraoficialmente em conseqüência de uma overdose de drogas que teria levado o coração a parar. Eu tinha menos de três anos quando isto aconteceu, mas sou grata por não dependermos apenas da escola pra aprender História.

No caso do The Doors, a banda sessentista que Morrison iria formar com o amigo tecladista e compositor musical Ray Manzarek, o guitarrista Robby Krieger e o baterista John Densmore, minha escola foi a MTV americana (em meus meses de intercâmbio em Michigan na adolescência), as ruas de Paris logo depois, cidade que sempre preservou a memória do cantor que a escolheu para morar, e as boas revistas de música e cadernos de cultura dos anos 80, especialmente a Bizz que, além das novidades, trazia uma seção no final com capítulos importantes da história do rock. Anos luz deste projeto de canal de hoje, a MTV se dedicava exclusivamente aos vídeo clipes, inclusive os vintage, e entre um e outro, dava notícias do mundo da música por meio de VJs que tinham bem mais que um rosto jovem e uma cara bonitinha: tinham informação. Pelas ruas de Paris se espalhavam cartazes de Jim Morrison, de seu rosto emblemático até a célebre foto com os braços abertos tirada em um ensaio promocional em Los Angeles.


De volta do Brasil, eu e minha amiga Adriana Moellman, também roqueira desde sempre, assistimos umas dez vezes ao vídeo “Dance on fire”, com clipes e trechos de shows dos Doors. Aquela música muitas vezes viajante, aquelas imagens da Los Angeles livre da década de 60, a voz grave de Jim, os shows inebriantes nos pegaram de jeito. Atualmente, o vídeo está à venda em DVD. Quando Oliver Stone teve a boa ideia de filmar “The Doors”, eu já conhecia bem aquela história. Um bom retrato da banda, a cinebiografia reconstituía não só os shows memoráveis, como aquele em que Morrison baixou as famosas calças de couro e foi preso e o do Hollywood Bowl, como detalhes de seus relacionamentos e de sua personalidade.

Morrison era tão talentoso, bom poeta, dono de uma bela voz, performer original, que nem precisaria ser tão belo. Mas era e sua beleza com certeza contribuiu para a aura de mito que o envolveu depois de sua morte precoce aos 27. Val Kilmer o interpretou com afinco, os trejeitos foram imitados quase à perfeição, mas não chegava nem perto de fazer jus à beleza física de Morrison. E nem se parecia minimamente com ele. Antes de ver o filme, cheguei a achar que havia sido um caso de miscasting. Mas os Doors não teriam sido o que foram sem outro elemento essencial: a música composta principalmente por Ray Manzarek, mas também por Robby Krieger, um guitarrista de mão cheia, com influências da guitarra espanhola. Uma música muito única, com teclado marcante como nos primórdios do rock, mas com uma sonoridade mais psicodélica. Música rica e variada, que bebia em fontes diversas. People are strange e Whiskie bar não são rock, parecem saídas dos anos 40. A linda Touch me é uma canção permeada por momentos de puro rock. The end é um hino. Aliás, um hino que pode ter diversas interpretações, uma delas a despedida antes da morte na guerra, opção que Francis Ford Coppola imortalizou no filme Apocalypse Now. Muitas, como L.A Woman, Roadhouse blues, Riders on the storm tendem para o blues. E há Light my fire, pop rock mais comercial, encomendado pela gravadora e composto por Krieger, mas dona de um dos refrões mais famosos do rock and roll, reproduzido até hoje em rádios e festas.

Quando os velhos amigos Morrison e Manzarek se reencontraram numa praia da Califórnia e o tecladista convidou o poeta para ser cantor de uma nova banda, Morrison estudava cinema na UCLA, a Universidade da Califórnia. Não à toa, aliás, na mesma época em que Oliver Stone e Coppola.Manzarek havia se encantado com alguns dos versos de Morrison. Filho de pai militar que estava sempre ausente, Jim nasceu na Florida, mas morou em diversos estados com a mãe. Culpava o pai pela ausência e se refugiava nos livros e também no bom humor. Ainda no Ensino Médio, tornou-se leitor de poetas como William Blake e Rimbaud e os beatnicks William Bourroghs, Jack Kerouac e Allen Ginsberg, que pregavam uma nova forma de se viver, oposta ao American Way of Life, ligado ao consumismo e outras drogas lícitas. De outro escritor também dos anos 50, o inglês Aldous Huxley, Jim Morrison tirou o nome da banda. Uma referência às portas da percepção que Huxley pregava que podiam ser abertas com uma ajudinha de drogas lisérgicas como mescalina e LSD, tão em voga nos anos 60. “Se as portas da percepção estivessem limpas, tudo apareceria para o homem tal como é: infinito.”

Baseado nesta citação de William Blake, Huxley assumiu que o cérebro humano filtra a realidade de modo a não permitir a passagem de todas as impressões e imagens que existem efetivamente. Se isso acontecesse, o processamento de tal quantidade de informação seria simplesmente insuportável. De acordo com esta visão das coisas, algumas drogas poderiam reduzir esse processo de filtragem, ou “abrir as portas da percepção”, como é dito metaforicamente. Com o intuito de verificar esta teoria, Huxley começou a tomar mescalina e a descrever os seus pensamentos e sentimentos sob o efeito da droga. A sua principal impressão seria a de que os objetos do nosso cotidiano perdem a sua funcionalidade, passando a existir “por si mesmos”. O espaço e as dimensões tornam-se irrelevantes, parecendo que a percepção se alarga de uma forma espantosa e mesmo humilhante já que o ser humano se apercebe da sua incapacidade para fazer face a tantas impressões.

Jim concordava totalmente com esta teoria a ponto de consumir drogas teoricamente embasado!  Compunha este universo também em sua mente um xamã que o menino Jim havia visto aos cinco anos em uma viagem de carro com a família quando atravessavam o deserto e se depararam com um acidente de carro envolvendo índios. Dois veículos haviam colidido e diversos índios estavam mortos na estrada. “Talvez um ou dois estavam correndo à minha volta e entraram em minha alma”, contaria Morrison mais tarde, explicando quão marcante fora sempre este episódio para ele. A imagem insistiria em habitar seus sonhos e viagens lisérgicas por anos a fio. De espírito inquieto, curioso e inconformado com o stablishment, Morrison logo encontrou na poesia, na música, nas drogas e no álcool maneiras de expressar sua rebeldia. Terminou se tornando um dos produtos emblemáticos da contracultura americana.

As viagens lisérgicas estavam presentes em diversas músicas e até em vídeos dos Doors. Jim Morrison se intitulava o Rei Lagarto, uma criatura proveniente destas viagens de volta ao deserto americano de sua infância. Pode-se dizer, sem medo de errar, que os Doors não seriam os mesmos sem o LSD. O ácido estava ali para o bem e para o mal. Para abrir as portas da percepção na hora da criação e para servir de ponte para outras drogas e fechar as portas na hora da morte. Morte que levou não só Morrison, mas sua namorada Pamela Courson, quatro anos mais tarde.

Depois do êxtase do sucesso do grupo nos Estados Unidos, do enorme assédio das fãs em seu culto especialmente ao cantor, dos altos e baixos causados pelo abuso de álcool e drogas, não foi à toa que Jim Morrison resolveu dar um tempo em Paris. A capital cultural europeia tinha muito mais a ver com suas aspirações poéticas e de vida. Mas, àquela altura, já era difícil encontrar o equilíbrio. A edição de junho da Revista da Livraria Cultura traz um ótimo texto em que o autor Gustavo Ranieri escreve na primeira pessoa, como se fosse Jim Morrison falando do além. Inclusive lançando luz sobre sua própria morte. Em um dos trechos, o Morrison da ficção diz que, aos 67 anos, já não tem tanta paciência para os fãs que vão visitar seu túmulo no (cemitério) Père Lachaise em Paris, embora vez ou outra divida um pouco do vinho que deixam para ele com Janis Joplin e Jimi Hendrix. Não se pode culpar os fãs: além da aura em torno do visitadíssimo túmulo de Morrison, está no lindo cemitério a que em 1993 também eu fui levada por Jim, muita gente importante, de Edit Piaf ao pintor romântico Delacroix. Pois bem, no texto, Morrison diz que “se pudesse recomeçar, procuraria vivenciar a quietude do pequeno e inalterado artista, caminhando pelo seu estreito caminho”. Resta saber se, mesmo perto dos 70, suas inquietações teriam desaparecido. Difícil apostar que sim.

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24 Comentários

  1. Mari!
    Foi graças às nossas sessões de vídeo na sua casa que conheci Dance on Fire. Se não fosse por isso, o filme de Oliver Stone não teria causado tanto impacto em mim. Logo no início, uma in off, a voz de Jim Morrison me transportou para a sua casa na 109 sul: “Is Everybody in? Is Everybody in? Is everybody in? The ceremony is about to begin…”. Arrepiante.

    Lembrava de forma diferente – a memória às vezes traz as coisas um pouco diferentes… Ao procurar a frase correta, encontrei, em um site, o roteiro do filme. Ele está em: http://www.script-o-rama.com/movie_scripts/d/doors-script-transcript-jim-morrison.html

    Texto maravilhoso, lembranças queridas. Bjo! Dri.

    The ceremony is about to begin.

    • Pois é, Dri, também me lembra a casa da minha mãe. É isto mesmo, este é o início! Comprei em DVD, mas só vi uma vez, não acho graça em assistir sozinha a nenhum vídeo de música. Um dia fazemos uma sessão de revival. Tem roteiro, é? Roteiro de documentário? Normalmente é roteiro de edição. Vou olhar lá. Beijos! Ah, já que você faz parte da história, divulgue pros seus amigos, acho que vão gostar, né? Bjs.

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