Uma noite com o “Aborto Elétrico”

Uma noite com o “Aborto Elétrico”

Passa das 20 horas de uma sexta-feira de junho em Brasília. Num Teatro de Arena da UnB com menos de vinte pessoas, Tiago Mendonça, Bruno Torres e Daniel Passi sobem a um palco cheio de nomes de bandas dos anos 80 e começam a tocar “Geração Coca-Cola”. Estamos prestes a entrar em um túnel do tempo e “assistir” a um show do Aborto Elétrico- a banda punk que reuniu membros das futuras Legião Urbana e Capital Inicial- acontecido em 1982 na Universidade. Os três, junto com Sérgio Dalcin (que faz André Petrorius), são os atores escolhidos para interpretar os membros do Aborto: Renato Russo (Tiago, o Luciano de “Dois Filhos de Francisco”); Fê Lemos (Bruno, de “O homem mau dorme bem” e atualmente fazendo o funcionário acusado de trocar os combustíveis do avião na novela “Insensato Coração”); e Flavio Lemos (Daniel Passi, do ótimo “À deriva”) no filme “Somos tão jovens”, a história do Renato Russo na juventude, até o início da Legião. Fê e Flávio iriam formar o Capital, onde estão até hoje. Todos os jovens atores tocam os instrumentos de verdade e será a voz real de Tiago Mendonça que aparecerá como a de Renato no filme. Ali ao lado, de olhos e ouvidos bem abertos está Carlos Trilha, tecladista e produtor que tocou na banda de apoio da Legião, e que treinou e orienta os atores na parte musical.

 

A diretora de figurantes avisa a quatro jovens vestidos com roupas dos anos 80 para onde eles devem ir quando a assistente de direção, Alice Gomes, gritar “ação”. Tiago Mendonça agora está na frente do palco, como se estivesse assistindo aos outros shows daquela noite. De costas para nós, que vemos tudo das arquibancadas do Teatro de Arena, todo vestido de jeans, com os cabelos enrolados, ele anda como Renato Russo, nesta época, aliás, ainda Júnior, de Renato Manfredini Júnior. Se parece muito com ele. “Até minha mãe está achando o Tiago parecido com ele”, me conta Carmem Manfredini, a irmã de Renato, com quem assisto àquela noite de filmagens, ao lado da amiga em comum Adriana Vasconcelos, de outros curiosos, jornalistas e cineastas de Brasília. Carmem aparece duplamente no filme, numa ponta que ela ainda não pode me revelar qual é e interpretada pela atriz Bianca Comparato. A personagem Carmem Teresa, como é chamada em família, aparece em casa com o irmão e os pais, interpretados por Marcos Breda e pela premiada atriz de Linha de Passe, Sandra Corveloni. Carmem também participou da produção emprestando fotos e roupas para ajudar a compor o figurino de Renato e dando consultoria sobre como era o quarto do irmão. Professora de inglês, ela também ajuda a aperfeiçoar a pronúncia de Tiago Mendonça, já que a turma do Aborto e os roqueiros de Brasília em geral, fãs do punk britânico e alguns filhos de diplomatas, tinham muita familiaridade com o idioma (Na foto, assistindo às filmagens, eu, Adriana Vasconcelos, Carmem Manfredini e Cláudio Moraes).

 

O veterano diretor Antônio Carlos da Fontoura- de “Copacabana me engana” (1968) e “A Rainha Diaba (1974) e diversas séries de TV como Ciranda, Cirandinha- ensaia agora uma cena que antecedeu àquele show, que fez parte de uma série com bandas de Brasília, que se apresentaram na UnB em 82, entre elas Plebe Rude e Elite Sofisticada. Um rapaz vai até Renato, que conversa com Carmem e uma amiga punk, Gabi, e pergunta: “E aí, Renato, não vai tocar hoje não?”. Renato responde que não. Logo atrás deles, três punks bem caracterizados soltam gritos de ordem reclamando o reinício dos shows.

Bruno Torres se aproxima de nós para cumprimentar Carmem. Pergunto e ele confirma que interpreta Fê Lemos, “o antagonista da história”. Por que antagonista mesmo? “É que ele e o Renato brigavam muito pela liderança da banda. E um dia, o Fê (baterista) jogou uma baqueta na cabeça do Renato, que desistiu e saiu do Aborto”, me relembra Bruno, ator de 30 anos, mas com cara de 20 e poucos, nascido em Brasília e filho do cineasta da cidade Geraldo Moraes. E ele continua me contando: “a seqüência de hoje é justamente o dia em que o Aborto vai tocar com o Iko Ouro Preto (irmão de Dinho, do Capital) nos vocais e ele não consegue subir ao palco”. “Ele tinha mesmo pânico de tocar em público”, confirma Carmem. Por causa disto, Fê vai até a platéia e chama Renato para fazer o vocal como antigamente. “O Renato subiu e foi o melhor show do Aborto Elétrico”, diz Bruno, antes de voltar a gravar (Na foto, Renato/Tiago está no centro, de jeans; Fê/ Bruno, de camiseta branca ao seu lado).

 

Isto explica a cena em que o rapaz pergunta se Renato não vai tocar hoje. Ele não ía. A próxima seqüência a ser ensaiada e gravada é justamente aquela em que Fê convida Renato pra cantar no Aborto novamente. A esta altura os figurantes que fazem o público já são muitos, mais de 40, e é curiosíssimo ficar olhando seus figurinos que vão do hippie ao punk. De camisas de flanela quadriculadas a coturnos sobre jeans apertados. A platéia também já está bem mais numerosa. Chegaram Erik de Castro diretor de “Senta a Pua!” e “Federal”; Giuliano Manfredini, filho de Renato, que fará uma ponta como um roadie; e o ator que interpreta Philippe Seabra, devidamente paramentado com um chapéuzinho de guarda idêntico ao que o vocalista da Plebe costumava usar nos shows.

 

A câmera segue Fê Lemos/ Bruno Torres que vai passando pelo meio do público até encontrar Renato. Não dá para ouvir o que ele lhe diz, mas agora já sabemos que se trata do convite para tocar. Renato/Tiago não demora muito a concordar e os dois saem juntos em direção ao backstage. Percebemos aí pela primeira vez a tendência de Fontoura de lançar mão de licença poética para contar a história. Carmem não assistiu a este show ao lado de Renato. “Ele não deixava. Eu ficava com minhas amigas. Ele era muito protetor e não queria que eu andasse com os amigos dele”, conta a irmã, três anos mais jovem do que Júnior.

A cena mostra um momento surpreendente porque, nesta época, após deixar o punk Aborto Elétrico, Renato entrara em sua fase Trovador Solitário, em que cantava sozinho composições mais voltadas para o folk de Bob Dylan. Às 22 horas, depois de cerca de dez ensaios, sai o primeiro take. “Dá uma acordada aí, galera, tá todo mundo dormindo”, grita a assistente Alice Gomes aos figurantes, num momento em que o frio já se instalou definitivamente no set ao ar livre. A lua quase cheia atrás do palco torna toda aquela viagem no tempo ainda mais interessante. Do fundo do set, dirigindo a partir do monitor, Antônio Carlos da Fontoura pede a Alice pelo rádio que faça uma tomada da mesma cena de outro ponto de vista, com o palco nos fundos. Por volta de 23:30, esta parte estava pronta. A próxima cena seria a do show. Mas antes disto, nós, os convidados de Brasília, ex-alunos da UnB, viveríamos outro momento com alta carga de nostalgia. O jantar seria no bandeijão!

Exatamente vinte anos após minha formatura, entrei naquele lugar que frenquentava quase todos os dias sem muito estranhamento. Aliviada porque não teria que voltar a descascar laranja com colher, mas feliz de estar ali de novo em uma situação completamente diferente, jantando à meia noite no intervalo de filmagens que contavam um pouco da história de Brasília. Em vez do feijão, arroz e bife típicos do local, o menu foi estrogonofe de carne e uma bela salada. Naquele grande salão agora com cadeiras coloridas, onde se misturavam diretores, atores e toda a equipe deu pra notar o tamanho da produção de “Somos tão jovens”. Uma grande produção do cinema nacional. Cerca de 150 pessoas estavam no bandeijão da UnB naquele momento, fora os figurantes, que jantavam em uma sala ao lado (Na foto, o diretor Antônio Carlos da Fontoura à esquerda, de jaqueta jeans, Carlos Trilha no meio de gorro preto, e atores).

 

Mas o que seria o clímax da noite, terminou com uma pontada de decepção. Foi muito bom ver que a banda do filme soa parecida com o grupo original. Tiago capricha pra tornar a voz mais grave, Bruno toca bateria com destreza. Os atores parecem muito bem escolhidos, muitas locações são em Brasília. Mas quando o Aborto Elétrico, com Renato Russo de volta aos vocais, termina de cantar “Geração Coca-Cola”, algo inusitado acontece: um grupo de mais de dez pessoas do “público”, entre eles “membros” de outras bandas como Philippe Seabra, sobem ao palco para cantar e dançar junto, como se tudo fosse uma grande festa. Um deles, com cabelos afros que remetiam mais aos anos 70 e aos dias de hoje do que à década de 80, vibra teatralmente chamando mais atenção do que o próprio Renato. Como se isto acontecesse em um show de punk do início dos anos 80. Punks eram sérios, não festeiros, pensamos nós. A surpresa toma conta de quem assiste às filmagens. “Vão filmar outra versão, mais verossímel?” “Isto não aconteceu assim e nem aconteceria”, diziam pessoas que estiveram presentes ao show. Ficamos esperando. Esperei por mais de uma hora, enquanto se repetiam novos takes da mesma coisa. Fui embora do set por volta de 1 hora, torcendo, esperando sinceramente que a chance de contar de forma fidedigna aquela história tão cara aos fãs da Legião Urbana e do Capital Inicial e do rock brasileiro em geral não estivesse sendo desperdiçada. Afinal, é uma chance praticamente única.

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5 Comentários

  1. Adriana Vasconcelos |

    Foi realmente uma noite maravilhosa! Divertida e cheia de boas lembraças de uma época inesquecível. Qto ao fim da noite, a mim ñ incomodou tanto, embora recolheça q ñ é típico de show de punk rock… Enfim, valeu a noite!

    • Dri Vasconcelos, realmente só faltou o chocolate quente ou um quentão! Foi maravilhosa a noite! Dri Lins, vc realmente precisa vir a Brasília em tempos de filmagens pra fazermos estas viagens no tempo. Se bem que, agora, é uma oportunidade única, eles ainda tão em Brasília filmando pelas próximas semanas. Dri Vasconcelos, “Somos tão jovens” é uma ficção, mas baseada em fatos. Quanto mais próxima da realidade, melhor ficará. Os fãs da Legião e do Capital não querem ver o que não aconteceu, tenho convicção disto. Mas entendo que vc, como cineasta de ficção, não tenha ficado irada com a cena. Carmem gostou do meu comentário ao fim do texto.

  2. é o túnel do tempo mesmo. Que saudades que tenho, das bandas de Brasília, do Teatro de Arena ate do bandeijao, quem diria!
    O artigo está muito bem escrito, amei, li um artigo no Globo sobre a filmagem. Se estivesse em Brasilia, teria ido com certeza com voce.

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