Amigos e… amigos

Amigos e… amigos

Jerry Seinfeld, espécie de filósofo do cotidiano, agora com 57 anos, disse outro dia, na primeira apresentação que já fez para uma platéia inglesa, que o facebook só serve para amontoar um monte de amigos e perguntou: “e quem disse que ter um monte de amigos é uma coisa boa? É uma chatice”. Não concordo totalmente com Seilfeld nesta, afinal não sendo comediante, não tenho que ser tão radical e polêmica. Mas entendo perfeitamente o que ele quis dizer. É claro que todas aquelas 400, 500, no caso de alguns mais de mil pessoas que adicionamos como “amigos” no facebook não são todos amigos realmente, são um misto de amigos próximos, amigos não tão próximos, ex-amigos com quem perdemos o contato, colegas e amigos de amigos. Alguns até desconhecidos, algo inimaginável há uma década. Depois de alguns meses acessando a rede social, percebemos que nem sempre é agradável ficar “ouvindo” o que pensam colegas com quem não temos intimidade sobre o que terão que fazer em um dia chato, como foi difícil colocar seu filho para dormir, como as pessoas são mal-educadas na fila do banco… Ou os comentários daqueles carentes da rede que, em busca de atenção, postam alguma coisa em que sequer acreditam realmente com o solitário objetivo de causar polêmica e angariar dezenas de comentários sobre o seu fabuloso post.

É claro que o face e as redes criadas no rastro do sucesso da brilhante ideia de Mark Zukenberg, quando bem usados, têm um lado super positivo: nos aproximam dos nossos verdadeiros amigos, nos reaproximam de amigos verdadeiros do passado, nos revelam bons amigos virtuais que podem até se tornar amigos do mundo real, nos conectam com os amigos que moram em outras cidades e países. E o melhor: nos colocam em contato com músicas maravilhosas e imagens fantásticas que são postadas pelos amigos de bom gosto. Tem coisa melhor do que navegar pelos (bons) comentários ouvindo um jazz, um blues ou até um rock antigo postado pelo meu amigo virtual Marco Antônio Gonçalves, por exemplo? Ou deliciar o olhar com as pinturas renascentistas resgatadas por minha amiga virtual Gil Moscardo ou pelos lindíssimos e originais e-books de Bia Simonassi, amiga antiga que mora atualmente na Suiça e reencontrei graças ao face? Há ainda os belíssimos poemas da minha colega de faculdade Déby Day, pra encontrá-la no face (vale a pena) procurar em Débora Dornellas.

Mas voltemos à afirmação de Seinfeld porque minha intenção original não era me ater às amizades nas redes sociais. Das entrelinhas da afirmação do filósofo da arte de falar sobre o nada pode-se tirar também outra conclusão: na vida adulta não temos mais tantos amigos porque não estamos próximos de tantas pessoas como quando somos crianças, adolescentes, universitários. Assim, se temos muitos amigos, eles não são tão amigos assim, deve ter pensado Seinfeld referindo-se ao facebook. Na escola e na universidade, a convivência com um grande número de pessoas é uma constante, todos os dias vemos aqueles 30, 40 colegas de sala e mais não sei quantos das outras turmas. Temos, portanto, assuntos em comum. Assuntos fáceis, que dizem respeito ao nosso dia a dia. Há ainda os amigos das atividades extracurriculares da tarde, natação, inglês…No trabalho, normalmente este universo de pessoas se reduz e os temas também tendem a fazê-lo. Fala-se mais sobre o próprio trabalho e se limita a tratar da vida pessoal com um grupo bem menor. É nesta fase, a da vida adulta, a do trabalho, que começamos a nos afastar dos outros amigos. É mais fácil falar do dia a dia, é mais fácil falar com quem está próximo. Boa parte das pessoas que se envolvem com o trabalho terminam caindo na besteira de se afastar dos amigos antigos, na verdade nem tão antigos assim, por preguiça, por um desinteresse momentâneo. Afinal, os amigos antigos não estão ligados nos nossos interesses mais imediatos, não dá pra comentar com eles sobre a última do chefe, a fofoca sobre o caso do colega, não vamos telefonar somente para comentar a viagem no tempo e na imaginação proporcionada pelo último filme de Woody Allen. É mais fácil fazê-lo com o colega, o novo amigo ali do lado. Longe de mim menosprezar os colegas ao lado que, especialmente nos últimos anos, têm se revelado ótimos amigos.Ainda bem! 

Claro que há diversos tipos de amigos. Há os que realmente telefonam quando você está passando por um período difícil em sua vida e com um simples telefonema mudam o seu dia. Há os que sempre dão um jeito de estar presentes, telefonando a cada quinze dias ou mandando mensagens de texto no celular pra comentar séries, filmes ou qualquer acontecimento do cotidiano. Há os que ajudam no dia a dia pensando em você para um trabalho ou até ouvindo suas ladainhas. Há os que sempre comentam seus posts no facebook ou puxam conversa no bate-papo. Acho ótimo! Mas há os que são muito bons na sua presença, mas dão uma esquecida quando você já não está mais tão próxima. Às vezes mesmo que esteja com dificuldades. Afinal, entre o trabalho e a amizade… adivinha? O trabalho sempre vem em primeiro lugar. Há também os que colocam a família em primeiro lugar, como se não fosse possível conciliá-la com os amigos. Falta aquele esforcinho para incluir os velhos amigos no novo cotidiano. E há um grupo, infelizmente minoritário, que tenta manter a amizade depois de anos de afastamento, tomando a iniciativa de ligar de vez em quando. Faço parte deste grupo e já foi o tempo em que me ressentia por outras pessoas não fazerem o mesmo. Faço quando acho que vale a pena, quando a resposta do outro lado é correspondente. E muitas vezes o é.

Como não sou muito de conversar por telefone- prefiro mil vezes o papo presencial ou até por escrito- me esforço pra marcar almoços ou mesmo convidar para a festinha de aniversário do meu filho ou do meu aniversário. Uma vez um casal amigo de amigos disse na minha cara que acha o fim a pessoa gastar um dinheirão para fazer uma festa de aniversário quando o filho completa apenas um ano. Afinal, argumentaram eles, a criança não entende bem a festa e os adultos é que terminam aproveitando. Poucas vezes ouvi algo tão estúpido e pouco generoso. Para quê, afinal, trabalhamos o ano inteiro e ganhamos nosso dinheirinho? Por que não para reunir os amigos e comemorar com eles algo que nos alegra? E o que pode nos alegrar mais do que o aniversário de um filho?

Ultimamente, tenho me deparado com casos mais graves de amigos que resolvem sumir. Entre as pessoas procuradas, aquelas que nunca procuram, mas são fofíssimas quando as procuramos, fazendo com que acreditemos que ficaram realmente felizes porque chegamos até elas, aconteceu de uma delas simplesmente não informar, por e-mail que seja, uma mudancinha, assim desimportante em sua vida: havia se mudado para morar com o namorado, praticamente se casado. Uma amiga de infância, que eu considerava próxima. É um caso típico de amigos muito receptivos quando estão mal que quando ficam bem de-sa-pa-re-cem do mapa. O desaparecimento já havia ocorrido antes outras vezes, mas eu, boba, insistira. Esta última vez, porém, não deixa dúvida: a pessoa realmente se rendeu às amizades fáceis, aquelas do dia a dia. Aquelas que podem facilmente durar exatamente o tempo que você ficar naquele trabalho, por exemplo.

Amizades do trabalho podem ser maravilhosas, não me entendam mal. Afinal, é ali que passamos a maior parte do nosso dia. Tenho grandes amigas e também amigos que conheci no ambiente de trabalho. Alguns do Rio, outros de Brasília. Tenho dois amigos de um de meus trabalhos no Rio de Janeiro, um homem e uma mulher, que estão sempre me surpreendendo com a dedicação com que tratam nossa amizade. Por outro lado, conheci pessoas que, durante os anos que duraram o trabalho, se tornaram muito próximas, com quem achava que teria uma amizade duradoura, e que a distância foi suficiente para que sumissem da mesma forma como chegaram. Bem, no campo da amizade, como em tudo na vida, vamos aprendendo com o tempo. Estamos sempre aprendendo. Decepções são boas para que evitemos futuros desgastes. Mas não devemos deixar que sejam tão marcantes a ponto de nos fecharmos para boas surpresas.

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220 Comentários

  1. Mariana,

    Adorei seu post! Vc conseguiu fazer uma síntese excelente dos motivos q levam amigos a se afastarem de nós. É tão dolorido experienciar este afastamento! Mas infelizmente faz parte da vida e aprendemos q nem todos valorizam as amizades como nós.

    Alias, desculpe o meu sumiço, são tantas coisas acontecendo, tantos pequenos projetos para o estúdio, q acabo sem tempo p dar um alo, q seja por aqui. Mas continuo querendo encontrá-los, vc sabe q eu e Gil gostamos muito de vc e do maridon! Por mim, posso dizer q estou c saudades.

    Vamos passar os próximos 5 finais de semana fora de BSB, mas prometo q quando eu voltar a ficar aí nos finais de semana, vou te ligar p sairmos. Ah! Eu tb detesto conversar no telefone! Prefiro mil vezes marcar um encontro.

    Bjs

    • Dami, que bom que você gostou, foi um desabafo mesmo. Também estamos com saudades de vocês. Liguem quando voltarem desta viagem pra marcarmos de nos vermos. Um beijo e boa viagem!

  2. Mariana, gostei muito do seu texto. Impossível não se identificar com o seu desabafo!! Beijinho, Kal

  3. deborah dornellas |

    Mari, que honra ser citada entre teus amigos que te trazem alegria e bons momentos na vida virtual! Bom mesmo é nossa amizade real!
    Beijosss

  4. Ôi Mari,

    Lindo texto! Já sabia que você escreve muito bem, afinal, trabalhamos juntas. E me vi em alguns parágrafos do seu certíssimo desabafo. Estamos separadas pela distância, pela vida atual que é bem diferente do nosso tempo de MultiRio. Mas, amiga creia que você está sempre no meu coração, te olho sempre na foto que estamos juntas no antigo Canecão e no seu blog que aliás é bacanérrimo. Fica a minha saudade e espero um reencontro presencial regado aos bons drinks e reviver o nosso carinho. Um beijo grande!

    • Regininha, realmente vc se reconheceu bem no texto. É furona mesmo e reconhece, mas pelo menos aparece virtualmente de vez em quando. Vamos ver se vai aparecer em minha próxima ida ao Rio. Só que não tem data prevista agora. Bjs. Débi, sim, é ótimo ler seus poemas na rede, um deleite! Beijos!

  5. Mári, querida, voce escreve super bem mesmo, vale um blog nos grandes jornais mesmo. Tenho saudades dos meus amigos de Brasília, sinto falta de falar a mesma lingua, afinal mesmo que brasileiros, os meus amigos aqui nao tem “Brasília” em comum comigo, e essa infancia e experiencia na capital marcaram muito a minha vida. Saudades.

    • Que bom que o texto serviu para os grandes amigos aparecerem de novo! Não que sejam os sumidos! Sim, Dri, também estou com muitas saudades, se pudesse teria ido dar um pulo aí na Europa neste verão, mas não deu mesmo. Maurice, nos vemos pouquíssimo mesmo, é até um pecado. Vou te ligar pra marcarmos aquele happy hour. Beijos grandes!

  6. Ei, querida! É verdade, o ritmo de vida moderno nos afasta dos nossos amigos queridos e acabamos mesmo dando mais atenção aos que estão do lado. Acho também que a facilidade das comunicações no mundo virtual deixa a gente um pouco preguiçoso quanto a manter um contato pessoal mais constante. Falando nisso, precisamos marcar nosso happy hour. Bjs.

  7. Mariana,
    belo texto.
    sempre leio você, se não escrevo, é por falta de tempo.
    Outro dia vi uma matéria sobre o filme do RR e quando vi as fotos, falei: ah, já vi, no blog da Mariana!
    bjs,
    zs

    • Zezé, pois é, você é daquelas amigonas com quem falo pouco, mas quando falo, não falta assunto nunca! Só não entendi qual é o filme do RR. Decifre! Bjs.

  8. Marcelo Westphalem |

    Mariana, acho que você deveria ter uma coluna de crônicas num desses grandes jornais. Você escreve muito bem. Parabéns!

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