Posts made in agosto, 2011

O bom e o ruim do prêmio MTV

Mesmo quem é fã de Lady Gaga, de suas músicas, performances, enfim, da persona que ela criou, certamente se surpreendeu ontem (domingo, 28/08) no Video Music Awards (VMA), a premiação anual de vídeo clips da MTV americana. Claro, é intrínseco a Lady Gaga surpreender a cada aparição, sempre com roupas extravagantes, cada vez incorporando um personagem. A surpresa de ontem, porém, não disse respeito apenas à roupa, foi muito melhor: a diva pop do momento, provavelmente da década, surpreendeu musicalmente.

Para mim que a conheci primeiro por seus escândalos com enorme potencial para gerar uma profusão de notícias na internet e só depois por sua música, Lady Gaga é uma boa compositora de canções pop para dançar. Compositora relativamente inventiva, performer criativa e, principalmente, provocadora. Já vimos isto antes, foi em 1978, quando Madonna apareceu com Holiday e, principalmente, quando, no início dos 80, lançou as então muito polêmicas Like a Virgin e Material Girl. Gaga foi considerada por muitos críticos musicais como uma Madonna dos anos 2000 com uma voz bem melhor. Quem ouviu Madonna no início da carreira se lembra de sua voz sofrível, muitas vezes desafinada. Com algum exagero na comparação, era ela lá e Paula Toller aqui. Ambas melhoraram com o passar dos anos. O que importa é que quem gostava de Madonna estava interessado nas suas qualidades: as de boa dançarina (foi assim que ela começou, ainda em seu estado natal, Michigan), boa compositora de canções para dançar (como sua pupila atual), e compositora de letras que íam contra os “bons costumes” e enfureciam especialmente a Igreja (lembra alguém?).

O fato é que, no VMA de ontem, Gaga provou ser mais do que a Madonna do novo milênio. Subiu ao palco vestida de homem, de terno e camiseta branca, abandonando completamente o visual rococó, mas mantendo a pose de original, e cantou… soul. Cantou uma bela música soul com autoridade, voz firmíssica, afinadíssima, lindamente, enfim. A performance com forte presença de palco, tocando piano e subindo em cima do instrumento depois, foi digna dela própria. No mais, estava irreconhecível. Deixou Thunderbird, o VJ veterano da MTV Brasil, que retornou ao canal após anos afastado, boquiaberto. Era mesmo Lady Gaga quem estivera naquele palco, cantando aquela música tão diferente, e tão superior ao que ela costuma apresentar?, pareceu pensar ele. Thunderbird é um VJ ligado ao rock, da época em que o estilo dominava a programação da MTV tanto aqui quanto nos Estados Unidos. Muito ao contrário de hoje, em que nos poucos programas em que há música realmente- a maioria é voltada para debates e jogos ligados ao comportamento jovem- se sobressaem o rap, em maior quantidade, e o pop, em menor. Lembro-me bem de ter encontrado Thunder, como os colegas o chamam no ar, em uma entrevista coletiva organizada meio às pressas com os membros do U2 na primeira vinda do grupo ao Brasil, somente para os jornalistas de televisão. Eu era repórter da TV Bandeirantes do Rio, na época, 1997, e cobria exclusivamente cultura. Para cada pergunta que nós mortais das TVs generalistas fazíamos, Thunder fazia três ou quatro. Era embrenhado no tema, e, como tal, deve ter até mais má vontade com os não roqueiros que tomaram conta da MTV do que eu mesma o tenho. E ontem, após assistir àquela Lady Gaga, não conseguiu disfarçar isto.

 

Como sei que o prêmio da MTV é mais voltado para rappers e novas divas pop, me interesso pouco em assisti-lo, já que não estão entre minhas preferências musicais. Ontem, coloquei o programa na minha agenda porque haveria uma homenagem a Amy Winehouse feita por ninguém menos que o veteraníssimo representante do cancioneiro americano Tony Bennett. Mas assistir àquele prêmio hoje em dia, e ver uma cantora candidata a nova diva querendo aparecer mais do que a outra, com vestidos tão extravagantes que alguns beiram o ridículo, e VJs americanos fingindo surpreender os “astros” do rap nos bastidores da premiação, serviu mais para me lembrar de como era fantástica a MTV dos saudosos anos 80.

 Mais do que isto, como um canal de vídeos musicais era exatamente o que se propunha a ser: um canal em que a música era o centro de tudo, dedicado aos vídeos musicais 24 horas por dia, no caso dos Estados Unidos, por exemplo. Em que a música era muito mais importante do que a forma como cantores e cantoras se vestiam, por exemplo. Claro que isto tem muito a ver com o tipo de música predominante no gosto de cada geração. E aí é que está: o rock é mais autêntico, no rock não é a vestimenta que importa, pelo contrário, faz parte da filosofia roqueira ser contra o stablishment, bradar contra o que está errado, reivindicar o que é melhor. E não são as aparências que interessam. Enfim, o rock é, em geral, engajado. Não necessariamente político, mas engajado mesmo que em relação aos costumes, por exemplo. Sim, roqueiros usam a roupa como uma forma de expressão. Mas ela não é o mais importante. Não deve ser.

Não quero dizer com isto que só o rock seja engajado, o rap o é muitas vezes, aliás, nasceu assim. Há quem ache que Madonna era engajada, feminista. Eu nunca achei que se apresentar como uma mulher objeto, uma material girl, interessada em homens que lhe pudessem dar diamantes, fosse uma atitude feminista, mas até consigo compreender que sua postura desafiadora aos costumes vigentes desse, de alguma forma, essa impressão às pessoas. O que estou tentando dizer é que, na década de 2010, o que deveria importar, neste caso a música e o conteúdo artístico dos vídeo clips, fica em segundo plano na transmissão da MTV. É só assistir à abertura da premiação feita pela MTV Brasil para constatar isto. Penélope Nova, mais conhecida pelo programa sobre comportamento sexual que apresentava no canal, só conseguia falar dos vestidos das cantoras quando elas pisavam no tapete negro que levava ao auditório da premiação. Dividia os comentários com uma colega que estava muuuito mais interessada no histórico de roupas usadas por Britney Spears (“aaaahhh”, gritaram as duas fãs travestidas de VJs quando a loura apareceu pela primeira vez) ao longo das edições do VMA de que a ex-diva pop do momento participou do que com vídeos e músicas. Thunderbird até tentou começar uma conversa sobre o Foo Fighters, único, atentem bem, único grupo de rock agraciado na noite, mas não obteve sucesso. Nada sobre os vídeos com chances de ganhar, nada sobre o conteúdo dos vídeos, mesmo à medida que as premiações começaram. E, principalmente, nada sobre a música em si.

 

Os ganhadores dos prêmios do VMA são escolhidos pela votação do público, o que mostra que a preferência por rap e pop é um reflexo do gosto dos telespectadores da própria MTV, especialmente seu público americano. Os Vjs, por outro lado, são impedidos de fazer comentários mais críticos sobre um ou outro músico, afinal, eles estão na programação do canal. Mas estas contingências estão longe de explicar a falta de informações musicais da transmissão.

 O fato é que, mais de meia noite, pude finalmente assistir à esperada homenagem a Amy Winehouse, esta sim uma verdadeira diva do blues, do soul, rhythm and blues, do bom pop, da boa música. Esta sim, a grande revelação entre as cantoras e compositoras do século XXI. Jeito desengonçado no palco, pernas finíssimas, visual retrô, mas uma voz…. uma voz que há muito não aparecia no mundo da música. E canções autênticas, com letras tiradas da própria experiência de vida da cantora, com uma carga de honestidade pouco usual. A homenagem consistiu na exibição em primeira mão de trecho de um vídeo gravado no estúdio londrino de Abbey Road, aquele dos Beatles, em que Amy dividia o microfone com Tony Bennett. Seria para um disco de duetos que Bennett está gravando. Cantando um clássico como Body and Soul, Winehouse parecia mais ainda com uma das grandes divas, uma Billie, uma Ella.

Houve ainda outro ponto alto na noite: a apresentação da já aclamada Adele, uma autêntica e assumida seguidora de Amy, elogiada por Britney Spears a certa altura da cerimônia (mostrando que o espectro de fãs é largo, o que explica sua apresentação no VMA), e dona de lindas e vigorosas voz e interpretação. Daquelas poucas cantoras que podem até fazer a voz vibrar sem resvalar para a breguice como fazem alguns. Viva Adele! Um sopro de qualidade no mundo da MTV atual.

 

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Os Novos Baianos em filme e lembranças da Salvador dos anos 70

É Tom Zé quem começa alinhavando a história de seus amigos Novos Bahianos contada no documentário “Os Filhos de João- O admirável mundo novo baiano”, de Henrique Dantas e que ganhou os prêmios de melhor filme no Festival de Brasília de 2009, concedidos pelo júri e pelo júri popular (coincidência rara), entre outros. O filme está em cartaz em uma única sala de Brasília, no Liberty Mall, que o exibe com a imagem escurecida, mas mesmo assim faz valer a pena vê-lo. Está passando também no circuito de São Paulo, Rio, Salvador, Vitória, Porto Alegre, Curitiba e Natal. Mais do que a história do grupo, o documentário que levou 11 anos para ser feito mostra como a vida em comunidade estava intrinsecamente ligada a sua produção musical. Tom Zé fala de uma “energia cósmica” que contribuiu para o surgimento do grupo na Bahia do fim dos anos 60. E em se tratando deste grupo, que viveu por seis anos em uma comunidade hippie numa casa construída por eles mesmos em um sítio que foram pagando quando podiam, as palavras de Tom Zé fazem todo o sentido. Eles liam muito a Bíblia, quando não estavam usando suas páginas para enrolar maconha, tocavam e cantavam o dia todo- “Por isto, quando chegávamos ao estúdio, estava tudo ensaiado”, conta Dadi Carvalho, que depois integraria a Cor do Som-, e, principalmente, jogavam muito futebol. O dinheiro era comum. “Não havia disputa. O dinheiro ficava enrolado em um lugar, quem precisava ía lá e pegava”, conta um dos membros do grupo que topou dar entrevistas para o filme. Quase todos toparam, uma exceção importante foi Baby do Brasil, na época Baby Consuelo, que chegou a gravar a entrevista, mas depois exigiu um cachê incompatível com o pequeno orçamento do filme para participar. João Gilberto também não topou dar entrevistas. O dinheiro enrolado, aliás, eles pouco gastavam, só mesmo com jogos inteiros de uniformes para o time de futebol que jogou até com Jairzinho, da Seleção Brasileira. “Fomos até Recife jogar uma vez. Éramos convidados. Perdíamos de 11 a 1 às vezes”, relembra Moraes Moreira, principal compositor das melodias dos Novos Bahianos (ou Novos Baianos, a grafia muda de acordo com o disco).

Tudo começou em uma pensão de Salvador. Paulinho Boca de Cantor já tinha experiência em shows, Moraes Moreira compunha músicas, outros músicos, entre eles Pepeu Gomes, Jorginho e Bolacha tocavam instrumentos e Baby cantava. Ouviram falar de Galvão, um poeta que acabou letrista do grupo. Eram muito influenciados pelo rock, queriam mesmo era tocar guitarra, que era a onda da época. Foram juntos, mas não como um grupo para um festival de música em São Paulo. “Aí o organizador disse: ‘chama estes novos baianos aí pra cantar’. Éramos vários músicos, não éramos um grupo, mas gostamos: Novos Baianos”, conta Paulinho Boca de Cantor sobre o surgimento do nome da banda.

 Logo resolveram ir para o Rio. A primeira moradia foi um apartamento em Botafogo, na rua Conde de Irajá. “Jogávamos futebol o dia todo no apartamento. Os vizinhos odiavam. Entre um quarto e outro, colocávamos roupas, camisas de Baby, de Pepeu, pra separar os cômodos”. E tocavam, claro. “O apartamento virou um ponto de encontro de artistas que moravam no Rio”, conta Dadi. “Um dia, às três da manhã, bateu na porta um homem de terno. Pensei: ‘ih, sujou’, de terno!”, relembra. “Quando abri, era João Gilberto, eu só conhecia sua voz, nunca o tinha visto”. O criador da Bossa Nova ouvia aquela música vinda da sua terra e dava conselhos, mais que conselhos, orientações. “Ele nos dizia para usarmos instrumentos brasileiros: cavaquinho, pandeiro, sem ter vergonha, dar às músicas uma sonoridade brasileira”, conta Paulinho Boca de Cantor. Foi João Gilberto quem abriu as portas das gravadoras para os Novos Bahianos, fazendo propaganda do grupo. Daí o nome do filme.

Uma das canções mais famosas da banda, que dava nome ao disco de maior sucesso, “Acabou chorare” também tem influência de João. O “zum zum zum” Galvão tirou das abelhas mesmo, como conta no filme, mas o “acabou chorare” surgiu a partir de uma história contada por João sobre como tranquilizava a filha Bebel quando ela estava chorando. O disco foi eleito pela revista Rolling Stone como o maior disco da história brasileira. “Era a mistura perfeita entre o violão de Dorival Caymmi e a guitarra lisérgica de Jimi Hendrix”, disse a revista.

No filme, as histórias são muitas, contadas por diversos membros do grupo e entremeadas por ricas imagens de arquivo de shows bem antigos e mais recentes e espécies de vídeo clipes da época passados nos areiais da Bahia dos anos 60 e 70, depois destruídos durante as gestões ACM, e no sítio de Jacarepaguá. Um dos vídeos em que Baby canta “A menina dança” rodeada por outros membros do grupo, foi feito por uma televisão alemã.

O sítio simbolizava tudo o que eram os Novos Bahianos. O grupo não existiria fora daquela filosofia de comunidade. A música saía porque eles passavam o dia todo juntos, fumando maconha, compondo e, principalmente, tocando música. Ali nasceu a primeira criança da comunidade: a filha de Paulinho Boca de Cantor (na foto da capa do disco “Acabou Chorare, acima). Ficou dois anos sem nome, a chamavam apenas de Bouchinha, um diminutivo de “Bouche” (boca, em francês), apelido de Paulinho. João Gilberto, novamente ele, veio para salvar. Cantarolou uma música que sugeria o nome Maria para a menina. “Resolvi colocar Maria. Mas só Maria, nada de Maria de Fátima, Maria do Rosário”, diz Paulinho. Mas, à medida que as famílias íam se formando dentro do grupo, conflitos começaram a surgir em relação àquele modo de vida. “Moraes tinha uma namorada de classe média, da Zona Sul, e ela queria colocar uma babá. Nós éramos contra”, conta Bola Morais. “Olhando para trás, vejo que fui injusto. Éramos preconceituosos”, avalia Bola. “Os filhos íam crescer, precisar ir à escola”, relembra Moraes Moreira, que terminou desfalcando os Novos Bahianos naquela época.

 

Um outro aspecto importante também é abordado no filme. O carnaval da Bahia e a participação dos Novos Bahianos no desenvolvimento dos trios elétricos. Imagens de arquivo mostram o carnaval democrático da Praça Castro Alves, na época em que não existiam abadás separando ricos de pobres. Exatamente como eu me lembro do carnaval da minha infância em Salvador, entre 1975 e 1977 em que, claro, eu e minha irmã pulávamos atrás do trio de dia, vestidas de baianas ou havaianas de mãos dadas com minha mãe e meu pai. Na maior segurança e tranquilidade. Moraes Moreira conta que nos primeiros trios o som era feito apenas para reproduzir os instrumentos, não a voz. “Mesmo assim, às vezes eu arriscava e cantava”, conta, ao som de “Pombo Correio”, canção de Dodô, que anos depois ele tornaria popular.

Lembranças da Salvador dos anos 70

Não sei se mais para quem viveu os anos 70 na Bahia como eu, mas “Filhos de João” é um retrato emocionante de uma época. Uma época que se foi. Se minha família não morava em comunidade em Salvador como os Novos Bahianos, vivia em um ambiente de muito mais integração e harmonia com quem os cercava. A Boca do Rio, onde morávamos em uma casa grande, mas simples, era um bairro democrático em que conviviam classe média e classe baixa. Nossos amigos eram bem mais humildes do que nós. Quando não estávamos no quintal da nossa casa brincando em grupo com nossos brinquedos, estávamos todos na rua sem calçamento jogando bola, brincando de pique, correndo com os cachorros ou tomando banho de lama só de calcinha nas poças formadas pela chuva. Havia também um enorme areial atrás da rua, às vezes visitado por grupos de ciganos, e que nos atraía para subir e descer suas ladeiras. Acompanhados de nossa cachorra branca Lili, encontrada na rua ainda pequena, íamos em grupo para o areial e às vezes nos deparávamos com galinhas pretas e sidras. A macumba, dizia a mãe de Estela, nossa vizinha, poderia ser desfeita se alguém fizesse xixi em cima da garrafa ainda fechada. E assim o fazíamos. Não me lembro se alguém se arriscou tomar a sidra para provar se o feitiço fora mesmo desfeito, mas lembro-me de meu pai ameaçando fazê-lo.

No fim de semana, pelo menos um ou dois dos amigos da rua iam conosco na Variant vermelha da família para nossos dois pontos preferidos da praia: duas enormes (pelo menos era como nos pareciam) piscinas naturais formadas por pedreiras; uma em Pituaçu, outra no início de Itapuã. Às vezes éramos nós que almoçávamos uma galinha ao molho pardo na casa de Estela, com seus cinco irmãos. Meu pai, sociólogo, trabalhava no Centro Administrativo de Salvador, e minha mãe na Setrabs (Secretaria do Trabalho), no centro da Cidade, onde tinha como colega a mãe da futura Daniela Mercury. Muitas vezes íamos aos bairros pobres de Salvador acompanhar o trabalho dela. Na vitrola de casa tocavam “Meus Caros amigos”, de Chico; “Refazenda”, de Gilberto Gil; Caetano, Gal… Não me lembro de ouvir os Novos Bahianos em casa. Mas, de alguma forma, as músicas de Moraes Moreira sempre me lembram os carnavais daqueles tempos na Praça Castro Alves.

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A suavidade de Stacey Kent

Fui para o show da americana Stacey Kent no domingo,7, na Sala Vila-Lobos do Teatro Nacional de Brasília, quase no escuro, sem nunca ter ouvido uma música sua. Sabia apenas que se tratava de uma cantora de jazz em ascensão que compunha em inglês e francês e era apaixonada pela Bossa Nova desde que tinha ouvido o clássico disco de Stan Getz e João Gilberto quando tinha apenas 14 anos. As referências eram, portanto, as melhores. Como seu último CD, Raconte-moi, era praticamente de músicas em francês, o Correio Braziliense, que entrevistara a cantora, apostava que o show seria principalmente destas músicas. Outro CD da cantora, Breakfast in the morning tram, de 2007, fora indicado ao Grammy. Quando Stacey, de 42 anos, com um vestido de seda estampado e cabelos curtíssimos, começou cantando “Spring Fever…” em bom inglês e acompanhada apenas pelo piano, tive medo de não me acostumar a sua voz super fina, quase estridente. Mas a fã de João Gilberto emprega tamanha suavidade ao canto que o tom de voz termina se adequando perfeitamente às canções.

 

Obrigada, bem-vindos, boa noite!”, diz em um português treinado, mas ainda com bastante sotaque, para em seguida emendar os versos de “I have growned accustomed to his face”, uma bela balada romântica, como a maior parte de suas músicas. Neste show que abre o Festival I love jazz, que continua no próximo fim de semana ao ar livre no Parque da Cidade, ela está acompanhada pelo pianista Graham Harvey, contrabaixo, bateria e pelo saxofonista Jim Tomlinson, que é também marido da cantora há vinte anos. “Que prazer estar aqui pela primeira vez. Eu estou estudando a cultura brasileira, assistindo a filmes como Bye, Bye Brasil e é a primeira vez que ficamos (sic) aqui”, diz novamente em português. Neste ponto do show, o público super eclético que foi ao Teatro Nacional, de adolescentes a pessoas da terceira idade, contando com a presença do governador do DF, Agnelo Queiroz, começa a desconfiar que Stacey Kent sabe um pouco mais de português do que a maioria dos cantores que decora algumas frases para não fazer feio com o público brasileiro. Sim, há dois anos, a cantora descendente de russos por parte do avô e que fala fluentemente o francês desde adolescente por influência do mesmo avô, começou a ter aulas de português. O marido a acompanha nas aulas. Seu objetivo é conseguir compor na língua dos cantores da Bossa Nova com a mesma desenvoltura com que o faz na língua de Balzac.

 

A próxima canção, “Mon amour”, é uma rumba em francês. Mostra como Stacey canta bem em sua segunda língua, quase sem sotaque. Depois vem a linda balada “Ice Hotel”, do disco homônimo. Composta por Jim Tomlinson e pelo escritor Kazuo Ishiguro, é um jazz Brasil em que a voz da cantora quase desaparece em alguns momentos, mostrando até que ponto vai a influência de João Gilberto sobre ela. A canção é o gancho para que a cantora conte aquela história de como a música brasileira entrou em sua vida ainda na adolescência. “Eu estava jogando cartas com um amigo em sua casa e ele estava tocando o disco de João Gilberto e Stan Getz. Aquilo mudou tudo pra mim. Eu era e continuo totalmente apaixonada por ele. Estando em Brasília pela primeira vez, é um prazer ter aqui uma cantora que adoro, toca violão, estou falando da minha amiga Rosa Passos”, emendou, aplaudida pelo público brasiliense.

Estou estudando português há dois anos. Um dia serei melhor. Estou praticando em casa: ‘mãe, pai’”, diz, arrancando risadas da plateia. “Vocês falam e cantam a língua mais bonita do mundo”, elogia a cantora, garantindo que não está diz isto só por estar no Brasil. Seu esforço em aprender português e sua visível emoção nos fazem acreditar que o elogio é genuíno. Para aumentar o grau de emoção, a música seguinte é nada menos que “Águas de Março”, em uma versão lindíssima em francês, em que Stacey é acompanhada pelo marido, desta vez no sax alto. Na versão europeia, as águas de março vêm depois do degelo do inverno, pelo que a boa dicção da cantora em francês me deixou entender. 

A doçura de Stacey Kent, sua voz fina, e também sua fisionomia fazem com que ela lembre muito a atriz Sarah Jessica Parker, uma versão de cabelos curtos, pernas grossas e mais conteúdo. “Vocês querem cantar comigo?”, convoca, começando a puxar “Corcovado” naquele português ainda cheio de sotaque. O público canta. “Nenhum país canta como os brasileiros. Queria tanto que os outros países cantassem assim!”, elogia novamente sempre em português, para se lembrar de uma exceção: em Israel a plateia também canta junto bem.

Depois do ensaio em português, Stacey e banda voltam com tudo em inglês para um jazz tradicional que nos remete aos tempos das grandes divas. Não fosse a ótima qualidade do som do Teatro Nacional neste domingo, poderíamos imaginar Ella Fitzgerald cantando nos anos sesseta se fechássemos os olhos.

 

O francês volta para resgatar um clássico de Vinícius de Moraes: “Samba da bênção”. Fechando o set ela vai de “What a Wonderful World”, um standard inquestionável para um grand finalle emocionante. Não sem antes declarar em inglês quão especial está sendo esta apresentação para ela. Porque só na língua materna poderia falar “from the bottom of my heart”.

No bizz, atendendo a pedidos de parte do público já familiarizado com seus discos, Stacey canta a bela “Jardim d’Hyver” e ainda dá de brinde “Desde que o samba é samba é assim”, pra mostrar que sua admiração pela música brasileira não parou nos anos 60. Termina ali, na segunda fila da Sala Vila Lobos, uma noite musical especial.

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