A suavidade de Stacey Kent

A suavidade de Stacey Kent

Fui para o show da americana Stacey Kent no domingo,7, na Sala Vila-Lobos do Teatro Nacional de Brasília, quase no escuro, sem nunca ter ouvido uma música sua. Sabia apenas que se tratava de uma cantora de jazz em ascensão que compunha em inglês e francês e era apaixonada pela Bossa Nova desde que tinha ouvido o clássico disco de Stan Getz e João Gilberto quando tinha apenas 14 anos. As referências eram, portanto, as melhores. Como seu último CD, Raconte-moi, era praticamente de músicas em francês, o Correio Braziliense, que entrevistara a cantora, apostava que o show seria principalmente destas músicas. Outro CD da cantora, Breakfast in the morning tram, de 2007, fora indicado ao Grammy. Quando Stacey, de 42 anos, com um vestido de seda estampado e cabelos curtíssimos, começou cantando “Spring Fever…” em bom inglês e acompanhada apenas pelo piano, tive medo de não me acostumar a sua voz super fina, quase estridente. Mas a fã de João Gilberto emprega tamanha suavidade ao canto que o tom de voz termina se adequando perfeitamente às canções.

 

Obrigada, bem-vindos, boa noite!”, diz em um português treinado, mas ainda com bastante sotaque, para em seguida emendar os versos de “I have growned accustomed to his face”, uma bela balada romântica, como a maior parte de suas músicas. Neste show que abre o Festival I love jazz, que continua no próximo fim de semana ao ar livre no Parque da Cidade, ela está acompanhada pelo pianista Graham Harvey, contrabaixo, bateria e pelo saxofonista Jim Tomlinson, que é também marido da cantora há vinte anos. “Que prazer estar aqui pela primeira vez. Eu estou estudando a cultura brasileira, assistindo a filmes como Bye, Bye Brasil e é a primeira vez que ficamos (sic) aqui”, diz novamente em português. Neste ponto do show, o público super eclético que foi ao Teatro Nacional, de adolescentes a pessoas da terceira idade, contando com a presença do governador do DF, Agnelo Queiroz, começa a desconfiar que Stacey Kent sabe um pouco mais de português do que a maioria dos cantores que decora algumas frases para não fazer feio com o público brasileiro. Sim, há dois anos, a cantora descendente de russos por parte do avô e que fala fluentemente o francês desde adolescente por influência do mesmo avô, começou a ter aulas de português. O marido a acompanha nas aulas. Seu objetivo é conseguir compor na língua dos cantores da Bossa Nova com a mesma desenvoltura com que o faz na língua de Balzac.

 

A próxima canção, “Mon amour”, é uma rumba em francês. Mostra como Stacey canta bem em sua segunda língua, quase sem sotaque. Depois vem a linda balada “Ice Hotel”, do disco homônimo. Composta por Jim Tomlinson e pelo escritor Kazuo Ishiguro, é um jazz Brasil em que a voz da cantora quase desaparece em alguns momentos, mostrando até que ponto vai a influência de João Gilberto sobre ela. A canção é o gancho para que a cantora conte aquela história de como a música brasileira entrou em sua vida ainda na adolescência. “Eu estava jogando cartas com um amigo em sua casa e ele estava tocando o disco de João Gilberto e Stan Getz. Aquilo mudou tudo pra mim. Eu era e continuo totalmente apaixonada por ele. Estando em Brasília pela primeira vez, é um prazer ter aqui uma cantora que adoro, toca violão, estou falando da minha amiga Rosa Passos”, emendou, aplaudida pelo público brasiliense.

Estou estudando português há dois anos. Um dia serei melhor. Estou praticando em casa: ‘mãe, pai’”, diz, arrancando risadas da plateia. “Vocês falam e cantam a língua mais bonita do mundo”, elogia a cantora, garantindo que não está diz isto só por estar no Brasil. Seu esforço em aprender português e sua visível emoção nos fazem acreditar que o elogio é genuíno. Para aumentar o grau de emoção, a música seguinte é nada menos que “Águas de Março”, em uma versão lindíssima em francês, em que Stacey é acompanhada pelo marido, desta vez no sax alto. Na versão europeia, as águas de março vêm depois do degelo do inverno, pelo que a boa dicção da cantora em francês me deixou entender. 

A doçura de Stacey Kent, sua voz fina, e também sua fisionomia fazem com que ela lembre muito a atriz Sarah Jessica Parker, uma versão de cabelos curtos, pernas grossas e mais conteúdo. “Vocês querem cantar comigo?”, convoca, começando a puxar “Corcovado” naquele português ainda cheio de sotaque. O público canta. “Nenhum país canta como os brasileiros. Queria tanto que os outros países cantassem assim!”, elogia novamente sempre em português, para se lembrar de uma exceção: em Israel a plateia também canta junto bem.

Depois do ensaio em português, Stacey e banda voltam com tudo em inglês para um jazz tradicional que nos remete aos tempos das grandes divas. Não fosse a ótima qualidade do som do Teatro Nacional neste domingo, poderíamos imaginar Ella Fitzgerald cantando nos anos sesseta se fechássemos os olhos.

 

O francês volta para resgatar um clássico de Vinícius de Moraes: “Samba da bênção”. Fechando o set ela vai de “What a Wonderful World”, um standard inquestionável para um grand finalle emocionante. Não sem antes declarar em inglês quão especial está sendo esta apresentação para ela. Porque só na língua materna poderia falar “from the bottom of my heart”.

No bizz, atendendo a pedidos de parte do público já familiarizado com seus discos, Stacey canta a bela “Jardim d’Hyver” e ainda dá de brinde “Desde que o samba é samba é assim”, pra mostrar que sua admiração pela música brasileira não parou nos anos 60. Termina ali, na segunda fila da Sala Vila Lobos, uma noite musical especial.

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134 Comentários

  1. Mas que programa diferente e emocionante. Realmente nenhum povo canta como os brasileiros… Será que ela dá shows tambem por aqui? Vou sempre dar uma olhada no jornal, se bem que nao tenho mais possibilidades de sair a noite. Mas se vir esse nome, irei correndo, pode deixar.

    • Sim, Dri, acho que ela deve ir sempre à Alemanha. Você iria gostar, acho. Por que não pode sair à noite? E os sogros, não dá pra deixar os meninos com eles? E a festa, tudo preparado? Beijão!

  2. Sim, Vagner, em legal mesmo, embora beeem mais curto que o da Madeleine ano passado (também fui, tem matéria aqui no blog, se quiser relembrar…). São estilos bem diferentes, isto é que é legal. Gosto mais da voz da Madeleine, mas a suavidade com que a Stacey canta é bem interessante. E canta em francês ainda melhor que a Madeleine! Não vejo a hora de comprar uns dois discos dela. Ah, não perca os shows do festival no Parque da Cidade neste fim de semana,de graça ainda, a partir das 16 horas, tem q ver exatamente o local… Bjs.

  3. Vagner Carvalho |

    Que super inveja “branca” de vc… Com certeza esse show foi muito especial, ano passado fui ao show da Madeleine Peyroux por sinal tmb foi incrível, ale até arriscou umas palavrinhas em português. Abração e parabéns mais uma vez pelo super Blog, visita garantida sempre!

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