O bom e o ruim do prêmio MTV

O bom e o ruim do prêmio MTV

Mesmo quem é fã de Lady Gaga, de suas músicas, performances, enfim, da persona que ela criou, certamente se surpreendeu ontem (domingo, 28/08) no Video Music Awards (VMA), a premiação anual de vídeo clips da MTV americana. Claro, é intrínseco a Lady Gaga surpreender a cada aparição, sempre com roupas extravagantes, cada vez incorporando um personagem. A surpresa de ontem, porém, não disse respeito apenas à roupa, foi muito melhor: a diva pop do momento, provavelmente da década, surpreendeu musicalmente.

Para mim que a conheci primeiro por seus escândalos com enorme potencial para gerar uma profusão de notícias na internet e só depois por sua música, Lady Gaga é uma boa compositora de canções pop para dançar. Compositora relativamente inventiva, performer criativa e, principalmente, provocadora. Já vimos isto antes, foi em 1978, quando Madonna apareceu com Holiday e, principalmente, quando, no início dos 80, lançou as então muito polêmicas Like a Virgin e Material Girl. Gaga foi considerada por muitos críticos musicais como uma Madonna dos anos 2000 com uma voz bem melhor. Quem ouviu Madonna no início da carreira se lembra de sua voz sofrível, muitas vezes desafinada. Com algum exagero na comparação, era ela lá e Paula Toller aqui. Ambas melhoraram com o passar dos anos. O que importa é que quem gostava de Madonna estava interessado nas suas qualidades: as de boa dançarina (foi assim que ela começou, ainda em seu estado natal, Michigan), boa compositora de canções para dançar (como sua pupila atual), e compositora de letras que íam contra os “bons costumes” e enfureciam especialmente a Igreja (lembra alguém?).

O fato é que, no VMA de ontem, Gaga provou ser mais do que a Madonna do novo milênio. Subiu ao palco vestida de homem, de terno e camiseta branca, abandonando completamente o visual rococó, mas mantendo a pose de original, e cantou… soul. Cantou uma bela música soul com autoridade, voz firmíssica, afinadíssima, lindamente, enfim. A performance com forte presença de palco, tocando piano e subindo em cima do instrumento depois, foi digna dela própria. No mais, estava irreconhecível. Deixou Thunderbird, o VJ veterano da MTV Brasil, que retornou ao canal após anos afastado, boquiaberto. Era mesmo Lady Gaga quem estivera naquele palco, cantando aquela música tão diferente, e tão superior ao que ela costuma apresentar?, pareceu pensar ele. Thunderbird é um VJ ligado ao rock, da época em que o estilo dominava a programação da MTV tanto aqui quanto nos Estados Unidos. Muito ao contrário de hoje, em que nos poucos programas em que há música realmente- a maioria é voltada para debates e jogos ligados ao comportamento jovem- se sobressaem o rap, em maior quantidade, e o pop, em menor. Lembro-me bem de ter encontrado Thunder, como os colegas o chamam no ar, em uma entrevista coletiva organizada meio às pressas com os membros do U2 na primeira vinda do grupo ao Brasil, somente para os jornalistas de televisão. Eu era repórter da TV Bandeirantes do Rio, na época, 1997, e cobria exclusivamente cultura. Para cada pergunta que nós mortais das TVs generalistas fazíamos, Thunder fazia três ou quatro. Era embrenhado no tema, e, como tal, deve ter até mais má vontade com os não roqueiros que tomaram conta da MTV do que eu mesma o tenho. E ontem, após assistir àquela Lady Gaga, não conseguiu disfarçar isto.

 

Como sei que o prêmio da MTV é mais voltado para rappers e novas divas pop, me interesso pouco em assisti-lo, já que não estão entre minhas preferências musicais. Ontem, coloquei o programa na minha agenda porque haveria uma homenagem a Amy Winehouse feita por ninguém menos que o veteraníssimo representante do cancioneiro americano Tony Bennett. Mas assistir àquele prêmio hoje em dia, e ver uma cantora candidata a nova diva querendo aparecer mais do que a outra, com vestidos tão extravagantes que alguns beiram o ridículo, e VJs americanos fingindo surpreender os “astros” do rap nos bastidores da premiação, serviu mais para me lembrar de como era fantástica a MTV dos saudosos anos 80.

 Mais do que isto, como um canal de vídeos musicais era exatamente o que se propunha a ser: um canal em que a música era o centro de tudo, dedicado aos vídeos musicais 24 horas por dia, no caso dos Estados Unidos, por exemplo. Em que a música era muito mais importante do que a forma como cantores e cantoras se vestiam, por exemplo. Claro que isto tem muito a ver com o tipo de música predominante no gosto de cada geração. E aí é que está: o rock é mais autêntico, no rock não é a vestimenta que importa, pelo contrário, faz parte da filosofia roqueira ser contra o stablishment, bradar contra o que está errado, reivindicar o que é melhor. E não são as aparências que interessam. Enfim, o rock é, em geral, engajado. Não necessariamente político, mas engajado mesmo que em relação aos costumes, por exemplo. Sim, roqueiros usam a roupa como uma forma de expressão. Mas ela não é o mais importante. Não deve ser.

Não quero dizer com isto que só o rock seja engajado, o rap o é muitas vezes, aliás, nasceu assim. Há quem ache que Madonna era engajada, feminista. Eu nunca achei que se apresentar como uma mulher objeto, uma material girl, interessada em homens que lhe pudessem dar diamantes, fosse uma atitude feminista, mas até consigo compreender que sua postura desafiadora aos costumes vigentes desse, de alguma forma, essa impressão às pessoas. O que estou tentando dizer é que, na década de 2010, o que deveria importar, neste caso a música e o conteúdo artístico dos vídeo clips, fica em segundo plano na transmissão da MTV. É só assistir à abertura da premiação feita pela MTV Brasil para constatar isto. Penélope Nova, mais conhecida pelo programa sobre comportamento sexual que apresentava no canal, só conseguia falar dos vestidos das cantoras quando elas pisavam no tapete negro que levava ao auditório da premiação. Dividia os comentários com uma colega que estava muuuito mais interessada no histórico de roupas usadas por Britney Spears (“aaaahhh”, gritaram as duas fãs travestidas de VJs quando a loura apareceu pela primeira vez) ao longo das edições do VMA de que a ex-diva pop do momento participou do que com vídeos e músicas. Thunderbird até tentou começar uma conversa sobre o Foo Fighters, único, atentem bem, único grupo de rock agraciado na noite, mas não obteve sucesso. Nada sobre os vídeos com chances de ganhar, nada sobre o conteúdo dos vídeos, mesmo à medida que as premiações começaram. E, principalmente, nada sobre a música em si.

 

Os ganhadores dos prêmios do VMA são escolhidos pela votação do público, o que mostra que a preferência por rap e pop é um reflexo do gosto dos telespectadores da própria MTV, especialmente seu público americano. Os Vjs, por outro lado, são impedidos de fazer comentários mais críticos sobre um ou outro músico, afinal, eles estão na programação do canal. Mas estas contingências estão longe de explicar a falta de informações musicais da transmissão.

 O fato é que, mais de meia noite, pude finalmente assistir à esperada homenagem a Amy Winehouse, esta sim uma verdadeira diva do blues, do soul, rhythm and blues, do bom pop, da boa música. Esta sim, a grande revelação entre as cantoras e compositoras do século XXI. Jeito desengonçado no palco, pernas finíssimas, visual retrô, mas uma voz…. uma voz que há muito não aparecia no mundo da música. E canções autênticas, com letras tiradas da própria experiência de vida da cantora, com uma carga de honestidade pouco usual. A homenagem consistiu na exibição em primeira mão de trecho de um vídeo gravado no estúdio londrino de Abbey Road, aquele dos Beatles, em que Amy dividia o microfone com Tony Bennett. Seria para um disco de duetos que Bennett está gravando. Cantando um clássico como Body and Soul, Winehouse parecia mais ainda com uma das grandes divas, uma Billie, uma Ella.

Houve ainda outro ponto alto na noite: a apresentação da já aclamada Adele, uma autêntica e assumida seguidora de Amy, elogiada por Britney Spears a certa altura da cerimônia (mostrando que o espectro de fãs é largo, o que explica sua apresentação no VMA), e dona de lindas e vigorosas voz e interpretação. Daquelas poucas cantoras que podem até fazer a voz vibrar sem resvalar para a breguice como fazem alguns. Viva Adele! Um sopro de qualidade no mundo da MTV atual.

 

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5 Comentários

  1. Com certeza! Ser original nem sempre é ser inédito…rs. Bjin!

  2. Mari, vendo as fotos que você postou da Britney, mais uma vez pensei como a expressão dela é breguíssima. Dá arrepios de horror.

    Sobre Lady Gaga e seu Joe Calderone act, Kelly Ousbourne lembrou outra performance no estilo… Annie Lennox em 1984. Dá uma olhada no link do E! Bjossss.

    http://www.eonline.com/news/not_again_did_jo_calderonemdasher_lady/260899

    • É, me lembrei da Annie Lennox com este visual agora q vc lembrou. Bom, ela não poderia ser tãaaao original assim, né? Mas fica valendo pq o principal foi a escolha da música pra mim. Annie Lennox usou uma música dela, já gravada antes em outro vídeo (que aliás já citei em outro post aqui- “Rock in Rio, o show a que não fui…”). Já a Gaga rompeu com o padrão dela própria, cantando um musicão soul lindo!!! Ainda tá de parabéns!

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