Os Novos Baianos em filme e lembranças da Salvador dos anos 70

Os Novos Baianos em filme e lembranças da Salvador dos anos 70

É Tom Zé quem começa alinhavando a história de seus amigos Novos Bahianos contada no documentário “Os Filhos de João- O admirável mundo novo baiano”, de Henrique Dantas e que ganhou os prêmios de melhor filme no Festival de Brasília de 2009, concedidos pelo júri e pelo júri popular (coincidência rara), entre outros. O filme está em cartaz em uma única sala de Brasília, no Liberty Mall, que o exibe com a imagem escurecida, mas mesmo assim faz valer a pena vê-lo. Está passando também no circuito de São Paulo, Rio, Salvador, Vitória, Porto Alegre, Curitiba e Natal. Mais do que a história do grupo, o documentário que levou 11 anos para ser feito mostra como a vida em comunidade estava intrinsecamente ligada a sua produção musical. Tom Zé fala de uma “energia cósmica” que contribuiu para o surgimento do grupo na Bahia do fim dos anos 60. E em se tratando deste grupo, que viveu por seis anos em uma comunidade hippie numa casa construída por eles mesmos em um sítio que foram pagando quando podiam, as palavras de Tom Zé fazem todo o sentido. Eles liam muito a Bíblia, quando não estavam usando suas páginas para enrolar maconha, tocavam e cantavam o dia todo- “Por isto, quando chegávamos ao estúdio, estava tudo ensaiado”, conta Dadi Carvalho, que depois integraria a Cor do Som-, e, principalmente, jogavam muito futebol. O dinheiro era comum. “Não havia disputa. O dinheiro ficava enrolado em um lugar, quem precisava ía lá e pegava”, conta um dos membros do grupo que topou dar entrevistas para o filme. Quase todos toparam, uma exceção importante foi Baby do Brasil, na época Baby Consuelo, que chegou a gravar a entrevista, mas depois exigiu um cachê incompatível com o pequeno orçamento do filme para participar. João Gilberto também não topou dar entrevistas. O dinheiro enrolado, aliás, eles pouco gastavam, só mesmo com jogos inteiros de uniformes para o time de futebol que jogou até com Jairzinho, da Seleção Brasileira. “Fomos até Recife jogar uma vez. Éramos convidados. Perdíamos de 11 a 1 às vezes”, relembra Moraes Moreira, principal compositor das melodias dos Novos Bahianos (ou Novos Baianos, a grafia muda de acordo com o disco).

Tudo começou em uma pensão de Salvador. Paulinho Boca de Cantor já tinha experiência em shows, Moraes Moreira compunha músicas, outros músicos, entre eles Pepeu Gomes, Jorginho e Bolacha tocavam instrumentos e Baby cantava. Ouviram falar de Galvão, um poeta que acabou letrista do grupo. Eram muito influenciados pelo rock, queriam mesmo era tocar guitarra, que era a onda da época. Foram juntos, mas não como um grupo para um festival de música em São Paulo. “Aí o organizador disse: ‘chama estes novos baianos aí pra cantar’. Éramos vários músicos, não éramos um grupo, mas gostamos: Novos Baianos”, conta Paulinho Boca de Cantor sobre o surgimento do nome da banda.

 Logo resolveram ir para o Rio. A primeira moradia foi um apartamento em Botafogo, na rua Conde de Irajá. “Jogávamos futebol o dia todo no apartamento. Os vizinhos odiavam. Entre um quarto e outro, colocávamos roupas, camisas de Baby, de Pepeu, pra separar os cômodos”. E tocavam, claro. “O apartamento virou um ponto de encontro de artistas que moravam no Rio”, conta Dadi. “Um dia, às três da manhã, bateu na porta um homem de terno. Pensei: ‘ih, sujou’, de terno!”, relembra. “Quando abri, era João Gilberto, eu só conhecia sua voz, nunca o tinha visto”. O criador da Bossa Nova ouvia aquela música vinda da sua terra e dava conselhos, mais que conselhos, orientações. “Ele nos dizia para usarmos instrumentos brasileiros: cavaquinho, pandeiro, sem ter vergonha, dar às músicas uma sonoridade brasileira”, conta Paulinho Boca de Cantor. Foi João Gilberto quem abriu as portas das gravadoras para os Novos Bahianos, fazendo propaganda do grupo. Daí o nome do filme.

Uma das canções mais famosas da banda, que dava nome ao disco de maior sucesso, “Acabou chorare” também tem influência de João. O “zum zum zum” Galvão tirou das abelhas mesmo, como conta no filme, mas o “acabou chorare” surgiu a partir de uma história contada por João sobre como tranquilizava a filha Bebel quando ela estava chorando. O disco foi eleito pela revista Rolling Stone como o maior disco da história brasileira. “Era a mistura perfeita entre o violão de Dorival Caymmi e a guitarra lisérgica de Jimi Hendrix”, disse a revista.

No filme, as histórias são muitas, contadas por diversos membros do grupo e entremeadas por ricas imagens de arquivo de shows bem antigos e mais recentes e espécies de vídeo clipes da época passados nos areiais da Bahia dos anos 60 e 70, depois destruídos durante as gestões ACM, e no sítio de Jacarepaguá. Um dos vídeos em que Baby canta “A menina dança” rodeada por outros membros do grupo, foi feito por uma televisão alemã.

O sítio simbolizava tudo o que eram os Novos Bahianos. O grupo não existiria fora daquela filosofia de comunidade. A música saía porque eles passavam o dia todo juntos, fumando maconha, compondo e, principalmente, tocando música. Ali nasceu a primeira criança da comunidade: a filha de Paulinho Boca de Cantor (na foto da capa do disco “Acabou Chorare, acima). Ficou dois anos sem nome, a chamavam apenas de Bouchinha, um diminutivo de “Bouche” (boca, em francês), apelido de Paulinho. João Gilberto, novamente ele, veio para salvar. Cantarolou uma música que sugeria o nome Maria para a menina. “Resolvi colocar Maria. Mas só Maria, nada de Maria de Fátima, Maria do Rosário”, diz Paulinho. Mas, à medida que as famílias íam se formando dentro do grupo, conflitos começaram a surgir em relação àquele modo de vida. “Moraes tinha uma namorada de classe média, da Zona Sul, e ela queria colocar uma babá. Nós éramos contra”, conta Bola Morais. “Olhando para trás, vejo que fui injusto. Éramos preconceituosos”, avalia Bola. “Os filhos íam crescer, precisar ir à escola”, relembra Moraes Moreira, que terminou desfalcando os Novos Bahianos naquela época.

 

Um outro aspecto importante também é abordado no filme. O carnaval da Bahia e a participação dos Novos Bahianos no desenvolvimento dos trios elétricos. Imagens de arquivo mostram o carnaval democrático da Praça Castro Alves, na época em que não existiam abadás separando ricos de pobres. Exatamente como eu me lembro do carnaval da minha infância em Salvador, entre 1975 e 1977 em que, claro, eu e minha irmã pulávamos atrás do trio de dia, vestidas de baianas ou havaianas de mãos dadas com minha mãe e meu pai. Na maior segurança e tranquilidade. Moraes Moreira conta que nos primeiros trios o som era feito apenas para reproduzir os instrumentos, não a voz. “Mesmo assim, às vezes eu arriscava e cantava”, conta, ao som de “Pombo Correio”, canção de Dodô, que anos depois ele tornaria popular.

Lembranças da Salvador dos anos 70

Não sei se mais para quem viveu os anos 70 na Bahia como eu, mas “Filhos de João” é um retrato emocionante de uma época. Uma época que se foi. Se minha família não morava em comunidade em Salvador como os Novos Bahianos, vivia em um ambiente de muito mais integração e harmonia com quem os cercava. A Boca do Rio, onde morávamos em uma casa grande, mas simples, era um bairro democrático em que conviviam classe média e classe baixa. Nossos amigos eram bem mais humildes do que nós. Quando não estávamos no quintal da nossa casa brincando em grupo com nossos brinquedos, estávamos todos na rua sem calçamento jogando bola, brincando de pique, correndo com os cachorros ou tomando banho de lama só de calcinha nas poças formadas pela chuva. Havia também um enorme areial atrás da rua, às vezes visitado por grupos de ciganos, e que nos atraía para subir e descer suas ladeiras. Acompanhados de nossa cachorra branca Lili, encontrada na rua ainda pequena, íamos em grupo para o areial e às vezes nos deparávamos com galinhas pretas e sidras. A macumba, dizia a mãe de Estela, nossa vizinha, poderia ser desfeita se alguém fizesse xixi em cima da garrafa ainda fechada. E assim o fazíamos. Não me lembro se alguém se arriscou tomar a sidra para provar se o feitiço fora mesmo desfeito, mas lembro-me de meu pai ameaçando fazê-lo.

No fim de semana, pelo menos um ou dois dos amigos da rua iam conosco na Variant vermelha da família para nossos dois pontos preferidos da praia: duas enormes (pelo menos era como nos pareciam) piscinas naturais formadas por pedreiras; uma em Pituaçu, outra no início de Itapuã. Às vezes éramos nós que almoçávamos uma galinha ao molho pardo na casa de Estela, com seus cinco irmãos. Meu pai, sociólogo, trabalhava no Centro Administrativo de Salvador, e minha mãe na Setrabs (Secretaria do Trabalho), no centro da Cidade, onde tinha como colega a mãe da futura Daniela Mercury. Muitas vezes íamos aos bairros pobres de Salvador acompanhar o trabalho dela. Na vitrola de casa tocavam “Meus Caros amigos”, de Chico; “Refazenda”, de Gilberto Gil; Caetano, Gal… Não me lembro de ouvir os Novos Bahianos em casa. Mas, de alguma forma, as músicas de Moraes Moreira sempre me lembram os carnavais daqueles tempos na Praça Castro Alves.

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11 Comentários

  1. É muito bom ler e imaginar os anos 70, contado de maneira deliciosa e leve. Gostaria de ter vivido essa época e poder ter visto uma apresentação dos meus queridos NOVOS BAIANOS!

  2. Obrigada, minha companheira de cinema que sabe do que estou falando! Beijão!

  3. Eu que vi esse post nascer, fiquei emocionada e impressionada! De anotações feitas com cuidado, mas rapidamente, num pedaço de papel após o filme, a história cresceu e, mais que do filme, conta de uma época muito especial. Adorei.

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