Posts made in outubro, 2011

“Tears for Fears-cura pela boa música”

Na última terça-feira (11) fui pela terceira vez na vida a um show do Tears for Fears. Ainda bem que fui, não me arrependo de forma alguma. A dúvida só apareceu, ingressos comprados há mais de dois meses, porque no dia anterior havia sofrido um acidente nada leve: fora atropelada por uma moto que me “levara” da faixa de pedestres até dez metros adiante. Após a noite passada no hospital, aquele que dizem ser o melhor de Brasília e em que já esperei cinco horas para ser atendida por um médico, o Santa Lúcia, resolvi esconder as bolsas de sangue abaixo dos olhos atrás dos grandes óculos escuros, ignorando o nariz quebrado, e ir. Sentada em cadeiras confortáveis e assistindo a um show que eu já sabia que seria ótimo, não poderia haver forma melhor de relaxar. Acho que continuei cumprindo as ordens médicas de “repousar”. Ouviria os velhos hits dos anos 80 e início dos 90; as belas canções do álbum “The hurting”, o primeiro da dupla e no todo meu preferido, “that we recorded when we were this tall”, como disse Roland Orzabal anteontem, colocando a mão na altura do quadril, e que só ficou conhecido depois dos sucessos “Everybody wants to rule the world” e “Shout”, do disco seguinte, “Songs from the Big Chair”. Em 1985, mesmo assim sem tocar nas rádios brasileiras (um “must hear”, se não conhece, não deixe de ouvir).

E assim foi que o show foi ainda melhor do que o esperado. Orzabal e Curt Smith estavam visivelmente felizes e emocionados com a sala lotada do Centro de Convenções. “I don’t speak good portuguese like my partner. I’m a big fan of Óscar Niemeyer. It’s nice to see a whole city made by him. It’s my first time here”, disse o mais emocionado dos dois, Curt Smith, confirmando que não esteve com Orzsbal no show que este deu em 1996 no Nilson Nélson, então apenas Ginásio de Esportes, cantando sozinho as músicas do Tears. Na época, o grupo havia acabado mas, graças a Orzabal, a mística se manteve e eles puderem se reunir anos depois.

Lembranças do Hollywood Rock
Curt Smith estivera, sim, me lembro porque estava lá, no primeiro show da dupla no Brasil, em 1990, no auge do sucesso do grupo, na Praça da Apoteose no Rio, durante a terceira edição do Hollywood Rock. Muito diferente do atual Rock in Rio, o Hollywood, sim, trouxe ao Brasil uma série de bandas e artistas solo que nunca haviam pisado em solo brasileiro, como Duran Duran, Supertramp, UB 40, Simply Red, Pretenders, Simple Minds (um show chato, muito abaixo das expectativas de fãs que se deslocaram de ônibus de Brasília para lá como eu) só na primeira edição em 1988. Dois anos depois, vieram Bob Dylan, Tears for Fears, Rolling Stones, The Cure, Marillion, Eurythmics, Terence Trend D’Arby. Pra mim foram as duas edições inesquecíveis não só pelas bandas que estavam entre as minhas prediletas, mas pelo clima. E havia ainda bandas brasileiras também no auge como Paralamas, Titãs, Ira, Engenheiros do Hawaii, Marina, Lulu Santos, Lobão, Barão Vermelho, já sem Cazuza… Com um público bem menor do que o de hoje, a Apoteose se transformava em uma enorme praça em que passeávamos pra lá e pra cá encontrando amigos de Brasília, em pleno dia (eram muitos shows e por isto começavam ainda de tarde). Lembro-me de topar com Pedro Bial transmitindo pra Globo no meio do povo e Frejat, sentado no chão assistindo a um dos shows internacionais na mesma noite em que seu Barão já havia tocado. Cheguei a chamar um vendedor de cachorro-quente pra ele, que tinha pedido. O clima era este, relax, o melhor possível.

Este festival que tinha tido uma edição esquecida em 1975, organizada por Nelson Motta, voltaria ainda em 1992 pra trazer o Nirvana no auge do movimento grunge (este eu perdi e que perda!); em 1994 com o primeiro show de Robert Plant da minha vida; em 96, quando repeti a dose, já em São Paulo, no Morumbi, com a reunião dos dois Zeppelins, Plant e Jimmy Page, babando, literalmente, mas tocando muuuito! Esta edição também brindou os brasileiros com um show memorável de três horas (!) de outra de minhas bandas preferidas dos ’80, The Cure, uma bela apresentação dos neo-hippies Black Crowes, e um showzaço do Smashing Pumpkins, no auge.

Caça-níquel nada!
Bem, o mais intimista show dos Tears de agora, que muitos podem ter considerado de uma turnê caça-niquel, a banda abriu em grande estilo, com uma área de “As Valquírias” de Wagner tocando, enquanto o telão atrás mostrava imagens psicodélicas em azul e verde. Quando os dois e o restante da banda (guitarra, bateria e teclado, músicos bem mais jovens, de uns 30 anos) entraram no palco, a plateia, assim como eu, aplaudiu e gritou, nem um pouco preocupada se a intenção dos dois era encher os cofrinhos. Era mais uma chance de Brasília assistir a um bom show. E nada menos que “Everybody wants…”, um dos maiores hits da banda, abriu o show. Pra mim, que a tenho como minha preferida, já havia valido ter mancado alguns metros até minha cadeira na sétima fileira do teatro. Orzabal nitidamente pinta as madeixas que mantém longas. Smith, que canta “Everybody” com sua voz mais suave e aguda do que a do colega, mas ainda forte, parece mais envelhecido, com os cabelos grisalhos, mas corpinho e animação de 30.

O público do teatro, aliás, era 90% composto de pessoas acima de 40 anos, algo inédito nos shows de Brasília, onde a moçada sempre dá o ar da graça, até mesmo na apresentação do sessentão Peter Frampton no ano passado. A faixa etária de anteontem denunciou o fato de o Tears for Fears ser uma banda que realmente parou no tempo. Não continuou junta lançando novos discos. Orzabal lançou um CD em 1996 sozinho, mantendo o nome de Tears for Fears e, após a volta de Smith, os dois lançaram outro disco em 2004. Apesar dos grandes lapsos de tempo de atividade, a banda continuou fazendo sucesso principalmente com os velhos hits. Uma banda pouco usual, com dois cantores igualmente importantes que se revezam no vocal principal, músicas que vão do pop rasgado à la new wave até um rock típico dos ’80, belas baladas, passando agora por um rock & roll anos 60 nas canções menos conhecidas apresentadas nesta turnê, e até por um soul que beira o bom gospel como em “Badman song”, em que até um coro se fez presente com a participação de um casal de cantores convidados.

Sowing the seeds of love”, a terceira música, reabre a série de hits que marcou o show, entremeados por bons rocks com cara de anos 60, um deles certamente inspiradíssimo nos Beatles (será que eles sabiam que o próximo roqueiro a subir naquele palco será ninguém menos que Ringo Star, em novembro? Aguardem matéria aqui no blog). Agora é Orzabal quem canta, mostrando toda a versatilidade de sua voz, que vai de um lindo tom de grave até o falsete. Corte os cabelos e ele sempre me lembrou Jon Cryer, a segunda metade de “Two and a half man”, na época conhecido como Ducky, o garoto que se apaixonou por Molly Ringwald em “A garota de rosa shoking”. “Time to read all your words, swallow your pride, open your eyes”, canta em segunda voz Curt Smith, arrancando nostalgia da plateia.

Português
Obrigado. Boa noite, Brasília. Estamos muito felizes por estar aqui nesta magnífica cidade”, diz Orzabal, em bom português, “ganhando” os brasilienses. “The audiences in this tour have been the best, living up to the reputation of your football team”, diz como bom inglês, que não chama nosso futebol de soccer, mas não está lá muito atualizado sobre a atuação de nossa seleção que, aliás, naquele exato momento joga contra o México, tendo que virar para fazer 2 a 1.

Vem em seguida, para meu deleite particular, a primeira música do álbum que eles fizeram quando eram bem pequenininhos: o belo, melancólico “The Hurting”, que minha irmã tinha em vinil e eu ouvi (quase) até furar. “Change”, meio balada, meio new wave, linda, linda como eu a ouvia no disco. Na voz de Curt e com um teclado marcante que mostra toda a sua importância na música do Tears, quiçá no pop anos ’80 de uma maneira geral.

Depois da versão de “Mad World” by Curt e uma grande performance vocal de Orzobal entoando “goodbye my friends, will I ever love again? (de “Memories Fade”)”, este anuncia que farão agora uma “estranha homenagem” a alguém que morreu durante a última turnê dos dois. E começa uma versão suuuper lenta e muito interessante de “Billie Jean”. Mais um momento mágico, surpreendente.

Advice for the young at heart” dá continuidade aos hits e como é legal ver os quarentões e inclusive mulheres cinquentonas cantando as letras com conhecimento de causa! Brasília sempre me pareceu um lugar em que não há muitos points para a meia idade que não sejam restaurantes bons, mas nada animados. “Soon we will be older. When we’re gonna make it right?”, questionam os dois músicos agora também cinquentões. Há vinte anos, esta música podia não nos tocar em nada. Hoje sim. Mas também me ajudam a ver como não me sinto velha, ainda, pelo menos em espírito. Como tínhamos músicas boas, nós dos anos ’80! Como tivemos sorte! Sorte que esta geração não teve.

And I feel that I’ve done it right”, penso eu, ainda sobre a letra da música, embalada pelo inglês de minha época de intercâmbio, exatamente em 1985, quando ouvi e vi Tears for Fears pela primeira vez na tela da MTV americana, ano do lançamento de “Songs from the Big Chair”, que tornou o Tears famoso. O vídeo de “Everybody wants to rule the world” é um dos mais inesquecíveis, com o carro que trafega na famosa Rota 66 e a câmera passa pelo enorme dinossauro à beira da pista. “Shout” também tinha um vídeo marcante, em que os dois cantavam à beira de um precipício, um canion mesmo, gritando “shout, shout, let it all out…” (Ver post “Rock in Rio, o show a que não fui e seu importante legado”, aqui no blog).

Lembro-me de ter lido, provavelmente em minha coleção de Bizz, que eles haviam escrito a letra desta música baseados na teoria do Grito Primal, pela qual gritando a pessoa poderia colocar todos os seus problemas pra fora. Era a psicologia como inspiração mais uma vez, como em Sincronicity, letra de Sting, de poucos anos antes, baseada na Teoria da Sincronicidade de Jung.

When can I be sure?…” cantam os dois, voltando ao velho e bom new wave, cheio de teclados. Como diz meu marido, meio neófito em Tears for Fears, “eles são bem pop, né?”. Discordo em parte. E quando achamos que só falta “Shout”, que tenho certeza que fechará o show como “Everybody…” abriu, vem mais uma enxurrada de hits dos quais eu nem sequer me lembrava. “Head over hills”, claaaaro! A esta altura, o teatro já virou um ginásio, todos estão de pé. “Head…” é uma daquelas que nos traz a forte impressão de que estamos de volta no tempo, eu mesma acho estranhíssimo ter mais de quarenta anos e um filho dormindo em casa. E intervalo antes do bizz.

Eles voltam aplaudidos com “Woman in chains”, uma ótima prova de que Tears for Fears estão looonge de ser apenas pop. E… finalmente, “Shout”, em que o teclado mais uma vez mostra sua imponência. Estamos de alma lavadíssima! Curt, Orzabal e o resto da banda estão tão felizes quanto nós. Estamos prontos pra mais um ícone do pop dos ’80: Duran Duran no palco do ecológico SWU. Dia 13 de novembro, daqui a um mês, em Paulínea, São Paulo. Aguardem.

Leia mais

“Rock Brasília-Era de Ouro”- o filme

Quando o documentário “Rock Brasília-Era de Ouro” estrear em Brasília e diversas capitais e cidades brasileiras em 21 de outubro próximo, os brasilienses hoje quarentões poderão se sentir como os privilegiados convidados da noite de abertura do 44o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro na última segunda-feira (26): em casa. Parte de nossas vidas é contada e mostrada na telona pelas mãos do mestre do documentário da cidade, Vladimir Carvalho (de “Conterrâneos Velhos de Guerra”, “Barra 68″ e “O Engenho de Zé Lins”). Estão ali shows como o da Legião Urbana de 1987 no Mané Garrincha, que se tornou caso de polícia; o da Plebe Rude em 1986 na boate Zoom no Gilberto Salomão, um dos mais marcantes da banda em Brasília; e um mais recente e gigantesco do Capital Inicial na Esplanada dos Ministérios, já pós-morte de Renato Russo e depois da volta por cima da banda de Dinho Ouro Preto e dos irmãos Lemos.

Mas não só: em imagens do tamanho da tela de cinema, vemos as superquadras da cidade, a Colina da UnB, as quebradas do Lago Paranoá nos anos 80, o Eixão, o Eixo Monumental da época das Diretas Já, enfim, muita história que se confunde com a de quem viveu aqui pelo menos desde os anos 80. Tudo isto contado do ponto de vista dos protagonistas do rock nascido na cidade no fim da década de 70 e que floresceu na década seguinte: os integrantes da Legião Urbana, do Capital Inicial e da Plebe Rude e suas famílias. Ou seja, dá-lhe bastidores.

Não foi à tôa que os presentes se emocionaram na estreia brasiliense- o filme já havia sido mostrado no Festival de Paulínea em julho passado, onde arrebatou o prêmio de melhor documentário e muitas críticas positivas. “Isto aqui não é a ONU, mas estou sentindo o mesmo frio na barriga que a presidente Dilma sentiu lá”, disse Vladimir, ao subir no palco antes da exibição na cidade em que mora e produz, ao lado da equipe do filme e de Philippe Seabra, vocalista da Plebe; dos irmãos Fê e Flávio Lemos, do Capital e ex-Aborto Elétrico; do pai dos dois músicos; da mãe de Phillippe; e da irmã de Renato Russo, Carmem Manfredini. “Eu fiz este filme para poder dizer: “Eu te amo Brasília”, gritou Vladimir, ovacionado pelo público que lotava a Sala Villa-Lobos do Teatro Nacional. A emoção tinha razão de ser: Vladimir, então professor de cinema da UnB no final dos anos 80 (inclusive desta que vos escreve), começara a entrevistar os expoentes do nascente rock de Brasília naquela época e o filme só ficara pronto há poucos meses.

Há dois dias, o Capital fez um show histórico no Rock in Rio; a Legião vai receber uma homenagem na próxima sexta (sexta passada, dia 30, também num show do Rock in Rio); e a Plebe lançou seu DVD de 30 anos e foi indicada ao Grammy Latino”, comemorou o produtor do filme, Marcos Ligoque.

Para aumentar o clima de emoção e nostalgia, a Orquestra Sinfônia do Teatro Nacional apresentou uma música feita especialmente para a cidade e depois executou sua versão de “Eduardo e Mônica”. Violinos e os outros instrumentos de corda eram dedilhados enquanto os de sopro solavam a melodia desta história real toda passada em Brasília.No final, a música cresce com os instrumentos tocados a todo vapor. A plateia bate palmas de pé.

A história da nossa turma”

É pra um dia a gente contar a história da nossa turma”. A frase dita um dia por Renato, antes mesmo de ele se intitular Russo, abre o documentário, mostrando de cara seu tom, em grande parte intimista. Em primeiro plano, na primeira cena do filme, um Renato ainda jovem conta a Vladimir quando demonstrou que seria um roqueiro. Ainda bebê, uma tia conseguiu fazê-lo parar de chorar colocando um radinho de pilha pra tocar pra ele. “Era rock?”, pergunta o cineasta. “Era rock”, responde Renato.

Cabe a André Muller, baixista da Plebe e novamente morador de Brasília, começar a contar a história da turma. Ele, Fê, Flávio e Gutge, ex-baterista da Plebe, eram filhos de professores da UnB. Fê conta como surpreendeu os pais ao trocar a bicicleta que eles tinham acabado de lhe dar de presente por uma bateria. O mestrado em biblioteconomia em Londres daquele pai que estava presente à estreia do filme foi um dos grandes responsáveis, quem diria, pela cara que o rock de Brasília teria. “Eu ouvia os programas do John Peel, DJ, no rádio e fui a todos os shows de punk de 1977 em Londres”, lembra Fê no filme. “Quando conheci Renato e ele tinha vários LPs de punk-rock, fiquei surpreso”. Nasceria daquele encontro o hoje lendário Aborto Elétrico.

A primeira sugestão de nome para a banda quem deu foi André Petrorius, “um Syd Vicious louro”, nas palavras do xará André Muller, que integrou a primeira formação do grupo. Petrorius, que era filho do Embaixador da África do Sul no Brasil, pensou em “Tijolo Elétrico”. “Não, Aborto Elétrico”, disse André Muller, batendo o martelo. Phillippe Seabra conta como quando Petrorius teve que voltar para seu país para servir o exército, todos ficaram tristes e revoltados com a situação, uma coisa meio “Hair”, meio punk.

A gente ficava de baixo do bloco falando sobre o nada, sem ter o que fazer”, entra Dado Villa-Lobos para depois contar como foi “determinante” em sua vida o momento em que assistiu ao primeiro show do Aborto. Muitos dos shows se davam em cima de caminhões em frente ao antigo Foods, lanchonete na entrequadra 110/111 sul, que era O ponto de encontro da juventude dos anos 70 e início dos 80 na capital. “A gente alugava o caminhão e colocava tudo lá”, conta a mãe de Phillippe Seabra, o mascote da turma, que começou com 14 anos na Plebe, primeira banda a surgir entre as três cuja trajetória é retratada no filme.

Colocar os pais dos roqueiros como personagens do filme, aliás, foi uma escolha felicíssima de Vladimir (na foto abaixo, o pai dos Lemos aparece ao lado de Vladimir e Philippe Seabra no Festival de Paulínia). Eles contextualizam a vida dos filhos na realidade de Brasília daquela época e, mais tarde, o pai dos irmãos Lemos fecha o filme de forma surpreendente e emocionante. A mãe de Renato, dona Carminha Manfredini e Carmem Tereza, a irmã e cantora (ver post “O fim da infância- Entrevista com Carmem Mandredini” aqui no blog, que disponibiliza três músicas de seu CD) também são responsáveis por revelações importantes sobre passagens da vida de Júnior, como Renato era chamado em casa. Ajudam ainda a entender o interesse e as aspirações dos filhos em relação ao rock e seu alto nível intelectual: além dos professores universitários, havia os diplomatas e os altos funcionários públicos. Claro que”Rock Brasília…” não fala apenas aos brasilienses, fala sobre o Brasil, apela a toda uma geração que viu surgir o chamado B-Rock em meados dos anos 80. Termina sendo também um filme universal sobre a relação da juventude com o rock.

Imagens de arquivo e entrevistas históricas

Outro trunfo do documentário são as imagens de arquivo de momentos marcantes para a cidade e a vida dos protagonistas como as Diretas Já, o Badernaço, a invasão de Brasília pelo exército, e os shows, claro. As entrevistas com Renato gravadas pelo próprio Vladimir, que já fazia o filme desde o fim dos anos 80, aparecem entre depoimentos atuais de Dado, Marcelo Bonfá, Dinho e os outros integrantes. Se o contraste das idades chega a chocar no início (afinal, enquanto Renato tinha entre trinta e quarenta anos naquela época, os amigos da turma hoje têm mais de cinquenta), depois nos acostumamos. É quase como se Renato ainda estivesse vivo. Talvez tenha sido esta a intenção do veterano diretor.

Até chegarmos à fase das primeiras gravações nos estúdios do Rio de Janeiro, ainda passamos pela Roconha, em que os três filhos de seu Lemos foram presos; pelo início da Plebe em um campinho de futebol de Patos de Minas para o qual Phillippe precisou de autorização da justiça para viajar (abaixo, foto de outro show da Plebe, o da Zoom); e pela influência das Diretas Já naquela que viria a se tornar um dos maiores sucessos da Plebe, Proteção, o fim do Aborto e suas razões (que já tinham sido contadas no post “Uma noite com o Aborto Elétrico”, aqui no blog), Renato como ator, e até pelos detalhes sórdidos dos bastidores do show do Mané Garrincha, nas versões de Dado, Renato e sua irmã. “Primeiro pensei no meu irmão, nem pensei em Renato Russo. ‘Tão agarrando o meu irmão pelo pescoço!’”, relembra Carmem, referindo-se ao estopim da confusão que terminou virando o show: uma garrafa jogada na cabeça de Renato por alguém da plateia. “Depois fui pensar no Renato Russo e nas consequências”. As consequências foram dezenas de jovens feridos, alguns pisoteados pelos cavalos da PM, depois que o vocalista resolveu interromper o show após apenas algumas músicas executadas, reclamando de Brasília e revoltando o público pagante.

Rock stars

A transformação dos membros da turma em rock stars é um capítulo à parte. A primeira tentativa de gravar o LP da Legião que sairia em 1985 foi um fiasco. A gravadora queria mudar completamente o estilo musical da banda. “Parecia que não ia dar certo”, conta Mayrton Bahia, o primeiro produtor. Renato e companhia chegaram a voltar para Brasília. Foi José Emílio Rondeau, crítico musical e produtor, marido de Ana Maria Bahiana, quem salvou o disco cujo primeiro grande sucesso seria “Geração Coca-cola”, uma composição do Aborto Elétrico.

Sting e Paralamas

O já famoso Lobão, ainda vocalista de “Lobão e os Ronaldos”, levou os meninos da Plebe para o Napalm, uma casa punk de São Paulo. “Ficamos encantados com a cena punk de São Paulo, foi aí que resolvemos que deveríamos nos mudar pra lá”, conta Philippe. O Capital, por sua vez, teve seu primeiro LP gravado em 1984. Dinho conta como eles mesmos se surpreenderam quando venderam mais que a Plebe e o Legião: 250 mil cópias. O vocalista também conta como a banda foi ganhando respeito ao abrir shows internacionais, aos poucos já tendo direito a usar a mesma aparelhagem no palco. O show de Sting no Mané Garrincha, em Brasília, em 1987, mostrou bem isto. Sting que, aliás, completa 60 anos neste domingo, 2. “O Sting veio falar com a gente. Nos cumprimentar, dar os parabéns”, relembra um Dinho emocionado. “Nós que gostávamos do Police desde os anos 70, o ska que eles tocavam…”.

Ska e The Police, aliás, que influenciaram fortemente outra banda nascida em Brasília, mas que logo se mudou para o Rio: os Paralamas do Sucesso. Seus três membros também dão testemunhos no filme, bem jovens, em 1988. “Meu coração palpita quando estou em Brasília”, disse Herbert Vianna que, a esta altura, já havia se apresentado até no primeiro Rock in Rio, em 1985 (ver post “Rock in Rio, o show a que não fui e seu importante legado” aqui no blog) para uma plateia gigantesca.

Fins e recomeços

Os fãs mais jovens, que compareceram em peso à festa pós-estreia, não precisam se preocupar. Além de aprenderem muito sobre a história de seus ídolos, vão poder relembrar histórias mais recentes. Estão lá os discos da Legião após a descoberta, feita por acaso, de que Renato Russo era HIV positivo; seus CDs solos em inglês e italiano; o fim e a volta triunfal do Capital Inicial, os novos rumos dos membros da Plebe Rude.

E o que significou o sucesso dos filhos para seus pais. História suficiente para emocionar o público da abertura do Festival de Brasília, que saiu da Sala Villa-Lobos cantando “Tempo Perdido”. E não pensem que revelei muita coisa nesta matéria, tem muito mais lá no filme.

Leia mais