“Rock Brasília-Era de Ouro”- o filme

“Rock Brasília-Era de Ouro”- o filme

Quando o documentário “Rock Brasília-Era de Ouro” estrear em Brasília e diversas capitais e cidades brasileiras em 21 de outubro próximo, os brasilienses hoje quarentões poderão se sentir como os privilegiados convidados da noite de abertura do 44o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro na última segunda-feira (26): em casa. Parte de nossas vidas é contada e mostrada na telona pelas mãos do mestre do documentário da cidade, Vladimir Carvalho (de “Conterrâneos Velhos de Guerra”, “Barra 68″ e “O Engenho de Zé Lins”). Estão ali shows como o da Legião Urbana de 1987 no Mané Garrincha, que se tornou caso de polícia; o da Plebe Rude em 1986 na boate Zoom no Gilberto Salomão, um dos mais marcantes da banda em Brasília; e um mais recente e gigantesco do Capital Inicial na Esplanada dos Ministérios, já pós-morte de Renato Russo e depois da volta por cima da banda de Dinho Ouro Preto e dos irmãos Lemos.

Mas não só: em imagens do tamanho da tela de cinema, vemos as superquadras da cidade, a Colina da UnB, as quebradas do Lago Paranoá nos anos 80, o Eixão, o Eixo Monumental da época das Diretas Já, enfim, muita história que se confunde com a de quem viveu aqui pelo menos desde os anos 80. Tudo isto contado do ponto de vista dos protagonistas do rock nascido na cidade no fim da década de 70 e que floresceu na década seguinte: os integrantes da Legião Urbana, do Capital Inicial e da Plebe Rude e suas famílias. Ou seja, dá-lhe bastidores.

Não foi à tôa que os presentes se emocionaram na estreia brasiliense- o filme já havia sido mostrado no Festival de Paulínea em julho passado, onde arrebatou o prêmio de melhor documentário e muitas críticas positivas. “Isto aqui não é a ONU, mas estou sentindo o mesmo frio na barriga que a presidente Dilma sentiu lá”, disse Vladimir, ao subir no palco antes da exibição na cidade em que mora e produz, ao lado da equipe do filme e de Philippe Seabra, vocalista da Plebe; dos irmãos Fê e Flávio Lemos, do Capital e ex-Aborto Elétrico; do pai dos dois músicos; da mãe de Phillippe; e da irmã de Renato Russo, Carmem Manfredini. “Eu fiz este filme para poder dizer: “Eu te amo Brasília”, gritou Vladimir, ovacionado pelo público que lotava a Sala Villa-Lobos do Teatro Nacional. A emoção tinha razão de ser: Vladimir, então professor de cinema da UnB no final dos anos 80 (inclusive desta que vos escreve), começara a entrevistar os expoentes do nascente rock de Brasília naquela época e o filme só ficara pronto há poucos meses.

Há dois dias, o Capital fez um show histórico no Rock in Rio; a Legião vai receber uma homenagem na próxima sexta (sexta passada, dia 30, também num show do Rock in Rio); e a Plebe lançou seu DVD de 30 anos e foi indicada ao Grammy Latino”, comemorou o produtor do filme, Marcos Ligoque.

Para aumentar o clima de emoção e nostalgia, a Orquestra Sinfônia do Teatro Nacional apresentou uma música feita especialmente para a cidade e depois executou sua versão de “Eduardo e Mônica”. Violinos e os outros instrumentos de corda eram dedilhados enquanto os de sopro solavam a melodia desta história real toda passada em Brasília.No final, a música cresce com os instrumentos tocados a todo vapor. A plateia bate palmas de pé.

A história da nossa turma”

É pra um dia a gente contar a história da nossa turma”. A frase dita um dia por Renato, antes mesmo de ele se intitular Russo, abre o documentário, mostrando de cara seu tom, em grande parte intimista. Em primeiro plano, na primeira cena do filme, um Renato ainda jovem conta a Vladimir quando demonstrou que seria um roqueiro. Ainda bebê, uma tia conseguiu fazê-lo parar de chorar colocando um radinho de pilha pra tocar pra ele. “Era rock?”, pergunta o cineasta. “Era rock”, responde Renato.

Cabe a André Muller, baixista da Plebe e novamente morador de Brasília, começar a contar a história da turma. Ele, Fê, Flávio e Gutge, ex-baterista da Plebe, eram filhos de professores da UnB. Fê conta como surpreendeu os pais ao trocar a bicicleta que eles tinham acabado de lhe dar de presente por uma bateria. O mestrado em biblioteconomia em Londres daquele pai que estava presente à estreia do filme foi um dos grandes responsáveis, quem diria, pela cara que o rock de Brasília teria. “Eu ouvia os programas do John Peel, DJ, no rádio e fui a todos os shows de punk de 1977 em Londres”, lembra Fê no filme. “Quando conheci Renato e ele tinha vários LPs de punk-rock, fiquei surpreso”. Nasceria daquele encontro o hoje lendário Aborto Elétrico.

A primeira sugestão de nome para a banda quem deu foi André Petrorius, “um Syd Vicious louro”, nas palavras do xará André Muller, que integrou a primeira formação do grupo. Petrorius, que era filho do Embaixador da África do Sul no Brasil, pensou em “Tijolo Elétrico”. “Não, Aborto Elétrico”, disse André Muller, batendo o martelo. Phillippe Seabra conta como quando Petrorius teve que voltar para seu país para servir o exército, todos ficaram tristes e revoltados com a situação, uma coisa meio “Hair”, meio punk.

A gente ficava de baixo do bloco falando sobre o nada, sem ter o que fazer”, entra Dado Villa-Lobos para depois contar como foi “determinante” em sua vida o momento em que assistiu ao primeiro show do Aborto. Muitos dos shows se davam em cima de caminhões em frente ao antigo Foods, lanchonete na entrequadra 110/111 sul, que era O ponto de encontro da juventude dos anos 70 e início dos 80 na capital. “A gente alugava o caminhão e colocava tudo lá”, conta a mãe de Phillippe Seabra, o mascote da turma, que começou com 14 anos na Plebe, primeira banda a surgir entre as três cuja trajetória é retratada no filme.

Colocar os pais dos roqueiros como personagens do filme, aliás, foi uma escolha felicíssima de Vladimir (na foto abaixo, o pai dos Lemos aparece ao lado de Vladimir e Philippe Seabra no Festival de Paulínia). Eles contextualizam a vida dos filhos na realidade de Brasília daquela época e, mais tarde, o pai dos irmãos Lemos fecha o filme de forma surpreendente e emocionante. A mãe de Renato, dona Carminha Manfredini e Carmem Tereza, a irmã e cantora (ver post “O fim da infância- Entrevista com Carmem Mandredini” aqui no blog, que disponibiliza três músicas de seu CD) também são responsáveis por revelações importantes sobre passagens da vida de Júnior, como Renato era chamado em casa. Ajudam ainda a entender o interesse e as aspirações dos filhos em relação ao rock e seu alto nível intelectual: além dos professores universitários, havia os diplomatas e os altos funcionários públicos. Claro que”Rock Brasília…” não fala apenas aos brasilienses, fala sobre o Brasil, apela a toda uma geração que viu surgir o chamado B-Rock em meados dos anos 80. Termina sendo também um filme universal sobre a relação da juventude com o rock.

Imagens de arquivo e entrevistas históricas

Outro trunfo do documentário são as imagens de arquivo de momentos marcantes para a cidade e a vida dos protagonistas como as Diretas Já, o Badernaço, a invasão de Brasília pelo exército, e os shows, claro. As entrevistas com Renato gravadas pelo próprio Vladimir, que já fazia o filme desde o fim dos anos 80, aparecem entre depoimentos atuais de Dado, Marcelo Bonfá, Dinho e os outros integrantes. Se o contraste das idades chega a chocar no início (afinal, enquanto Renato tinha entre trinta e quarenta anos naquela época, os amigos da turma hoje têm mais de cinquenta), depois nos acostumamos. É quase como se Renato ainda estivesse vivo. Talvez tenha sido esta a intenção do veterano diretor.

Até chegarmos à fase das primeiras gravações nos estúdios do Rio de Janeiro, ainda passamos pela Roconha, em que os três filhos de seu Lemos foram presos; pelo início da Plebe em um campinho de futebol de Patos de Minas para o qual Phillippe precisou de autorização da justiça para viajar (abaixo, foto de outro show da Plebe, o da Zoom); e pela influência das Diretas Já naquela que viria a se tornar um dos maiores sucessos da Plebe, Proteção, o fim do Aborto e suas razões (que já tinham sido contadas no post “Uma noite com o Aborto Elétrico”, aqui no blog), Renato como ator, e até pelos detalhes sórdidos dos bastidores do show do Mané Garrincha, nas versões de Dado, Renato e sua irmã. “Primeiro pensei no meu irmão, nem pensei em Renato Russo. ‘Tão agarrando o meu irmão pelo pescoço!’”, relembra Carmem, referindo-se ao estopim da confusão que terminou virando o show: uma garrafa jogada na cabeça de Renato por alguém da plateia. “Depois fui pensar no Renato Russo e nas consequências”. As consequências foram dezenas de jovens feridos, alguns pisoteados pelos cavalos da PM, depois que o vocalista resolveu interromper o show após apenas algumas músicas executadas, reclamando de Brasília e revoltando o público pagante.

Rock stars

A transformação dos membros da turma em rock stars é um capítulo à parte. A primeira tentativa de gravar o LP da Legião que sairia em 1985 foi um fiasco. A gravadora queria mudar completamente o estilo musical da banda. “Parecia que não ia dar certo”, conta Mayrton Bahia, o primeiro produtor. Renato e companhia chegaram a voltar para Brasília. Foi José Emílio Rondeau, crítico musical e produtor, marido de Ana Maria Bahiana, quem salvou o disco cujo primeiro grande sucesso seria “Geração Coca-cola”, uma composição do Aborto Elétrico.

Sting e Paralamas

O já famoso Lobão, ainda vocalista de “Lobão e os Ronaldos”, levou os meninos da Plebe para o Napalm, uma casa punk de São Paulo. “Ficamos encantados com a cena punk de São Paulo, foi aí que resolvemos que deveríamos nos mudar pra lá”, conta Philippe. O Capital, por sua vez, teve seu primeiro LP gravado em 1984. Dinho conta como eles mesmos se surpreenderam quando venderam mais que a Plebe e o Legião: 250 mil cópias. O vocalista também conta como a banda foi ganhando respeito ao abrir shows internacionais, aos poucos já tendo direito a usar a mesma aparelhagem no palco. O show de Sting no Mané Garrincha, em Brasília, em 1987, mostrou bem isto. Sting que, aliás, completa 60 anos neste domingo, 2. “O Sting veio falar com a gente. Nos cumprimentar, dar os parabéns”, relembra um Dinho emocionado. “Nós que gostávamos do Police desde os anos 70, o ska que eles tocavam…”.

Ska e The Police, aliás, que influenciaram fortemente outra banda nascida em Brasília, mas que logo se mudou para o Rio: os Paralamas do Sucesso. Seus três membros também dão testemunhos no filme, bem jovens, em 1988. “Meu coração palpita quando estou em Brasília”, disse Herbert Vianna que, a esta altura, já havia se apresentado até no primeiro Rock in Rio, em 1985 (ver post “Rock in Rio, o show a que não fui e seu importante legado” aqui no blog) para uma plateia gigantesca.

Fins e recomeços

Os fãs mais jovens, que compareceram em peso à festa pós-estreia, não precisam se preocupar. Além de aprenderem muito sobre a história de seus ídolos, vão poder relembrar histórias mais recentes. Estão lá os discos da Legião após a descoberta, feita por acaso, de que Renato Russo era HIV positivo; seus CDs solos em inglês e italiano; o fim e a volta triunfal do Capital Inicial, os novos rumos dos membros da Plebe Rude.

E o que significou o sucesso dos filhos para seus pais. História suficiente para emocionar o público da abertura do Festival de Brasília, que saiu da Sala Villa-Lobos cantando “Tempo Perdido”. E não pensem que revelei muita coisa nesta matéria, tem muito mais lá no filme.

Compartilhe:
  • Print
  • Digg
  • del.icio.us
  • Facebook
  • Google Bookmarks
  • LinkedIn
  • Live
  • MySpace
  • RSS
  • Twitter

8 Comentários

  1. Querida Mari, adorei o post! Fiquei com vontade de assistir ao filme e com saudade daquela atmosfera que nós vivenciamos em Brasília, tão especial e rica!!! Lembra que fomos ao show do Mané Garrincha juntas???? Bjs e parabéns!!

  2. Adorei o texto informativo e crítico ao mesmo tempo e agora. Bjs

  3. Excelente matèria: vou tentar ver o filme porque fiquei curiosa… beijos!

    • Bia,que bom que você gostou! Indique aos amigos de Brasília, então! Olhe, veja o post “Amigos e amigos”, você é citada lá! Beijos grandes, Mariana.

Deixe um comentário