“Tears for Fears-cura pela boa música”

“Tears for Fears-cura pela boa música”

Na última terça-feira (11) fui pela terceira vez na vida a um show do Tears for Fears. Ainda bem que fui, não me arrependo de forma alguma. A dúvida só apareceu, ingressos comprados há mais de dois meses, porque no dia anterior havia sofrido um acidente nada leve: fora atropelada por uma moto que me “levara” da faixa de pedestres até dez metros adiante. Após a noite passada no hospital, aquele que dizem ser o melhor de Brasília e em que já esperei cinco horas para ser atendida por um médico, o Santa Lúcia, resolvi esconder as bolsas de sangue abaixo dos olhos atrás dos grandes óculos escuros, ignorando o nariz quebrado, e ir. Sentada em cadeiras confortáveis e assistindo a um show que eu já sabia que seria ótimo, não poderia haver forma melhor de relaxar. Acho que continuei cumprindo as ordens médicas de “repousar”. Ouviria os velhos hits dos anos 80 e início dos 90; as belas canções do álbum “The hurting”, o primeiro da dupla e no todo meu preferido, “that we recorded when we were this tall”, como disse Roland Orzabal anteontem, colocando a mão na altura do quadril, e que só ficou conhecido depois dos sucessos “Everybody wants to rule the world” e “Shout”, do disco seguinte, “Songs from the Big Chair”. Em 1985, mesmo assim sem tocar nas rádios brasileiras (um “must hear”, se não conhece, não deixe de ouvir).

E assim foi que o show foi ainda melhor do que o esperado. Orzabal e Curt Smith estavam visivelmente felizes e emocionados com a sala lotada do Centro de Convenções. “I don’t speak good portuguese like my partner. I’m a big fan of Óscar Niemeyer. It’s nice to see a whole city made by him. It’s my first time here”, disse o mais emocionado dos dois, Curt Smith, confirmando que não esteve com Orzsbal no show que este deu em 1996 no Nilson Nélson, então apenas Ginásio de Esportes, cantando sozinho as músicas do Tears. Na época, o grupo havia acabado mas, graças a Orzabal, a mística se manteve e eles puderem se reunir anos depois.

Lembranças do Hollywood Rock
Curt Smith estivera, sim, me lembro porque estava lá, no primeiro show da dupla no Brasil, em 1990, no auge do sucesso do grupo, na Praça da Apoteose no Rio, durante a terceira edição do Hollywood Rock. Muito diferente do atual Rock in Rio, o Hollywood, sim, trouxe ao Brasil uma série de bandas e artistas solo que nunca haviam pisado em solo brasileiro, como Duran Duran, Supertramp, UB 40, Simply Red, Pretenders, Simple Minds (um show chato, muito abaixo das expectativas de fãs que se deslocaram de ônibus de Brasília para lá como eu) só na primeira edição em 1988. Dois anos depois, vieram Bob Dylan, Tears for Fears, Rolling Stones, The Cure, Marillion, Eurythmics, Terence Trend D’Arby. Pra mim foram as duas edições inesquecíveis não só pelas bandas que estavam entre as minhas prediletas, mas pelo clima. E havia ainda bandas brasileiras também no auge como Paralamas, Titãs, Ira, Engenheiros do Hawaii, Marina, Lulu Santos, Lobão, Barão Vermelho, já sem Cazuza… Com um público bem menor do que o de hoje, a Apoteose se transformava em uma enorme praça em que passeávamos pra lá e pra cá encontrando amigos de Brasília, em pleno dia (eram muitos shows e por isto começavam ainda de tarde). Lembro-me de topar com Pedro Bial transmitindo pra Globo no meio do povo e Frejat, sentado no chão assistindo a um dos shows internacionais na mesma noite em que seu Barão já havia tocado. Cheguei a chamar um vendedor de cachorro-quente pra ele, que tinha pedido. O clima era este, relax, o melhor possível.

Este festival que tinha tido uma edição esquecida em 1975, organizada por Nelson Motta, voltaria ainda em 1992 pra trazer o Nirvana no auge do movimento grunge (este eu perdi e que perda!); em 1994 com o primeiro show de Robert Plant da minha vida; em 96, quando repeti a dose, já em São Paulo, no Morumbi, com a reunião dos dois Zeppelins, Plant e Jimmy Page, babando, literalmente, mas tocando muuuito! Esta edição também brindou os brasileiros com um show memorável de três horas (!) de outra de minhas bandas preferidas dos ’80, The Cure, uma bela apresentação dos neo-hippies Black Crowes, e um showzaço do Smashing Pumpkins, no auge.

Caça-níquel nada!
Bem, o mais intimista show dos Tears de agora, que muitos podem ter considerado de uma turnê caça-niquel, a banda abriu em grande estilo, com uma área de “As Valquírias” de Wagner tocando, enquanto o telão atrás mostrava imagens psicodélicas em azul e verde. Quando os dois e o restante da banda (guitarra, bateria e teclado, músicos bem mais jovens, de uns 30 anos) entraram no palco, a plateia, assim como eu, aplaudiu e gritou, nem um pouco preocupada se a intenção dos dois era encher os cofrinhos. Era mais uma chance de Brasília assistir a um bom show. E nada menos que “Everybody wants…”, um dos maiores hits da banda, abriu o show. Pra mim, que a tenho como minha preferida, já havia valido ter mancado alguns metros até minha cadeira na sétima fileira do teatro. Orzabal nitidamente pinta as madeixas que mantém longas. Smith, que canta “Everybody” com sua voz mais suave e aguda do que a do colega, mas ainda forte, parece mais envelhecido, com os cabelos grisalhos, mas corpinho e animação de 30.

O público do teatro, aliás, era 90% composto de pessoas acima de 40 anos, algo inédito nos shows de Brasília, onde a moçada sempre dá o ar da graça, até mesmo na apresentação do sessentão Peter Frampton no ano passado. A faixa etária de anteontem denunciou o fato de o Tears for Fears ser uma banda que realmente parou no tempo. Não continuou junta lançando novos discos. Orzabal lançou um CD em 1996 sozinho, mantendo o nome de Tears for Fears e, após a volta de Smith, os dois lançaram outro disco em 2004. Apesar dos grandes lapsos de tempo de atividade, a banda continuou fazendo sucesso principalmente com os velhos hits. Uma banda pouco usual, com dois cantores igualmente importantes que se revezam no vocal principal, músicas que vão do pop rasgado à la new wave até um rock típico dos ’80, belas baladas, passando agora por um rock & roll anos 60 nas canções menos conhecidas apresentadas nesta turnê, e até por um soul que beira o bom gospel como em “Badman song”, em que até um coro se fez presente com a participação de um casal de cantores convidados.

Sowing the seeds of love”, a terceira música, reabre a série de hits que marcou o show, entremeados por bons rocks com cara de anos 60, um deles certamente inspiradíssimo nos Beatles (será que eles sabiam que o próximo roqueiro a subir naquele palco será ninguém menos que Ringo Star, em novembro? Aguardem matéria aqui no blog). Agora é Orzabal quem canta, mostrando toda a versatilidade de sua voz, que vai de um lindo tom de grave até o falsete. Corte os cabelos e ele sempre me lembrou Jon Cryer, a segunda metade de “Two and a half man”, na época conhecido como Ducky, o garoto que se apaixonou por Molly Ringwald em “A garota de rosa shoking”. “Time to read all your words, swallow your pride, open your eyes”, canta em segunda voz Curt Smith, arrancando nostalgia da plateia.

Português
Obrigado. Boa noite, Brasília. Estamos muito felizes por estar aqui nesta magnífica cidade”, diz Orzabal, em bom português, “ganhando” os brasilienses. “The audiences in this tour have been the best, living up to the reputation of your football team”, diz como bom inglês, que não chama nosso futebol de soccer, mas não está lá muito atualizado sobre a atuação de nossa seleção que, aliás, naquele exato momento joga contra o México, tendo que virar para fazer 2 a 1.

Vem em seguida, para meu deleite particular, a primeira música do álbum que eles fizeram quando eram bem pequenininhos: o belo, melancólico “The Hurting”, que minha irmã tinha em vinil e eu ouvi (quase) até furar. “Change”, meio balada, meio new wave, linda, linda como eu a ouvia no disco. Na voz de Curt e com um teclado marcante que mostra toda a sua importância na música do Tears, quiçá no pop anos ’80 de uma maneira geral.

Depois da versão de “Mad World” by Curt e uma grande performance vocal de Orzobal entoando “goodbye my friends, will I ever love again? (de “Memories Fade”)”, este anuncia que farão agora uma “estranha homenagem” a alguém que morreu durante a última turnê dos dois. E começa uma versão suuuper lenta e muito interessante de “Billie Jean”. Mais um momento mágico, surpreendente.

Advice for the young at heart” dá continuidade aos hits e como é legal ver os quarentões e inclusive mulheres cinquentonas cantando as letras com conhecimento de causa! Brasília sempre me pareceu um lugar em que não há muitos points para a meia idade que não sejam restaurantes bons, mas nada animados. “Soon we will be older. When we’re gonna make it right?”, questionam os dois músicos agora também cinquentões. Há vinte anos, esta música podia não nos tocar em nada. Hoje sim. Mas também me ajudam a ver como não me sinto velha, ainda, pelo menos em espírito. Como tínhamos músicas boas, nós dos anos ’80! Como tivemos sorte! Sorte que esta geração não teve.

And I feel that I’ve done it right”, penso eu, ainda sobre a letra da música, embalada pelo inglês de minha época de intercâmbio, exatamente em 1985, quando ouvi e vi Tears for Fears pela primeira vez na tela da MTV americana, ano do lançamento de “Songs from the Big Chair”, que tornou o Tears famoso. O vídeo de “Everybody wants to rule the world” é um dos mais inesquecíveis, com o carro que trafega na famosa Rota 66 e a câmera passa pelo enorme dinossauro à beira da pista. “Shout” também tinha um vídeo marcante, em que os dois cantavam à beira de um precipício, um canion mesmo, gritando “shout, shout, let it all out…” (Ver post “Rock in Rio, o show a que não fui e seu importante legado”, aqui no blog).

Lembro-me de ter lido, provavelmente em minha coleção de Bizz, que eles haviam escrito a letra desta música baseados na teoria do Grito Primal, pela qual gritando a pessoa poderia colocar todos os seus problemas pra fora. Era a psicologia como inspiração mais uma vez, como em Sincronicity, letra de Sting, de poucos anos antes, baseada na Teoria da Sincronicidade de Jung.

When can I be sure?…” cantam os dois, voltando ao velho e bom new wave, cheio de teclados. Como diz meu marido, meio neófito em Tears for Fears, “eles são bem pop, né?”. Discordo em parte. E quando achamos que só falta “Shout”, que tenho certeza que fechará o show como “Everybody…” abriu, vem mais uma enxurrada de hits dos quais eu nem sequer me lembrava. “Head over hills”, claaaaro! A esta altura, o teatro já virou um ginásio, todos estão de pé. “Head…” é uma daquelas que nos traz a forte impressão de que estamos de volta no tempo, eu mesma acho estranhíssimo ter mais de quarenta anos e um filho dormindo em casa. E intervalo antes do bizz.

Eles voltam aplaudidos com “Woman in chains”, uma ótima prova de que Tears for Fears estão looonge de ser apenas pop. E… finalmente, “Shout”, em que o teclado mais uma vez mostra sua imponência. Estamos de alma lavadíssima! Curt, Orzabal e o resto da banda estão tão felizes quanto nós. Estamos prontos pra mais um ícone do pop dos ’80: Duran Duran no palco do ecológico SWU. Dia 13 de novembro, daqui a um mês, em Paulínea, São Paulo. Aguardem.

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5 Comentários

  1. Eu fui nos shows do tears for fears em 1996, e de 2011, os dois de SP e o do Rio. Foram os melhores dias da minha vida.
    Publio – RJ

  2. Foi um show maravilhoso!!!!!!!
    Não querendo corrigir, já te corrigindo: Breakdown Again é do álbum Elemental foi lançado em 1993. Em 1995, Orzabal lançou ainda como TFF, o Raoul And The Kings Of Spain e tocou aqui no Brasil em 1996.
    A frase: “goodbye my friends, will I ever love again?” é de Memories Fade e essa sim teve uma versão diferenciada pela introdução. Mad World foi fiel à versão do disco. O que o Curt disse é que várias versões dessa música foram feitas, mas a que ele ia cantar é que era a original.

    Valeu pelo texto; muito bom relembrar esses momentos. :o )

    • Obrigada, Sophia. Vou fazer as correções. Só não vou acrescentar este álbum, que eu já havia visto na discografia, porque já citei álbuns demais. Um abraço, Mariana.

  3. Querida Mariana, estava em São Paulo e assisti ao show extra do Tears no dia 14/10, no Credicard Hall, e ratifico todos os seus comentários! O show de lá também estava lotado e foi muito emocionante, pra mim particularmente com as músicas Pale Shelter e Memories Fade do lindo The Hurting, e claro, Everybody… e Head Over Hills, maravilhosas! Roland Orzabal e seu vozeirão versátil impressionou mesmo, e Curt Smith se destacou pela suavidade e sensibilidade na interpretação de vários hits! Também lavei a alma. Aliás, melhoras e boa recuperação.
    Beijos, Audrey.

    • Que bom que este você viu, Audrey! Já que não verá o do Duran! Pois é, também aaamo o The Hurting, estou precisando comprá-lo em CD. Que bom que houve este show, foi realmente uma bênção curativa pra mim! E o do Duran também será! É muito bom quando vemos que ainda gostamos do que gostávamos antes porque significa que realmente é algo que tem qualidade, não? Um beijo grande. Quem sabe nos vemos no Ringo aqui em Brasília?

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