Posts made in novembro, 2011

O bom cinema está de volta a Brasília, enfim!

Oito salas abrem nesta sexta. Outras 50 estão a caminho.

Na sexta-feira, dia 9 de dezembro, os cinéfilos brasilienses vão finalmente poder parar de reclamar da falta de bons filmes nas telas da capital. Será aberto ao público o primeiro complexo de cinema do grupo Estação, o Espaço Itaú de cinema. As oito salas novinhas em folha ocuparão o espaço onde antes existia a Rede Embracine, no Shopping Casa Park. A rede fechou as portas no ano passado, deixando o público órfão de produções cinematográficas mais artísticas, que não viessem de Hollywood ou do atual cinema comercial brasileiro.

Na terça-feira (29), convidados, especialmente do meio cinematográfico de Brasília, puderam conferir de perto as salas e o enorme e chiquérrimo hall que abrigará um lindo Café. “Nosso princípio é juntar cinema e arte na sua excelência”, garantiu o diretor-executivo do banco Itaú, Fernando Chacon, no único e rápido discurso da noite. “Este vai ser o piloto para as 58 salas que pretendemos abrir em Brasília”, informou ainda Chacon para o deleite de todos e a surpresa de alguns. Sabe-se que as três salas do Shopping Liberty Mall também estão sendo reformadas para ser ocupadas pelo grupo.

Na festa de apresentação, a que Escritos do Ócio teve o prazer de estar presente, os convidados puderem assistir a um entre três dos filmes que entrarão em cartaz na semana que vem: “O Garoto da bicicleta”, dos irmãos franceses Luc e Jean-Pierre Dardernne, e vencedor do Grande Prêmio do Júri do Festival de Cannes 2011; “Minhas Tardes com Margeritte”, de Jean Becker, com Gérard Depardieu; e “Um Conto Chinês”, de Sebastián Borenstein, com Ricardo Darín. Mas antes, o grupo sinfônico Tocata interpretava trilhas sonoras clássicas, enquanto os convidados podiam se preparar para provar as salas tomando espumante e comendo blinis diversos, cappuccino de salmão, bolinhos de camarão, carnes de boi e carneiro. Isso num ambiente que já prometeria ser um sucesso só pelo seu visual super clean e moderno, intercalando vidro com mármore, mas ainda assim aconchegante. As grandes luzes embutidas no teto remetiam ao próprio cinema. Tudo bem mais arrojado do que as salas do Estação construídas nos anos 90 no Rio, em São Paulo e em Belo Horizonte.

História
Patrícia Durães, uma das sócias do empreendimento, tem longo know how no ramo dos cinemas alternativos no Brasil. Presente à festa de ontem, Patrícia é sócia-fundadora do Espaço Unibanco, está no grupo desde que foram abertas as primeiras salas, em uma galeria da Avenida Voluntários da Pátria, em Botafogo, nos idos de 1985. As três salinhas do Estação, que existem até hoje, pegaram de uma forma que, uma década depois os sócios tinham fôlego para abrir outras três, criando, assim o Espaço Unibanco de Cinema, ainda com o nome de Espaço Banco Nacional de Cinema. Maior e mais moderno, ele ficava logo ali, do outro lado da avenida, após a estação de metrô.

Em 1993, o Espaço chegou a São Paulo, me relembrou ontem Cláudia. E em 1998, Estação e Espaço resolveram se separar. Ademar Oliveira, o grande idealizador de tudo desde o início ficou à frente do Espaço e outras componentes do grupo inicial assumiram o Estação. Este último continuou responsável pela realização do Festival de Cinema do Rio, que rivaliza até hoje com o Festival Internacional de Cinema de São Paulo, aumentando o número de produções mostradas a cada ano. Um sucesso crescente que eu mesma cobri por três anos pelas TVs Bandeirantes e Educativa e a que assisti por outros quatro, comprando bolos de ingressos com antecedência para conseguir ver os inéditos de Woody Allen, Almodóvar (naquela época valia a pena!), Godard, Antonioni… e os ganhadores de Cannes e Berlim do mesmo ano, e Veneza do ano anterior. Nos anos em que fui redatora do programa Cineview, da Rede Telecine (2000 a 2002), fazíamos as matérias dos filmes passados em Cannes, coberto por nossos repórteres anualmente in loco e, meses depois, podíamos assistí-los  na íntegra no Festival do Rio. Era especial!

Um belo conto chinês
É com toda esta aura de sucesso e realizações que o grupo Estação chega a Brasília. Na sexta-feira, serão anunciados os primeiros filmes a estrear nas novas telas. Já posso indicar o que escolhemos para ver ontem: “Um Conto Chinês”, uma história sensível sobre o relacionamento entre um argentino solitário e cheio de manias e um jovem chinês que resolve se exilar no País sul-americano após passar por um trauma.

Ricardo Darín dá show novamente, em um papel bem diferente daqueles em que estamos acostumados a vê-lo. Seu vendedor é quase bronco e vai sendo surpreendido pela capacidade de se envolver por aquele rapaz que chegou para atrapalhar sua repetitiva rotina. No começo, podemos até nos enganar confundindo o filme com uma comédia hollywoodiana. Há até uma virada totalmente previsível. Mas é nos detalhes que “Um conto chinês” mostra suas cores e sua beleza.

Nada mal assistir a um ótimo argentino sentada naquela sala de cinema cheirando a nova, com um bom espaço para as pernas, comendo pipoca e tomando espumante. Com o lencinho de avião distribuído pela produção pra limpar o couro da poltrona e não estragar a festa do público na semana que vem.

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Um Beatle em Brasília

Um Beatle está em Brasília, e pela primeira vez! Paul McCartney já passou com turnês pelo Brasil duas vezes, inclusive neste ano, como o ex-companheiro de banda, e nos anos 80, quando o assisti no Maracanã, emocionadíssima. Pois há uma semana, os brasilienses poderiam ver um Beatle, um integrante da banda que mudou o rock and roll, sem cuja existência muitos grupos que vieram depois não teriam sido os mesmos. Era só nisso que eu pensava.

 O clima no foyer do Centro de Convenções Ulysses Guimarães era diferentes do de todos os outros shows a que eu havia ido ali- e olha que fui a muitos do ano passado pra cá. Era um clima de reencontro e celebração entre cinquentões e, principalmente, sessentões e setentões. A alegria entre os amigos que se encontravam por acaso chegava a ser contagiante. Tapinhas nas costas se misturavam com gritos e fotos dos grupos vestidos de camisas de botão e jeans, mas também com camisetas pretas, algumas com a inscrição estilizada Beatles. Via-se que eram pessoas que não frequentavam concertos de rock regularmente. Aquele era um momento especial.

Dentro da sala de concertos, muita gente, inclusive os mais jovens, tirava fotos com o palco atrás, sem ninguém em cima. Seria uma lembrança para se guardar pra sempre. Minha companhia durante a espera, já que a amiga que iria comigo estava atrasada, não era das mais agradáveis: o ex-senador cassado Luís Estêvam, sua mulher e uma penca de filhos, aguardavam na maior alegria pelo show. Já estou acostumada a esbarrar com esta figura de Brasília, ele frequenta a mesma pizzaria a que costumávamos ir e, como nós, todos os domingos por volta das 20 horas. Uma praga!

Com apenas dez minutos de atraso, a All Star Band sobe ao palco seguida por Ringo Starr. O público vai ao delírio enquanto o baterista dos Beatles, em pé e sem instrumento, começa a cantar “It don’t come easy”, uma parceria dele com George Harrison, feita já durante a carreira solo de ambos. Dançando como na época da New Wave, pra um lado e pro outro, Ringo não parece nem de perto ter os 71 anos que tem, no máximo uns 56. Super magro e de barba, mistura calça preta com uma listra de cetim ao longo das pernas com camiseta escura e um blazer com golas brilhantes. A All Star Band, formada por ele desde o final dos Beatles, é uma mistura de músicos americanos e ingleses, a maioria da mesma geração de Ringo, e muitos deles saídos de bandas que foram famosas nas décadas passadas. Não tanto quanto os Beatles, claro, mas famosas. Desta vez a formação é a seguinte: Wally Palmer, Rick Derringer, Edgar Winter, Gary Wright, Richar Page, Mark Rivera e Gregg Bissonette. Baixo, duas baterias (sim, Ringo Star divide a bateria com outro músico!), duas guitarras, um teclado e um saxofone.

 

Thank you, how great to be here”, diz Ringo, sem fazer nenhuma concessão ao português como já é uma praxe entre os músicos gringos que aportam por terras brasileiras. “This is the only place called Brasíiiiiilia-Brazil”, it’s a great place if you can find it”, brinca ele, sem conseguir arrancar muitas risadas da plateia. Começava ali a série enorme de gracinhas que o mais sortudo dos Beatles faria ao longo das cerca de duas horas de show. Sortudo porque Ringo encontrou os Beatles, já Beatles em uma excursão que faziam a Hamburgo, Alemanha, no início da carreira. Pete Best, o primeiro baterista da banda formada por Paul e John, resolvera sair da banda. Estava mais interessado em uma namorada e na pintura, suas verdadeiras paixões. Ringo, na verdade Richard Starkey Jr., um músico apenas mediano, assumiu a batera. Não era um exímio baterista, mas quem disse que os outros Beatles o eram? Como instrumentistas, John e Paul eram ótimos, excepcionais eu diria, letristas e compositores de melodias. E George foi o responsável pela introdução das sonoridades asiáticas na música dos Beatles. Por uma verdadeira revolução na música do quarteto. É só ouvir o “Sgt. Peppers”, pra mim um divisor de águas na obra deles, pra perceber a influência da viagem à Índia à qual George Harrison levou os três colegas.

Beatles 

Honey don’t” é a próxima música do show e a primeira dos Beatles. Uma canção gravada no álbum “Beatles for Sale” de 1964. É uma verdadeira volta àquele ano: feche os olhos e você verá o quarteto de Liverpool vestido em terninhos, com os famosos cabelos em forma de cuia.

“So, are you ready to have a good time?” pergunta Ringo. Quando o público aplaude animadíssimo, ele solta: “Yes, I am the greatest!”. Provavelmente uma brincadeira com a máxima de John Lennon que um dia disse que os Beatles eram mais populares que Jesus Cristo. “I love you, I love you, I love you”, diz o baterista apontando para uma, outra e outra pessoa da plateia. Na terceira música, um presságio de outra fase dos Beatles, ele cita “The long and winding road”, tocando um trecho dela no meio da canção.

Finalmente, Ringo abandona os passinhos New Wave e vai para a bateria where he belongs. Começa “Super hang out”, o clássico do The McCoys, conhecido no Brasil pela versão da Jovem Guarda “Pobre Menina (não tem ninguém)”. Muuuito legal! É que um dos McCoys , Rick Derringer,faz parte da All Star Band. O mais sessentista de seus integrantes. “Everybody is a star tonight”, diz Ringo, acrescentando que todos os colegas de palco vieram de alguma banda importante.

 “Talking in your sleep” dá início ao outro lado do show daquela noite: o lado oitentista. Ingleses de bandas dos anos oitenta, em sua maior parte responsáveis por um hit e nada mais conhecido (as one hit bands), estão em profusão na All Star. Wally Palmar era do The Romantics.

E chega mais um momento super aguardado. “Vou fazer agora um número para as moças, para alguns rapazes também”, anuncia o maroto Ringo. E começa “I wanna be your man”. Esqueça os solos de guitarra que dão uma roupagem “moderna” à música e você se sentirá um beatlemaníaco. Senti isto há pouco mais de vinte anos no Maracanã, com Paul McCartney, e voltei a sentir na semana passada. É inútil tentar descrever a emoção de ouvir um Beatle tocando Beatles na sua frente. Para qualquer fã de rock. E foi por isso que não pensei duas vezes em pagar R$ 450 para ver Ringo Star em um teatro a vinte metros de mim.

 Enquanto o bruxo com cara de Papai Noel Edgar Winter se reveza entre o sax, o teclado, o sintetizador e a percussão, Gary Wright começa o seu solo. “Boa Noite, amigos de Brasília! Tudo bem?”. E começa a tocar “Dream River”, uma balada escrita após uma viagem que fez com George Harrison para a Índia. Wright participou do álbum “All things must pass” do ex-guitarrista dos Beatles.

 Miscelânea
O show é uma mélange total. Tem estilos completamente diferentes entre si, parece mais uma série de shows solo de cada um dos integrantes, mostrando músicas de suas carreiras passadas. O bom é que as canções não são ruins e a banda, além de qualidade musical, tem intensidade, são muitos instrumentos tocando juntos. Um dos pontos altos é “Broken Wings”, uma bela balada da segunda metade dos anos 80 do grupo Mr. Mister. Richard Page é o representante da banda na All Star. Nada a ver com o que se espera de uma apresentação de Ringo, mas este é um bom momento do show. Na verdade tem algo de surreal. Quem imaginaria que Ringo Starr um dia tocaria bateria para o cara do Mr. Mister, típica one hit band, enquanto ele canta seu único sucesso?

Ringo nos lembra que, apesar da miscelânea, está no comando, ao cantar uma canção do disco lançado no ano passado, “Why Not?”. É a sugestiva “The Other Side of Liverpool”, em que ele começa, em tom confessional: “minha mãe era uma enfermeira…”. Boa música!

 Um soul separa a lembrança da Liverpool que nos deu os Beatles do momento mais esperado da noite. É aquela música que John e Paul compuseram pensando no vozeirão de Ringo. A canção que embalou a infância de muitos quarentões como eu e que embala até hoje. “Are you ready to sing?”, pergunta ele. “I like to play this song every night, everybody enjoys it”, diz Ringo. “É um momento musical incrível e eu sou o outro incrível momento”, diz ele, brincando com a própria fama. Começa “Yellow Submarine”, gravada originalmente no álbum Revolver, em 1966, e eu me chateio por não ter levado meu filho de três anos ao show, especialmente para aquele “magical moment”. Yellow Submarine foi a primeira música cujo refrão João cantou em inglês, aos dois anos. Mostrei a ele parte do filme homônimo no youtube, mas só a parte desta música, não o longa-metragem inteiro, que tem partes violentas. Recomendo aos pais, com esta parcimônia, porque os desenhos são muito bem feitos e coloridíssimos.

 

Após longos solos dos stars da banda, Ringo volta ao palco. É impressionante como todo o público se levanta quando ele reaparece, quase uma reverência. “Boys”, uma canção menos famosa dos Beatles, é a escolhida por Ringo. “One of my favourites”, diz ele.

Umas pessoas estão pedindo: ‘please, Ringo, sing “Photograph””, diz o músico, se referindo a outra canção da antiga banda. E eles tocam a linda “Photograph” que, na verdade, já estava no roteiro. “Act Naturally”, outra do quarteto, do álbum “Help!”, de 1965, vem em seguida. É um country e todos cantam. E o momento Beatle não terminou. “Do you need anybody? I want somebody to love!”, canta Ringo, no momento mais emocionante de todo o show, mais ainda do que o submarino amarelo. “A little help from my friends” me remete diretamente à São Paulo de 1982, em que morávamos, e quando os Beatles começaram a tocar fundo os nossos corações, meu e da minha irmã. Naquela época, compramos a coletânea vermelha, a que tem os sucessos mais antigos, que se completa com a coletânea azul, com as músicas mais viajantes da segunda metade da carreira do grupo, no fim dos anos 60. Durante aquela música, Ringo ria e eu chorava.

E pra aumentar a emoção, no finzinho do show, o pacifista Ringo Starr, com sua banda formada por alguns ex-hippies, cita o mais pacifista de todos: John Lennon. “All we are saying, is give peace a chance…”. E os músicos saem do palco deixando a velha mensagem de Paz e Amor, mostrando que um idealista pode ser sempre um idealista. Ringo levanta a mão e faz o sinal de paz e amor com o indicador e o dedo do meio, uma marca registrada sua desde os primórdios. O sinal que havia sido repetido por ele e pelos fãs durante todo o show. Um pouco do espírito hippie nos individualistas dias atuais nunca é demais!

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O dia em que falei com David Lynch sobre meditação

“Sim! Claro! As crianças brasileiras das escolas públicas regulares podem, sim, se beneficiar da meditação em sala de aula. Elas são seres humanos, todo ser humano se beneficia”. Assim respondeu David Lynch a uma pergunta que fiz a ele ontem sobre a viabilidade da meditação na rede pública brasileira. O cineasta, ganhador de três Oscar, participava ao vivo, por vídeo-conferência, de Hollywood, onde mora, do Seminário Internacional sobre a Meditação Transcendental e a Educação. O encontro foi promovido pela Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados e pela Frente Parlamentar Mista da Educação do Congresso Nacional, bem ali, pertinho do meu local de trabalho, no Auditório da TV Câmara.

Quando vi as informações na segunda-feira, corri para transformá-las em pauta antes que alguém a apagasse por achá-la “idiota”. É, tem gente no meu trabalho que acha meditação idiota, se for pra melhorar o aprendizado, então… Uma colega, estagiária, a Marcela Picanço, pediu a uma chefe de bom senso para cobrir o evento, que seria fora do meu horário de trabalho, se não, eu mesma teria me oferecido. Imagine, o criador da obra prima “O Homem-Elefante”, de viagens interessantíssimas como “Coração Selvagem” (nossa, ele dirigiu Nicolas Cage quando este só fazia filmes que prestavam! Ou seja, há muuuito tempo! Vejam foto do filme abaixo), “Veludo Azul” (pelo qual me interessei mais há algumas semanas, revendo vinte anos depois da primeira vez), e o fantástico e surrealista “Cidade dos sonhos”! Claro que seria uma bela oportunidade! Cinema encontra meditação, outra de minhas paixões. Melhor ainda!

Pois é, este autor de obras meio loucas, com fortes doses de violência física e, principalmente, psicológica, e com personagens tirados do universo onírico também se interessa por meditação, mais especificamente, pela meditação transcendental. Esta linha é aquela que foi introduzida em 1958 pelo guia espiritual indiano Maharishi Mahesh Yogi (foto abaixo), envolvendo o uso mental de sons específicos, com propriedades psicoativas, os chamados mantras.

Eu que pratico canto e meditação da linhagem de Syddha Yoga há quase dez anos, sei que a meditação com base em mantras já existia na Índia, porém, há milênios, claro. A repetição infindável de mantras faz com que a pessoa consiga ir se desligando dos pensamentos que inundam sua mente o tempo todo e passe a um nível de relaxamento crescente.

Mais importante do que as características específicas da meditação transcendental em relação a outras linhas como a que eu pratico, é que a linha iniciada por Maharishi está sendo utilizada na educação, e melhor, na educação pública, para meninos e meninas a partir de 10 anos. David Lynch criou uma Fundação especificamente para divulgar o uso da Meditação Transcendental nas escolas do mundo todo. Mais de 250 mil crianças já têm acesso à meditação transcendental em suas escolas. O criador da intrincada trama do seriado Twin Peaks é, quem diria, um dos grandes divulgadores desta prática no mundo.

“É fácil perceber a diferença entre os alunos que praticaram a meditação e os de outras escolas”, continuou Lynch.  “As crianças estão cheias de estresse, cansadas, não dormem direito. Aí são inundadas por um oceano de energia. Elas vão poder dormir, a capacidade de se concentrar aumenta, a motivação volta”, disse um entusiasmado Lynch.

Inteligência criativa
Duas outras pessoas fizeram perguntas depois de mim. Não tive tempo de pensar e estava muito focada na questão das crianças, mas não teria sido óbvio perguntar se Bobby Peru de “Coração Selvagem” ou os anões, vilões (como o conturbado personagem de Dennis Hopper em “Veludo Azul) e detetives intrigantes de outros dos filmes de David Lynch foram imaginados enquanto ele meditava?  Eu mesmo, quando entro em meditação, o momento de maior tranquilidade mental que se pode alcançar, tenho, às vezes, ideias mais inteligentes do que no dia a dia agitado. Elementar: a mente está descansada.

“É a inteligência criativa”, já tinha dito Lynch, dando pistas de que minhas suspeitas sobre a meditação e o seu processo criativo estavam certas. “É sempre assim, as pessoas dizem: ‘estou mais criativo e aumentou minha capacidade de resolver problemas’”.

“Onde está toda aquela raiva?”
Para ele, a técnica, além da diminuir a violência entre os estudantes, deixando-os mais calmos, tem como consequência levar as pessoas ficarem mais felizes e com maior capacidade de se focarem em algo, distinguindo problemas pequenos dos grandes. “Eu tinha muita raiva, dentro de mim, tensão e preocupação, como todo mundo”, confidenciou Lynch (foto abaixo). “Depois da meditação, minha mulher me perguntava: ‘onde está toda aquela raiva, o que aconteceu?’”, contou o cineasta. “Ora, minha raiva foi embora naturalmente, é isto que acontece. Foi lindo”, contou ele, da mesma forma que fez no documentário 2012, a que assisti há cerca de um mês na mostra de filmes do CCBB passados no Cine Brasília. A negatividade não traz criatividade”, concluiu.

Os melhores desempenhos escolares
Antes de David Lynch, havia falado no Seminário o diretor de Expansão da Maharishi Free School, da Inglaterra, Richard Scott. Sua explanação foi surpreendente. Mostrando gráficos, ele explicou que a instituição, que tem como cultura aplicar a meditação transcendental para alunos e professores, está entre os 2% melhores escolas do Reino Unido, onde os alunos têm  melhor desempenho. A meditação faz toda a diferença na capacidade dos alunos para apreender o conteúdo das matérias. “Os alunos são mais criativos, têm maior capacidade de trabalhar em grupo e de resolver problemas por causa da técnica praticada duas vezes ao dia, por 20 minutos”, afirmou Scott, ele mesmo muito calmo. “Uma vez implantada a prática da meditação transcendental, a educação em qualquer país pode ser mais efetiva”, concluiu Scott.

O deputado Alex Canziani (PTB-PR), que tomou a iniciativa de promover o seminário, e ele mesmo um meditante, pretende expandir a cultura da meditação transcendental nas escolas brasileiras, como uma contribuição de aprendizagem para os estudantes e para as futuras gerações, como apurou Marcela para sua matéria.

O diretor da Fundação David Lynch no Brasil, Joan Roura, primeiro a falar no seminário, comparou a mente humana com o oceano. A superfície do mar, com toda a sua agitação, seria a parte consciente; o subconsciente corresponderia à parte central do Oceano e, por meio da meditação, as pessoas iriam chegar à quietude da mente, como no calmo fundo do mar. Segundo ele, a meditação reduz a substância cortisonoplasma, diminuindo, assim, o estresse. “A meditação diminui o estresse, a ansiedade e a depressão. Funciona muito bem na melhora do déficit de atenção e ajuda a prevenir o uso das drogas”, acrescentou ainda Roura.

Alguém ainda tem dúvida dos benefícios que esta prática pode trazer para as crianças brasileiras? Imagine a meditação universalizada no ensino público do nosso País. “Seria o melhor presente que vocês poderiam dar a suas crianças”, garante David Lynch.

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Duran Duran 24 anos depois! E SWU, Woodstock ao avesso.

Depois de andar um quilômetro desde o estacionamento de R$ 100, eu e meu marido fomos barrados na entrada no Festival SWU por causa do meu guarda-chuva. “O guarda-chuva pode ser usado como uma arma”, disse um dos organizadores da entrada, acrescentando para aumentar o meu ódio: “Acho que a senhora não costuma frequentar shows”. Logo pra mim que vou a shows desde os 16 anos, 7 anos se contar um do Gilberto Gil a que fomos levados por nossos pais na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, em Salvador, em 1975. Bem, depois de muito choro, Mauro teve que voltar para o carro, pra guardar o objeto (que afinal é italiano e custava R$ 80) andando mais dois quilômetros, inda e volta. Meu desespero veio quase uma hora depois quando, mesmo ouvindo e vendo de longe o show do Ultraje a Rigor (taí o primeiro show a que fui aos 16 anos), e sem celular, não conseguia encontrar meu marido novamente.

Fui salva por um dos organizadores, este com boa vontade, que ligou pra Mauro do celular dele e, diante da minha revolta, nos deu duas pulseirinhas para o enorme espaço Vip, com vista privilegiada para os dois palcos principais, fora whisky, cerveja, entradinhas e até alguns pratos de massa. Vips mesmo não vi nenhum, a não ser a Cristiana Oliveira e aquela Cíntia Benini. Também quem era o vip que iria topar tamanha aventura? Pros mortais ricos, o ingresso Vip custava R$ 900. Finalmente Mauro apareceu. Estava esperando entre a tenda vip (local marcado pro encontro) e o palco. Fiquei na entrada da tenda, oras! Eu, na TPM, jurava que ele tinha sofrido algum colapso de tanto andar. Descobri depois que o tal anjo salvador era Eduardo Fischer, o publicitário ban ban ban responsável pelo evento. Um cara fino.

Instalado numa área rural, nos arredores da cidade de Paulínea (a 20 kms de Campinas, SP), o SWU me pareceu uma espécie de Woodstock às avessas. Os ingressos têm preços de shows nas capitais, o estacionamento é extorsivo (se houver mais de três pessoas no carro se paga a metade a pretexto de se estar emitindo menos CO2). Chris Cornel, os caras do Duran, Peter Gabriel, todos deixaram claro que estavam ali por causa da mensagem ecológica do festival. Mas a classe média paulista e o público que lotou os hotéis vindo de outras cidades como nós, não parecia estar nem aí pras preocupações com a futura falta d’água pros seus filhos e netos: queriam era ver seus ídolos, queriam a aventura de um festival no meio do nada. Ou quase. É exatamente naquele espaço, aliás bonito e bem planejado, que acontece um dos festivais de cinema mais importantes do País, o Festival de Paulínea.

Autógrafos e John Taylor na piscina
Enfim eu poderia, após 24 anos, rever a banda pop de que mais gosto no mundo: o Duran Duran. Ainda estávamos no espaço Vip quando ouvimos as primeiras notas de teclado, aquele teclado tão marcante nas bandas pop dos anos 80. Era Nick Rhodes, mais louro do que nunca e com um longo casaco de paetês pretos, seríssimo como nos velhos tempos! Simon Le Bon entrou em seguida cantando a linda “Planet Earth”, bem no espírito do SWU, do primeiro disco da banda (Duran Duran, 1981)e que nem sempre faz parte das set lists da banda. Logo vi John Taylor, um dos rostos mais lindos do planeta Terra nos idos de 1983, e até o baterista Roger Taylor, o primeiro a deixar a banda, ainda nos anos 90. Começava ali uma autêntica e absolutamente emocionante volta no tempo.

Em 1988, eu viajara para o Rio, 18 horas de ônibus sozinha, para vê-la e algumas outras bandas como Supertramp e Simple Minds, na primeira edição da retomada do Hollywood Rock (ver post Tears for Fears, aqui no blog). E conseguimos mais que isso: eu e minha colega de faculdade Patrícia Melisa lançamos mão de um plano para tentar conseguir falar de perto com nossos ídolos. Eu gostava do Duran desde Save a Prayer, de 82, como todo fã que se preze, e a admiração aumentou quando morei nos Estados Unidos em 1985 e minha “irmã americana” Jenny era absolutamente apaixonada pela banda e, especialmente, pelo baixista, John Taylor. Recortes dele em revistas dividiam as paredes de seu quarto com Rob Lowe e um dos integrantes do Mötley Crue, Nikki Six ou Tommy Lee, não tenho certeza.

Patrícia e eu nos arrumamos bem e chegamos à recepção do Copacabana Palace nervosas, mas confiantes. Ultrapassamos uma horda de fãs que gritavam desesperadamente os nomes de John, Simon e companhia (na época havia também Andy Taylor, guitarrista, o único da formação original que não está na banda no momento). Da banda mais charmosa dos anos 80. Dissemos, em inglês, que iríamos tomar um café na pérgola do hotel, bem em frente à enorme e famosa piscina. Lembro-me que eu mesma, aos 19 anos, não acreditada que os funcionários iriam comprar que aquelas duas meninas de 19 anos, travestidas de adultas americanas, estavam ali realmente pra tomar um café. Mas acreditaram. Jenny tinha que estar ali conosco, eu pensava. Ela merecia. Havia inclusive escrito a letra de Save a prayer pra mim quando meu inglês ainda era muito fraco pra entender sem ler. É uma linda letra. De repente, vemos um homem altíssimo, branco quase transparente, magérrimo, de sunga preta, andando pela borda da piscina. Custamos a acreditar, mas era John Taylor. Ali, na nossa frente, andando seminu, um dos maiores ídolos de nossa adolescência!

Deve ter se passado uma hora do início do desfile de John, que me decepcionara levemente por ser tão desengonçado, até toda a banda aparecer no corredor que leva ao lobby do hotel. Não me lembro como descobrimos que eles estavam descendo. Mas, café de R$ 20 (naquela época uma fortuna!) tomado e agendas da Cantão na mão, fomos ao encontro deles. E os encontramos. Fingindo que não estávamos nem aí, perguntamos o que eles estavam achando do Rio de Janeiro. Simon, muito simpático como sempre, respondeu que estava gostando, para a alegria total de Patrícia que era quase tão apaixonada por ele quanto eu era por Sting. Enfim, travamos um pequeno diálogo com eles enquanto os cinco nos davam seus autógrafos (foto deles naquela época, abaixo). Antes de eles enfrentarem a horda de fãs gritantes lá fora (que não tinham a nossa esperteza, pensávamos orgulhosas) para pegar o carro que os levaria para dar uma volta pela Cidade Maravilhosa.

Tudo isso me vinha à mente enquanto eu ouvia Planet Earth há dois dias. Ao ver o velho vocalista do Duran, pensava em como ele melhorou com o passar dos anos. Os cabelos estão castanhos, o cavanhaque disfarça o rosto redondo. Ainda estão lá os olhos super azuis, claro. Estes comentários são necessários quando se fala em uma banda dândi. Nick e Simon, principalmente, sempre se vestiram muito elegantemente. Ingleses. John com sobretudos. Roger mais esportivo como com a jaqueta de couro com listras vermelhas que vestia anteontem.

Paris
Com calça jeans e uma camisa com estampa de cobra brilhante, Simon começa a tocar uma (boa) música nova, “Safe”. Aliás, depois eu descobriria como é bom o novo disco do Duran, “All you need is now”, de 2011, que recebeu críticas muito boas. São ótimas faixas pop que não nos saem da cabeça e baladas que lembram “Save a Prayer” tamanha a beleza das melodias.

Voltando ao show, além de um guitarrista de uns 30 anos substituindo Andy, há ainda uma cantora negra e também uma mulher na percussão. As músicas novas e mesmo algumas antigas têm uma roupagem bastante dance, algumas até eletrônicas. Eles podem, sempre foram pop, sempre abusaram dos teclados. Depois veio “A view to a kill”, que me remete exatamente à Paris de 1985. O vídeo clip da música, tema daquele 007 que tem Grace Jones, foi filmado na Torre Eifel. Como minha mãe fazia doutorado em Paris, eu fui direto pra lá do meu intercâmbio em Michigan, passar o resto do verão europeu que me cabia. E, na Torre Eifel, minha maior referência era o vídeo, eu ficava imitando os Durans atirando com os visores que miravam a capital francesa. É, o Duran me traz lembranças muito diversas…

“Notorious” vem em seguida, esquentando a plateia. Simon, animadíssimo, pergunta ao baixista: “Johnny (adoreeei Johnny! Kkk!), what are we gonna do to get everybody singing?” John faz aquela cara de concordância, abre o famoso sorriso e continua sua dança ao tocar baixo, igualzinha à que enlouquecia todas nós 30 anos atrás. Simon desce pra plateia, uma plateia muito menor do que à que eles estão acostumados, inclusive no Brasil. Ele escolhe um menino da plateia que cantará o marcante “Na na na na, na na na na”, e começa “The Reflex”, com certeza a música mais conhecida do Duran após  “Save a Prayer”. A blast! A esta altura já estamos a 30 metros do palco e eu agradeço por ter ido a este show longínquo porque só ali, a mais de 150 quilômetros de São Paulo, se poderia ver uma banda desta dimensão tão de perto!

Público jovem
Começa “Ordinary World”, uma balada já dos anos 90 e percebo como o público que está ali é em sua maioria formado de jovens entre 25 e 35 anos. “Hungry like the wolf!”, grita uma menina que não deve ter mais de 24. “Não sei não…”, digo eu, descrente. Mas sim, após mais uma canção do disco novo, super elogiado pela crítica, vem uma série de sucessos do segundo disco da banda, Rio, de 1982, que tem “Save a Prayer”, “Rio” e “Hungry like the wolf”, que seria reeditada no ao vivo “Arena”, de 1984. “Hungry like the wolf” sim! “Wild Boys”, uhhh!, já é o primeiro bizz.

Karina, professora de inglês de 31 anos, que sabe várias letras, tira minha dúvida. Ela não é da geração dos 80, então por que gosta tanto do Duran, a ponto de gritar? “Meus irmãos mais velhos gostam e minha mãe ouvia quando eu era pequena. Ensino algumas das músicas (mais as baladas) a meus alunos. Eles acham meio estranho”, me diz, afirmando orgulhosa que veio de Taubaté com a amiga da mesma idade, especialmente para ver o Duran. A amiga diz que gostaria de ouvir “Rio”. Eu concordo, se tocarem “Rio”, pra mim também, o show estará completo.

E em poucos segundos começa… “Rio”. Aquela melodia linda, aquele saxofone- sim, há também um saxofonista no palco- que lembra o vídeo em que os músicos do Duran estão em um barco e John finge tocar o sax ali mesmo. No show, John ri olhando para o saxofonista, parecendo se lembrar que aquela função um dia foi sua. “Tchu, tchu, tchu, ru, tchu, ru. Tchu, tchu, tchu ru tchu ru…”. “Her name is Rio and she dances on the sand, just like that river twisting through the dusty land”. Me apercebo do quanto sei as letras das canções do Duran. Será que tanto quanto as do Police? Talvez. Pronto, Rio estava tocada. Minha alma estava lavada!

O público esperou “Save a Prayer”. Eu acreditava em um novo bizz, afinal é um hit tão importante que tem gente quem nem sabe o que é Duran Duran, mas o ouve no rádio até hoje. Mas eles foram ousados. Fizeram um show de sucessos excluindo o maior deles. Bem, eu? Eu estava satisfeitíssima! Claro que amo “Save…”, me lembra momentos ainda mais longínquos, dançado de rosto colado com meu namorado de adolescência… Mas eu já a havia ouvido em 1988. Estava feliz, muuuuito feliz! Era hora de descansar no espaço Vip.

Peter Gabriel
No outro palco, alguns minutos depois Peter Gabriel começou seu show. O que esperar de Peter Gabriel? Eu já o havia visto também em 1988, no segundo semestre, no Parque Antártica, São Paulo, no Concerto da Anistia Internacional, do qual tive a sorte de participar da entrevista coletiva inclusive. Afora “Sledge Hummer”, não tinha gostado do show. A voz dele é linda, mas era do Genesis que eu gostava e acho que o culpava um pouco pelo fim daquele maravilhoso representante do Rock Progressivo. O show deste domingo, porém, foi muito interessante. Gabriel tocou com uma orquestra, a mesma que o acompanha no seu último disco, elogiadíssimo pela crítica especializada. Era jazz meets progressivo, Gabriel misturado com erudito. Tudo muito bonito. No longuíssimo show, que assistimos do camarote mesmo, sem descer, houve pelo menos duas músicas menos conhecidas do Genesis (não reconheci, me disse uma fã, Elga, que havia ido ao show da banda em 1976 no Pacaembú!), a da trilha sonora da minissérie “O sorriso do Lagarto”, da Globo, baseada no livro de João Ubaldo Ribeiro e “Biko”, canção protesto sobre o líder africano Stephen Biko.

Lynyrd Skynyrd
O último show da noite, ao qual a mídia deu muito mais importância do que aos anteriores, foi do Lynyrd Skynyrd, banda sessentista/setentista do chamado southern rock, surgida na Flórida. Mais conhecida pela balada “Sweet Home Alabama”, os cabeludos cantam de baladas tipo cancioneiro americano até rock pesado. O público é fiel, como frisou um dos integrantes, explicando à Folha de São Paulo que a mídia internacional não liga pra eles. “É o público que nos mantém vivos”.

E assim, próximo às 2 horas da manhã, pegamos a estrada pra mais uma caminhada de 1 quilômetro até o carro e meia hora até Campinas pra dormir no hotel (Ibis) lotado de roqueiros de todas as idades e tribos. Até Marcelo D 2, que tinha aberto a noite do rap (Black Eyed Peas e companhia), estava lá, perguntou a mim se aquela era a fila do check out e entrou na fila como qualquer mortal. Na manhã de segunda-feira, que seria a noite do grunge, com Sonic Youth, Stone Temple Pilot, Faith no More e Hole, de Courtney Love, a louca viúva de Kurth Cobain, ainda havia resquícios da importância que o pop rock anos 80 tem até hoje. Um menino de uns 20 e poucos anos usava uma camiseta com a foto de uma fita K-7, onde se lia: “80′s mix tape”. Uma referência ao costume que nossa geração tinha de gravar fitas para os amigos e que é citado em filmes como “Alta Fidelidade”. E um sinal claro de como a música dos anos 80 empolga corações e mentes muito mais jovens que a minha. “A música daquela época era muito melhor que a de hoje, né?”, perguntara Karina no show, logo a mim. Talvez a música dos 80 seja para os jovens de hoje o que a dos 60 era para a minha geração, uma grande referência musical.

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Restaurante brasiliense com um pé na alta cozinha espanhola

Numa segunda-feira do fim de outubro, mais um restaurante de alta gastronomia abriu as portas em Brasília. Foi o Versão Tupiniquim, na 302 sul- em frente à 303, não a quadra das farmácias. Trata-se do estabelecimento idealizado pela arquiteta brasiliense nascida no Guará Fabiana Pinheiro, uma apaixonada pela cozinha desde muito cedo.

A gourmande de 38 anos retornou a Brasília no fim de 2009 pronta para transformar em realidade o sonho de abrir um restaurante com uma filosofia específica: servir a preços razoáveis pratos elaborados e pensados por ela com produtos brasileiros e inspirações que ela angariou ao longo dos dez anos que passou na Espanha conhecendo de perto das cozinhas dos restaurantes com duas, três estrelas (cotação máxima) do Guia Michelin e outros guias importantes. Isto especialmente no País Basco, onde fica a linda San Sebastián, e Barcelona, onde ela morou por boa parte do que começou apenas como um período sabático. Cozinha literalmente, porque a curiosidade a levou não só a experimentar os pratos dos restaurantes como comensal mas, aos poucos, depois de ganhar a confiança dos Chefs, a ir entrando nas cozinhas para conhecer de perto o preparo das comidas. Em Madri, ela fez cursos na Cátedra do grande Ferran Adrià, Chef considerado o melhor do mundo pela primeira vez em 2006 no Top 50 da revista Restaurant, o mais importante ranking do mundo. Em 2008, ascendeu ao topo deste mesmo ranking o catalão Martín Berasategui, cujo restaurante também foi visitado por Fabiana. A cozinha espanhola só foi desbancada, se é que podemos usar este termo forte, em 2010, pelo cozinheiro do dinamarquês Noma. Por falar no País escandinavo, nesta segunda-feira de abertura do Versão Tupiniquim, a que Escritos do Ócio esteve presente, Fabiana recebeu amigos e amantes da cozinha como o também dinamarquês Simon Lau Cederholm, do Aquavit, o único restaurante de Brasília a deter duas estrelas no Guia Quatro Rodas e também Chef do ano eleito pelo mesmo guia (Ver post “O restaurante duas estrelas de Brasília”, aqui no blog).

Precisamos incentivar iniciativas como esta, que colaboram para aumentar a qualidade da gastronomia de Brasília”, me disse Simon na inauguração. Como o Versão Tupiniquim pretende ter vocação artística, a pintora Yara Tupynambá (foto abaixo) abriu também ali exposição de uma série que pintou no Vale do Rio Doce, em Minas Gerais. Um imponente díptico da floresta com uma bela luz entremeando as árvores chamava a atenção em meio aos garçons servindo salada de polvo, torta de cebola sobre remescú, afogadinho de camarão (delicioso!) e, de sobremesa sanduíche de chocolate (especialíssimo!).

Algumas semanas antes da estreia, o restaurante já mostrava ao público que o foi descobrindo aos poucos vários de seus pratos distribuídos em dois Menus degustação, criados por Fabiana, pelo Chef espanhol trazido por ela, Juan Fran Robles, e pela empresa de consultoria do famoso Chef de San Sebastián Juan Mari Arzak, a Arzak Instruction. Arzak foi o pai do movimento de renovação da cozinha espanhola, ainda na vanguarda da culinária mundial. Ele foi o primeiro Chef espanhol a alcançar, em 1989, as cobiçadas três estrelas do Guia Michelin. O Versão é o primeiro estabelecimento brasileiro a contar com a consultoria da Arzak Instruction, que cuida da logística do restaurante, faz pesquisa sobre o gosto do público da cidade e ajuda a elaborar os próprios pratos. O catalão Mikel Sorazu (foto abaixo), representante do instituto, esteve presente à inauguração, mais precisamente à cozinha do restaurante.

A antenada e simpática Fabiana Pinheiro concedeu a Escritos do Ócio a seguinte entrevista sobre suas influências gastronômicas, sua estada na Espanha e a filosofia que quer empregar no Versão Tupiniquim.

- Como tudo começou pra você e a gastronomia?

Eu não sou chefe de cozinha, eu sou uma aprenciadora da alta cozinha, me considero uma dona de casa. E tudo começou quando eu fui passar um ano sabático na Espanha, eu sou arquiteta de profissão, estava muito cansada aqui em Brasília, trabalhava muito e fui passar um ano fora, dedicado a mim. Escolhi Barcelona pra passar esse ano, com passagem de volta comprada. Comecei desenhando, pintando, fazendo mil cursos de idioma, viajando pela Europa e descobri a alta cozinha em Barcelona, o primeiro restaurante que eu visitei foi o (El Racó de) Can Fables, Santi Santa Maria (primeiro catalão a ganhar três estrelas no Guia Michelin, em 1994), é uma cozinha tradicional também como fazem os grandes chefes espanhóis. E me apaixonei pela alta cozinha e comecei a fazer os típicos cursinhos ou visitar os restaurantes, fazer fotos de alguns pratos, anotações. Eu morava num apartamento com outras garotas de várias nacionalidades, eu alugava um quarto e cozinhava. Meu maior prazer era ir ao supermercado e pensar: “O quê que eu vou comer hoje?”. E poder escolher minha própria comida e saber como prepará-la. Como eram ingredientes novos, por exemplo, aqui em Brasília os champinhons são todos em conversa. Lá não, eu comprava champinhom fresco e não champinhom branco, tinha vários tipos de cepas.

-Ía àquele mercado em Barcelona?

Eu fazia curso de idiomas na Drassanes, a Escola Oficial de Idiomas de Barcelona, e passava todos os dias em frente à Boqueria e sempre parava, até inseto eu comia. Sim, comprava pequenas coisas, engordei 18 quilos por isso porque realmente comer pra mim passou a ser uma coisa muito importante, não era só comer, era descobrir ingredientes novos, ir aos restaurantes e tentar identificar os sabores. E começou assim, como um hobby, e recebia as pessoas em casa. Era uma coisa que eu sempre gostei de fazer no Brasil. Era uma tradição, no dia 20 de outubro, meu aniversário, eu sempre recebia as pessoas. E fazia questão de cozinhar e pra 300 pessoas. E elas perguntavam: “Por que você não abre nada?”. Eu não vou abrir, eu sou arquiteta, apaixonada pela minha profissão, nunca achei que eu fosse ter uma segunda ocupação.

- Por que a Espanha?

Por acaso. Uma amiga filha de um cônsul do Brasil em Barcelona me chamou. Eu pensava em ir para o Japão ou a Austrália que me fascinam até hoje e onde precisavam de profissionais da área de arquitetura. Quando ela me falou Barcelona, eu pensei: “Eu vou, pelo menos pra passar um ano”. Então eu vendi meu carro, que era caro na época, vendi mil coisas, perfumes, eu queria me desprender destes bens materiais que aqui em Brasília a gente só faz acumular e fiz um brechó na minha casa, arrecadei um montante considerável de dinheiro, suficiente pra viver um ano na Europa, mais de 30 mil euros, que na época não era euro, era pesetas, e fui pra Espanha. Na verdade, foi uma etapa de autoconhecimento.

-Como é que era o aprendizado lá? Me fala um pouco das escolas em que você estudou.

Na verdade, as experiências gastronômicas não foram em nenhuma escola, foram nas cozinhas dos restaurantes que eu fui conhecendo. O único curso que eu fiz foi de Gestão Hostelera, que é um curso de restaurantes, onde se estuda o conjunto: saber receber as pessoas, a qualidade dos alimentos, a que temperatura a que eles devem ser conservados, como deve ser servida uma mesa, como deve ser preparado um produto, isso me fascinou. Porque eu sempre fui muito detalhista em tudo na minha vida. E vi que a gastronomia é tratada com todo respeito que talvez aqui no Brasil muitos não tenham. Aqui em Brasília, por exemplo, nós temos um problema muito sério com serviços. Garçons, sommeliers… sommeliers já têm um grau melhor, mas a parte de serviço, digamos que 50% do trabalho são eles que fazem, que é dar a cara pelo produto que oferecemos, é a cara da nossa Casa. É muito difícil porque não tem um comprometimento, essas pessoas não recebem a formação necessária pro que elas vão exercer. Eu agora tô tendo um problema muito sério pra conseguir pessoas pra trabalhar, tô investindo, tô pagando cursos, professores e mesmo assim, quando a pessoa parece que aprende um pouquinho, ela vai embora por 50 reais, ou porque não quer trabalhar tantas horas… A gente tem uma proposta aqui que é alta cozinha a preços moderados. Eu poderia cobrar mais? Poderia. É a proposta? Não é a proposta.

-Como é que você conheceu o chefe daqui do Versão Tupiniquim?

É o Juan Fran Robles. É um rapaz jovem, mas que sempre trabalhou em cozinha, desde os 16 anos. Já morou em vários países. O encontrei através da assessoria que eu tenho do Mikel Sorazu.

-Me fala dessa assessoria.

Meu assessor gastronômico é Mikel Sorazu, é um nome basco que em português seria Miguel. Ele é uma das cabeças do Arzak Instruction, uma empresa que presta assessoria pra vários restaurantes em todo o mundo, voltado a melhorar o serviço de cozinha. O que eu achei interessante é que eles não vêm fazer cozinha espanhola ou basca aqui, é impossível. Eles se preocupam em conhecer a realidade brasileira, a necessidade, o que o público deseja. O que você quer oferecer e se é possível com os produtos disponíveis na cidade. É um projeto que já tenho há mais de dois anos, o primeiro contato que eu tive com o Arzak Instruction foi com o Igor (Zelakian, um dos dois integrantes do Laboratório Arzak, que funciona no segundo andar do restaurante, numa antiga taberna da família de Juan Mari Arzak, em San Sebastián. O laboratório cria pratos que não necessariamente serão incorporados ao cardápio) que também é do Laboratório Arzak e nós conversamos sobre a filosofia que nós queríamos, que é um pouco isso, é trazer sabores tradicionais apresentados de outra maneira e preparados de outra maneira, outras texturas… É surpreender o comensal. Como um prato que nós temos aqui que é considerado o prato estrela, a rabada (na foto abaixo), é um rabo bovino, um prato que nós vamos ter sempre em cardápio porque é um produto disponível.

-É uma rabada meio agridoce, não é isso?

É, ela é preparada à base de vinhos tintos, com um fundo de vinho do porto, e ela é preparada de outra maneira, mas não deixa de ser uma rabada, não deixa de ser um sabor conhecido pelo paladar brasileiro. Ela tem a crocância da massa filo, é suculenta como todos os pratos de rabada porque o próprio produto nos oferece essa gelatinosidade, né? E é bastante rica em nutrientes, é baixa em gordura…

-Ah, é? Rabada baixa em gordura?

É. Então a gente aportou algo ao prato tradicional e esta é nossa intenção: aportar algo, trazer alto diferente, surpreender. Servir um arroz-doce, mas um arroz-doce com abacaxi, como um prato de sobremesa que nós temos. Ou fazer um pequeno drinque com espuma, mas isso como cozinha tradicional, com sabores tradicionais brasileiros, produtos de mercado, porque nossa proposta é trabalhar com produtos frescos, produtos de temporada, que é quando o produto tá melhor no seu sabor, na sua textura, no seu preço… do que a gente trabalhar com produtos fora de temporada ou que nem são brasileiros, que podem ser maravilhosos, estar no seu auge mas, se a gente tem tanto produto bom aqui… Este País é tão grande, de norte a sul a gente tem uma variedade incrível, não só de ecossistemas, mas também de temperaturas, de produtos mesmo. A gente encontra frutas na Amazônia que a gente não encontra no nordeste que está ao lado, ou no sul.

-Você caracterizaria a sua cozinha, que você está implantando aqui no restaurante, com todas as suas influências e tudo mais, como uma cozinha brasileira com sotaque espanhol?

Não, é uma cozinha brasileira… sei lá, não tem sotaque. Acho que é um pouco uma cozinha brasiliense. Brasília não tem sotaque, já percebeu isso? A gente vai pro Rio, perguntam se a gente é mineiro, vai pra São Paulo, perguntam se é carioca… A cozinha que a gente faz aqui eu considero que é uma cozinha de autor, de autoria própria, não é nem espanhola, nem tailandesa, nem italiana. A gente usa pratos e sabores de determinadas cozinhas internacionais…

-É, porque tem fois-gras também…

É. Nós preparamos o nosso próprio fois gras (com cajú, como na foto abaixo), de maneira diferente ao que é preparado em outros países.

Porque o paladar do brasiliense é outro. De repente, você adicionar um determinado prato armagnac, conhaque, não seria apropriado. Então, tem todo um estudo. O estudo do prato ele não é só nutricional, é também de composição de sabores, a própria composição estética, nós fazemos croquis dos pratos, montagens. A princípio na composição do prato apresentamos ele de uma maneira e de repente pela própria estabilidade do prato ou demanda do cliente, a gente altera a composição dele, coloca mais ou menos farofa, mais ou menos molho, a carne de uma maneira ou de outra. Começamos a servir, por exemplo, o magret, inteiro, mas algumas pessoas diziam: “O magret tá duro”. Não é isso, é que a textura do pato, o próprio pato é mais difícil de ser cortado, então, a partir deste momento, nós começamos a servir o magret fatiado. Então, os clientes já falam: “Nossa, derrete na boca!”. Então, são pequenos truques que a experiência desses senhores, desses nossos consultores, aportaram pra gente. Eu não sou do ramo, então eu precisava de uma pessoa me assessorando. Eu busquei o melhor, na minha opinião. Não o melhor, digamos que o meu ídolo gastronômico, que seria a cozinha tradicional hoje feita no País Basco.

-Eu queria que você falasse um pouco mais sobre suas incursões nos grandes restaurantes.

Eu estava trabalhando em uma empresa de projetos de arquitetura que me demandava viajar muito. Então, se eu tenho que engordar, se eu tenho que pecar, eu vou pecar num bom, né? Então, eu procurava pela Guia Michelin ou qualquer outra guia importante, pelos principais restaurantes da cidade. E visitava. Num primeiro momento eu nem sabia quem era quem. E procurava conhecer, anotava na agendinha ou no telefone o que eu tinha gostado. Daí que estas viagens que a princípio eram a trabalho começaram a ser exclusivas pra conhecer os restaurantes. Porque eu comecei a ver que se eu chegava de tarde na cidade, por exemplo, San Sebastián, e queria jantar à noite no Bulgari, que é um restaurante de primeira linha como o Arzak, era impossível. Você tinha que reservar dois, três meses antes. Então, eu comecei a programar minhas viagens gastronômicas. Ligava, reservava, como se planeja umas férias. E comecei a conhecer os grandes restaurantes. Comecei a ir, a ir, sem saber qual era a dimensão disso. Descobri que existia uma escala dos melhores do mundo… Descobri uma alta cozinha muito mais alta do que eu podia imaginar. Na França, estive nos grandes restaurantes também do mundo, como (Alain) Ducasse. E, claro, é também uma cozinha de autor, a cozinha francesa também evoluiu, não no sentido só de melhora, no sentido de novas tendências. Mas a cozinha espanhola de repente me surpreendia. Grandes restaurantes que eu ía, não só bascos, mas também catalães, e madrilhenhos, me surpreendiam. Uma amiga minha tem um restaurante em Vale de Penãs, na região perto de Madri, no Castilla La Mancha (Castela La Mancha, em português), onde Cervantes escreveu muito, o próprio Don Quixote de La Mancha. Então, o que eu vi na Espanha é que até mesmo os pequenos restaurantes se preocupam, os das pequenas cidades, dos pueblos, se preocupam com a apresentação dos pratos, em inovar. Então eu pensava: “Eu quero isso também!”. De repente eu aprendi que um camarão, se você jogar um pouquinho de whisky na cabeça dele, ele fica muito mais saboroso, ele solta muito mais líquidos… O que eu mais gostei da cozinha mediterrânea é que ela é pouco condimentada, então, eu comecei a conhecer o sabor real dos alimentos, como é o sabor de uma carne de pato, de uma carne de ovelha. Porque aqui a gente tinha um costume, na minha casa, de botar molho em tudo, muito sal, e isso acaba uniformizando todos os sabores.

-A gente vê que aqui vocês tão usando pouco sal e molho só em alguns pratos.

Claro, na verdade o molho não tem a função de cobrir o sabor, ele é uma guarnição, acompanha os sabores, ele em si já é um prato, é feito à base do sugo da própria carne, ele enriquece sem tampar o sabor do prato principal. Nossa intenção é que o peixe me mar tenha sabor de mar, que você possa sentir os aromas, reconhecer um peixe que é de mar. As pessoas falam que o peixe de água doce é rançoso. Gente, a coisa maravilhosa que nós temos no Brasil são os peixes de rio, fantásticos. Cê vai na maioria dos restaurantes aqui em Brasília e tem sempre atum ou salmão. Salmão é um peixe extremamente gorduroso e que não é um peixe nosso. Por que no lugar do salmão não são servidos outros peixes de couro, digamos assim? Eu sempre conheci muitos sabores brasileiros, minha mãe trabalhou no Projeto Rondon então fui a Santarém, Belém, Manaus, e comia os peixes. Estava em aldeia indígena, brincando com crianças indígenas, enfim, comendo em cumbuca de coco, com colher de madeira. Então, tudo isso eu tenho na minha cultura familiar. Então, isto aqui foi concebido como um projeto de fusão gastronômica, não só de sabores, mas também de experiências vividas. E a minha experiência lá fora foi de chegar nos restaurantes…

-Como curiosa?

Como curiosa, e quando eu conheci a gastronomia de Ferran Adrià e Juli Soler, o sócio de Ferrán, uma pessoa extremamente acessível, Ferrán também, são dois grandes gênios, seria impossível falar de um sem falar no outro. Existe uma parceria muito grande hoje na Europa. Não só os espanhóis, os grandes chefes hoje se unem. Nosso querido Alex Atala é amigo íntimo desses grandes cozinheiros, de Ferrán, do Arzak, esteve com os dois na Amazônia mostrando sabores. Então, os grandes profissionais da restauração temos que nos unir pra fortalecer o grêmio e melhorar o serviço. Não somos concorrentes.Em poucas palavras, o que você diria que aprendeu na Cátedra que fez no Instituto de Ferran Adrià?

A cátedra são cursos curtos, a Cátedra Ferran Adrià hoje em Madri está dentro da Universidade José Camilo Cela, que é uma pós-graduação voltada para gastronomia, você tem que ser aceita nela. Cursos teóricos e práticos. Os de curta duração são muito interessantes porque não é o Ferrán em si, são convidadas outras pessoas, foi dado um curso com pessoas da Galícia que nos mostraram as algas, a variedade de algas que existe hoje no Mar Cantábrico, por exemplo, no Atlântico. Então, você pode servir um prato que parece um espaguete e é alga porque existem várias formas e você pode aproveitar e brincar com isso. Eu fiz degustações de champanhe pra saber apreciá-lo, por que a região de Champanhe é tão famosa, o que ela tem que as outras não têm? Então, isso a Cátedra me aportou muito. O que é um fois gras? Como identificar um bom fois gras? Um fígado de oca, que seria um marreco aqui, bom existe toda uma polêmica… Como fazer a cozinha de ir pro mercado com grandes chefes e saber como ele escolhe as verduras e frutos do mar. Temos em Madri o segundo maior mercado do mundo, acho que o maior tá em Tóquio. Na Espanha se costuma dizer que o peixe mais fresco tá em Madri, onde não tem mar. Porque ele chega muito rápido. O MercaMadri abre 5 horas da manhã. Fomos comprando pequenos pedaços. Isso não foi pela Cátedra, mas por outro grande cozinheiro, Santi Santamaria. E depois a cozinha botânica, do cozinheiro Rodrigo de la Calle, que trabalha maravilhosamente bem com fusão de tâmaras maduras do sul da Espanha da região de Valência, faz chás de tâmaras que põe nos pratos. Ele é um dos grandes cozinheiros, muito jovem também, trabalhou com Martín Berasategui, tem um restaurante em Aranjuez. Tô citando alguns grandes cozinheiros. Ou o próprio Martín Berassategui em San Sebastián, a família Roca em Barcelona, Paco Roncero (especialista na cozinha em miniatura) em Madri ou Sevilha; Rafa Morales, que durante muito tempo foi chefe de cozinha do el Bulli (de Ferran Adrià), excelente cozinheiro e pessoa.

-A todos estes você foi?

Fui. Então, eu fui conhecendo estes grandes cozinheiros, fui me aproximando deles, alguns se tornaram grandes amigos e nós optamos por, antes de vir para o Brasil, conhecer mais profundamente a cozinha de Juan Mari Arzak e contratar os serviços de uma empresa sua que é a Arzak Instruction. Eu tô junto em todos os pratos que são criados, mas eles têm uma visão de mundo e a experiência de anos que só tem a enriquecer o nosso trabalho. E no Brasil nós somos o único restaurante assessorados por Arzak Instruction. Eu estou maravilhada com tudo o que a gente está fazendo.

-Por que resolveram apresentar os menus degustação aos clientes antes mesmo de abrir o restaurante?

Pra treinamento de pessoal e pra ver a receptividade, como seríamos aceitos e o que estaria faltando.

É como se eu te chamasse pra comer na minha casa e perguntasse: “ Mariana, o que você achou deste cardápio?”. Aí você vai falar: “Poderia ter um pouco mais…

-De sal (risos)

De sal, então eu vou começar a trazer o seu com o sal que eu imagino, se não eu começo a corromper nossa filosofia. Mas eu trago sempre um potinho de sal. O cliente é o que manda. Então, se quer a carne mais ao ponto, a gente tenta colocar da maneira como ele quer, mas sempre lembrando a ele que a maneira que nós servimos é a que nós consideramos que é ideal.

Endereço: SCLS 302-B, Bloco C, loja 2 -
Telefone: 3322 0555

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