Duran Duran 24 anos depois! E SWU, Woodstock ao avesso.

Duran Duran 24 anos depois! E SWU, Woodstock ao avesso.

Depois de andar um quilômetro desde o estacionamento de R$ 100, eu e meu marido fomos barrados na entrada no Festival SWU por causa do meu guarda-chuva. “O guarda-chuva pode ser usado como uma arma”, disse um dos organizadores da entrada, acrescentando para aumentar o meu ódio: “Acho que a senhora não costuma frequentar shows”. Logo pra mim que vou a shows desde os 16 anos, 7 anos se contar um do Gilberto Gil a que fomos levados por nossos pais na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, em Salvador, em 1975. Bem, depois de muito choro, Mauro teve que voltar para o carro, pra guardar o objeto (que afinal é italiano e custava R$ 80) andando mais dois quilômetros, inda e volta. Meu desespero veio quase uma hora depois quando, mesmo ouvindo e vendo de longe o show do Ultraje a Rigor (taí o primeiro show a que fui aos 16 anos), e sem celular, não conseguia encontrar meu marido novamente.

Fui salva por um dos organizadores, este com boa vontade, que ligou pra Mauro do celular dele e, diante da minha revolta, nos deu duas pulseirinhas para o enorme espaço Vip, com vista privilegiada para os dois palcos principais, fora whisky, cerveja, entradinhas e até alguns pratos de massa. Vips mesmo não vi nenhum, a não ser a Cristiana Oliveira e aquela Cíntia Benini. Também quem era o vip que iria topar tamanha aventura? Pros mortais ricos, o ingresso Vip custava R$ 900. Finalmente Mauro apareceu. Estava esperando entre a tenda vip (local marcado pro encontro) e o palco. Fiquei na entrada da tenda, oras! Eu, na TPM, jurava que ele tinha sofrido algum colapso de tanto andar. Descobri depois que o tal anjo salvador era Eduardo Fischer, o publicitário ban ban ban responsável pelo evento. Um cara fino.

Instalado numa área rural, nos arredores da cidade de Paulínea (a 20 kms de Campinas, SP), o SWU me pareceu uma espécie de Woodstock às avessas. Os ingressos têm preços de shows nas capitais, o estacionamento é extorsivo (se houver mais de três pessoas no carro se paga a metade a pretexto de se estar emitindo menos CO2). Chris Cornel, os caras do Duran, Peter Gabriel, todos deixaram claro que estavam ali por causa da mensagem ecológica do festival. Mas a classe média paulista e o público que lotou os hotéis vindo de outras cidades como nós, não parecia estar nem aí pras preocupações com a futura falta d’água pros seus filhos e netos: queriam era ver seus ídolos, queriam a aventura de um festival no meio do nada. Ou quase. É exatamente naquele espaço, aliás bonito e bem planejado, que acontece um dos festivais de cinema mais importantes do País, o Festival de Paulínea.

Autógrafos e John Taylor na piscina
Enfim eu poderia, após 24 anos, rever a banda pop de que mais gosto no mundo: o Duran Duran. Ainda estávamos no espaço Vip quando ouvimos as primeiras notas de teclado, aquele teclado tão marcante nas bandas pop dos anos 80. Era Nick Rhodes, mais louro do que nunca e com um longo casaco de paetês pretos, seríssimo como nos velhos tempos! Simon Le Bon entrou em seguida cantando a linda “Planet Earth”, bem no espírito do SWU, do primeiro disco da banda (Duran Duran, 1981)e que nem sempre faz parte das set lists da banda. Logo vi John Taylor, um dos rostos mais lindos do planeta Terra nos idos de 1983, e até o baterista Roger Taylor, o primeiro a deixar a banda, ainda nos anos 90. Começava ali uma autêntica e absolutamente emocionante volta no tempo.

Em 1988, eu viajara para o Rio, 18 horas de ônibus sozinha, para vê-la e algumas outras bandas como Supertramp e Simple Minds, na primeira edição da retomada do Hollywood Rock (ver post Tears for Fears, aqui no blog). E conseguimos mais que isso: eu e minha colega de faculdade Patrícia Melisa lançamos mão de um plano para tentar conseguir falar de perto com nossos ídolos. Eu gostava do Duran desde Save a Prayer, de 82, como todo fã que se preze, e a admiração aumentou quando morei nos Estados Unidos em 1985 e minha “irmã americana” Jenny era absolutamente apaixonada pela banda e, especialmente, pelo baixista, John Taylor. Recortes dele em revistas dividiam as paredes de seu quarto com Rob Lowe e um dos integrantes do Mötley Crue, Nikki Six ou Tommy Lee, não tenho certeza.

Patrícia e eu nos arrumamos bem e chegamos à recepção do Copacabana Palace nervosas, mas confiantes. Ultrapassamos uma horda de fãs que gritavam desesperadamente os nomes de John, Simon e companhia (na época havia também Andy Taylor, guitarrista, o único da formação original que não está na banda no momento). Da banda mais charmosa dos anos 80. Dissemos, em inglês, que iríamos tomar um café na pérgola do hotel, bem em frente à enorme e famosa piscina. Lembro-me que eu mesma, aos 19 anos, não acreditada que os funcionários iriam comprar que aquelas duas meninas de 19 anos, travestidas de adultas americanas, estavam ali realmente pra tomar um café. Mas acreditaram. Jenny tinha que estar ali conosco, eu pensava. Ela merecia. Havia inclusive escrito a letra de Save a prayer pra mim quando meu inglês ainda era muito fraco pra entender sem ler. É uma linda letra. De repente, vemos um homem altíssimo, branco quase transparente, magérrimo, de sunga preta, andando pela borda da piscina. Custamos a acreditar, mas era John Taylor. Ali, na nossa frente, andando seminu, um dos maiores ídolos de nossa adolescência!

Deve ter se passado uma hora do início do desfile de John, que me decepcionara levemente por ser tão desengonçado, até toda a banda aparecer no corredor que leva ao lobby do hotel. Não me lembro como descobrimos que eles estavam descendo. Mas, café de R$ 20 (naquela época uma fortuna!) tomado e agendas da Cantão na mão, fomos ao encontro deles. E os encontramos. Fingindo que não estávamos nem aí, perguntamos o que eles estavam achando do Rio de Janeiro. Simon, muito simpático como sempre, respondeu que estava gostando, para a alegria total de Patrícia que era quase tão apaixonada por ele quanto eu era por Sting. Enfim, travamos um pequeno diálogo com eles enquanto os cinco nos davam seus autógrafos (foto deles naquela época, abaixo). Antes de eles enfrentarem a horda de fãs gritantes lá fora (que não tinham a nossa esperteza, pensávamos orgulhosas) para pegar o carro que os levaria para dar uma volta pela Cidade Maravilhosa.

Tudo isso me vinha à mente enquanto eu ouvia Planet Earth há dois dias. Ao ver o velho vocalista do Duran, pensava em como ele melhorou com o passar dos anos. Os cabelos estão castanhos, o cavanhaque disfarça o rosto redondo. Ainda estão lá os olhos super azuis, claro. Estes comentários são necessários quando se fala em uma banda dândi. Nick e Simon, principalmente, sempre se vestiram muito elegantemente. Ingleses. John com sobretudos. Roger mais esportivo como com a jaqueta de couro com listras vermelhas que vestia anteontem.

Paris
Com calça jeans e uma camisa com estampa de cobra brilhante, Simon começa a tocar uma (boa) música nova, “Safe”. Aliás, depois eu descobriria como é bom o novo disco do Duran, “All you need is now”, de 2011, que recebeu críticas muito boas. São ótimas faixas pop que não nos saem da cabeça e baladas que lembram “Save a Prayer” tamanha a beleza das melodias.

Voltando ao show, além de um guitarrista de uns 30 anos substituindo Andy, há ainda uma cantora negra e também uma mulher na percussão. As músicas novas e mesmo algumas antigas têm uma roupagem bastante dance, algumas até eletrônicas. Eles podem, sempre foram pop, sempre abusaram dos teclados. Depois veio “A view to a kill”, que me remete exatamente à Paris de 1985. O vídeo clip da música, tema daquele 007 que tem Grace Jones, foi filmado na Torre Eifel. Como minha mãe fazia doutorado em Paris, eu fui direto pra lá do meu intercâmbio em Michigan, passar o resto do verão europeu que me cabia. E, na Torre Eifel, minha maior referência era o vídeo, eu ficava imitando os Durans atirando com os visores que miravam a capital francesa. É, o Duran me traz lembranças muito diversas…

“Notorious” vem em seguida, esquentando a plateia. Simon, animadíssimo, pergunta ao baixista: “Johnny (adoreeei Johnny! Kkk!), what are we gonna do to get everybody singing?” John faz aquela cara de concordância, abre o famoso sorriso e continua sua dança ao tocar baixo, igualzinha à que enlouquecia todas nós 30 anos atrás. Simon desce pra plateia, uma plateia muito menor do que à que eles estão acostumados, inclusive no Brasil. Ele escolhe um menino da plateia que cantará o marcante “Na na na na, na na na na”, e começa “The Reflex”, com certeza a música mais conhecida do Duran após  “Save a Prayer”. A blast! A esta altura já estamos a 30 metros do palco e eu agradeço por ter ido a este show longínquo porque só ali, a mais de 150 quilômetros de São Paulo, se poderia ver uma banda desta dimensão tão de perto!

Público jovem
Começa “Ordinary World”, uma balada já dos anos 90 e percebo como o público que está ali é em sua maioria formado de jovens entre 25 e 35 anos. “Hungry like the wolf!”, grita uma menina que não deve ter mais de 24. “Não sei não…”, digo eu, descrente. Mas sim, após mais uma canção do disco novo, super elogiado pela crítica, vem uma série de sucessos do segundo disco da banda, Rio, de 1982, que tem “Save a Prayer”, “Rio” e “Hungry like the wolf”, que seria reeditada no ao vivo “Arena”, de 1984. “Hungry like the wolf” sim! “Wild Boys”, uhhh!, já é o primeiro bizz.

Karina, professora de inglês de 31 anos, que sabe várias letras, tira minha dúvida. Ela não é da geração dos 80, então por que gosta tanto do Duran, a ponto de gritar? “Meus irmãos mais velhos gostam e minha mãe ouvia quando eu era pequena. Ensino algumas das músicas (mais as baladas) a meus alunos. Eles acham meio estranho”, me diz, afirmando orgulhosa que veio de Taubaté com a amiga da mesma idade, especialmente para ver o Duran. A amiga diz que gostaria de ouvir “Rio”. Eu concordo, se tocarem “Rio”, pra mim também, o show estará completo.

E em poucos segundos começa… “Rio”. Aquela melodia linda, aquele saxofone- sim, há também um saxofonista no palco- que lembra o vídeo em que os músicos do Duran estão em um barco e John finge tocar o sax ali mesmo. No show, John ri olhando para o saxofonista, parecendo se lembrar que aquela função um dia foi sua. “Tchu, tchu, tchu, ru, tchu, ru. Tchu, tchu, tchu ru tchu ru…”. “Her name is Rio and she dances on the sand, just like that river twisting through the dusty land”. Me apercebo do quanto sei as letras das canções do Duran. Será que tanto quanto as do Police? Talvez. Pronto, Rio estava tocada. Minha alma estava lavada!

O público esperou “Save a Prayer”. Eu acreditava em um novo bizz, afinal é um hit tão importante que tem gente quem nem sabe o que é Duran Duran, mas o ouve no rádio até hoje. Mas eles foram ousados. Fizeram um show de sucessos excluindo o maior deles. Bem, eu? Eu estava satisfeitíssima! Claro que amo “Save…”, me lembra momentos ainda mais longínquos, dançado de rosto colado com meu namorado de adolescência… Mas eu já a havia ouvido em 1988. Estava feliz, muuuuito feliz! Era hora de descansar no espaço Vip.

Peter Gabriel
No outro palco, alguns minutos depois Peter Gabriel começou seu show. O que esperar de Peter Gabriel? Eu já o havia visto também em 1988, no segundo semestre, no Parque Antártica, São Paulo, no Concerto da Anistia Internacional, do qual tive a sorte de participar da entrevista coletiva inclusive. Afora “Sledge Hummer”, não tinha gostado do show. A voz dele é linda, mas era do Genesis que eu gostava e acho que o culpava um pouco pelo fim daquele maravilhoso representante do Rock Progressivo. O show deste domingo, porém, foi muito interessante. Gabriel tocou com uma orquestra, a mesma que o acompanha no seu último disco, elogiadíssimo pela crítica especializada. Era jazz meets progressivo, Gabriel misturado com erudito. Tudo muito bonito. No longuíssimo show, que assistimos do camarote mesmo, sem descer, houve pelo menos duas músicas menos conhecidas do Genesis (não reconheci, me disse uma fã, Elga, que havia ido ao show da banda em 1976 no Pacaembú!), a da trilha sonora da minissérie “O sorriso do Lagarto”, da Globo, baseada no livro de João Ubaldo Ribeiro e “Biko”, canção protesto sobre o líder africano Stephen Biko.

Lynyrd Skynyrd
O último show da noite, ao qual a mídia deu muito mais importância do que aos anteriores, foi do Lynyrd Skynyrd, banda sessentista/setentista do chamado southern rock, surgida na Flórida. Mais conhecida pela balada “Sweet Home Alabama”, os cabeludos cantam de baladas tipo cancioneiro americano até rock pesado. O público é fiel, como frisou um dos integrantes, explicando à Folha de São Paulo que a mídia internacional não liga pra eles. “É o público que nos mantém vivos”.

E assim, próximo às 2 horas da manhã, pegamos a estrada pra mais uma caminhada de 1 quilômetro até o carro e meia hora até Campinas pra dormir no hotel (Ibis) lotado de roqueiros de todas as idades e tribos. Até Marcelo D 2, que tinha aberto a noite do rap (Black Eyed Peas e companhia), estava lá, perguntou a mim se aquela era a fila do check out e entrou na fila como qualquer mortal. Na manhã de segunda-feira, que seria a noite do grunge, com Sonic Youth, Stone Temple Pilot, Faith no More e Hole, de Courtney Love, a louca viúva de Kurth Cobain, ainda havia resquícios da importância que o pop rock anos 80 tem até hoje. Um menino de uns 20 e poucos anos usava uma camiseta com a foto de uma fita K-7, onde se lia: “80′s mix tape”. Uma referência ao costume que nossa geração tinha de gravar fitas para os amigos e que é citado em filmes como “Alta Fidelidade”. E um sinal claro de como a música dos anos 80 empolga corações e mentes muito mais jovens que a minha. “A música daquela época era muito melhor que a de hoje, né?”, perguntara Karina no show, logo a mim. Talvez a música dos 80 seja para os jovens de hoje o que a dos 60 era para a minha geração, uma grande referência musical.

Compartilhe:
  • Print
  • Digg
  • del.icio.us
  • Facebook
  • Google Bookmarks
  • LinkedIn
  • Live
  • MySpace
  • RSS
  • Twitter

23 Comentários

  1. Ahhh, estava me esquecendo:
    Obrigada pela linda lembrança em relação a mim e minha amiga, em meio a um dia tão especial a você!
    Agora sim: Até o próximo DURAN DURAN!!!!!!!!

    • Karinaaa! Que bom que você encontrou o blog e pôde ler a matéria! Realmente aquele dia foi tão especial que, quando abro esta matéria e vejo as fotos, tudo me volta à lembrança! Ver este pessoal (principalmente John e Simon) tão de perto, tanto tempo depois da primeira vez, foi mesmo um presente! Já compraram o CD novo do Duran? Está maravilhoso! Boas músicas pra dançar e lindas baladas, não deixem de ouvir! O meu já está quase furando! Beijos pra você e sua amiga!

      • Oi Mariana!
        Ainda não comprei o Cd,acredito que será um ótimo presente de Natal dado por minha mãe!
        Adorei seu blog, muito informativo e sempre atualizado, parabéns!
        Voltando ao show, sem palavras para descrever o que a emoção daqueles momentos estão resultando até agora em minhas lembranças!
        Ainda não descarreguei as fotos, sem tempo, sabe como é?!
        e meus alunos então: nãoa guentam mais me ouvir contar a respeito do show!rsrsrs… Adoro!
        Um grande abraço a você!
        Até o próximo show!!!!

  2. Olá Mariana!!!!!

    Pode ter certeza de que o show de 13 de novembro de 2011 foi o melhor de todos que já fui, e que será muito difícil ser superado por algum outro!
    Muito legal poder encontrar pessoas como você, que amam ótima música e se emocionam com melodias inesquecíveis…
    Foi um prazer conhecê-la!
    Até o próximo show do DURAN DURAN!!!!!

    Karina.

  3. Mari,

    Gostei demais de relembrar as histórias das Bacom… Parece que estou vendo vc e a Patrícia Melissa chegando de volta a Brasília e contando as aventuras para tietar os caras do Duran.

    Enfim, gostaria muito de ter visto este show do Duran, versão 2011, mas não sei se teria a mesma disposição de vocês. Parece que foi uma aventura e tanto, né?

    Eles tocaram Come Undome? Eu adoro! Se bem que eu gosto de todas as músicas do Duran Duran. Certamente, deve ter sido um showzaço!

    bjs,
    Pati

    • Pati e Maurice, de que adiantam as tantas, mas tantas horas de malhação de vocês dois que, somadas, sei lá quantas horas dão? Se não têm disposição pra caminhar dois quilômetros e assistir a um show MA-RA-VI-LHO-SO como foi o do Duran versão 2011? É o tipo de coisa que vale a pena. E no mesmo dia, fizemos uma massagem maravilhosa no Emiliano. Estávamos descansados. O whiskey vip ainda ajudou mais! Não, não tocaram Come undone. Vc precisa conhecer o novo disco, é ótimo! Comprei! Bjs pros meus amigos preguiçosos.

  4. Lembro do show no Hollywook Rock! Muito bom rever depois de tantos anos, né? Mas ´já não tenho o espírito aventureiro para ir bater em Paulínea! Quem sabe algum dia em Sampa ou em outra grande cidade. Bjs.

  5. Mariana, uma pena não termos compartilhado esse momento. Adorei fazer essa viagem musical com você. Fiquei triste de não ter visto o Duran Duran. Que bom que o estresse inicial foi recompensado… Vou partilhar o posto no meu Facebook. Bjs

    • Pena mesmo, Eliane! O show foi energético, além de ser a história da nossa vida! Não me arrependo apesar de todos os perrengues pra conseguir chegar ao palco! Beijos!

  6. Que aventura! Mas valeu a pena, né!?

Deixe um comentário