O dia em que falei com David Lynch sobre meditação

O dia em que falei com David Lynch sobre meditação

“Sim! Claro! As crianças brasileiras das escolas públicas regulares podem, sim, se beneficiar da meditação em sala de aula. Elas são seres humanos, todo ser humano se beneficia”. Assim respondeu David Lynch a uma pergunta que fiz a ele ontem sobre a viabilidade da meditação na rede pública brasileira. O cineasta, ganhador de três Oscar, participava ao vivo, por vídeo-conferência, de Hollywood, onde mora, do Seminário Internacional sobre a Meditação Transcendental e a Educação. O encontro foi promovido pela Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados e pela Frente Parlamentar Mista da Educação do Congresso Nacional, bem ali, pertinho do meu local de trabalho, no Auditório da TV Câmara.

Quando vi as informações na segunda-feira, corri para transformá-las em pauta antes que alguém a apagasse por achá-la “idiota”. É, tem gente no meu trabalho que acha meditação idiota, se for pra melhorar o aprendizado, então… Uma colega, estagiária, a Marcela Picanço, pediu a uma chefe de bom senso para cobrir o evento, que seria fora do meu horário de trabalho, se não, eu mesma teria me oferecido. Imagine, o criador da obra prima “O Homem-Elefante”, de viagens interessantíssimas como “Coração Selvagem” (nossa, ele dirigiu Nicolas Cage quando este só fazia filmes que prestavam! Ou seja, há muuuito tempo! Vejam foto do filme abaixo), “Veludo Azul” (pelo qual me interessei mais há algumas semanas, revendo vinte anos depois da primeira vez), e o fantástico e surrealista “Cidade dos sonhos”! Claro que seria uma bela oportunidade! Cinema encontra meditação, outra de minhas paixões. Melhor ainda!

Pois é, este autor de obras meio loucas, com fortes doses de violência física e, principalmente, psicológica, e com personagens tirados do universo onírico também se interessa por meditação, mais especificamente, pela meditação transcendental. Esta linha é aquela que foi introduzida em 1958 pelo guia espiritual indiano Maharishi Mahesh Yogi (foto abaixo), envolvendo o uso mental de sons específicos, com propriedades psicoativas, os chamados mantras.

Eu que pratico canto e meditação da linhagem de Syddha Yoga há quase dez anos, sei que a meditação com base em mantras já existia na Índia, porém, há milênios, claro. A repetição infindável de mantras faz com que a pessoa consiga ir se desligando dos pensamentos que inundam sua mente o tempo todo e passe a um nível de relaxamento crescente.

Mais importante do que as características específicas da meditação transcendental em relação a outras linhas como a que eu pratico, é que a linha iniciada por Maharishi está sendo utilizada na educação, e melhor, na educação pública, para meninos e meninas a partir de 10 anos. David Lynch criou uma Fundação especificamente para divulgar o uso da Meditação Transcendental nas escolas do mundo todo. Mais de 250 mil crianças já têm acesso à meditação transcendental em suas escolas. O criador da intrincada trama do seriado Twin Peaks é, quem diria, um dos grandes divulgadores desta prática no mundo.

“É fácil perceber a diferença entre os alunos que praticaram a meditação e os de outras escolas”, continuou Lynch.  “As crianças estão cheias de estresse, cansadas, não dormem direito. Aí são inundadas por um oceano de energia. Elas vão poder dormir, a capacidade de se concentrar aumenta, a motivação volta”, disse um entusiasmado Lynch.

Inteligência criativa
Duas outras pessoas fizeram perguntas depois de mim. Não tive tempo de pensar e estava muito focada na questão das crianças, mas não teria sido óbvio perguntar se Bobby Peru de “Coração Selvagem” ou os anões, vilões (como o conturbado personagem de Dennis Hopper em “Veludo Azul) e detetives intrigantes de outros dos filmes de David Lynch foram imaginados enquanto ele meditava?  Eu mesmo, quando entro em meditação, o momento de maior tranquilidade mental que se pode alcançar, tenho, às vezes, ideias mais inteligentes do que no dia a dia agitado. Elementar: a mente está descansada.

“É a inteligência criativa”, já tinha dito Lynch, dando pistas de que minhas suspeitas sobre a meditação e o seu processo criativo estavam certas. “É sempre assim, as pessoas dizem: ‘estou mais criativo e aumentou minha capacidade de resolver problemas’”.

“Onde está toda aquela raiva?”
Para ele, a técnica, além da diminuir a violência entre os estudantes, deixando-os mais calmos, tem como consequência levar as pessoas ficarem mais felizes e com maior capacidade de se focarem em algo, distinguindo problemas pequenos dos grandes. “Eu tinha muita raiva, dentro de mim, tensão e preocupação, como todo mundo”, confidenciou Lynch (foto abaixo). “Depois da meditação, minha mulher me perguntava: ‘onde está toda aquela raiva, o que aconteceu?’”, contou o cineasta. “Ora, minha raiva foi embora naturalmente, é isto que acontece. Foi lindo”, contou ele, da mesma forma que fez no documentário 2012, a que assisti há cerca de um mês na mostra de filmes do CCBB passados no Cine Brasília. A negatividade não traz criatividade”, concluiu.

Os melhores desempenhos escolares
Antes de David Lynch, havia falado no Seminário o diretor de Expansão da Maharishi Free School, da Inglaterra, Richard Scott. Sua explanação foi surpreendente. Mostrando gráficos, ele explicou que a instituição, que tem como cultura aplicar a meditação transcendental para alunos e professores, está entre os 2% melhores escolas do Reino Unido, onde os alunos têm  melhor desempenho. A meditação faz toda a diferença na capacidade dos alunos para apreender o conteúdo das matérias. “Os alunos são mais criativos, têm maior capacidade de trabalhar em grupo e de resolver problemas por causa da técnica praticada duas vezes ao dia, por 20 minutos”, afirmou Scott, ele mesmo muito calmo. “Uma vez implantada a prática da meditação transcendental, a educação em qualquer país pode ser mais efetiva”, concluiu Scott.

O deputado Alex Canziani (PTB-PR), que tomou a iniciativa de promover o seminário, e ele mesmo um meditante, pretende expandir a cultura da meditação transcendental nas escolas brasileiras, como uma contribuição de aprendizagem para os estudantes e para as futuras gerações, como apurou Marcela para sua matéria.

O diretor da Fundação David Lynch no Brasil, Joan Roura, primeiro a falar no seminário, comparou a mente humana com o oceano. A superfície do mar, com toda a sua agitação, seria a parte consciente; o subconsciente corresponderia à parte central do Oceano e, por meio da meditação, as pessoas iriam chegar à quietude da mente, como no calmo fundo do mar. Segundo ele, a meditação reduz a substância cortisonoplasma, diminuindo, assim, o estresse. “A meditação diminui o estresse, a ansiedade e a depressão. Funciona muito bem na melhora do déficit de atenção e ajuda a prevenir o uso das drogas”, acrescentou ainda Roura.

Alguém ainda tem dúvida dos benefícios que esta prática pode trazer para as crianças brasileiras? Imagine a meditação universalizada no ensino público do nosso País. “Seria o melhor presente que vocês poderiam dar a suas crianças”, garante David Lynch.

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22 Comentários

  1. Mariana, que legal essa entrevista. Que emocao e o conteúdo muito legal.Parabéns!

  2. Mariana,

    Gostei muito do tema no encontro desenvolvido na Câmara. Em Siddha Yoga temos temos projetos prisão que leva a meditação para presídios. Eu lembro que Gurumayi nos compartilhou várias experiências de presos que encontraram a essencia interior. Posso te contar detalhes destas experiências. Entre outros projetos nós temos também o Projeto Prassad que leva médicos e cirurgiões a comunidade carente da India. BJS

    • Ieda, que coisa boa! Sim, Syddha Yoga é uma ótima opção para quem quer entrar para o caminho da meditação em Brasília. O centro de encontros, em um casarão do setor de mansões do Lago Norte é super convidativo e as reuniões são de graça! É lá que eu pratico. Mais informações no telefone: 3468-7974, com Yeda ou Celso.

  3. Ficou muuuito bom mesmo!! Adorei! Foi ótimo cobrir esse seminário. Fiquei muito feliz com o tema e com todas as coisas que eu ouvi. Fiquei com vontade de praticar meditação transcendental haha

    Beijo, Mari. Vou adicionar seu blog no meus favoritos pra que eu sempre possa ler tudo que voce escreve. E pelo que eu percebi, são coisas totalmente do meu interesse!

    • Maravilha, Marcela! Sim, temos sensibilidades parecidas, afinal, escolhemos ir ao seminário, né? Então, devemos ter gostos um pouco parecidos também! Vc quer ser atriz, eu sempre quis escrever sobre cultura, desde a faculdade. Você verá alguns textos sobre cinema aqui (menos do que eu tive tempo de escrever), vários sobre música e alguns sobre artes plásticas. Por enquanto, ainda não há nenhum sobre teatro, mas haverá. Um beijo!

  4. MUITO BOM Mariana !!! Muito boa a discussão sobre meditação. Certamente se essa prática for introduzida nas escolas publicas brasileiras fará uma grande diferença.
    Outro ponto importante é saber que esse tema esta sendo discutido , na Camara os Deputados, apesar, de muitos preconceitos é só através do dialogo e da prática que o pensamento se transforma.

    Fiquei muito feliz com a noticia !!!!
    Vc já ouviu falar sobre a meditação Vipassana.?
    Ela foi introduzida em alguns presídios na Índia e nesse lugares observou-se uma dimunuição da violência entre os presos.
    É uma meditação que vc deve passar 10 dias em silencio , de uma olhada no site http://www.dhamma.org.
    BJS

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