Um Beatle em Brasília

Um Beatle em Brasília

Um Beatle está em Brasília, e pela primeira vez! Paul McCartney já passou com turnês pelo Brasil duas vezes, inclusive neste ano, como o ex-companheiro de banda, e nos anos 80, quando o assisti no Maracanã, emocionadíssima. Pois há uma semana, os brasilienses poderiam ver um Beatle, um integrante da banda que mudou o rock and roll, sem cuja existência muitos grupos que vieram depois não teriam sido os mesmos. Era só nisso que eu pensava.

 O clima no foyer do Centro de Convenções Ulysses Guimarães era diferentes do de todos os outros shows a que eu havia ido ali- e olha que fui a muitos do ano passado pra cá. Era um clima de reencontro e celebração entre cinquentões e, principalmente, sessentões e setentões. A alegria entre os amigos que se encontravam por acaso chegava a ser contagiante. Tapinhas nas costas se misturavam com gritos e fotos dos grupos vestidos de camisas de botão e jeans, mas também com camisetas pretas, algumas com a inscrição estilizada Beatles. Via-se que eram pessoas que não frequentavam concertos de rock regularmente. Aquele era um momento especial.

Dentro da sala de concertos, muita gente, inclusive os mais jovens, tirava fotos com o palco atrás, sem ninguém em cima. Seria uma lembrança para se guardar pra sempre. Minha companhia durante a espera, já que a amiga que iria comigo estava atrasada, não era das mais agradáveis: o ex-senador cassado Luís Estêvam, sua mulher e uma penca de filhos, aguardavam na maior alegria pelo show. Já estou acostumada a esbarrar com esta figura de Brasília, ele frequenta a mesma pizzaria a que costumávamos ir e, como nós, todos os domingos por volta das 20 horas. Uma praga!

Com apenas dez minutos de atraso, a All Star Band sobe ao palco seguida por Ringo Starr. O público vai ao delírio enquanto o baterista dos Beatles, em pé e sem instrumento, começa a cantar “It don’t come easy”, uma parceria dele com George Harrison, feita já durante a carreira solo de ambos. Dançando como na época da New Wave, pra um lado e pro outro, Ringo não parece nem de perto ter os 71 anos que tem, no máximo uns 56. Super magro e de barba, mistura calça preta com uma listra de cetim ao longo das pernas com camiseta escura e um blazer com golas brilhantes. A All Star Band, formada por ele desde o final dos Beatles, é uma mistura de músicos americanos e ingleses, a maioria da mesma geração de Ringo, e muitos deles saídos de bandas que foram famosas nas décadas passadas. Não tanto quanto os Beatles, claro, mas famosas. Desta vez a formação é a seguinte: Wally Palmer, Rick Derringer, Edgar Winter, Gary Wright, Richar Page, Mark Rivera e Gregg Bissonette. Baixo, duas baterias (sim, Ringo Star divide a bateria com outro músico!), duas guitarras, um teclado e um saxofone.

 

Thank you, how great to be here”, diz Ringo, sem fazer nenhuma concessão ao português como já é uma praxe entre os músicos gringos que aportam por terras brasileiras. “This is the only place called Brasíiiiiilia-Brazil”, it’s a great place if you can find it”, brinca ele, sem conseguir arrancar muitas risadas da plateia. Começava ali a série enorme de gracinhas que o mais sortudo dos Beatles faria ao longo das cerca de duas horas de show. Sortudo porque Ringo encontrou os Beatles, já Beatles em uma excursão que faziam a Hamburgo, Alemanha, no início da carreira. Pete Best, o primeiro baterista da banda formada por Paul e John, resolvera sair da banda. Estava mais interessado em uma namorada e na pintura, suas verdadeiras paixões. Ringo, na verdade Richard Starkey Jr., um músico apenas mediano, assumiu a batera. Não era um exímio baterista, mas quem disse que os outros Beatles o eram? Como instrumentistas, John e Paul eram ótimos, excepcionais eu diria, letristas e compositores de melodias. E George foi o responsável pela introdução das sonoridades asiáticas na música dos Beatles. Por uma verdadeira revolução na música do quarteto. É só ouvir o “Sgt. Peppers”, pra mim um divisor de águas na obra deles, pra perceber a influência da viagem à Índia à qual George Harrison levou os três colegas.

Beatles 

Honey don’t” é a próxima música do show e a primeira dos Beatles. Uma canção gravada no álbum “Beatles for Sale” de 1964. É uma verdadeira volta àquele ano: feche os olhos e você verá o quarteto de Liverpool vestido em terninhos, com os famosos cabelos em forma de cuia.

“So, are you ready to have a good time?” pergunta Ringo. Quando o público aplaude animadíssimo, ele solta: “Yes, I am the greatest!”. Provavelmente uma brincadeira com a máxima de John Lennon que um dia disse que os Beatles eram mais populares que Jesus Cristo. “I love you, I love you, I love you”, diz o baterista apontando para uma, outra e outra pessoa da plateia. Na terceira música, um presságio de outra fase dos Beatles, ele cita “The long and winding road”, tocando um trecho dela no meio da canção.

Finalmente, Ringo abandona os passinhos New Wave e vai para a bateria where he belongs. Começa “Super hang out”, o clássico do The McCoys, conhecido no Brasil pela versão da Jovem Guarda “Pobre Menina (não tem ninguém)”. Muuuito legal! É que um dos McCoys , Rick Derringer,faz parte da All Star Band. O mais sessentista de seus integrantes. “Everybody is a star tonight”, diz Ringo, acrescentando que todos os colegas de palco vieram de alguma banda importante.

 “Talking in your sleep” dá início ao outro lado do show daquela noite: o lado oitentista. Ingleses de bandas dos anos oitenta, em sua maior parte responsáveis por um hit e nada mais conhecido (as one hit bands), estão em profusão na All Star. Wally Palmar era do The Romantics.

E chega mais um momento super aguardado. “Vou fazer agora um número para as moças, para alguns rapazes também”, anuncia o maroto Ringo. E começa “I wanna be your man”. Esqueça os solos de guitarra que dão uma roupagem “moderna” à música e você se sentirá um beatlemaníaco. Senti isto há pouco mais de vinte anos no Maracanã, com Paul McCartney, e voltei a sentir na semana passada. É inútil tentar descrever a emoção de ouvir um Beatle tocando Beatles na sua frente. Para qualquer fã de rock. E foi por isso que não pensei duas vezes em pagar R$ 450 para ver Ringo Star em um teatro a vinte metros de mim.

 Enquanto o bruxo com cara de Papai Noel Edgar Winter se reveza entre o sax, o teclado, o sintetizador e a percussão, Gary Wright começa o seu solo. “Boa Noite, amigos de Brasília! Tudo bem?”. E começa a tocar “Dream River”, uma balada escrita após uma viagem que fez com George Harrison para a Índia. Wright participou do álbum “All things must pass” do ex-guitarrista dos Beatles.

 Miscelânea
O show é uma mélange total. Tem estilos completamente diferentes entre si, parece mais uma série de shows solo de cada um dos integrantes, mostrando músicas de suas carreiras passadas. O bom é que as canções não são ruins e a banda, além de qualidade musical, tem intensidade, são muitos instrumentos tocando juntos. Um dos pontos altos é “Broken Wings”, uma bela balada da segunda metade dos anos 80 do grupo Mr. Mister. Richard Page é o representante da banda na All Star. Nada a ver com o que se espera de uma apresentação de Ringo, mas este é um bom momento do show. Na verdade tem algo de surreal. Quem imaginaria que Ringo Starr um dia tocaria bateria para o cara do Mr. Mister, típica one hit band, enquanto ele canta seu único sucesso?

Ringo nos lembra que, apesar da miscelânea, está no comando, ao cantar uma canção do disco lançado no ano passado, “Why Not?”. É a sugestiva “The Other Side of Liverpool”, em que ele começa, em tom confessional: “minha mãe era uma enfermeira…”. Boa música!

 Um soul separa a lembrança da Liverpool que nos deu os Beatles do momento mais esperado da noite. É aquela música que John e Paul compuseram pensando no vozeirão de Ringo. A canção que embalou a infância de muitos quarentões como eu e que embala até hoje. “Are you ready to sing?”, pergunta ele. “I like to play this song every night, everybody enjoys it”, diz Ringo. “É um momento musical incrível e eu sou o outro incrível momento”, diz ele, brincando com a própria fama. Começa “Yellow Submarine”, gravada originalmente no álbum Revolver, em 1966, e eu me chateio por não ter levado meu filho de três anos ao show, especialmente para aquele “magical moment”. Yellow Submarine foi a primeira música cujo refrão João cantou em inglês, aos dois anos. Mostrei a ele parte do filme homônimo no youtube, mas só a parte desta música, não o longa-metragem inteiro, que tem partes violentas. Recomendo aos pais, com esta parcimônia, porque os desenhos são muito bem feitos e coloridíssimos.

 

Após longos solos dos stars da banda, Ringo volta ao palco. É impressionante como todo o público se levanta quando ele reaparece, quase uma reverência. “Boys”, uma canção menos famosa dos Beatles, é a escolhida por Ringo. “One of my favourites”, diz ele.

Umas pessoas estão pedindo: ‘please, Ringo, sing “Photograph””, diz o músico, se referindo a outra canção da antiga banda. E eles tocam a linda “Photograph” que, na verdade, já estava no roteiro. “Act Naturally”, outra do quarteto, do álbum “Help!”, de 1965, vem em seguida. É um country e todos cantam. E o momento Beatle não terminou. “Do you need anybody? I want somebody to love!”, canta Ringo, no momento mais emocionante de todo o show, mais ainda do que o submarino amarelo. “A little help from my friends” me remete diretamente à São Paulo de 1982, em que morávamos, e quando os Beatles começaram a tocar fundo os nossos corações, meu e da minha irmã. Naquela época, compramos a coletânea vermelha, a que tem os sucessos mais antigos, que se completa com a coletânea azul, com as músicas mais viajantes da segunda metade da carreira do grupo, no fim dos anos 60. Durante aquela música, Ringo ria e eu chorava.

E pra aumentar a emoção, no finzinho do show, o pacifista Ringo Starr, com sua banda formada por alguns ex-hippies, cita o mais pacifista de todos: John Lennon. “All we are saying, is give peace a chance…”. E os músicos saem do palco deixando a velha mensagem de Paz e Amor, mostrando que um idealista pode ser sempre um idealista. Ringo levanta a mão e faz o sinal de paz e amor com o indicador e o dedo do meio, uma marca registrada sua desde os primórdios. O sinal que havia sido repetido por ele e pelos fãs durante todo o show. Um pouco do espírito hippie nos individualistas dias atuais nunca é demais!

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17 Comentários

  1. Mariana, vc invadiu a minha praia, a dos sessentões da geração beattle, e que incorpora e testemunha tudo o que aconteceu no entorno da banda e da gente, o povo da paz e amor, das grande revoluções pacíficas, das mudanças essenciais, das quais o que vivemos hoje são todas filhotes… rsrs
    Adorei seu texto, suas observações judiciosas, sua arguta percepção dos detalhes, sua sensibilidade à flor da pele, que vc não oculta e da qual se orgulha!
    Uma ótima maneira de empregar um pedacinho de um domingo que, talvez, fosse apenas mais um, não fosse seu belo texto e sua sensibilidade.

    • Sônia, que coisa boa eu ter melhorado o seu domingo! Enquanto isto, estávamos aqui curtindo a Anita e o João brincando juntos! Sim, é uma herança dos anos 60 que eu carrego. Adoro o rock anos 60! Sempre digo que gostaria de ter tido 18 anos no ano em que nasci, 1968. Pra ter podido ir a Woodstock! Beijo grande!

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