Posts made in dezembro, 2011

São Paulo comme il faut

Houve uma época, há uns quatro anos, que íamos pelo menos duas vezes por ano a São Paulo, por razões médicas, e ficávamos cerca de uma semana na cidade de cada vez. Fomos ganhando, ou reganhando, uma intimidade com a cidade. Eu já havia morado ali duas vezes, uma delas na infância e outra na adolescência, meu marido morara 13 anos lá, inclusive tendo se formado e trabalhado no jornalismo da capital, após vir do interior do estado. Naquelas viagens de alguns anos atrás, entre uma ida e outra ao consultório médico, compensávamos a parte difícil conhecendo alguns restaurantes interessantes (conhecemos o Carlota, o Gero e o Dom, jantamos no Maní e no Felippa, na Rua Joaquim Antunes, fomos ao centro conhecer o tradicional francês La Casserole e à Vila Madalena jantar no aconchegante Alez, Alez!, repetimos o almoço indiano delicioso do Ganesh do Morumbi Shopping, viramos meio habitués do Boa Bistrô, nos Jardins) e visitando as lojas dos grandes estilistas brasileiros que não existem em Brasília (adoro o clima alegre da Adriana Barra, e gosto de ver as novidades das lojas da Bela Cintra e do Shopping Cidade Jardim da Cris Barros, da Glória Coelho e, principalmente de seu ex-marido, Reinaldo Lourenço. De vez em quando até faço uma extravagância e compro uma pecinha de um deles. Vale muito a pena, são pra sempre!). Chegamos a pegar um Festival Internacional de Cinema de São Paulo uma vez, e assistimos em primeira mão a um documentário muito bem estruturado sobre Kurt Cobain. De quebra, comemos uma deliciosa salada de rúcula, pêra e nozes no restaurante do Reserva Cultural, cuja receita repetimos em casa várias vezes.

Participamos da exposição interativa de Guimarães Rosa no Museu da Língua Portuguesa, vimos a dos corpos no Ibirapuera (esta específica, visitei de cadeira de rodas, após um tratamento) e até a exuberância de uma das maiores paradas gays da América Latina e, daquela vez, estávamos hospedados no Hotel Ibis da Av. Paulista, justamente onde se concentravam muitos participantes. Ah, e quando fomos ao Museu da Língua Portuguesa, bem ao lado da linda e restaurada Estação da Luz, aproveitamos para conhecer o Acrópoles, um restaurante simples e tradicional grego em pleno Bom Retiro, o bairro do centro velho onde moram muitos judeus, mas atualmente, não os ricos, que migraram para Higienópolis. Tínhamos normalmente a companhia de uma amiga médica de Brasília que mora em São Paulo há muitos anos e da minha irmã, publicitária, que também é radicada na cidade.

Eu adorava passear pelas três feirinhas de antiguidade mais conhecidas da cidade: a do Masp, de que gosto muito desde que moramos em São Paulo em 1982; a da Benedito Calixto, perto de onde minha irmã morou por anos; e a do Museu da Imagem e do Som (MIS), a mais sofisticada e cara de São Paulo, onde me apaixonei por uma peça art-nouveau, que até hoje me arrependo de não ter comprado. Outro programa bem bacana é conhecer as lojinhas de design de móveis e objetos para casa em torno da pracinha da Fnac (ali começou minha paixão pela linda Benedixt) e, com mais tempo, as lojas de designers brasileiros e estrangeiros da Avenida Gabriel Monteiro da Silva. Lá ou na Lorena, paralela à Oscar Freire, não deixe de almoçar na Z-Déli, um bistrô de comida judaica de tirar o quepá!

Houve uma vez em que até fomos ao show de David Lee Roth, o ex-vocalista do Van Halen, de quem eu admirava a carreira solo lá por volta de 1985. Em 2009, fui especialmente para o pocket show que Elton John fez para os convidados de um banco na linda Sala São Paulo, no centro. Ganhei o convite de um amigão! Imagine um show de Elton John em um teatro! Foi absolutamente emocionante.

Vestindo crianças com criatividade
Depois que nosso filho nasceu, em 2008, fomos três vezes com ele a São Paulo. Aí os programas mudavam: muito zoológico, Zoo Safari (ex-Simba Safari, em que os bichos ficam soltos e vêm até a janela do seu carro), Ibirapuera e pracinhas.

Também não dava pra escapar do Shopping Iguatemi em tempos de decoração de natal. Com um ano e oito meses, João ficou absolutamente encantado com todos aqueles animais enormes da savana do Papai Noel que montam naquele vão central.

Outra coisa que chamava a atenção de seus olhinhos eram as luzes da Avenida Paulista nesta época natalina. Além de passeios e dos melhores encontros familiares do ano, São Paulo também significava a oportunidade de eu comprar roupinhas para meu filho do jeito que eu gosto: com cara de roupa de criança. Faço tudo pra não vestí-lo como um adulto pequeno, com aquelas camisetas de gola pólo listradas de branco que se vende em profusão nas lojas de Brasília e do Brasil todo, na verdade. Em São Paulo, anotem aí mães criativas, tem a Bebê Moderno (que agora só existe no Itaim Bibi), cheia de macacões, calças, shorts e camisetas coloridas e com apliques de bichos das matas brasileiras; a Balangandã, com desenhos super diferentes nas camisetas, bermudas e até sungas; e uma loja do Shopping Cidade Jardim, que tem até conjuntos de plush com bolas de futebol no bumbum e outras invenções legais. Há ainda a Green, onde fizemos um verdadeiro enxoval pro João nesta última vez, já que a loja do Park Shopping fechou as portas. (Nas três fotos abaixo, ele, ainda com um ano e dez meses, está vestido de Green, por coincidência).

Uma das vezes, caminhamos pelas lojinhas de novos estilistas da Vila Madalena. Algumas são tão lindas que parecem pequenos castelos coloridos feitos para crianças! Uma imperdível é a do Ronaldo Fraga, que tem um quintal de casa da vovó atrás, onde as crianças se divertem enquanto você escolhe roupas pra você e pra elas. Ali, a dica é comer no buffet cheio de saladas do Pitanga. Mas o Capim Santo, nos Jardins, com suas cortinas de miçangas e seu pátio ao ar livre cercado pelas mesas, é o melhor restaurante para levar a criançada.

Entre uma loja e outra, é necessário tomar um café, comer um sanduíche ou mesmo tomar uma taça de vinho. No nosso caso, era o Suplicy da Lorena para o café com jornais de manhã e o Oscar Café, na Oscar Freire, para um sanduíche de salmão ou filé com uma taça de vinho rosé, seguidos por um brigadeiro de pistache. João adorava subir e descer sua estreita ladeirona correndo.

Para se chegar à Balangandã, uma das lojas infantis legais dos Jardins, se passa em frente ao Emiliano, um dos únicos hotéis da badalada e chique Oscar Freire, espécie de 5a Avenida ou Visconde de Pirajá paulistana, ou seja, a rua onde se concentram as lojas legais (e caras!). É um cinco estrelas cool, com uma decoração clean, bastante branca, mas sem abrir mão dos sofás de couro e das mesas de madeira pra dar um clima de aconchego. Uma vez entramos ali e ficamos imaginando como seria nos hospedar naquele hotel delicioso em plena Oscar Freire com diária de U$ 700.

Férias de dois dias
Pois bem, desta vez, há um mês mais ou menos, quando fomos assistir ao show do Duran Duran no Festival SWU (ver matéria aqui no blog em “Duran Duran 24 anos depois”), sabíamos que nos cansaríamos durante esta aventura. Então, inventei de descansar antes. Como não íamos levar nosso filho porque iríamos ao show em Paulínea, teríamos um momento para descansar sozinhos em São Paulo por duas noites antes de seguir, domingo, para Campinas. É a segunda vez que fazemos isto já que, desde o nascimento de João, não quisemos viajar para o exterior, ficando longe dele por muito tempo. Então, investimos em pequenas viagens, de um fim de semana, no Brasil mesmo. Mas em grande estilo. A primeira vez foi no moderno Fasano do Rio, durante o show do Coldplay no início do ano passado (ver “Luxo no Rio de Janeiro e uma comédia de erros”, aqui no blog).

Nesta segunda vez, não tivemos o prazer de conviver com a decoração super moderna de Phillip Stark, mas desfrutamos do fantástico serviço deste hotel, daqueles que nem conseguimos sentir, discretíssimo. O quarto com vista para os prédios (adoro esta vista! É a mesma em todos os hotéis de São Paulo e parecida com a de uptown Nova Iorque) tinha muito espaço, uma cadeira de Sérgio Rodrigues diferente da da varanda do Fasano do Rio, em frente da qual havia uma mesinha com o pêssego mais suculento que já comi na vida e uma tartelete de frutas vermelhas.

Em outra bancada, um vinho chileno também nos dava as boas vindas. O travesseiro podia ser escolhido entre uns 10 tipos existentes no Menu de Travesseiros. Pra não desperdiçar a oportunidade, meu marido escolheu um daqueles da Nasa pra ele e um de macela pra me ajudar a dormir. Até parece que isto seria necessário naquele ambiente de paz total! Adorei o closet cheio de compartimentos e o banheiro de ladrilhinhos brancos com grande pressão de água no chuveiro.

Os produtos da linha Santa Pele fizeram a diferença e foi a primeira vez que usei um vaso sanitário aquecido, com bidê embutido. Posso dizer que não achei um luxo desnecessário!

O jornal também poderia ser escolhido. “Estadão, pra ler o Caderno 2 no domingo”, decretei. “Então, Estadão e Folha?” Perguntou o concierge. “Pode ser os dois?” “Quantos os senhores quiserem. Querem o Correio Braziliense?”, perguntou, vendo em nossa ficha que éramos de Brasília. “Não, o Correio não, por favor, já recebo este jornal todos os dias”, disse eu, querendo fugir das notícias de casa. Na Ilustrada de sábado, li tudo sobre o show do Lynird Skynird, a banda do sul dos Estados Unidos que fecharia a noite de domingo, após Duran e Peter Gabriel, enquanto tomávamos o café no quarto: café da cafeteira do próprio quarto e bagel com salmão defumado e cream cheese, bem americano. Mauro pediu um omelete que derretia na boca.

Na noite anterior, tínhamos desfrutado de outra das facilidades do hotel, por puro acaso. Sua localização. Minha amiga Daniela Mendes sugerira o Italy pra nos encontrarmos. Um italiano despretensioso, com ótimos preços, mas absolutamente delicioso e a dez metros do Emiliano, ali mesmo na Oscar Freire. Perfeito pra quem, como nós, enfrentara uma hora de engarrafamento desde Guarulhos (não desço em Congonhas desde o acidente com o avião da Tam, cuja culpa foi, claramente, do tamanho da pista do aeroporto central de São Paulo). E foi um jantar super agradável e divertido! Além deste casal de amigos da faculdade, outro casal formado por Eliane e Gabrielli (seu namorado siciliano que gosta de cozinhar e faria a crítica do Italy pra nós, segundo Eliane), além da minha irmã.

Embalado por minhas histórias pretéritas com o Duran Duran, Felipe (Patury), um dos meus melhores amigos no curso de Comunicação da UnB, relembrou histórias do arco-da-velha envolvendo nossa colega de curso Patrícia Melisa, que me acompanhara no primeiro show da banda em 1988 no Rio. As histórias daquela menina membro do Bacon (Barangas Americanizadas da Comunicação), que achava um absurdo os brasileiros não terem vídeo cassete em 1987, eram hilárias. Eu não me lembrava de nada daquilo e adorei ser lembrada por Felipe! Melhor ainda ficavam as histórias ao sabor de gigliotti com vôngoles dentro da concha (que por sua vez me remeteram à primeira vez que comi vôngole numa prainha abaixo de Palermo, como aproveitei pra tentar coltar em meu italiano macarrônico a Gabrielli) e talliateli nero com frutos do mar do Mauro a cerca de R$ 40 o prato. O amigo siciliano surpreendeu a todos pedindo um vinho brasileiro, Desejo, que ele descobrira há alguns anos na Bahia!

Brunch de lua-de-mel
A outra farra gastronômica comparecemos domingo, só nós dois, bem no clima de lua-de-mel que já nos envolvia. Foi o brunch perfeito do próprio Emiliano. Tínhamos apenas o tempo exato, não muito mais que isto, porque, depois do check out, teríamos que ir ao Shopping Butantã para pegar o carro alugado pra seguir para o SWU. Naquele salão delicioso rodeado por plantas nas paredes, um garçom super solícito que eu tive a sensação de conhecer de outro restaurante, começou nos trazendo blinis de salmão, palito de parmesão com fois gras e compota de maçã e tartare de atum com ratatuille de legumes. Uma explosão de sabores, tudo muito bom.

Como prato quente, Mauro pediu um omelete e eu um ravioli do dia com cogumelos e molho com manteiga trufada bem pronunciada. “Podem repetir o que quiserem até as 4 horas”, dizia animado o garçom. Não, infelizmente, era hora para a sobremesa. E não uma só: era um verdadeiro festival de doces: panacota diet ou normal com frutas vermelhas e chocolate branco (claro que optei pela normal), verrine de chocolate com morango (especial!); creme de manga com chocolate branco (soberbo!); mousse tricolor; macaroons de framboesa, chocolate e baunilhas e madeleines. Estes últimos perdemos devido à única falta de todo o serviço do hotel durante aqueles dois dias: o garçom boa praça se esqueceu de enviá-los ao quarto como nos havia prometido.

O grande lance do serviço do Emiliano é sua invisibilidade: chegávamos da rua e havia um doce com um bilhetinho dizendo: espero que tenham gostado da estada. Nem sabíamos quem tinha deixado o mimo ali. Pedíamos pra trocar os tamanhos dos chinelos havaiana e, quando chegávamos, os novos números estavam ali, sem erro.

Pra completar o relaxamento antes de pegar a Bandeirantes em direção ao lamacento estacionamento do SWU, resolvemos desfrutar dos 15 minutos de massagem incluídos na diária do hotel. Acrescentamos 45 minutos por nossa conta. Depois da massagem, com uma moça que ficou conversando sobre rock comigo, afinal eu já estava totalmente no clima do festival, ficamos uma meia hora entre as duas Ufurôs- uma morna e uma quente- em uma sala envidraçada com vista para a Oscar Freire e os jardins em geral. Tudo muito lindo e nada de piscina naquele hotel super paulistano.

Fernanda Montenegro e sua Simone de Beauvoir
Sim, passeamos pela Oscar e dei uma passadinha na (sapataria) Sarah Shaforkian da Lorena em que costumo comprar um sapato a cada ano- além de conhecer a enorme loja da italiana Pucci no Shopping Cidade Jardim com minha irmã e minha fofa sobrinha Anita. Mas não comprei nada mais que um batom vermelho na Channel (o mesmo que a própria Coco usava, me garantiu o vendedor, falando francês a cada fim de frase). Já havia estourado meu orçamento em Brasília no último mês.

Resolvera, sim, ainda em casa, fazer uma coisa que terminamos adiando em nossas outras idas a São Paulo e que seria óbvia: ir ao teatro. Escolhi a peça em que Fernanda Montenegro interpreta, sozinha no palco, ninguém menos que a feminista Simone de Beauvoir, um dos grandes ídolos de minha mãe. Não poderia ter sido uma escolha mais feliz. Nos adiantamos e, quando chegamos ao teatro, eu, meu marido e minha irmã, percebi como o público é diversificado. Muitas pessoas com a cara das pessoas que conheci em 82, os intelectuais paulistas de classe média. Só perto do começo da peça, chegaram os ricos e peruas.

Num texto super intimista, confessional mesmo, uma Fernanda muito em forma começou contando a juventude de Simone na Paris da Segunda Guerra Mundial, suas primeiras experiências sexuais, como conheceu o escritor existencialista Jean Paul Sartre e como ele seria seu companheiro pelo resto da vida, de uma forma ou de outra. Lembrei-me muito de Fernanda Torres, filha de Montenegro, interpretando o texto de João Ubaldo Ribeiro sobre a Luxúria. Era como se a mãe tivesse querido fazer algo parecido com o que a filha fizera dez anos antes, só que a seu estilo, bem menos histriônico, e ainda assim com humor. Estava ali uma mulher de 80 anos falando das aventuras sexuais de outra mulher, absolutamente à frente do seu tempo. E não só das ideias libertárias que levaram ela e Sartre a experimentar o sexo grupal quando o filósofo já não sentia mais atração sexual pela esposa. Mas também de como o existencialismo -que depois se tornaria uma corrente filosófica- permeava o relacionamento dos dois com outro grande escritor, o argelino Albert Camus.

No fim da peça, quando Sartre morre, Simone/ Fernanda passa a contar a dificuldade que era viver sem a pessoa com quem dividiu toda uma vida. Era como se Fernanda falasse dela própria, que perdeu o marido, Fernando Torres, há alguns anos. Uma emoção genuína tomou conta do fim da peça, ao mesmo tempo em que uma sensação de completude em relação a tudo que São Paulo pode nos dar tomou conta do meu coração.

Serviço:

Acrópoles. Rua da Graça, 346, Bom Retiro. Tel.: 3223.4386.

Allez, Allez! Rua Wisard, 288, Vila Madalena. Tel.: 3032.3325.

La Casserole. Largo do Arouche, 346, Vila Buarque. Tel.: 3221.2899.

Maní. Rua Joaquim Antunes, 210. Jardim Paulistano. Tel.: 3085.4148.

Boa Bistrô. Rua Padre João Manuel, 950, Cerqueira César. Tel.: 3082.5709.

Carlota. Rua Sergipe, 753, Higienópolis. Tel.: 3661.8670.

D.O.M., Rua Barão de Capanema, 549, Cerqueira César. Tel.: 3088.0761.

Ganesh, Avenida Roque Petrone Júnior, 1089, Morumbi (Shopping Morumbi). Tel.: 5181.4748.

Hotel Emiliano. Rua Oscar Freire, 384, esquina com Rua Cerqueira César. Tel.: 3069-4369.

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