Posts made in janeiro, 2012

Historietas e conclusões de um menino de três anos

Quando publiquei “Constatações de um menino de dois anos” aqui no blog, com as frases de meu filho nesta idade, minha tia Tereza me contou que minha avó já fazia a mesma coisa muito antes da internet: anotava em um caderninho especial as falas da minha mãe, a mais velha de cinco irmãos, e do meu tio Plinio, o segundo a nascer. Há pouco tempo, li uma entrevista em que Arnaldo Antunes dizia que fez uma música com os dizeres de seu filho de três anos. Registrar o que dizem nossos pequenos quando estão aprendendo a lidar com a fala é, portanto, algo a que não conseguimos resistir. Se aos dois anos, achávamos inteligentíssimas as conclusões a que tão jovens pessoas chegavam, aos três, continuamos impressionados não só com suas constatações sobre o mundo que começam a observar, mas também com a forma como lidam cada vez melhor com o vocabulário que vão adquirindo. Registro a seguir, as falas de meu filho João, aos 3 anos que, quem sabe, possam divertir também os que não o conhecem.

“Farofeira!”, João, olhando para a mãe que cantava , brincando: “Comprei um quilo de farinha pra fazer farofa, pra fazer farofa-fá”. Em 9-08-2011, aos 3 anos e 3 meses.

“A lua fica brilhando no céu escuro”, contemplando a lua quase cheia. Em 26-08-2011, aos 3 anos e 3 meses.

“Você só quer saber de avião”, para a mãe, que contava a história do avião, sendo que ele, sim, só queria saber de avião. Em 9-09-2011, aos 3 anos e 4 meses

“Onde tem helicópteros e onde tem terremoto”, quando a mãe mostrava imagens de um avião em Nova Iorque, na época do terremoto que atingiu a cidade. Em 9-09-2011, aos 3 anos e 4 meses.

“Vê se pode, mamãe?”, imitando algo que a mãe falou em outro momento.

“Não tem ninguém nesse avião. Só os macaquinhos”, olhando para o avião de plástico de um livrinho e percebendo que só os macacos eram fixos. Os outros bichos só apareciam por trás das janelas, não estando verdadeiramente no avião.

“Você resgatou?”, sobre o avião dele que estava na cama da mãe, que o trouxe para ele. As três mais ou menos aos 3 anos e 4 meses.

“Eu nunca comi sorvete moído assim. Eu tomaria. Eu tomaria hoje”. Olhando a foto e desejando o sorvete com várias bolas e biscoito moído entre cada uma delas. Em 20-10-2011, aos 3 anos e 5 meses.

“É a porta giratória”. Girando o guarda-chuva de Panda que ganhou dos pais e se lembrando da hora em que Clark Kent vira Superman em “Superman, o filme”, de 1978, que assistira semanas antes em DVD.

“É a do Superman”, identificando a trilha sonora de “Superman, o filme”, de um CD com as melhores trilhas do mestre John Williams, respondendo à mãe, que tinha dificuldade de diferenciá-la da de “Caçadores da Arca Perdida”. As duas são bastante parecidas. Aos 3 anos e 8 meses.

“Tudo que a gente entende, a gente fala, sabia?”. Ensinando a mãe. Em 19-10-2011. Aos 3 anos e 5 meses.

De novo, as fantásticas máquinas voadoras
“O avião chegou. Ele está encantado pelo castelo”. Em 25-10-2011, aos 3 anos e cinco meses, humanizando um de seus queridos aviões feitos de Lego.

“Esse avião é do universo, não é da TAM. Ele tem uma asa poderosa, sabia?”, ainda pensando em suas incríveis máquinas voadoras. Idem.

“E depois o avião do universo vai decolar. Olha as turbinas dele”, mostrando seu vocabulário relativo a aviões. Idem.

“O helicóptero é assim: ele tem a hélice que gira assim e o motor, que faz voar”. Idem.

“Esse é o avião da TAP que você vai fazer? Eu vou ensinar o avião da TAP”, pegando as peças verdes e vermelhas do Lego da mão da mãe. “Aí você tem que aprender a fazer o avião, sabia? O seu avião já tá terminado”, fazendo ele mesmo o avião.

“Lá tinha tantos aviões! O Concorde você não consegue ver. Levanta, venha ver!”, variando as marcas das máquinas.

“É a base da biruta pra ela se equilibrar”, terminando de construir uma biruta de aeroporto com legos. As três últimas falas aos três anos e cinco meses.

“Sabia que os aviões mais novos são os que têm suportes nas duas asas?”, demonstrando cada vez mais especialização na área aeronáutica, sua preferida. Em 8-11-11, aos 3 anos e meio.

Contando histórias
“Era uma noite chuvosa… Uhhh! O gato caiu láaa embaixo e viu um fantasma. (…) E o lobo mordeu o gato”. Contando história de terror na véspera do Halloween, em parte inspirada no programete do Discovery Kids visto dias antes. Em 30-10-11, aos 3 anos e cinco meses.

“Eu sabo dirigir avião, nave e navio”. “O que é mais difícil?”, pergunta a mãe. “O navio. O navio é o Titanic. Ele bateu num iceberg e afundou. Aí os homens consertaram ele. E ele voltou”. Em 11-01-2012, aos 3 anos e 8 meses, lembrando-se da exposição dos objetos do Titanic que visitou.

“O cachorro virou um bicho sanitário que fala?”, referindo-se a si mesmo e trocando de personagem na brincadeira pelo que ele próprio criou: o bicho sanitário. Em 8-11-11, aos 3 anos e meio.

“Vou tirar porque tá muito adolescente”, se referindo ao próprio boné. Em 9-11-11, idem.

No almoço
“Eu passei no meio do vegetal. Você sabia que esse é o vegetal, sabia?”, apontando para um arbusto na varanda do restaurante em que almoçávamos. Em 2-11-11, idem.

“Eu se preparei pra comer o doce. Você viu? Eu fui naquela porta…”, se preparando para o momento especial de comer um petit gateau com sorvete só seu de sobremesa. Idem.

“Que gostoso esse recheio!”, elogiando o realmente especial petit gateau de chocolate amargo do Gero de Brasília. Idem.

“Pronto, você já está produzida”. Para a mãe, no dia do natal, quando ela terminou de colocar biquini e short. Em 25-12-11, aos 3 anos e 7 meses.

Na casa de vovó e vovô
“Eles são violentos”, sobre os filhotes de cachorros que a avó comprou para os netos e, aos quatro meses, gostam de pular neles, quase derrubando os donos. Em dezembro de 2011, idem.

“Eu coloquei água com xixi aqui”, de dentro da banheira onde tomava banho e fizera xixi, referindo-se a um frasco de creme da avó. “Mas, João, este creme é caro”, responde a mãe. “Mas tem muitos cremes ali”, apontando para a grande coleção de cremes da vaidosa avó materna.
Idem.

Sobre os astros
“Sabia que a lua é um satélite?”
Em 16-01-12, aos 3 anos e oito meses, demonstrando os recém-adquiridos conhecimentos sobre o espaço.

“Você viu que tem corais coloridos na lua?”, desenhando a lua e inventando. Em 21-01-12, aos 3 anos e oito meses.

“Olha um meteoro!”, desenhando e se lembrando do filme “Dinossauros”, que mostra a extinção dos bichos da Terra. Idem.

“Me dá a canetinha verde. Deixa eu fazer o Planeta Krypton”, depois de desenhar Marte e a Lua, achando que o Planeta natal do Superman realmente existe. Idem.

“Você se lembra do livro que não tinha nada? Depois veio a explosão e ‘bang!’”. “”Foi o Big Bang”, responde a mãe. “Não, não tinha o Big Bang ainda!”, referindo-se ao relógio londrino. “Quero dizer a explosão”, responde a mãe. “Sim, aí teve a explosão. Depois vieram os dinossauros. Aí caiu um meteoro e eles ficaram assim (mostra os dinos deitados). Aí depois vieram os homens. E acabou”. Em 22-01-12, aos 3 anos e oito meses, contando a história do universo e da vida na terra que ouvira e vira em um livro meses antes.

Mais recentes:
“Esse é grande”. Come um pedaço do biscoito. “Agora é médio”. Come mais um pedaço. “E agora é pequeno”. Aos 3 anos e oito meses, mostrando noções de tamanho.

“Bota a presidente Dilma ali”. Em 25/04/12, aos 3 anos e 11 meses, mandando a mãe desenhar a presidente dentro do balão com o formato da bandeira do Brasil que ele havia desenhado antes. O balão que ele viu na Esplanada dos Ministérios no dia 7 de setembro anterior.

“Olha, ele tá sobrevoando o México. Posso fazer um cacto?”. No dia seguinte, na hora em que desenhava um avião, lembrando-se das fotos dos pais no México, onde havia muitos cactos.

 

 

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Treze pratos e bebidas imperdíveis em Brasília

Não estava fácil escolher dez. Então, resolvi flexibilizar e aumentar para 13 a lista de pratos ou bebidas simplesmente deliciosos encontrados nos restaurantes de Brasília. Claro que são escolhas absolutamente pessoais, mas com certeza capazes de inspirar o pessoal que está trabalhando na capital nesta época em que ela está vazia, com poucas opções para adultos- vide as salas de cinema, invadidas pelos blockbusters infantis e adolescentes das férias de verão. Então, segue a minha lista, que não está em nenhuma ordem, e aguardo os comentários.

1-   Fois gras do Toujours Bistrô. Ele vem coberto por cristais de sal, é simples e gostoso. O do Zuu, com melado, queijo de coalho e salada de feijões, rivalizaria com ele se o restaurante não tivesse fechado as portas.

2-   Rabada agridoce do Versão Tupiniquim. É uma rabada com pouca gordura, envolta em uma fina massa folhada. O molho agridoce vai sendo colocado aos poucos (Ver foto do prato e detalhes sobre o local em “Restaurante brasiliense com um pé na alta cozinha espanhola”, aqui no blog). Se não come carne, opte pela Pescada amerela com pimentões vermelhos e amarelos. É leve e saborosa na medida certa! Bem espanhola.

3-    Filé mignon ao vinho Marsala com fois gras e trufas negras do Gero. As batatas cortadas em fatias finas colocadas uma sobre a outra e, principalmente, os aspargos frescos com bacon, complementam o prato perfeitamente.

4-    Sunset drink do El Paso Texas. Drink frozen com suco de laranja e amaretto. Consegue ser melhor que a Piña Colada que tomávamos na Cidade do México também com amaretto. É mais equilibrada por causa da acidez conferida pela laranja.

5-   Risoto de camarão e manjericão do Bom Demais do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). Saboroso e cremoso no ponto.

6-    Café grego também do Bom Demais do CCBB. Uma mistura de grãos de café realmente provenientes da Grécia com limão, batidos e servidos gelados em um copo alto. Mistura improvável e surpreendente.

7-   Lagostin da Trattoria da Rosário. Prato sazonal e especial.

8-    Filé a Severin do La Chaumière. No mais tradicional restaurante francês da cidade, o filé foi criado por seu ex-garçom e atual dono, Severino (na foto abaixo), à base de queijo gorgonzola e pimenta do reino em grãos, com deliciosas batatas sautés ou arroz branco. O impressionante é que não é pesado, apesar dos ingredientes. Dá vontade de comer uma vez por mês, pelo menos.

9-   Buffet do restaurante austríaco Servus. O buffet deste restaurante que fica em uma aconchegante e casa de madeira no caminho para a Papuda tem chucrute, salsichões, picadinho com páprica e todas as delícias que são também alemãs. Vá com tempo e harmonize com as cervejas de trigo importadas da Alemanha e outros países europeus. Lá você encontra desde motoqueiros com suas Harley Davidsons até embaixadores como o da Rússia, que estava lá quando fomos. Há ainda uma casinha de bonecas para as crianças no amplo gramado.

10-Lula grelhada da parte superior do Bar do Mercado. Trata-se da parte central do animal, cortada em fatias, acompanhada de farofa amarela e com a opção de um pouco de azeite com pimenta do reino rosa. De dar água na boca. Vai bem com os bons vinhos brancos a preço de mercado da Adega ou com a cerveja de trigo Bohêmia Confraria, que costuma estar no cardápio do Bar não se encontra em qualquer lugar.

11-Todos os pratos com peixes brasileiros, ostras, vieiras, lagostins e jambu do Aquavit. Difícil escolher o melhor deste que é o único restaurante com duas estrelas no Guia Quatro Rodas de Brasília e cujo cozinheiro e dono, Simon Lau Cederholm, foi considerado o chef do ano de 2010 do Brasil pelo guia (Ver detalhes em “O restaurante duas estrelas de Brasília”).

12-Sexy Shrimp do Universal Diner. Um prato afrodisíaco levemente agridoce criado há tempos por Mara Alcamim e que combina com o ambiente do East Village nova-iorquino reproduzido pela chef que tinha apartamento naquele bairro descolado. Mas vá cedo se não quiser encarar a música sertaneja disfarçada de dance music que começa a tocar lá pelas 23 horas.

13- E pra completar, chocolate quente com macadâmia do Espaço Gourmet das lojas Kopenhagen. Simplesmente o melhor chocolate quente que já tomei na vida.

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A culpa da mãe

Acordei hoje subitamente às 5h50, uma hora antes do despertador. Sim, as tensões do trabalho têm sua parcela de culpa, para não correr o risco de ser injusta, uma única pessoa do trabalho. Mas 80% da culpa é mesmo de um filme que parecia despretensioso e por isto me atraiu chamado “Não sei como ela consegue” (“I don’t know how she does it”, finalmente a distribuidora achou que não doeria ser fiel ao título original). O filme com Sarah Jessica Parker (a eterna Carrie Bradshaw de “Sex and the City”), o sempre fofo e eficiente Greg Kennear e o classudo e simpático (eu o entrevistei em 1997 e ele o é mesmo) Pierce Brosnan, tinha tudo para ser mais uma comédia hollywoodiana e esteticamente o é. Cheio de viradas absolutamente previsíveis, fim mais previsível ainda, lindas tomadas externas de Boston e Nova Iorque, alguns diálogos familiares óbvios. Mas ele é mais: tem aquela narração pontuando os acontecimentos mais típica de produções independentes americanas (acho que os grandes estúdios aprenderam a copiá-los!), alguns personagens estranhos como a assistente da personagem de Sarah e o principal: assuntos nada leves.

São dois. O primeiro é a culpa que a mãe dedicada e apaixonada por seu trabalho carrega em relação aos filhos. Eterna, forte, inconciliável. O segundo é o mundo tradicionalmente masculino do trabalho em que temos que nos inserir. Não é só o machismo, mas a forma de encarar o trabalho forjada por um capitalismo antigo, extremamente competitivo, em que é quase normal se passar a perna um no outro, em que o bom funcionário é aquele que dedica todo o seu tempo para o trabalho, mesmo aquele que deveria ser usado para os filhos, o marido, enfim, o cônjuge, qualquer que seja o sexo do funcionário.

Na minha insônia, que não acontecia há meses, fiquei pensando em como este filme poderia ser anacrônico, mas concluí que, infelizmente, não é. Existem, sim, aquelas empresas que incluem a diversão e o descanso em seu próprio ambiente, na rotina de seus trabalhadores, até como forma de aumentar a criatividade. Mas elas ainda são notícia, o que significa que são raridade.

Vivemos mesmo neste capitalismo antigo, onde sempre tem um chefe ou subchefe que acha que a correria e o estresse, às vezes turbinado pela gritaria, devem imperar no ambiente de trabalho. Se não são chefes homens, são mulheres que acham que devem mostrar que conseguem fazer o trabalho dos homens como os homens, deixando de lado a delicadeza e a famosa flexibilidade femininas. Não falo da positiva objetividade dos homens, mas das características maléficas que já citei anteriormente.

Nestes ambientes de trabalho, cobra-se o que não se precisaria cobrar, deixa-se de valorizar o que foi feito de bom verbalmente, se dá valor à puxa-saquice e à demonstração de superioridade em relação aos colegas. Infelizmente, andei trabalhando em lugares com algumas destas características, tanto em redações quanto em gabinetes de políticos. Atualmente não e foi por isto que minhas insônias praticamente sumiram. Injustiça deve ser a maior causa da insônia, junto com ansiedade.

O filme mostra esta angústia aliada a outra mais típica nas mulheres de hoje. Além de termos que provar que somos boas profissionais, ainda temos que demonstrar, inclusive a nós mesmas, que podemos sê-lo sem deixar de lado outra obrigação que nos consome: ser boas mães. Ser presentes na vida de nossos filhos.

Ontem foi um dia emblemático em relação a isto. Fui ao cinema sozinha depois de meses. Quando o filme começou, mandei uma mensagem de texto dizendo a meu marido que nosso filho estava com a babá e a avó. Quando contei a ele sobre o tema do filme, ele me disse, rindo: “Ah, então foi por isso que você mandou aquela mensagem de dentro do cinema?!”. É, a culpa da mãe nos faz contrariar até princípios sólidos como não atrapalhar os outros acendendo o celular dentro do cinema. E Hollywood, definitivamente, já não é mais tão água com açúcar.

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