Posts made in março, 2012

Chile à flor da pele

A imagem do Chile para mim sempre foi associada aos acontecimentos políticos da segunda metade do século XX. O primeiro governo socialista a que se chegou com eleições, o de Salvador Allende, o violento golpe de Estado que o tirou do poder em 1973, e a duríssima ditadura militar que se seguiu a ele, deixando milhares de mortos e desaparecidos- um número imensamente maior que no Brasil- e durando até 1989. Meu pai havia estudado em um instituto de pós-graduação por três meses em Santiago nos anos sessenta e desde criancinha eu o ouvia falar de Allende como de um verdadeiro herói. Minha primeira viagem a Santiago não poderia, portanto, ser dedicada apenas à degustação dos vinhos chilenos, estes que são os melhores e mais tradicionais vinhos do Novo Mundo, com algumas vinícolas datando do século XIX. Eu e meu marido, recém-saídos do curso avançado da Associação Brasileira de Sommeliers (ABS) e empolgadíssimos com as visitas aos vinhedos e vinícolas do Vale do Colchágua, teríamos que dividir nossos quatro dias e meio de viagem entre história e vinhos. E assim o fizemos (Abaixo, o belo Palácio de la Moneda).

Logo na noite em que chegamos, pleno sábado de carnaval no Brasil, fomos explorar a Avenida Providência, o centro já decadente de um dos bairros que abrigam muitos restaurantes e bares, alguns deles famosos. É só sair da Avenida que o clima se transforma, estamos em um bairro aconchegante, de casas e prédios baixos. Por recomendação de um casal de colegas do curso da ABS, fomos ao Baco, um bistrô super agradável onde pode se tomar diversos vinhos na taça (peça “por copa”), entre eles alguns dos títulos Tops de vinícolas famosas como a Lapostolle. Acompanhando um tartare de salmão e um crepe de espinafre com salmão de meu marido, tomamos um Leyda Chardonnay 2009 que começou muito ácido, mas após 15 minutos, estava muito bom. Experimentamos, então, o Cuvée Alexandre, safra 2009, Pinot Noir, um dos vinhos produzidos pela moderna Vinícola Casa Lapostolle, que tem como consultor o famoso enólogo francês Michel Rolland, especialista em melhorar os vinhos da América do Sul, aproximando suas técnicas das do Velho Mundo. Estava achando o Cuvée Alexandre delicioso (adoro a delicada uva Pinot Noir desde nossa viagem à Borgonha, seu lugar natal, durante nossa Lua de Mel em 2006) até sentir o gosto do Altair, assemblage (cabernet sauvignon, carmenère e syrat), 2006. Que vinho maravilhoso, saborosíssimo, com toque de pimenta acentuado. O Altair, que está entre os Top vinhos do Chile, acima de 90 pontos em todas as revistas especializadas, foi um dos vinhos mais interessantes que já provei. Compramos uma garrafa de uma safra mais recente depois. Bebendo aquele vinho ao som de um jazz antigo com cara de filme de Woody Allen, sentíamos que nossa viagem ao Chile não poderia ter começado melhor.

Emoção e terror
Um dos entrevistados que aparece em um vídeo do Museu dos Direitos Humanos diz que nunca houvera um golpe de Estado em que o Palácio do governo tivesse sido bombardeado até o Golpe de 1973 no Chile. Por meio de um vídeo com imagens do fatídico dia da tomada do poder pelos militares, o Museu aproxima seus visitantes do bombardeio aéreo feito ao Palácio de La Moneda, em que estava o presidente Salvador Allende. Uma estação de áudio mostra a última entrevista dada pelo presidente falando a uma rádio, escondido debaixo de uma mesa. Era uma despedida emocionante e firme. Allende foi encontrado morto em uma das salas do Palácio e a versão oficial diz que ele se suicidou. Nos últimos anos, porém, as investigações foram reabertas para averiguar se, na verdade, ele não foi executado.

O primeiro discurso dos militares que tomaram o poder, capitaneados por Augusto Pinochet, também pode ser ouvido no museu. Na parte mais emocionante e aterrorizante da exposição permanente estão cartas aos novos governantes escritas por crianças que perguntam por seus pais desaparecidos. Há ainda uma máquina de tortura, descrições de como a tortura ela era feita e fotos de todos os desaparecidos, expostas em um grande mural.

O que espanta era a forma explícita como as mortes aconteciam. Grupos de pessoas eram executados de uma só vez. E o número de desaparecidos é contado aos milhares. Não dá para deixar de observar o contraste: um museu lindo e moderno com um conteúdo aterrorizante. Um empreendimento só possível em um governo de esquerda como o da ex-presidente Michele Bachelet.

Moda e anos 80
Para compensar a contundência do Museu dos Direitos Humanos, seguimos para o Museu da Moda, criado pelo filho do dono de uma fábrica de tecidos, na bela casa modernista que foi da família. A mostra em cartaz no momento é em homenagem aos anos 80. Logo na entrada, nos deparamos com uma instalação com cinco carros daquela década enterrados de cabeça para baixo no jardim.

Dentro da casa, entre um quarto e outro com a mobília antiga de bom gosto preservada, estão modelos originais de marcas famosas como Chanel, Lacroix, Carolina Herrera e diversos outros estilistas internacionais e chilenos. Estão ali também os visuais roqueiros londrinos dos anos 80, o famoso bustiê pontudo feito por Jean-Paul Gautier para Madonna e diversas capas de revistas de moda estreladas por modelos daquela época como Cindy Crawford. Um ponto alto da mostra é a réplica do carro De Lorean dirigido por Marty Macfly (Michael J. Fox) em “De volta para o futuro”. Há ainda a jaqueta original usada pelo ator em “De volta para o futuro II”. A viagem de volta aos anos 80 é regada a muita música dos grupos da época. O ambiente perfeito para uma festa nostálgica, eu saí pensando.

Balneário
Vinã del Mar é um simpático balneário na costa do gelado Oceano Pacífico. No dia em que fomos começaria o famoso Festival de música de Viña del Mar, considerado o principal em língua espanhola do mundo. Conhecemos o local onde, à noite, ficaria o tapete vermelho por que as estrelas da televisão e da música chilenas passariam. Fizeram parte desta edição o cantor naturalizado mexicano Luis Miguel e o ex-vocalista dos Smiths, Stephen Morrisey.

O dia em Viña deveria ser passado na praia. É uma praia agradável, o mar é verde-azulado e, embora gelado demais para um banho completo- a temperatura máxima é de 14º C-, serve muito bem para refrescar o banhista. Viña é a praia por excelência dos chilenos, especialmente no mês de fevereiro, as férias deles. Infelizmente, a agência de turismo não avisou a ninguém para levar roupa de banho e tivemos que apreciar o Pacífico de tênis mesmo.

Um ponto alto de Vinã é um moai de três metros trazido da Ilha de Páscoa. Os moais são esculturas gigantes (algumas têm até 20 metros) feitas pelo Povo Rapa Nui, que habitou a ilha polinésia- que depois se tornaria território chileno- entre os séculos V e VIII depois de Cristo. Os moais representam rostos humanos e impressionam por seu tamanho.

Valparaíso, o segundo maior porto do País, parece já ter sido uma cidade bonita. A grande maioria dos prédios neoclássicos e das casas de madeira sobre os morros onde as pessoas moram está velha e com a pintura desgastada. Se for conhecer a cidade, onde fica o Congresso Nacional do Chile (!), peça para incluir a casa de Pablo Neruda no programa. O escritor é um dos dois ganhadores do Prêmio Nobel do Chile. A outra é Gabriela Mistral. Nosso programa não incluía a casa!

Culinária típica… peruana
A culinária peruana está ganhando cada vez mais fama e se espalhando pelo mundo. Os dois restaurantes peruanos a que fomos têm filiais em diversas capitais da América Latina e o “Astrid y Gastón”, um dos melhores de Santiago, já chegou inclusive a Los Angeles. A comida é muito boa, mas cuidado com as entradas de mariscos, algumas muito picantes.

No nosso hotel – o supermoderno e aconchegante W- fica o “Osaka”, um peruano misturado com japonês, com muito peixe cru ou apenas grelhado por fora e muitos pratos agridoces. Comi um ceviche thai agridoce e um salmão com um molho também levemente doce. Meu marido foi de lomo (uma espécie de filé)- muito macio!- com cogumelos e queijo parmesão. E repare nos drinks: espumante rosé com lichia e Pisco Thai, com manga e uma erva local que o deixa delicioso!

Por causa das férias de fevereiro dois restaurantes também bem indicados pelos guias e por amigos estavam fechados durante todo o mês: o “Onde está Coco?”, francês; e o “Como água para chocolate”, de comida latino-americana contemporânea. A partir de agora, acho que vale a pena incluí-los no roteiro, especialmente o primeiro.

Menos pela comida e mais pelo ambiente, fomos conhecer o Mercado Central. É um mercado que vende peixes e frutas frescos nas laterais e tem restaurantes especialmente de frutos do mar no centro. Para quem não conhece, vale experimentar a centolla, um caranguejo gigantesco que é aberto na hora pelo garçom.

Assim como no resto de Santiago- especialmente no nosso feriado de carnaval-, o Mercado é lotado de brasileiros e muitos garçons falam português. O prédio do Mercado, com um teto em ferro do início do século XX, também justifica a visita.

Vinícolas em tempo de colheita!
Tivemos muita sorte no passeio às vinícolas. Escolhemos o Vale do Colchágua, um dos mais importantes atualmente. Começamos com a Vinícola Montgrass, cujos vinhos não são tão famosos, mas que tem um tour superdidático antes da degustação em si. Para facilitar para o visitante, as parreiras de todas as cepas (tipos de uva) mais importantes são plantadas lado a lado. Nosso guia, que além de espanhol, falava um inglês perfeito e rápido, foi nos mostrando as diferenças entre as uvas e o melhor: pudemos prová-las diretamente do cacho. Cabernet sauvignon, merlot, malbec, minha querida pinot noir, sauvignon blanc e chardonay, fomos provando uma a uma.

Como era época de colheita das uvas brancas, pudemos ver as sauvignon blancs chegando das parreiras e subindo por um túnel em direção à prensagem. Nessa vinícola, como na maior parte das do Novo Mundo, elas são colhidas por máquinas.

Fomos, então, para o grande tanque de inox onde o vinho é fermentado. Como as sauvignon blancs não passam por envelhecimento, o vinho saía pronto da fermentação. Cristián, o guia, abriu a torneirinha e, um a um, tomamos o vinho diretamente do enorme reservatório! Uma experiência rara.

Na hora da degustação, Cristián propôs um brinde. “Skol!”, disse aos visitantes suecos que estavam no grupo. Ali descobrimos que o nome de nossa famosa cerveja significa “saúde” em sueco.

Modernidade aliada à tradição
Almoçamos no restaurante do principal hotel da pequena cidade de Santa Cruz, habitada por pessoas que trabalham nas vinícolas da região e em outras plantações. O presidente chileno Sebastián Piñera visitaria a Santa Cruz à tarde, em um giro pelas cidades afetadas pelo terremoto de 2010. Nas dependências do hotel fica também um museu com a história do Chile desde os povos pré-colombianos até o resgate dos mineiros que ficaram presos em uma mina no ano passado. O resgate foi acompanhado de perto por Piñera e deu grande popularidade ao presidente, hoje muito em baixa. Uma das cápsulas usadas no resgate está no museu e pude ver de perto como deve ter sido extremamente claustrofóbica a permanência naquele espaço exíguo.

Um dos pontos altos da viagem foi, sem dúvida, a visita à Casa Lapostolle. Ali apenas passamos pelos vinhedos, mas passeamos pelos grandes tanques de madeira colocados lado a lado formando um grande círculo, em um projeto arquitetônico superarrojado.

Seguindo a consultoria do enólogo francês Michel Rolland, a colheita é toda feita à mão e todos os vinhos passam por amadurecimento em barril de carvalho. A Lapostolle produz em pouca quantidade e se dedica a vinhos de alta qualidade. Num subsolo cheio de barris onde os vinhos ganhavam madeira, provamos o Cuvée Alexandre, o rótulo mais simples da vinícola, mas ainda assim muito bom (o mesmo que havíamos provado no Baco); e depois o famoso Clos Alpalta, que há alguns anos foi considerado o melhor vinho do mundo!

Outra vantagem de visitar as vinícolas é comprar estes vinhos Top por preços módicos em relação ao seu custo no Brasil. Além de muitas histórias pra contar, trouxemos na bagagem (nas malas mesmo) oito vinhos que nunca teríamos coragem de comprar fora do Chile!

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