Posts made in maio, 2012

Dores e delícias da vida adulta

Num espectro de apenas três horas, pude presenciar no último fim de semana os dois extremos dos sentimentos que a vida adulta insiste em nos apresentar. Estava me preparando para assistir ao show de uma banda pop de que gosto muito, o Duran Duran, pela primeira vez na minha cidade, quando me telefona um amigo de minha turma de infância/pré-adolescência para me dar a pior notícia que se pode receber: a filha de um outro amigo, de pouco mais de um ano e meio de idade, havia sofrido um terrível acidente e morrido. Fui do céu ao inferno em um segundo.

O pai da menininha fazia parte da melhor turma de amigos que tive na vida. Uma turma de que já falei algumas vezes aqui no blog (ver “Ode à minha Brasília”, por exemplo), que começou quando eu tinha uns 10 anos, brincando de pique-bandeira, queimada e carrinho de rolimã debaixo do bloco e que, para nós meninas, terminou lá pelos 14 anos, após nossos primeiros namoros, daqueles inocentes em que éramos pedidas em namoro e a “relação” poderia se caracterizar por simples mãos dadas, um selinho, uma dança de rosto colado. Este amigo tinha sido meu segundo namorado de pré-adolescência, meu primeiro beijo, uma pessoa que, para usar as palavras usadas por ele próprio, trago no coração, mesmo depois de trinta anos do início da nossa turma.

No domingo, passei pela terrível experiência de sentir na pele a imensa dor de ver um grande amigo sofrer a pior das perdas: a de um filho. Ninguém quer ver uma pessoa que ama sofrer uma perda destas- sim, posso dizer com segurança que amo aqueles amigos de infância, tenho saudades das nossas festinhas, tenho saudades das nossas brincadeiras, muitas saudades de nossas idas ao Cine Karim a pé, sinto falta de ouvir as besteiras que dizem até hoje os integrantes da Farofa. Amizades de infância são como nenhuma outra. Trazem o frescor da inocência, da relação honesta, sem interesse algum envolvido. Dizem respeito a uma época em que praticamente só havia alegrias, quase não havia preocupações. São únicas.

Como muito bem disse o irmão de meu amigo no velório, o natural é enterrarmos nossos pais, não nossos filhos. Então, ficamos nos perguntando: por quê? Por que Deus escolheu tirar a vida de um filho? E permanecemos sem resposta, simplesmente porque não há resposta. Seria porque temos que carregar nossas cruzes? “Não”, respondeu o irmão. “Jesus teve que carregar sua cruz porque ele era Jesus. Nós não deveríamos ter que carregar uma cruz tão pesada”. Com a experiência de quem também já teve uma perda semelhante, concordei completamente com Roberto, o sábio irmão.

Após receber a ligação com a triste notícia, liguei para outra das amigas de nossa turma para contar a ela. “Como é difícil a vida adulta”, constatou Verinha. Nos últimos quatro anos, além da minha própria perda, tive uma amiga que perdeu uma filha pequena; diversos amigos, inclusive da turma de infância, que perderam os pais; e alguns amigos que enfrentaram doenças graves, como câncer. Isto com menos de 40 anos! Tenho a convicção de que a estressante vida moderna tem um papel importante nessa profusão de doenças prematuras.

O dia 28 de abril foi, portanto, um dia de encontros, os piores e os melhores. Como já havia comprado os ingressos há dois meses, fui assistir ao show do Duran Duran, uma banda que ouvi pela primeira vez justamente na época daquela turma, nos idos de 1981. Seria a segunda vez em seis meses que assistiria ao show deles e a terceira em minha vida, a primeira das quais no Hollywood Rock de 1988 (ver “Duran Duran 24 anos depois! E SWU, um Woodstock às avessas” aqui no blog).

Coincidência?
Apesar da tristeza, segui para o show com a tranquilidade de que o grupo inglês não cantaria seu maior sucesso, “Save a Prayer”, como havia anunciado em entrevistas lidas por um grupo de fãs que acompanham o grupo a todos os concertos que fazem, que havíamos conhecido à tarde no hotel em que a banda estava hospedada. A bela balada “Save a Prayer” me remete a uma das festinhas da turma, quando eu a dancei justamente com aquele namorado que havia sido vítima da fatalidade. A coincidência era enorme.

Tinha ido almoçar no hotel onde a banda estava hospedada movida por um espírito nostálgico de me encontrar com algum de seus integrantes, trocar algumas palavras e conseguir autógrafos para os dois Cds que não parava de ouvir há um mês: o antiquíssimo Rio (o segundo da carreira e melhor deles, de 1982) e o mais recente, “All you need is now” (de 2010), muito bom, produzido por Mark Ronson, responsável por Cds de Amy Winehouse, Adéle e outros ótimos artistas da nova safra de ingleses. Agora em casa, já que a banda tocaria em Brasília pela primeira vez, eu repetiria minha façanha de 1988 quando conseguira os autógrafos dos cinco integrantes do Duran entrando disfarçada de gringa no Copacabana Palace aos 19 anos.

Desta vez nada disso seria necessário. Nada da horda de fãs do auge da banda nos anos 80, apenas quatro seguidoras sentadas no sofá do lobby do hotel, onde também se hospedaram, de propósito. Todas vindas de outras cidades, todas com passagens e tickets para os três shows da banda no Brasil (além de Brasília, Rio e São Paulo) e uma delas também para o de Buenos Aires. A gaúcha Ana Paula, de 32 anos, diz que “segue” o Duran desde 1978, apesar de ter nascido em 1979. Sabe detalhes sobre o baixista e maior galã da banda, John Taylor, como o fato de ele ter parado de fumar em dezembro de 2010. Em seu colo está uma caixa com presentes para o ídolo: livros de fotos do Brasil, Rio Grande do Sul e Bahia (“ele disse que quer ir lá”) e um CD de Vanessa da Mata, “para ele conhecer” (Na foto, abaixo, da esquerda para a direita, Ana Paula, Marina e a mineira Ariadne, que sabe tudo sobre Simon).

Marina, a mascote, começou a gostar da banda inglesa na barriga de sua mãe. “Ela ouvia ‘Save a Prayer’ quando estava grávida de mim”, conta a goiana, radicada em São Paulo. E como descobrem em que hotel eles se hospedam? “Depende, desta vez pedi ao Simon (Le Bon, vocalista), pelo twitter, que postasse uma foto da janela de onde estava hospedado. Ele colocou uma foto da Torre de TV. Aí foi fácil”, conta Marina, completando que os artistas estão hospedados no 18o andar. “Décimo nono”, corrige Marly, paulista de 43 anos.

Marly diz que começou a gostar de Simon e companhia em 1981 e que a primeira música que lhe chamou a atenção não foi “Save…”, e sim “Planet Earth”. Ela tem foto com os quatro integrantes remanescentes da formação original do grupo desde o ano passado, quando eles vieram ao Festival SWU e se hospedaram no Fasano de São Paulo. “Eles sempre se hospedam lá”, diz, íntima.

Tietagem discreta e informação
Umas duas horas depois, Simon Le Bom passa pelo lobby em direção à porta de saída. As quatro não se mexem. Eu nem percebo a presença do alto vocalista. “O Simon saiu, quando você tava almoçando”, me contam depois. “Mas por que vocês não falaram com ele?”, pergunto. “Ah, tem que saber chegar nele. Às vezes ele está mal humorado, xinga”, diz uma delas. Me pergunto que graça tem, então, ficar ali horas esperando sem falar com os caras.

Quando Simon volta do almoço, a mineira Adriane, 38, comenta: “ele está mais bem humorado”. Ainda assim ninguém se mexe. Se Ana Paula não me avisasse, o homem alto e encorpado vestido despretensiosamente, me passaria despercebido de novo. Simon encontra outro inglês, mais velho, que creio ser alguém da banda de Roger Hogson, ex-Supertramp, que se apresentaria na cidade no dia seguinte. “How are you?”, diz em alto e bom som. Era um dos responsáveis pela produção do show do próprio Duran, como vi quando subiu no palco à noite.

As “meninas” sabem tudo. O que teria feito Simon, Nick Rhodes (tecladista) e Roger Taylor (baterista) terem chegado a Brasília 5a feira de manhã se, como elas mesmo dizem, eles nem passam o som com antecedência (“só nas horas que antecedem ao show”, garantem)? “Eles vieram direto de Antígua (no Caribe), onde foram para uma comemoração dos 30 anos da gravação do (vídeo) clip de Rio”, me diz uma delas. O vídeo de “Rio”, em que eles cantam em cima de um iate sobre um mar esplendidamente azul, foi um dos vídeo-clips mais caros produzidos no auge da era MTV, nos anos 80. Aos olhos atuais, parece super kitch, mas na época realmente chamava a atenção. Mais especial ainda pra mim, porque “Rio” é minha canção favorita do grupo. Pode ser facilmente achado no You tube.

Show
Chegamos ao Centro de Convenções com uma hora de vinte de antecedência, já com os portões abertos, atrasados inclusive por causa da notícia do falecimento da filhinha de meu amigo. Conseguimos lugar na quinta fileira. As super fãs estão na primeira, claro. Ana Paula me conta que John Taylor desceu às 18 horas para dar uma entrevista à MTV. Ela conseguira dar seu presente a ele, que fora super simpático. Um verdadeiro “dream come true” para qualquer fã, ainda se interessou pelo conteúdo da caixa e elogiou o esforço dela em cobri-la com o nome dele repetido centenas de vezes. Claro que me deu uma pontona de inveja, John é também o MEU preferido desde sempre, detalhes no post do ano passado.

Apesar dos contratempos que só podem ser colocados na conta do amadorismo dos empresários de show de Brasília, a apresentação, em si, foi maravilhosa. Muito parecida com o do SWU: um relicário de sucessos dos anos 80 e início dos 90, de “The Reflex” a “Hungry like the wolf”, de “Ordinary World” a “Come undone”, com direito à incendiária “Is there something I should know?” que, salvo engano, não incluíram no show do ano passado, e a final um retumbante com a lindíssima “Rio”, replay do ano passado. Na hora de “Ordinary World”, Simon anunciou que chamaria ao palco uma menina brasileira que fez um cover da canção. Era Fernanda Takay, que se declarou fã do grupo desde pequenininha e não fez feio no dueto com o ídolo.

Enquanto Simon pulava no palco, ignorando seus 54 anos, John sorria o tempo todo, regendo o público em algumas músicas. A plateia, que encheu o teatro, dançou e cantou em pé o tempo todo, inclusive as músicas novas, que o pessoal do gargarejo já sabia de cor.

“All you need is now”, tentava nos convencer o cinquentão Simon Le Bon. A mim não convenceu. Depois de ouvir a inesperada “Save a Prayer” (nesta as meninas erraram) e me lembrar da festinha em que dancei com meu velho namorado, tive a certeza de que aquele era um dia de reencontro, de reencontro não só com o meu passado, o recente e o remoto, mas comigo mesma. Um dia daqueles em que sentimos fundo os prazeres e os enormes dissabores da vida adulta.

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