Posts made in outubro, 2012

A Paris das crianças

Desta vez, os parisienses realmente me surpreenderam: depois de quatro outras passagens maiores ou menores pela capital francesa, nunca pensei que um dia fosse achar seus habitantes gentis, bem educados. Meu marido disse logo: “é a força do dinheiro”, referindo-se à melhora da nossa economia e ao consequente aumento do número de brasileiros na Europa com dinheiro. Eterna romântica que sou, fiquei chateada. Será que a única razão para eles agora tratarem bem os “terceiro mundistas” é o dinheiro? Infelizmente, a conclusão mais óbvia era esta mesmo.

Pois bem, Paris desta vez me pareceu mais alegre, muito mais agradável e até mais bonita, se é que isto é possível. Estávamos acompanhados de nosso filho de quatro anos. Muito cedo pra ficar batendo perna por museus e as grandes avenidas abertas pelo Barão Haussemann? Provavelmente, mas pra mim é a única forma de viajar por mais de 15 dias pela Europa. Outras mães me contradiriam, mas para mim é dificílimo ficar mais de um fim de semana prolongado longe de meu filho e acredito que para ele também o seja. Solução: dividir a programação entre a adulta e a infantil. Com antecedência, programei tudo com a ajuda do bom e não tão velho google.

Claro que deixamos de fazer uma série de programas que faríamos se estivéssemos sem ele. Paris é um parque de diversões cultural para adultos, especialmente no verão. Perdi por alguns dias um show de Stewart Copeland-o ex-baterista do Police- com Stanley Jordan em uma casa de shows com um espetáculo melhor que o outro. Não deixe de comprar logo a revista Pariscope em qualquer banca. Isso fora os restaurantes à noite, os museus que não víamos há tempos, a Ópera, as peças de teatro, as mostras temporárias de cinema, artes plásticas, etc, etc, etc, a lista é quase interminável.

Em compensação, voltei a aproveitar programas que não fazia desde minha primeira visita a Paris com minha mãe e minha irmã, aos 16 anos: subir na Torre Eiffel, andar de Bateau Mouche, visitar o L’Orangerie, que abriga as Ninfeias de Monet… Programas que ele adorou e que serviram para desacelerarmos um pouco nosso ritmo.

 

Programas imperdíveis para os pequenos:

Eurodisney- O parque a alguns quilômetros de Paris é muito prático porque é muito menor do que a sede em Orlando. É subdividido apenas em dois: os estúdios, em que se pode assistir a diversos filmes da Disney e andar em brinquedos criados como se fizessem parte das cidades de cada personagem; e o parque maior, subdividido em cinco ambientes, como o futuro (do Buzzlightyear), o velho oeste (do Woody), o navio-pirata (de Piratas do Caribe), etc. Dá pra fazer tudo em um dia, se você for daqueles que acorda cedo. Se não, sugiro se hospedar em um dos hotéis próximos ao parque e dividir a programação em dois dias. A apresentação de fogos de artifício e desenhos a laser projetados no castelo da Cinderela em altíssima tecnologia é imperdível para crianças e para adultos. Até meu marido se encantou.

Museu do Avião- Este museu localizado em um pequeno aeroporto em um banlieu de Paris é fantástico para crianças que gostam de aviões e foguetes como meu filho. Há uma exposição da história do avião, com direito a uma sala dedicada a Santos Dummont e a protótipos de diversas aeronaves do início do século XX. Outros salões mostram os aviões da primeira e da segunda guerra mundiais, todos de verdade. As aeronaves do pós-guerra são representadas por maquetes. Há quatro aviões em que se pode entrar: dois concordes, um dos anos 60, outro dos 70; um Dakota americano; e um Boeing dos anos 70 que, de tão grande, tem até um carro no compartimento de bagagens. Há ainda dois foguetes ao ar livre e uma enorme exposição sobre a corrida espacial, com direito a filmes da época e foguetes desacoplados em que se vê a parte interna, além de diversos satélites. A ida até o museu pode se tornar uma aventura porque, ao sair do metrô, nos encontramos em um bairro só de estrangeiros, árabes, africanos. Dali pegamos um ônibus até o aeroporto. É uma viagem que vale muitíssimo a pena.

La Villete- Trata-se de uma cidade da ciência. Quando fomos, a cidade da criança estava fechada para reformas, mesmo assim meu filho aproveitou bastante as partes temáticas e, especialmente, a Géode, uma esfera espelhada gigante no interior da qual são projetados filmes em 3D. Assistimos à história dos dinossauros aquáticos e João ficou hipnotizado. A narração, em francês ou com traduções em espanhol ou inglês, não lhe fez falta. No restante da vila, vimos exposições sobre o nascimento da terra (podendo até tocar em um meteorito de verdade!), os meios de transporte, a evolução (João gostou de ver moscas mutantes no microscópio), e até sobre a propagação do som e da luz. Há também um planetário ao qual não fomos porque já íamos no museu do avião. Mas foi um erro, o de lá deve ser bem melhor. Vai-se facilmente, de metrô.

Giverny e Museu L’Orangerie- Minha intenção era fazer os dois programas para que nosso filho, que gosta muuuito de desenhar, pudesse ver os enormes quadros de Monet que retratam as ninfeias e conhecer o local onde elas foram pintadas. Ele terminou gostando mais de outras pinturas do L’Orangerie, mais modernas, e não ligou lá tanto para as obras do impressionista, que tomam paredes inteiras deste pequeno museu. Em compensação, adorou Giverny. Caminhar pelo belíssimo jardim que serviu de modelo para a série intitulada Ninfeias de Claude Monet, é um ótimo programa ao ar livre para um dia ensolarado. As choronas, as pontes japonesas e as próprias flores, cuidadosamente mantidas para que os visitantes se sintam dentro das famosas pinturas.

Nosso filho gostou muito de ver as abelhas- bem mais peludas do que as brasileiras- tirando o néctar das flores do jardim em frente à casa em que Monet viveu seus últimos anos com a segunda família. A casa, aliás, foi restaurada há pocuos anos e voltou a ter as cores marcantes nos cômodos exatamente como o pintor escolheu.

A pequena cidade de Giverny parece saída de um conto de fadas medieval com suas casinhas e ruelas e diversos cafés ao ar livre. Para completar, o túmulo de Monet e de toda a sua grande família está perfeitamente localizado ao lado da igreja românica da cidade. Pra quem gosta de arte, chega a ser um passeio emocionante. Sugiro, sem pensar muito, passar dois dias entre Giverny e a cidade vizinha Vernes, também muito bonita e tranquila.

Torre Eiffel- João esperou ansioso pela visita à torre que o encantava desde os dois anos, quando viu pela primeira vez o musical dos anos 70 com a história do Pequeno Príncipe. Falou o dia inteiro na Torre Eiffel, que pronuncia em francês, por (má?) influência da mãe. Havia uma fila de uma hora de espera no fim da tarde, então sugiro o passeio de manhã cedo, especialmente com crianças. Meu filho fala até hoje da torre, ele adora máquinas em geral, então gostou muito de subir os 320 metros de elevador até o topo com o pai. Eu me limitei ao segundo dos três andares e me lembrei do quanto a vista de Paris é linda, com o Sena cortando a cidade e com toda a reorganização produzida pelo Barão Haussemann no início do século XIX, por encomenda do imperador Napoleão III. Eu não subia nela 1985.

Também não me lembrava de como é alta a torre construída em homenagem aos 100 anos da Revolução Francesa -de 1887 a 1889- e exibida na Exposição Universal daquele último ano. A Torre de Eiffel foi o mais alto prédio do mundo até ser desbancada pelo Empire State, isso somente em 1931!

Tulleries- O lindíssimo jardim que liga o Louvre à Place de La Concorde reserva algumas surpresas para as crianças, escondidas entre suas incontáveis árvores, em meio àquela paisagem deslumbrante. Andando na direção da Place de La Concorde, vá olhando à sua direita que você encontrará um daqueles carrosséis tradicionais da Belle Époque, perfeito para uma parada com os pequenos. Bem próximo dali, há um parque voltado para crianças de três a 12 anos. Os brinquedos, muito diferentes aos olhos brasileiros, foram construídos em parceria com o Louvre. Crianças de diversas nacionalidades se divertiam entre o grande escorrega prateado e as gangorras em forma de flor e tentavam se entender em vários idiomas.

Palais Royale- O primeiro programa de João em Paris foi brincar entre as colunas modernas que ficam em um dos pátios abertos do Palais Royale. As colunas preto e brancas de vários tamanhos contrastam com o Palácio Neo-clássico que abrigou a realeza até sua transferência para Versalhes, na época do Rei Sol, Luís XIV. Não deixe de continuar andando porque as crianças também adoram as fontes e os caminhos formados pelas árvores que compõem o outro espaço aberto do Palácio. Ali fica o Grand Vefour, o único restaurante 3 estrelas do Guia Michelin a que fomos e que valeu cada centavo de Euro. Além da comida magnífica, o atendimento é digno da capital mundial da gastronomia. Já a história… bem, jantaram naquele restaurante de Napoleão e Josephine ao cineasta Jean Cocteau, passando pelo filósofo da RevoluçãoVoltaire e pelo escritor Victor Hugo. Fomos no almoço e, claro que não é o programa ideal para crianças, mas afinal, as pessoas têm que almoçar, certo?

Museu Rodin- João adorou correr pelos lindíssimos jardins e olhou atentamente algumas das esculturas do artista que se tornou famoso pelo “movimento” que imprimiu a suas obras. Num dia de mais calor, teria sido o programa ideal, mas o frio não chegou a atrapalhar. Dentro da casa que o escultor determinou que seria o Museu em que um dia ficariam suas obras, estão também algumas esculturas de Camille Claudel, uma de suas diversas amantes, e telas que Rodin tinha em casa. Entre elas, três de Van Gogh e uma do expressionista Edward Münch. As pequenas esculturas de Camille Claudel, em bronze e mármore verde, chamaram a atenção de meu filho, que ficou admirando a grande onda verde de uma delas. Entre as esculturas de Rodin que ficam no jardim, estão algumas das mais famosas: o enorme Balzac, o Pensador (com direito à Torre Eiffel bem atrás) e a porta do inferno de Dante. Programa imperdível, com ou sem filhos.

Triângulo da Moda (Avenue Montaigne, Faubourg Saint Honoré e Rue Royale)- São as ruas que reúnem as principais lojas das grandes marcas internacionais de roupas e sapatos, como Chanel, Prada, Gucci, Dior, Valentino, Manolo Blanik,  Diane Von Furstenberg, etc.  Claro que não é para crianças, mas elas não deixam de se divertir nas enormes e chiquérrimas lojas. Não se intimide em entrar nas que você mais gosta, nem que seja para conhecer seu interior e/ou as novas coleções. Mas se prepare: enquanto alguns chiquérrimos tomavam champanhe no primeiro andar da Chanel da Av. Montaigne, João se jogava no chão brincando no térreo. Em estando nesta Chanel, não perca o toalete, é lindíssimo! Já na Diane V. Furstenberg, João rearrumou todas as clutches (aquelas bolsinhas micras que, aliás, vão continuar em voga no inverno do ano que vem), colocando-as em fila indiana! Nem por isso deixei de ser bem tratada…

Roupas Criativas:

- Não deixe de olhar o site da Dpam (Du pareil au Même) pra ver qual dos diversos endereços da cadeia é o mais próximo do seu hotel. É uma lojinha cheia de roupas coloridas, criativas e muito baratas. Na rua St Placide, número 5, em Montparnasse, a loja de roupas fica em frente a outra só de sapatos. Como sempre, há mais opções para as meninas (lindos vestidos!) e para os bebês. Mas as botinhas (de camurça e galochas) para os meninos são imperdíveis, não há nada igual no Brasil.

- As cuequinhas multicoloridas com personagens do Disneystore (na Eurodisney ou no Champs Elisées) são uma graça, os meninos adoram! Já as meninas dificilmente resistirão aos vestidos de princesa que têm até armação na base para ficar “rodados”. O da cinderela tem dois lados: um da Gata Borralheira e outro da Princesa Cinderela.

-Se estiver no Champs Elisées, entre na enorme loja da Adidas. Tem tênis para todos os gostos e idades e casacos e calças esportivos pros pequenos a preços bem melhores do que no Brasil.

- A Zara Kids é uma boa opção para comprar roupas e sapatos básicos, bonitinhos e baratos. Há uma a cada quarteirão.

- Sempre que as compras ultrapassarem E$ 175, não deixe de pedir na loja o formulário para o detax, que permirá que você receba de volta os 12% de impostos que pagou. O formulário deve ser entregue na alfândega do último aeroporto da Europa por que você passar. Mas atenção: é uma operação bem burocrática, é necessário passar por uns três lugares, eles fazem tudo para dificultar o retorno do dinheiro. Chegue mais cedo ao aeroporto e leve as compras em uma mala de mão. Eles costumam pedir pra vê-las… Em último caso, você pode apenas carimbar todas as notas na alfândega e pedir o reembolso pelo correio já do Brasil.

Programas a que não conseguimos ir, mas recomendo:

- Parc d’Acclimatation- um parque maravilhoso (veja o site) com diversão que vai de passeios de pônei e trenzinho a teatro de bonecos. Existe desde o século XIX e também foi encomendado por Napoleão III, sobrinho que sucedeu a Bonaparte.

-Jardin de Louxembourg- o famoso jardim no meio da cidade, com fontes, muitas flores e caminhos, além do Palácio que é sede do Senado francês. Só não fomos porque o tempo fechou. Mas conheço e é o lugar perfeito para um piquenique debaixo das árvores. Os parisienses adoram levar sanduíches para almoçar ali.

-Jardin de Plants- à margem do Sena, abriga um jardim botânico, um zoológico e um museu de história natural, que conta a história da evolução. Em outubro, recebe uma exposição temporária de dinossauros.

-Parc d’Asterix- muito atraente, principalmente para crianças maiores. O site é fantástico. Há hotéis próximos, um deles, o mais caro, dentro do parque.

Curiosidades e dicas:

-João gostou muito das gárgolas de demônios que “saem” da Notre Dame. Contei a ele a história do corcunda que “morava” naquelas torres, simplificada, é claro, e ele pediu várias vezes que eu a repetisse.

-As crianças podem querer saber onde estão os artistas que fizeram as obras. Meu filho de quatro anos perguntou por Monet e Rodin. A solução é explicar sobre morte, túmulos e cemitérios, nesta idade eles acham até “legal”. Depois João quis conhecer o Pantéon e gostou de ver onde está enterrado Victor Hugo, que escreveu “O corcunda…”.

- Por razões óbvias, esculturas atraem mais as crianças pequenas do que pinturas. João chegou a dar a mão a uma estátua dos jardins de Rodin.

- Não aconselho levar crianças de menos de cinco anos a museus grandes. Elas se cansam. Não fomos nem ao Louvre, nem ao Museu D’Orsay, mesmo sabendo que nosso filho adora desenhar.

- Por outro lado, se seu filho já é maiorzinho, procure o programa do Louvre voltado para os pequenos copistas. Ou simplesmente o incentive a copiar por conta própria a obra que mais lhe chamou a atenção, ou ainda a interpretá-la livremente. Pessoas de todas as idades praticam a pintura há séculos copiando as grandes obras e ainda enchem seus corredores até hoje.

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