Posts made in novembro, 2012

Mais que Impressionismo no Rio

O Rio de Janeiro em uma semana de chuva também pode ser maravilhoso. Neste mês de novembro, as artes plásticas são, sem dúvida, o ponto alto da programação cultural da Cidade Maravilhosa. A exposição intitulada Impressionismo, com obras vindas do Museu D’Orsay, de Paris, tem muito mais do que os artistas do movimento que tinha a luz como protagonista. Tem realismo, pré-impressionismo, obras de fases pouco conhecidas de artistas impressionistas, pontilistas e por aí vai. Ocupa dois andares do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB)- o belo prédio que abrigou o primeiro Banco do Brasil do Império-, tem filas dando a volta no edifício e é aberta inclusive de madrugada.

No Paço Imperial, aquele prédio na Praça XV de onde Dom Pedro I disse ao povo que ficava, há três exposições interessantes, duas delas retrospectivas de artistas brasileiros importantes. A de Luiz Áquila mostra as diversas fases e faces desse carioca abstrato que gosta de pintar em grandes telas. Vai das obras figurativas do início da carreira até um mural que toma uma parede inteira. O principal, porém, são as telas grandes, com pinceladas largas em diversas paletas de cores, algumas mais pastéis, outras mais abertas.

Surrealismo no Paço
O outro é o carioca Roberto Magalhães, da geração anterior à do Parque Lage (anos 80), que tem um estilo pouquíssimo explorado por artistas brasileiros: o surrealismo. A exposição mostra seus desenhos, aliás, uma de suas atividades preferidas. Os autorretratos do início da carreira provam que ele poderia ter seguido um caminho acadêmico se quisesse. Logo em seguida, porém, começam os desenhos, em preto e branco, de pessoas com faces viradas, olhos na vertical, narizes enormes, desproporções.

Vêm, então, as obras coloridas de figuras animalescas ou com rostos compostos por frutas e verduras. Carros, tanques e aviões ganham designs originais. Um prato cheio pras crianças também!

Em uma sala do térreo está uma instalação bem sensorial. Estruturas em série servem de túnel para a luz que sai de um grande refletor. O público pode ver a luz de diversos ângulos e também uma névoa que enche todo o ambiente.

Joias
Estando no CCBB, em outro dia de preferência, não deixe de dar uma olhada também na retrospectiva da designer de joias pernambucana Clementina Duarte, no 4º andar. São muito bonitas e diferentes. Nos idos dos anos 70, ela começou moldando prata e pedras em joias que misturavam referências antigas e modernas.

Grandes colares retorcidos, outros retos com pedras foscas. Nos anos 80, as peças ficaram geométricas e mais minimalistas.

Clementina viajou para Paris e continuou a carreira lá. Começou também a usar ouro branco e voltou às pedras. Agora, em seu retorno, o desafio é se destacar em seu próprio País.

Gauguin na França e Renoir na Argélia
Primeiro eram os realistas: Gustav Coubert, Fantin-Latour… e eles estão lá na exposição. Aí vieram os pré-impressionistas como Camille Corot, um dos últimos artistas a pintar a tela com tinta escura antes de cobri-la com as cores definitivas. Os impressionistas parariam de fazer isso para que a luz parecesse mais natural. E mesmo os impressionistas famosos que estão na exposição mostram facetas não tão conhecidas. Gauguin, por exemplo, mais conhecido por sua fase primitivista, em que retratou as populações do Taiti, está na mostra com quadros “passados” na Bretanha, na França. As camponesas aparecem nas mesmas cores fortes que marcaram a produção asiática de Gauguin. Lindíssimo!

De Monet vemos uma pintura da estação Saint Lazare, em Paris, em 1877. São vários trens um ao lado do outro, com a fumaça saindo. O quadro testemunha a chegada da modernidade da Revolução Industrial, o teto da estação é feito de vidro e ferro. Renoir pode ser visto nas célebres pinturas de meninas ao piano, mas também há uma bela paisagem argelina.

E uma pequena (em tamanho) obra de Cézanne é uma das representantes do pós-impressionismo na mostra. A pintura de 1904 mostra rochedos tão próximos do observador que mais se parece um quadro abstrato.

A exposição é uma ótima oportunidade também para se ver obras de artistas menos conhecidos do grande público: a linda pintura de Jean Bereau de uma prostituta à espera do cliente visto no fundo; a Igreja Sacré Couer de Rousiñoly na Montmartre ainda rural de 1860; a obra de Henri Ottmann que parece contemporânea; as cores fortes de Émile Bernard; a suavidade de Berthe Morisot; e Bazille, Grigou…

Por todas essas “novidades” vale a pena se programar para enfrentar as filas que se formarão também no CCBB de Brasília no ano que vem.

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Vinícius de Moraes “de volta” aos Palcos

Imagine um show de Toquinho e Vinícius como se o poetinha ainda estivesse vivo, com o público sendo transportado para os anos 70. Vinícius de Moraes apareceria em forma de holograma declamando poesias e contando as histórias que deram origem às músicas que compôs com Toquinho e também com parceiros anteriores como Tom Jobim, João Gilberto, Baden Powell e até Chico Buarque.

Esta é a ideia central de um show que está sendo produzido por Toquinho, Paulo Ricardo e por instrumentistas experientes que acompanham os dois desde a gravação do CD. Após o show de Toquinho e Paulo Ricardo ontem em Brasília, um deles contou a novidade a Escritos do Ócio, afirmando que o atual show serve apenas como um ensaio para a “superprodução” que promete trazer em breve Vinícius de volta aos palcos brasileiros e europeus.

A depender do show que corre o País agora, baseado no CD “Toquinho e Paulo Ricardo cantam Vinícius” que o cantor e compositor paulista gravou com o ex-vocalista do RPM, o futuro espetáculo deverá ser emocionante. No show atual, os dois fazem uma espécie de retrospectiva da carreira musical de Vinícius, começando pela Bossa Nova, que ele ajudou a criar, e chegando até a fase baiana, em que usou referências da cultura africana para escrever suas letras.

Com cinquenta minutos de atraso que não pareceram incomodar o público brasiliense, Toquinho subiu ao palco improvisado no Unique Palace e cantou algumas músicas com os arranjos tradicionais e sem a presença de Paulo Ricardo. O cantor dos anos 80 também teve sua parte solo cantando sucessos internacionais dos anos 70 e 80 que estão no eclético CD, como “Careless Wispers”, do Wham (a banda em que George Michael começou a carreira), e a belíssima “Your Song”, de Elton John, em que teve o acompanhamento dos teclados.

Mas o ponto alto do show foram mesmo as interpretações dos dois juntos para as canções feitas por Vinícius com os diversos parceiros. Nem tanto pela participação de Paulo Ricardo, que apesar da boa voz, se limitou a sussurrar, mas pelas histórias que ele ía “tirando” de Toquinho sobre bastidores de um passado de glórias. “Tarde em Itapoã” e “Regra Três” feitas com o próprio Toquinho; “Eu sei que vou te amar”, “Corcovado”, “Água de beber”, “Insensatez” com Tom Jobim; “Samba do Avião” só de Tom; “Minha Namorada”, com Carlinhos Lyra; “Samba da Bênção”, “Pra quê chorar?” e “Canto de Ossanha”, com Baden Powell. Essa última uma versão eletrônica, uma das propostas do CD.

As histórias eram hilárias. Uma delas contava como o jornalista Antônio Maria, muito amigo de Vinícius, certa vez teve que pegar um avião pequeno para voltar a São Paulo e estava com muito medo. Ao seu lado, sentou-se uma bela mulher que lia um livro de poesias de… Vinícius de Moraes. Antônio Maria tentou se aproximar da moça, fazendo comentários sobre o livro, mas ela foi fria. Nisto, ele perguntou: “A senhora já viu uma foto de Vinícius?”. No que ela respondeu que não, ele prontamente disse: “Eu sou Vinícius de Moraes e fico feliz de a senhora estar lendo um livro que escrevi”. Os dois terminaram engatando um romance de uma noite. No dia seguinte, Antônio Maria telefonou para Vinícius contando a história. E arrematou: “Sinto lhe dizer, amigo, que ontem você brochou”. Dali surgiu “Samba do Avião”, contou Toquinho.

Outra história tem Chico Buarque. Quando o compositor estava exilado na Itália, fez “Samba de Orly” em parceria com Toquinho. “Vinícius tinha muito ciúme do Chico, aquele novo letrista”, comentou o cantor, acrescentando que o poetinha pediu para fazer parte da parceria. Letra e música enviadas para Vinícius, ele trocou apenas um verso. A censura terminou cortando justamente a contribuição dele. Quando Toquinho lhe contou o ocorrido, Vinícius saiu-se com essa: “Me inclua na parceria ou saia dela”.

Imagine isso tudo contado pelo próprio Vinícius.

 

 

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Robert Plant, peixes em lugares indevidos e outras memórias zeppelinianas

Na minha coleção de Revistas Bizz dos anos 80 ainda guardo uma crônica que contava que os integrantes do Led Zeppelin realizavam orgias com as groupies que estavam sempre na cola deles, chegando uma vez ao ponto de enfiar um peixe naquele lugar de uma delas. Por razões óbvias, nunca me esqueci dessa história. O senhor de 64 anos, camiseta listrada de azul e branco e barriga proeminente que subiu ao palco do Ginásio Nilson Nélson na semana passada nunca me faria supor que um dia tinha estado metido numa bagunça daquelas. A voz do Led Zeppelin, a lenda, Robert Plant sorria a cada vez que o público que lotou o ginásio ía ao delírio com uma de suas músicas.

O público era bastante heterogêneo: de pré-adolescentes a senhoras setentonas, a grande maioria de preto, com camisetas de bandas que íam de “The Wall” (Pink Floyd) a ACDC. Plant subiu ao palco com dez (!) minutos de atraso, anunciado como “Five times Grammy Winner”. A primeira música não era do Led Zeppelin, mas poderia ser. Começava lisérgica; seguia pra aquele hard rock tão característico que serviu de primeira inspiração pras bandas de rock pesado que viriam nos anos 70 e 80; voltava à psicodelia. “Obrigado Brasília”, disse Plant depois da primeira ovação.

Durante a segunda- só com violões- e a terceira músicas, o público ainda não dançava, parecia anestesiado. O show continuou com cara de acústico, além dos violões, baixo, pandeiro e teclado. O cheiro de maconha misturada com cigarro comercial enchia o ambiente ao lado do palco. Apesar da franja e dos cabelos pintados de louro, Plant ainda tem os trejeitos e o timbre que remetem àquele homem bonito da clássica foto dos anos 70, tirada por Bob Gruen em frente ao avião particular do Led.

Agora a banda Sensational Space Shifters está acompanhada do músico gambiano Juldeh Camara, que tocou instrumentos como o ritti, o kolog – uma espécie de rabeca, violino rústico do interior do nordeste brasileiro – e o bendir – um tipo de tamborim. Começa um blues com pegada africana. Afinal de onde vieram os blues senão dos norte-americanos descendentes de africanos? Carama ganha um backing vocal de luxo: Robert Plant.

A uma determinada altura do show, me sinto transportada para Woodstock. O tecladista Dave Smith, “o rei da psicodelia”, segundo Plant, tem uma grande parcela de culpa nisto. Ouve-se a introdução de “Black Dog”, mas os mais desavisados sequer a reconhecem de tão diferente que é a versão. Mais tarde, ouvimos a lindíssima “Going to Califórnia”, aliás, acho que o cantor também considera o “Led Zeppelin IV” o melhor dos discos de sua antiga banda.

No bis, Plant e banda voltam com nada menos que “Rock and Roll”, esta sim, com a cara da  segunda banda que mais vendeu discos na história, somente atrás dos Beatles. A essa altura, os violões já foram trocados por guitarras e os solos seriam capazes de orgulhar até um Jimmy Page. Entre outras canções do Led Zeppelin, a banda ainda tocou “Whole lot of Love” pra fã nenhum sair reclamando.

Plant e Page juntos no palco
Saí mais uma vez com a alma lavada daquele que era o terceiro show com Robert Plant a que assisti na vida. E com certeza, o mais eclético deles. Os outros dois tinham sido na década de 90 em São Paulo. O segundo junto com Jimmy Page, um verdadeiro sonho pra qualquer amante de rock. É verdade que Page babou, literalmente, o show inteiro, enquanto empunhava suas diversas guitarras, uma delas com dois braços.

Naquela época, o nome Robert Plant me remetia a três situações: ouvir “Stairway to Heaven” nas rádios dos anos 80; ver ex-vocalista do Led Zeppelin em carreira solo na MTV americana, com os cabelos repicados, cantando um clássico do início dos 60; e ouvir no 3 em 1 dos meus pais o primeiro disco da banda que comprei (em vinil, claro): Houses of the Holy, uma das capas mais lindas do rock.

Abre com “The song remains de same” e tem até um reaggae.  “Oh, oh, oh, oh, oh, oh, you don’t have to go…”. Eu amava aquele disco e ía me divertindo enquanto não conhecia o Led IV.

Em tempo: quem quiser entrar no clima que envolvia o Led Zeppelin no começo e no auge, pode assistir a “Quase Famosos” (Almost Famous, no original). O roteirista e diretor do filme, Cameron Crowe, se inspirou no Led pra criar a banda Stillwater, que o aspirante a jornalista da história segue até conseguir uma entrevista para a revista Rolling Stone. O adolescente é um alterego do próprio Crowe que, antes de ser cineasta, foi justamente jornalista de rock da famosa publicação especializada.

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