Robert Plant, peixes em lugares indevidos e outras memórias zeppelinianas

Robert Plant, peixes em lugares indevidos e outras memórias zeppelinianas

Na minha coleção de Revistas Bizz dos anos 80 ainda guardo uma crônica que contava que os integrantes do Led Zeppelin realizavam orgias com as groupies que estavam sempre na cola deles, chegando uma vez ao ponto de enfiar um peixe naquele lugar de uma delas. Por razões óbvias, nunca me esqueci dessa história. O senhor de 64 anos, camiseta listrada de azul e branco e barriga proeminente que subiu ao palco do Ginásio Nilson Nélson na semana passada nunca me faria supor que um dia tinha estado metido numa bagunça daquelas. A voz do Led Zeppelin, a lenda, Robert Plant sorria a cada vez que o público que lotou o ginásio ía ao delírio com uma de suas músicas.

O público era bastante heterogêneo: de pré-adolescentes a senhoras setentonas, a grande maioria de preto, com camisetas de bandas que íam de “The Wall” (Pink Floyd) a ACDC. Plant subiu ao palco com dez (!) minutos de atraso, anunciado como “Five times Grammy Winner”. A primeira música não era do Led Zeppelin, mas poderia ser. Começava lisérgica; seguia pra aquele hard rock tão característico que serviu de primeira inspiração pras bandas de rock pesado que viriam nos anos 70 e 80; voltava à psicodelia. “Obrigado Brasília”, disse Plant depois da primeira ovação.

Durante a segunda- só com violões- e a terceira músicas, o público ainda não dançava, parecia anestesiado. O show continuou com cara de acústico, além dos violões, baixo, pandeiro e teclado. O cheiro de maconha misturada com cigarro comercial enchia o ambiente ao lado do palco. Apesar da franja e dos cabelos pintados de louro, Plant ainda tem os trejeitos e o timbre que remetem àquele homem bonito da clássica foto dos anos 70, tirada por Bob Gruen em frente ao avião particular do Led.

Agora a banda Sensational Space Shifters está acompanhada do músico gambiano Juldeh Camara, que tocou instrumentos como o ritti, o kolog – uma espécie de rabeca, violino rústico do interior do nordeste brasileiro – e o bendir – um tipo de tamborim. Começa um blues com pegada africana. Afinal de onde vieram os blues senão dos norte-americanos descendentes de africanos? Carama ganha um backing vocal de luxo: Robert Plant.

A uma determinada altura do show, me sinto transportada para Woodstock. O tecladista Dave Smith, “o rei da psicodelia”, segundo Plant, tem uma grande parcela de culpa nisto. Ouve-se a introdução de “Black Dog”, mas os mais desavisados sequer a reconhecem de tão diferente que é a versão. Mais tarde, ouvimos a lindíssima “Going to Califórnia”, aliás, acho que o cantor também considera o “Led Zeppelin IV” o melhor dos discos de sua antiga banda.

No bis, Plant e banda voltam com nada menos que “Rock and Roll”, esta sim, com a cara da  segunda banda que mais vendeu discos na história, somente atrás dos Beatles. A essa altura, os violões já foram trocados por guitarras e os solos seriam capazes de orgulhar até um Jimmy Page. Entre outras canções do Led Zeppelin, a banda ainda tocou “Whole lot of Love” pra fã nenhum sair reclamando.

Plant e Page juntos no palco
Saí mais uma vez com a alma lavada daquele que era o terceiro show com Robert Plant a que assisti na vida. E com certeza, o mais eclético deles. Os outros dois tinham sido na década de 90 em São Paulo. O segundo junto com Jimmy Page, um verdadeiro sonho pra qualquer amante de rock. É verdade que Page babou, literalmente, o show inteiro, enquanto empunhava suas diversas guitarras, uma delas com dois braços.

Naquela época, o nome Robert Plant me remetia a três situações: ouvir “Stairway to Heaven” nas rádios dos anos 80; ver ex-vocalista do Led Zeppelin em carreira solo na MTV americana, com os cabelos repicados, cantando um clássico do início dos 60; e ouvir no 3 em 1 dos meus pais o primeiro disco da banda que comprei (em vinil, claro): Houses of the Holy, uma das capas mais lindas do rock.

Abre com “The song remains de same” e tem até um reaggae.  “Oh, oh, oh, oh, oh, oh, you don’t have to go…”. Eu amava aquele disco e ía me divertindo enquanto não conhecia o Led IV.

Em tempo: quem quiser entrar no clima que envolvia o Led Zeppelin no começo e no auge, pode assistir a “Quase Famosos” (Almost Famous, no original). O roteirista e diretor do filme, Cameron Crowe, se inspirou no Led pra criar a banda Stillwater, que o aspirante a jornalista da história segue até conseguir uma entrevista para a revista Rolling Stone. O adolescente é um alterego do próprio Crowe que, antes de ser cineasta, foi justamente jornalista de rock da famosa publicação especializada.

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