Basquiat, Nova Iorque, Jung e eu

Basquiat, Nova Iorque, Jung e eu

Certos acontecimentos nos fazem acreditar na máxima de Carl Jung de que não existem coincidências. É aquilo que o ex-discípulo e depois dissidente de Freud descreveu em sua Teoria da Sincronicidade. Um documentário em exibição no canal Cinemax me fez lembrar de um desses momentos sublimes que Jung consideraria como uma manifestação de sua teoria. O filme é “Jean-Michel Basquiat- the radiant child”, dirigido e produzido em 2010 pela cineasta Tamra Davis, amiga do artista que também fala sobre ele na produção.

Um filme amplo, muito visual, com um enorme acervo de obras desse desenhista e pintor negro da classe média nova-iorquina que resolveu morar nas ruas do East Village como forma de dar um significado bem próprio ao início de sua carreira. Filho de pai haitiano e mãe porto-riquenha, o menino Jean Michel cresceu vendo exposições nesta capital mundial da pintura contemporânea, levado pela mãe. “Quando era criança, eu queria ser cartunista, mas terminei optando pelo desenho, aos 15 anos”, diz Basquiat em um dos trechos da longa entrevista que serve de base para o filme, mostrando total naturalidade com a prematura opção profissional.

Misturando traços do grafite que pintava nas ruas sob o nome Samo com influências visuais e culturais africanas, Basquiat terminou sendo reconhecido no meio artístico alternativo da Nova Iorque dos anos 1980, passando das praças e casas de amigos onde vivia para o acampamento no porão da primeira galeria que resolveu investir nele. Ali, aos 20 anos, Jean Michel usou pela primeira vez as telas, grandes telas, deixando para trás a produção que tomava toda a casa em que morou com a namorada Suzana, no Village, em pequenos cartões postais (que vendeu por alguns anos nas ruas) e em portas e janelas.

A primeira exposição, com as telas produzidas na galeria, foi um sucesso total e lhe rendeu, de cara, U$ 200 mil, fazendo com que sua ascensão no meio artístico alternativo fosse imediata. A transição das ruas para as galerias, a pressão do sucesso repentino, o peso da celebridade em sua relação com os antigos amigos, a busca por um reconhecimento da elite cultural e dos grandes museus, a relação pessoal e profissional com Andy Warhol, a conturbada relação com o pai, a heroína e o trágico fim, está tudo ali, no documentário, contado por amigos e artistas que conviveram de perto com o artista.

O filme traz à tona a atmosfera incessante e sempre envolta nas notas do bebop em que Basquiat criava, sozinho ou entre uma conversa e outra com os amigos artistas plásticos e músicos. Seu trabalho, classificado depois como neoexpressionista, emergiu enquanto reinava o minimalismo e a arte conceitual, estilos totalmente diversos do seu. Isso fez com que ele tivesse sempre que se deparar com o racismo e com visões pouco abrangentes de sua obra (como considerá-la simplesmente primitivista) que, enquanto ele viveu, nunca chegaram a alcançar toda a sua genialidade.

O flerte com as outras formas de arte, e que ele levava para suas telas, fica evidente no filme, seja no namoro com Madonna ou no nome de sua banda, Gray, formada por ele e pelo então desconhecido ator Vincent Gallo. O nome foi inspirado no livro Henry Gray’s Anatomy of the Human Body, vulgarmente conhecido como Gray’s Anatomy, que se tornou um clássico da anatomia após ser publicado inicialmente em 1958.  Um trocadilho dá nome hoje à popular série de TV sobre médicos de um hospital de Seattle.

Sincronicidade
E onde entra a sincronicidade? Em 1996, eu morava no mesmo East Village, bairro de Manhattan que abrigou todos os movimentos da contracultura, do hippie ao punk, e onde ficam a faculdade Parsons, a New York University, teatros off Broadway e templos do rock como o CBGBs. Bairro onde também o aluguel era mais barato. A cem metros de meu apartamento, na rua 6, ficava Tompkins Square, a charmosa praça em que Basquiat morou em uma caixa de papelão, no início dos anos 80. Eu estava ali , em meu semestre sabático, para uma temporada de estudos, matriculada em uma disciplina em História da Arte no Fashion Institute of Technology (FIT) e outra em arte contemporânea na New School of Social Sciences, aquela criada pelos teóricos da Escola de Frankfurt quando fugiram da 2ª Guerra Mundial para a América e onde também está o Actors Studio, escola que formou tantos atores e que ajudou Marlon Brado, por exemplo, a forjar seu estilo naturalista de atuar, então original.

Foi naquele ano de 96 que o pintor Julian Schnabell, contemporâneo de Jean- Michel, lançou seu filme de ficção “Basquiat-Traços de uma vida” (foto acima), com o estreante Jeffrey Wright no papel do desenhista e pintor e com David Bowie como Andy Warhol. Naquele meu ano sabático, o filme mostrava justamente o universo ao qual eu estava sendo apresentada e terminou ajudando a me apresentar a ele. Resolvi abrir minha colaboração combinada com o então diretor do Correio Braziliense, Ricardo Noblat, escrevendo uma resenha sobre o filme.

E fui me encontrando, em filme, reportagem e vida real com as ruas e bares ainda gauche do East Village; as incríveis e acessíveis galerias do Soho, onde mais tarde cheguei a ver algumas grandes telas do próprio Basquiat; as chiques galerias da rua 57, tão almejadas e não alcançadas em vida por ele (onde está a Mary Boone, por exemplo, uma das mais famosas do mundo); uma grande mostra de arte africana, que, por acaso -ou não?-, visitamos com a turma de arte contemporânea; o Moma; a ala moderna do Metropolitan Museum of Art; os dois Guggenheims, inclusive o menos conhecido deles é o do Soho, que ficava bem perto de casa.

O documentário de domingo passado aumentou para mim a dimensão tanto desse artista- que o filme considera o maior de sua geração-, quanto dessa coincidência do filme de 96 com minha própria jornada na cidade naquele momento, seja como estudante de arte, seja como correspondente iniciante na área cultural.

Se concretizava ali mais um episódio da teoria da sincronicidade que, anos antes, eu havia lido por influência de Sting, que a usou nas canções do (The) Police Sincronicity I e II. E Basquiat, o novo filme me mostra agora, era muito mais do que um louquinho inteligente amigo de Andy Warhol. Ele tinha tido uma sólida formação nas artes plásticas contemporâneas. A formação que a mãe dele, Matilde, escolheu lhe dar. A formação que os museus e galerias de Nova Iorque podem dar a alguém. A fonte na qual eu também bebi, guardadas as devidas proporções, e à qual sempre serei grata.

 

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