Posts made in fevereiro, 2013

O Oscar de olhos fechados

Que o Oscar nunca foi uma premiação a ser levada muito a sério todo mundo que entende um pouco do universo do cinema já sabe há tempos: tem a tradição de premiar filmes grandiloquentes, nacionalistas ao extremo ou dramas humanos individuais supervalorizados. A maioria dos quase 6 mil votantes não gosta de ver críticas ao seu querido País.

De vez em quando, porém, os votantes parecem querer dar um ar de novidade à tradicional noite do Oscar. Em 2010, premiaram “Guerra ao Terror”, que criticava a guerra em si, ao mostrar os problemas sociais/emocionais enfrentados pelos veteranos dos embates recentes, deixando a aventura grandiosa “Avatar” de fora. Em 1999, haviam dado a estatueta principal a um filme sobre um desajustado de meia idade, em “Beleza Americana”, filme visto por muitos como uma crítica à própria sociedade americana.

Neste ano, a Academia fez questão de mostrar que não está realmente preparada para dar visibilidade às feridas abertas de seu País. Desde que foi lançado, o segundo longa de Kathryn Bigelow- aquela que ganhara o Oscar três anos antes- “A hora mais escura”, foi fadado a ser ignorado pela Academia ao fazer um retrato realista das práticas do governo George W. Bush. Um filme realista, que mostra a tortura com todas as suas pesadas cores, um verdadeiro documento de um regime republicano ultrapassado, caiu em desgraça ao fazer a ponte entre a tortura e a captura de Osama Bin Laden, ocorrida já na gestão democrata de Barack Obama. Kathryn Bigelow desta vez tinha ido longe demais.

 

Ufanismo
Mais uma vez, os acadêmicos fizeram o que sabem fazer melhor: voltaram suas canetas para os filmes ufanistas: seu presidente mais famoso, Abraham Lincoln, e sua luta contra a escravidão; e uma derrota imputada ao regime do aiatolá Khomeíni no Irã de 1979, em Argo. Como se já não fosse suficiente dar uma rasteira no islamismo radical, isso ainda foi feito por meio de um estúdio de cinema, ou seja, com a ajuda da própria Hollywood. Hollywood adora uma metalinguagem, ama filmes que falem dela própria, como mostrou a festa do ano passado em que dois dos concorrentes (“O Artista” e “Hugo Cabret”) falavam sobre cinema. Para coroar o nacionalismo exacerbado, colocaram Michelle Obama para entregar o Oscar de melhor filme aos produtores de “Argo”, entre eles o democrata declarado George Clooney. Duvido que a primeira-dama dos EUA entregasse o prêmio se o ganhador fosse “A hora mais escura”.

É verdade que, inicialmente, os acadêmicos- eles próprios, atores, diretores, produtores e executivos da indústria cinematográfica- não queriam ver “Argo” vencedor.  A razão atende pelo nome de Ben Affleck. Tão grande é o conservadorismo desta Academia- reflexo das características do norte-americano médio- que tenho pra mim que o fato de Affleck lutar há anos contra o vício em álcool e drogas foi determinante na decisão de ignorá-lo nas indicações para o prêmio de melhor diretor. E apenas duas outras vezes na história do Oscar uma produção fora escolhida como a melhor sem que seu diretor também o fosse. A última havia sido 23 anos atrás, quando “Conduzindo Miss Daisy” ganhou sem que seu diretor tivesse sequer sido indicado.  

Sindicatos
A lógica de que os prêmios dos sindicatos são o principal indicador das escolhas do Oscar, porém, terminou vencendo nas últimas semanas. “Argo” levou pra casa os prêmios dos sindicatos dos atores (SAG), dos diretores, dos roteiristas e diversos outros, além do Globo de Ouro de drama. Foi ficando impossível ignorá-lo e o filme de Ben Affleck terminou derrubando o favorito “Lincoln”.

Este, por sua vez, contribuiu para sua própria derrocada. Era um filme sobre a escravidão em que os escravos praticamente não apareciam. Claustrofóbico. Com muitos diálogos complicados e pouquíssima ação. Neste sentido, pouco hollywoodiano.

Fazendo história
Apesar da apresentação chatinha do estreante Seth McFarlane e da homenagem tímida demais aos 50 anos de 007, deu gosto de ver Adele e Shirley Bassey cantando os temas do agente secreto da rainha; Barbra Streisand cantando “The way we were” e duas premiações fazerem história: “Argo” ganhando melhor filme mesmo com seu diretor sendo ignorado e Daniel Day-Lewis sendo o primeiro a levar três prêmios de melhor ator na história do Oscar.

Minha conclusão é a de que, em mais este quesito, somos bem mais avançados do que nossos colegas do norte. Nossos modestos festivais de cinema costumam premiar justamente os filmes que mostram nossas mazelas, sejam as sociais, sejam as políticas. Quantos e quantos filmes sobre a pobreza e o regime militar não ganharam prêmios importantes no Festival de Brasília e nos outros que só aumentam em número e se fortalecem País afora? Disso, podemos nos orgulhar.

 

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Previsões previsíveis- Oscar e STF

Sempre adorei escrever matérias de previsões. Previsões do placar dos julgamentos do Supremo Tribunal Federal (STF) quando havia algum tema importante em pauta e esperado pelos leitores do jornal. Previsões dos ganhadores das principais categorias do Oscar.

É que as previsões que os repórteres fazem não são, claro, baseadas apenas em suas intuições. Há indicadores importantes, tanto num caso quanto no outro, que nos levam a um resultado muitas vezes previsível, pelo menos para quem tem acesso a esses dados. Previsibilidade à parte, para mim sempre foi uma delícia fazer minha própria aposta, com o plus de ainda vê-la publicada ou indo ao ar na televisão.

Tenho convicção de que meu gosto por essas matérias tem a ver com minha paixão pelo jogo. Não o jogo por dinheiro, mas pelo prazer de jogar mesmo e também de ganhar. Aprendi a jogar bem novinha, lá pelos 8, 9 anos, com minha saudosa avó. Até quase a sua morte, aos 94, há três anos, vovó Otávia ainda jogava com os netos e maridos e mulheres deles, se não seu adorado xadrez, em que era craque, pelo menos um mexe-mexe, um 21 ou até um buraco básico mesmo. Depois dos 90, tínhamos que relembrar a ela o último lance do jogo antes de ela fazer sua próxima jogada: sua memória recente já não funcionava bem. Mesmo assim, com esse Parkinson em estágio inicial, vovó Otávia manteve o amor pelo jogo. Muito também para a felicidade dos netos que ela ajudou a viciar desde pequenos.

Conhecendo os ministros
Quando cobríamos STF, durante boa parte dos anos 90, eu pela Gazeta Mercantil e depois pelo Correio Braziliense, e meus colegas por Folha, O Globo, Estadão, Jornal do Brasil e Estado de Minas, convivíamos pelo menos três dias por semana com os 11 ministros do Supremo. Alguns, como Sepúlveda Pertence, Carlos Mário Velloso, Marco Aurélio Mello e Celso de Mello, hoje o decano, falavam mais com os jornalistas.

Celso de Mello chegava a nos levar até seu gabinete e nos dar verdadeiras aulas de direito constitucional, analisando algum processo que nos interessava. Marco Aurélio chegou uma vez a me telefonou em casa (há vinte anos não tínhamos celular pessoal), no meio de um jogo do Brasil da Copa do Mundo de 1994, para me passar uma nota sobre as eleições. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) é composto, em parte, por ministros do STF. Como eu não estava em casa, minha mãe rapidamente lhe passou o telefone da casa de minha amiga Adriana Lins, onde ele me encontrou.

Como éramos a primeira turma de repórteres que os jornais se interessaram em “setorizar” no judiciário depois da abertura política, os ministros mais velhos não estavam acostumados, eu diria, nem um pouco interessados em falar conosco. O decano de então, Moreira Alves, considerado o mais direitista de todos; Otávio Gallotti, Néry da Silveira e Ilmar Galvão, pelo menos no início, raramente nos atendiam e nem se davam o trabalho de usar o argumento de que as informações estavam nos autos do processo.

Com ou sem prestar esclarecimentos aos leitores, os ministros íam nos fazendo conhecer suas posições (fossem jurídicas ou políticas- sim, já existiam julgamentos políticos) ao longo dos julgamentos. Seus votos em assuntos correlatos e suas posições expressadas em off (off the record, expressão jornalística para informação publicada sem se citar a fonte) nos intervalos das sessões, serviam como indicadores de como iriam votar sobre um determinado assunto. Podíamos errar um ou outro voto, mas a maioria acertávamos. Claro que alguns julgamentos, como os dos mandados de segurança relativos ao processo de Impeachment do então presidente Fernando Collor de Mello, eram um pouco mais fáceis do que outros.

O Oscar e seus indicadores
No Oscar não era diferente. Nas três premiações que acompanhei como redatora da Rede Telecine, costumávamos fazer matérias sobre os favoritos em cada categoria da maior premiação do cinema americano. Como os membros da Academia (de artes e ciências de Hollywood) são mais de 6 mil, não seria uma boa tentar assuntar com eles. Assista-se então, aos prêmios de antecedem ao Oscar na temporada de premiações e junte-se a isso o conhecimento que vamos acumulando acerca dos gostos dos acadêmicos e cada ano.

Primeiro o Globo de Ouro, que não é tão importante assim para alcançar nosso objetivo porque é dividido nas subpremiações para drama; e comédia ou musical. O principal indicador no caso dos prêmios dados aos intérpretes é a premiação do Sindicato dos Atores (Screen Actor’s Guild), o SAG. Cerca de mil integrantes do sindicato participam também da Academia que vota no Oscar. É ou não é um indicador a ser levado em conta?

Melhor atriz- aposta: Jennifer Lawrence
Se não vejamos: para o Oscar de 2013, no ar para um bilhão de telespectadores dentro de 16 dias- em 24 de fevereiro- as consideradas favoritas ao prêmio de melhor atriz são Jessica Chastain (“A Hora mais escura”) e Jennifer Lawrence (realmente muito bem em “O lado bom da vida”), ambas já indicadas anteriormente, a primeira como atriz coadjuvante. Chastain ganhou o Globo de Ouro de melhor atriz em filme de drama. Lawrance ficou com o prêmio de atriz em comédia ou musical no mesmo Globo de Ouro, que aconteceu em janeiro passado. Jessica acumula um filme denso atrás do outro, leia-se “Histórias Cruzadas” e “A árvore da vida”. Mas a jovem Jennifer, de 22 anos, que havia sido indicada por “Inverno da Alma” em 2001, sai na frente na corrida depois de ter arrebatado há duas semanas o prêmio de melhor atriz no Screen Actor’s Guild, o poderoso SAG.

Melhor ator- aposta: Daniel Day-Lewis
Não aposto neste talentoso irlandês por ele já ter ganhado dois Oscar (primeiro por “Meu Pé Esquerdo”, depois por “Sangue Negro”) até porque um de seus concorrentes, Denzel Washington, também já ganhou dois. O que torna Day-Lewis o favorito disparado é o fato de ele ter ganhado o Globo de Ouro de melhor ator em drama… e o SAG. Pelo meu método, portanto, não tem pra ninguém. Corre por fora o também lindo (aliás, essa mais parece uma disputa de beleza!) Bradley Cooper, que se revelou no denso papel de um portador de transtorno bipolar no ótimo “O lado bom da vida”, após diversos papeis em comédias leves como a franquia “Se beber não case”.

Melhor diretor-aposta: Steven Spielberg
Spielberg deverá ganhar não só por seus próprios méritos da elogiada direção de “Lincoln” (lembrem-se que outro filme seu sobre a escravidão na América já havia sido muito bem recebido há 20 anos), mas também porque não terá que concorrer com Ben Affleck. Por alguma razão desconhecida, Affleck não foi indicado apesar de seu filme, “Argo”, estar mais do que no páreo pelo prêmio principal. Spielberg terá como principal concorrente Ang Lee, de “As aventuras de Pi” e ganhador por “O segredo de Brokeback Mountain”, em 2005. Mas todos apostam que os membros da Academia se curvarão à épica luta pelo fim da escravidão de seu mais importante presidente da República, Abraham Lincoln.

Melhor filme- aposta muito arriscada: “Lincoln”
Por que muito arriscada? , você perguntaria. Afinal, “Lincoln” é um filme nacionalista, épico, do jeito que Hollywood gosta, e eu apostei que seu ator ganharia o prêmio e que seu diretor ganharia-pela terceira vez- a estatueta. É que, indicações ao Oscar já feitas, o também nacionalista “Argo” pegou todo mundo de surpresa e ganhou o Globo de Ouro de melhor drama. Pra aumentar a confusão, Ben Affleck (na foto abaixo, ganhando o prêmio da associação de críticos de Los Angeles)  deu a volta por cima, deixou pra trás seu alcoolismo e sua depressão, e levou o Globo de Ouro de melhor diretor, para dividir a estante com a estatueta de melhor roteirista ganha por ele e o amigo Matt Damon em 1998 por “Gênio Indomável”.  Sabe há quantos anos um filme não ganha o Oscar sem que seu diretor seja também o vencedor na categoria de direção? Lá se vão 23 anos! O ano era 1990, o diretor não indicado era Bruce Baresford e o filme “Conduzindo Miss Daisy”. “Argo”, sem Affleck, terá que quebrar essa tradição para ser aclamado o melhor filme de 2012. Por isso prefiro apostar em “Lincoln”, nacionalista o suficiente para bater a boa história, porém bastante convencional, de “Argo”.

 

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