Previsões previsíveis- Oscar e STF

Previsões previsíveis- Oscar e STF

Sempre adorei escrever matérias de previsões. Previsões do placar dos julgamentos do Supremo Tribunal Federal (STF) quando havia algum tema importante em pauta e esperado pelos leitores do jornal. Previsões dos ganhadores das principais categorias do Oscar.

É que as previsões que os repórteres fazem não são, claro, baseadas apenas em suas intuições. Há indicadores importantes, tanto num caso quanto no outro, que nos levam a um resultado muitas vezes previsível, pelo menos para quem tem acesso a esses dados. Previsibilidade à parte, para mim sempre foi uma delícia fazer minha própria aposta, com o plus de ainda vê-la publicada ou indo ao ar na televisão.

Tenho convicção de que meu gosto por essas matérias tem a ver com minha paixão pelo jogo. Não o jogo por dinheiro, mas pelo prazer de jogar mesmo e também de ganhar. Aprendi a jogar bem novinha, lá pelos 8, 9 anos, com minha saudosa avó. Até quase a sua morte, aos 94, há três anos, vovó Otávia ainda jogava com os netos e maridos e mulheres deles, se não seu adorado xadrez, em que era craque, pelo menos um mexe-mexe, um 21 ou até um buraco básico mesmo. Depois dos 90, tínhamos que relembrar a ela o último lance do jogo antes de ela fazer sua próxima jogada: sua memória recente já não funcionava bem. Mesmo assim, com esse Parkinson em estágio inicial, vovó Otávia manteve o amor pelo jogo. Muito também para a felicidade dos netos que ela ajudou a viciar desde pequenos.

Conhecendo os ministros
Quando cobríamos STF, durante boa parte dos anos 90, eu pela Gazeta Mercantil e depois pelo Correio Braziliense, e meus colegas por Folha, O Globo, Estadão, Jornal do Brasil e Estado de Minas, convivíamos pelo menos três dias por semana com os 11 ministros do Supremo. Alguns, como Sepúlveda Pertence, Carlos Mário Velloso, Marco Aurélio Mello e Celso de Mello, hoje o decano, falavam mais com os jornalistas.

Celso de Mello chegava a nos levar até seu gabinete e nos dar verdadeiras aulas de direito constitucional, analisando algum processo que nos interessava. Marco Aurélio chegou uma vez a me telefonou em casa (há vinte anos não tínhamos celular pessoal), no meio de um jogo do Brasil da Copa do Mundo de 1994, para me passar uma nota sobre as eleições. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) é composto, em parte, por ministros do STF. Como eu não estava em casa, minha mãe rapidamente lhe passou o telefone da casa de minha amiga Adriana Lins, onde ele me encontrou.

Como éramos a primeira turma de repórteres que os jornais se interessaram em “setorizar” no judiciário depois da abertura política, os ministros mais velhos não estavam acostumados, eu diria, nem um pouco interessados em falar conosco. O decano de então, Moreira Alves, considerado o mais direitista de todos; Otávio Gallotti, Néry da Silveira e Ilmar Galvão, pelo menos no início, raramente nos atendiam e nem se davam o trabalho de usar o argumento de que as informações estavam nos autos do processo.

Com ou sem prestar esclarecimentos aos leitores, os ministros íam nos fazendo conhecer suas posições (fossem jurídicas ou políticas- sim, já existiam julgamentos políticos) ao longo dos julgamentos. Seus votos em assuntos correlatos e suas posições expressadas em off (off the record, expressão jornalística para informação publicada sem se citar a fonte) nos intervalos das sessões, serviam como indicadores de como iriam votar sobre um determinado assunto. Podíamos errar um ou outro voto, mas a maioria acertávamos. Claro que alguns julgamentos, como os dos mandados de segurança relativos ao processo de Impeachment do então presidente Fernando Collor de Mello, eram um pouco mais fáceis do que outros.

O Oscar e seus indicadores
No Oscar não era diferente. Nas três premiações que acompanhei como redatora da Rede Telecine, costumávamos fazer matérias sobre os favoritos em cada categoria da maior premiação do cinema americano. Como os membros da Academia (de artes e ciências de Hollywood) são mais de 6 mil, não seria uma boa tentar assuntar com eles. Assista-se então, aos prêmios de antecedem ao Oscar na temporada de premiações e junte-se a isso o conhecimento que vamos acumulando acerca dos gostos dos acadêmicos e cada ano.

Primeiro o Globo de Ouro, que não é tão importante assim para alcançar nosso objetivo porque é dividido nas subpremiações para drama; e comédia ou musical. O principal indicador no caso dos prêmios dados aos intérpretes é a premiação do Sindicato dos Atores (Screen Actor’s Guild), o SAG. Cerca de mil integrantes do sindicato participam também da Academia que vota no Oscar. É ou não é um indicador a ser levado em conta?

Melhor atriz- aposta: Jennifer Lawrence
Se não vejamos: para o Oscar de 2013, no ar para um bilhão de telespectadores dentro de 16 dias- em 24 de fevereiro- as consideradas favoritas ao prêmio de melhor atriz são Jessica Chastain (“A Hora mais escura”) e Jennifer Lawrence (realmente muito bem em “O lado bom da vida”), ambas já indicadas anteriormente, a primeira como atriz coadjuvante. Chastain ganhou o Globo de Ouro de melhor atriz em filme de drama. Lawrance ficou com o prêmio de atriz em comédia ou musical no mesmo Globo de Ouro, que aconteceu em janeiro passado. Jessica acumula um filme denso atrás do outro, leia-se “Histórias Cruzadas” e “A árvore da vida”. Mas a jovem Jennifer, de 22 anos, que havia sido indicada por “Inverno da Alma” em 2001, sai na frente na corrida depois de ter arrebatado há duas semanas o prêmio de melhor atriz no Screen Actor’s Guild, o poderoso SAG.

Melhor ator- aposta: Daniel Day-Lewis
Não aposto neste talentoso irlandês por ele já ter ganhado dois Oscar (primeiro por “Meu Pé Esquerdo”, depois por “Sangue Negro”) até porque um de seus concorrentes, Denzel Washington, também já ganhou dois. O que torna Day-Lewis o favorito disparado é o fato de ele ter ganhado o Globo de Ouro de melhor ator em drama… e o SAG. Pelo meu método, portanto, não tem pra ninguém. Corre por fora o também lindo (aliás, essa mais parece uma disputa de beleza!) Bradley Cooper, que se revelou no denso papel de um portador de transtorno bipolar no ótimo “O lado bom da vida”, após diversos papeis em comédias leves como a franquia “Se beber não case”.

Melhor diretor-aposta: Steven Spielberg
Spielberg deverá ganhar não só por seus próprios méritos da elogiada direção de “Lincoln” (lembrem-se que outro filme seu sobre a escravidão na América já havia sido muito bem recebido há 20 anos), mas também porque não terá que concorrer com Ben Affleck. Por alguma razão desconhecida, Affleck não foi indicado apesar de seu filme, “Argo”, estar mais do que no páreo pelo prêmio principal. Spielberg terá como principal concorrente Ang Lee, de “As aventuras de Pi” e ganhador por “O segredo de Brokeback Mountain”, em 2005. Mas todos apostam que os membros da Academia se curvarão à épica luta pelo fim da escravidão de seu mais importante presidente da República, Abraham Lincoln.

Melhor filme- aposta muito arriscada: “Lincoln”
Por que muito arriscada? , você perguntaria. Afinal, “Lincoln” é um filme nacionalista, épico, do jeito que Hollywood gosta, e eu apostei que seu ator ganharia o prêmio e que seu diretor ganharia-pela terceira vez- a estatueta. É que, indicações ao Oscar já feitas, o também nacionalista “Argo” pegou todo mundo de surpresa e ganhou o Globo de Ouro de melhor drama. Pra aumentar a confusão, Ben Affleck (na foto abaixo, ganhando o prêmio da associação de críticos de Los Angeles)  deu a volta por cima, deixou pra trás seu alcoolismo e sua depressão, e levou o Globo de Ouro de melhor diretor, para dividir a estante com a estatueta de melhor roteirista ganha por ele e o amigo Matt Damon em 1998 por “Gênio Indomável”.  Sabe há quantos anos um filme não ganha o Oscar sem que seu diretor seja também o vencedor na categoria de direção? Lá se vão 23 anos! O ano era 1990, o diretor não indicado era Bruce Baresford e o filme “Conduzindo Miss Daisy”. “Argo”, sem Affleck, terá que quebrar essa tradição para ser aclamado o melhor filme de 2012. Por isso prefiro apostar em “Lincoln”, nacionalista o suficiente para bater a boa história, porém bastante convencional, de “Argo”.

 

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