Posts made in abril, 2013

Festa no interior

Cresci na cidade, aliás, em várias delas, mas sempre gostei do interior. Pra quem acredita que o genótipo pode interferir a esse ponto, deve estar no sangue. Meu pai nasceu em Caruaru, minha mãe em Garanhuns, ambos no agreste pernambucano. Sou uma das brasileiras que conhecia Garanhuns muito antes de Lula virar presidente e antes de Bruno Barreto mostrar ao mundo em seu filme, “Lula- filho do Brasil”, Caetés, vilarejo no entorno de Garanhuns.

Como sou muito ligada no que acontece ao meu redor, especialmente nas áreas cultural e política- respectivamente a que mais me interessa e a em que trabalho- tenho no interior o meu maior refúgio. A calma, a natureza, me fazem muito bem. São o equilíbrio necessário para pessoas agitadas. Não tem rock, não tem jornal de nível nacional ou internacional, não tem nem muita MPB.

Sempre digo que os melhores anos-novos da minha vida foram os de Bezerros, que fica bem antes de Garanhuns, na Zona da Mata de Pernambuco. É onde sempre morou a família de minha mãe por parte do pai dela, ou seja, meus tios-avós, irmãos de meu avô Zé Sales, que virou nome de rua em Garanhuns por ele dedicar parte de seu tempo a atender os pobres de Garanhuns, para onde se mudou depois de adulto.

O ano novo em Bezerros era fantástico para uma criança ou um adolescente. Antes da meia-noite, íamos com os primos de segundo grau ao parque de diversões montado na praça central dessa cidade de 58 mil habitantes. Dos brinquedos, todos de madeira pintada de cores vivas, o que mais me lembro é a barca. Empurrados por primos de 1 metro e 90, Guilherme e Ricardo- é, há uma herança holandesa na família-, os barcos ficavam a 90 graus do chão, na verdade 100 graus, quase rodavam. Isso na época em que tínhamos 10, 11 anos.

Breu total
À meia-noite, normalmente passada na casa colonial de tias Cau e Emília (que aparece na foto acima), irmãs de vovô, todas as luzes da cidade se apagavam. Lembro-me das luzes de 1984. Quando se acenderam de novo, uns dois minutos depois, estava escrito 1985 na fachada da igreja. Aquilo era absolutamente mágico pra nós. Houve um ano-novo em que eu abri os braços na hora em que escureceu. E lá se foram os óculos de meu primo Tota. Ele ficou às escuras mais tempo que todos nós. Quando clareou , já no ano seguinte, Tota conseguiu recuperar seus óculos que haviam caído atrás do muro baixo, no jardim do vizinho. Foi a história daquele réveillon.

Em outra casa animada, a de Flavinho, primo de minha mãe, a anfitriã, mulher dele, era a animação em pessoa. Não se continha em soltar piadinhas envolvendo o tema da noite. “Você não escova os dentes desde o ano passado, fulana”. No dia primeiro, sempre voltávamos pra tomar o primeiro banho do ano na pequena piscina feita de cimento que ficava no quintal dos fundos da casa. Em pleno calor do verão nordestino, era uma delícia!

Forró e Noel Rosa
Quem já era mais velho, virava a noite no forró da casa de outro primo, bem pertinho da Igreja. Era animadíssimo. E ninguém podia deixar de visitar, do outro lado da rua, Tia Lilía, que morreu com 107 anos, ainda lúcida e cuidando das contas da casa.

Houve um ano-novo em que viramos a noite na fazenda de tio Plínio, irmão de minha mãe, tocando violão e cantando Noel Rosa e Cartola. Isso importados por minhas primas moradoras do sudeste. Nunca as passagens de ano foram tão boas como as de Bezerros.

Instância turística
Por isso tudo, pra mim, visitar meus sogros em Piraju, cidade de 25 mil habitantes a 320 Km de São Paulo, não é nenhum sacrifício. Pelo contrário. Piraju é considerada instância turística e não é à toa. É banhada pelo Rio Paranapanema que, devido a uma barragem bem em frente à cidade, forma uma piscina bem em frente ao Iate Clube da cidade.

No momento em que escrevo, vejo dois homens em um stand up paddle e um casal com um filho em um dos pedalinhos que saem do restaurante Pira Bar- onde se come os melhores peixes da cidade! Do Iate, aqui ao lado, tomamos banho nesse rio limpíssimo, cercado de verde e das casinhas da cidade. Cidade com apenas duas ruas comerciais, com uma linda praça, a mais bela igreja neogótica do interior de São Paulo (que me obrigou a deixar o preconceito arquitetônico contra o “neo” de lado), cercada de árvores altas.

Desde que meu filho tem dois anos, dou banho nele neste rio, observando os adolescentes pularem do trampolim com cara de anos 40 do clube ou do cipó de uma árvore do outro lado do rio, de onde meu marido, ainda adolescente, já se aventurava.

Comemos aqui o melhor pastel que já comi, e daqui a pouco vou me aventurar de caiaque, enquanto João e o pai andam de pedalinho.

Outra alegria imensa é assistir aos encontros diários de João, 4, com os avós paternos, que ele raramente vê. No pátio da casa deles, João tomou seu primeiro banho de mangueira ao ar livro, quando tinha dois anos. E assim meu filho vai aprendendo a valorizar as temporadas no interior que tanto marcaram a infância de sua mãe.

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Arte pra encher os olhos e esvaziar o bolso

Entrar em galerias para ver as obras de arte compráveis e aproveitar para namorar as não compráveis- aquelas dos artistas consagrados que custam no mínimo o valor de um carro popular- é um hábito que tenho há pelo menos 17 anos. Em Nova Iorque, fazendo o curso de arte contemporânea da New School, visitávamos justamente as galerias da cidade, especialmente as muito conceituadas da Rua 57; íamos a mostras abertas em museus menores, como o de arte africana; e conhecíamos os ateliês de alguns artistas como o de Isamu Nogushi, no Brooklin. Trata-se de um escultor nipo-americano que tem suas suas grandes esculturas em pedra e outros materiais espalhadas por jardins do mundo, uma delas bem ao lado da entrada do Met (o Metropolitan Museum de Nova Iorque).

Na volta, já como repórter de cultura de duas TVs no Rio, além das grandes mostras em cartaz na cidade- nacionais e internacionais, entre elas a que reuniu as cerâmicas de Picasso e uma grande retrospectiva de Andy Warhol- eu e a equipe registrávamos aberturas de exposições de artistas renomados no Brasil e no exterior, mais conhecidos das pessoas que se interessam efetivamente por arte do que do grande público. Lembro-me da suíça radicada em São Paulo Mira Schendel e de seus quadros concretos, do americano Richard Serra e suas esculturas gigantes em madeira e metal, Cristina Oiticica e suas obras com elementos vermelho-escuros e dourados em uma linda casa no início da Barra da qual se via o mar. Claro que havia também as mostras dos grandes concretistas brasileiros como Hélio Oiticica, Lygia Clark, Lygia Pape e dos artistas da geração dos 60, como o surrealista Roberto Magalhães, Eduardo Sued e suas grandes telas com listras coloridas… e os saídos da Escola do Parque Lage nos anos 80, Adriana Verejão, Beatriz Milhazes, Iole de Freitas…

200 galerias
Imagine o pulo que dei do sofá quando soube que estaria em São Paulo durante a 9a São Paulo Arte, uma feira que, durante quatro dias de abril, reuniria pouco mais de 200 galerias entre as mais importantes do Brasil e algumas das mais famosas de Nova Iorque e outras capitais do mundo. E lá fomos eu, meu marido- feliz por eu ter trocado os shoppings pelas galerias naquele fim de semana paulista-, minha irmã publicitária e formada em artes plásticas e Lucília, uma amiga dela que é diretora de arte em publicidade.

As galerias estavam montadas no Pavilhão da Bienal de São Paulo e eu, munida de caneta e cartõezinhos das galerias, poderia anotar sem constrangimentos os preços de desenhos de Picasso, Salvador Dali, Calder e Beatriz Milhazes, passando por alguma decoradora, funcionária de galeria ou mesmo jornalista. Um de meus deleites foi conhecer de perto os pequenos quadrinhos em que uma Mira Schendel muito minimalista abusava do dourado pontuado apenas por um pequeno triângulo colorido. Foi uma paixão à primeira vista, mas o preço? U$ 150 mil. Não sabia que aquela artista– já consagrada na época, é verdade- de que cobri a exposição no Centro Hélio Oiticica lá em 1997 continuava sendo uma das artistas brasileiras mais valorizadas internacionalmente. E Mira Schendel continuou aparecendo em diversas outras galerias da mostra.

Picasso, Dalí e Calder
Logo chegamos à galeria Van der Weghe, que já tem uma filial em São Paulo, pra mim a mais emocionante de toda a mostra. Naquelas paredes para qualquer mortal ver estavam uns sete desenhos de Picasso; um grande desenho em que Dalí, em sua pouco conhecida fase figurativa, pintou uma mulher voluptuosa de uma maneira delicadíssima; e dois móbiles de Calder em todo o seu esplendor.

Os móbiles do americano Alexander Calder povoaram a minha infância. Lembro-me de algo muito íntimo mesmo, acho que minha mãe comprou alguma réplica daquelas estruturas metálicas coloridas parecidas com pétalas de flores e colocou sobre meu berço no apartamento do Jardim Botânico no Rio. Quando me deparei com aquele móbile gigantesco do artista em um vão do aeroporto JFK nos anos 90, quase caí pra trás. Entendi melhor ali a dimensão para o mundo daquele artista que já tinha alegrado tanto o meu tempo de bebê.

Pois bem, o Calder que devia ter 1 metro quadrado, custava U$ 800 mil. Um dos pequenos desenhos de Picasso? U$ 180 mil. Daquele quarto dos sonhos chegamos a outro em que estava exposto uma dos grandes hits da mostra: uma pintura a óleo azul em que Marc Chagall mostrava, como na obra abaixo, um de seus temas preferidos: o circo. Criei coragem, mas a representante da galeria disse logo: “Já está vendido”. E quando já foi vendido, não adianta que você não vai saber o preço. Provavelmente por uma questão de segurança do colecionador.

Artista milionária

Nossa principal vitrine atualmente, a carioca Beatriz Milhazes tinha espalhadas suas flores coloridas por algumas das galerias do Pavilhão. Há poucos anos, um dos quadros dessa pintora, gravurista e professora conseguiu ser vendido por U$ 2 milhões, maior valor alcançado em leilão por um artista brasileiro. Uma simples gravura dela, que tem diversas cópias idênticas, custa hoje o mesmo que um desenho de Picasso, minha gente: U$ 180 mil. Uma grande tela como as que andam sendo vendidas mundo afora? U$ 4,9 milhões.

Depois de passar por salas e salas capazes de traçar um panorama do modernismo brasileiro- quantos Di Cavalcanti à venda, quantos Portinari (como o da foto abaixo) de fases diversas, Anitas Malfatti, Djaniras, Pancettis e suas marinas, Guingnard, Maria Leontina, Lasar Segall, Antônio Bandeira até chegar ao mais recente Flávio de Carvalho?

Um entre os vários Gonçalo Ivo me encheu os olhos com suas listras finas e coloridas e foi em frente a ele que paramos pra tomar um espumante em uns puffs no meio do espaço vazado do pavilhão. Era preciso descansar os pés antes de continuar aquela jornada fantástica.

E havia arte para todos os gostos e de várias nacionalidades: uma galeria expunha grandes telas com desenhos de meninas japonesas; outra, a Sur, de Montevidéu, mostrava o consagrado Berni argentino, os grafites de Joaquín Torres Garcia e o interessante surrealismo de José Gurvich.

No segundo andar, estavam as grandes galerias americanas. A White Cube trouxe um Antony Gormley, aquele que espalhou estátuas de si mesmo nu por São Paulo, Rio e Brasília no ano passado. Um liiiindo geométrico de uma das séries expostas em Brasília custava 300 mil libras.

E, claro, havia no segundo andar muitas novidades contemporâneas, instalações, fotos, obras feitas a partir de artistas consagrados como Jean-Michel Basquiat, etc, etc, etc.

Esculturas de desejo
Mas em minha atual fase de busca por esculturas, me deram muito prazer outros dois encontros ainda no primeiro andar. Um deles foi com um dos bichos de Lygia Clark. Uma das mais prestigiadas artistas brasileiras, representante do Tropicalismo nas artes plásticas junto com Hélio Oiticica, Lygia fez diversas séries de seus bichos. Este (como o da foto abaixo), com várias articulações entre as placas de metal que lhe conferiam grande movimento, custava U$ 3,7 milhões. E era perfeito!

O outro encontro delicioso foi com a galeria de Minas Gerais que representa o grande Amílcar de Castro. Este escultor que desconstruía as formas geométricas cortando e torcendo partes de círculos e retângulos já foi bastante imitado, mas continuou inconfundível. Tive o prazer de entrevistá-lo nos anos 90, muito simples e simpático. Ele terminou falecendo uma década depois, mas deixou muitas esculturas de diversos tamanhos pelas galerias do Brasil. Encontrei uma pouco menor que um prato por R$ 14 mil em uma feira de antiguidades de São Paulo há poucos meses. Uma parecida, um pouco maior, estava por R$ 18 mil na galeria da SP Arte. Este ainda é um sonho que é possível alimentar.

Enquanto não dá pra comprar algo mais caro, vou me divertindo investindo em gravuras desses artistas brasileiros que nos causam espanto quando vemos suas grandes obras. Ah, e em abril do ano que vem, tem mais São Paulo Arte.

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