Arte pra encher os olhos e esvaziar o bolso

Arte pra encher os olhos e esvaziar o bolso

Entrar em galerias para ver as obras de arte compráveis e aproveitar para namorar as não compráveis- aquelas dos artistas consagrados que custam no mínimo o valor de um carro popular- é um hábito que tenho há pelo menos 17 anos. Em Nova Iorque, fazendo o curso de arte contemporânea da New School, visitávamos justamente as galerias da cidade, especialmente as muito conceituadas da Rua 57; íamos a mostras abertas em museus menores, como o de arte africana; e conhecíamos os ateliês de alguns artistas como o de Isamu Nogushi, no Brooklin. Trata-se de um escultor nipo-americano que tem suas suas grandes esculturas em pedra e outros materiais espalhadas por jardins do mundo, uma delas bem ao lado da entrada do Met (o Metropolitan Museum de Nova Iorque).

Na volta, já como repórter de cultura de duas TVs no Rio, além das grandes mostras em cartaz na cidade- nacionais e internacionais, entre elas a que reuniu as cerâmicas de Picasso e uma grande retrospectiva de Andy Warhol- eu e a equipe registrávamos aberturas de exposições de artistas renomados no Brasil e no exterior, mais conhecidos das pessoas que se interessam efetivamente por arte do que do grande público. Lembro-me da suíça radicada em São Paulo Mira Schendel e de seus quadros concretos, do americano Richard Serra e suas esculturas gigantes em madeira e metal, Cristina Oiticica e suas obras com elementos vermelho-escuros e dourados em uma linda casa no início da Barra da qual se via o mar. Claro que havia também as mostras dos grandes concretistas brasileiros como Hélio Oiticica, Lygia Clark, Lygia Pape e dos artistas da geração dos 60, como o surrealista Roberto Magalhães, Eduardo Sued e suas grandes telas com listras coloridas… e os saídos da Escola do Parque Lage nos anos 80, Adriana Verejão, Beatriz Milhazes, Iole de Freitas…

200 galerias
Imagine o pulo que dei do sofá quando soube que estaria em São Paulo durante a 9a São Paulo Arte, uma feira que, durante quatro dias de abril, reuniria pouco mais de 200 galerias entre as mais importantes do Brasil e algumas das mais famosas de Nova Iorque e outras capitais do mundo. E lá fomos eu, meu marido- feliz por eu ter trocado os shoppings pelas galerias naquele fim de semana paulista-, minha irmã publicitária e formada em artes plásticas e Lucília, uma amiga dela que é diretora de arte em publicidade.

As galerias estavam montadas no Pavilhão da Bienal de São Paulo e eu, munida de caneta e cartõezinhos das galerias, poderia anotar sem constrangimentos os preços de desenhos de Picasso, Salvador Dali, Calder e Beatriz Milhazes, passando por alguma decoradora, funcionária de galeria ou mesmo jornalista. Um de meus deleites foi conhecer de perto os pequenos quadrinhos em que uma Mira Schendel muito minimalista abusava do dourado pontuado apenas por um pequeno triângulo colorido. Foi uma paixão à primeira vista, mas o preço? U$ 150 mil. Não sabia que aquela artista– já consagrada na época, é verdade- de que cobri a exposição no Centro Hélio Oiticica lá em 1997 continuava sendo uma das artistas brasileiras mais valorizadas internacionalmente. E Mira Schendel continuou aparecendo em diversas outras galerias da mostra.

Picasso, Dalí e Calder
Logo chegamos à galeria Van der Weghe, que já tem uma filial em São Paulo, pra mim a mais emocionante de toda a mostra. Naquelas paredes para qualquer mortal ver estavam uns sete desenhos de Picasso; um grande desenho em que Dalí, em sua pouco conhecida fase figurativa, pintou uma mulher voluptuosa de uma maneira delicadíssima; e dois móbiles de Calder em todo o seu esplendor.

Os móbiles do americano Alexander Calder povoaram a minha infância. Lembro-me de algo muito íntimo mesmo, acho que minha mãe comprou alguma réplica daquelas estruturas metálicas coloridas parecidas com pétalas de flores e colocou sobre meu berço no apartamento do Jardim Botânico no Rio. Quando me deparei com aquele móbile gigantesco do artista em um vão do aeroporto JFK nos anos 90, quase caí pra trás. Entendi melhor ali a dimensão para o mundo daquele artista que já tinha alegrado tanto o meu tempo de bebê.

Pois bem, o Calder que devia ter 1 metro quadrado, custava U$ 800 mil. Um dos pequenos desenhos de Picasso? U$ 180 mil. Daquele quarto dos sonhos chegamos a outro em que estava exposto uma dos grandes hits da mostra: uma pintura a óleo azul em que Marc Chagall mostrava, como na obra abaixo, um de seus temas preferidos: o circo. Criei coragem, mas a representante da galeria disse logo: “Já está vendido”. E quando já foi vendido, não adianta que você não vai saber o preço. Provavelmente por uma questão de segurança do colecionador.

Artista milionária

Nossa principal vitrine atualmente, a carioca Beatriz Milhazes tinha espalhadas suas flores coloridas por algumas das galerias do Pavilhão. Há poucos anos, um dos quadros dessa pintora, gravurista e professora conseguiu ser vendido por U$ 2 milhões, maior valor alcançado em leilão por um artista brasileiro. Uma simples gravura dela, que tem diversas cópias idênticas, custa hoje o mesmo que um desenho de Picasso, minha gente: U$ 180 mil. Uma grande tela como as que andam sendo vendidas mundo afora? U$ 4,9 milhões.

Depois de passar por salas e salas capazes de traçar um panorama do modernismo brasileiro- quantos Di Cavalcanti à venda, quantos Portinari (como o da foto abaixo) de fases diversas, Anitas Malfatti, Djaniras, Pancettis e suas marinas, Guingnard, Maria Leontina, Lasar Segall, Antônio Bandeira até chegar ao mais recente Flávio de Carvalho?

Um entre os vários Gonçalo Ivo me encheu os olhos com suas listras finas e coloridas e foi em frente a ele que paramos pra tomar um espumante em uns puffs no meio do espaço vazado do pavilhão. Era preciso descansar os pés antes de continuar aquela jornada fantástica.

E havia arte para todos os gostos e de várias nacionalidades: uma galeria expunha grandes telas com desenhos de meninas japonesas; outra, a Sur, de Montevidéu, mostrava o consagrado Berni argentino, os grafites de Joaquín Torres Garcia e o interessante surrealismo de José Gurvich.

No segundo andar, estavam as grandes galerias americanas. A White Cube trouxe um Antony Gormley, aquele que espalhou estátuas de si mesmo nu por São Paulo, Rio e Brasília no ano passado. Um liiiindo geométrico de uma das séries expostas em Brasília custava 300 mil libras.

E, claro, havia no segundo andar muitas novidades contemporâneas, instalações, fotos, obras feitas a partir de artistas consagrados como Jean-Michel Basquiat, etc, etc, etc.

Esculturas de desejo
Mas em minha atual fase de busca por esculturas, me deram muito prazer outros dois encontros ainda no primeiro andar. Um deles foi com um dos bichos de Lygia Clark. Uma das mais prestigiadas artistas brasileiras, representante do Tropicalismo nas artes plásticas junto com Hélio Oiticica, Lygia fez diversas séries de seus bichos. Este (como o da foto abaixo), com várias articulações entre as placas de metal que lhe conferiam grande movimento, custava U$ 3,7 milhões. E era perfeito!

O outro encontro delicioso foi com a galeria de Minas Gerais que representa o grande Amílcar de Castro. Este escultor que desconstruía as formas geométricas cortando e torcendo partes de círculos e retângulos já foi bastante imitado, mas continuou inconfundível. Tive o prazer de entrevistá-lo nos anos 90, muito simples e simpático. Ele terminou falecendo uma década depois, mas deixou muitas esculturas de diversos tamanhos pelas galerias do Brasil. Encontrei uma pouco menor que um prato por R$ 14 mil em uma feira de antiguidades de São Paulo há poucos meses. Uma parecida, um pouco maior, estava por R$ 18 mil na galeria da SP Arte. Este ainda é um sonho que é possível alimentar.

Enquanto não dá pra comprar algo mais caro, vou me divertindo investindo em gravuras desses artistas brasileiros que nos causam espanto quando vemos suas grandes obras. Ah, e em abril do ano que vem, tem mais São Paulo Arte.

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