Festa no interior

Festa no interior

Cresci na cidade, aliás, em várias delas, mas sempre gostei do interior. Pra quem acredita que o genótipo pode interferir a esse ponto, deve estar no sangue. Meu pai nasceu em Caruaru, minha mãe em Garanhuns, ambos no agreste pernambucano. Sou uma das brasileiras que conhecia Garanhuns muito antes de Lula virar presidente e antes de Bruno Barreto mostrar ao mundo em seu filme, “Lula- filho do Brasil”, Caetés, vilarejo no entorno de Garanhuns.

Como sou muito ligada no que acontece ao meu redor, especialmente nas áreas cultural e política- respectivamente a que mais me interessa e a em que trabalho- tenho no interior o meu maior refúgio. A calma, a natureza, me fazem muito bem. São o equilíbrio necessário para pessoas agitadas. Não tem rock, não tem jornal de nível nacional ou internacional, não tem nem muita MPB.

Sempre digo que os melhores anos-novos da minha vida foram os de Bezerros, que fica bem antes de Garanhuns, na Zona da Mata de Pernambuco. É onde sempre morou a família de minha mãe por parte do pai dela, ou seja, meus tios-avós, irmãos de meu avô Zé Sales, que virou nome de rua em Garanhuns por ele dedicar parte de seu tempo a atender os pobres de Garanhuns, para onde se mudou depois de adulto.

O ano novo em Bezerros era fantástico para uma criança ou um adolescente. Antes da meia-noite, íamos com os primos de segundo grau ao parque de diversões montado na praça central dessa cidade de 58 mil habitantes. Dos brinquedos, todos de madeira pintada de cores vivas, o que mais me lembro é a barca. Empurrados por primos de 1 metro e 90, Guilherme e Ricardo- é, há uma herança holandesa na família-, os barcos ficavam a 90 graus do chão, na verdade 100 graus, quase rodavam. Isso na época em que tínhamos 10, 11 anos.

Breu total
À meia-noite, normalmente passada na casa colonial de tias Cau e Emília (que aparece na foto acima), irmãs de vovô, todas as luzes da cidade se apagavam. Lembro-me das luzes de 1984. Quando se acenderam de novo, uns dois minutos depois, estava escrito 1985 na fachada da igreja. Aquilo era absolutamente mágico pra nós. Houve um ano-novo em que eu abri os braços na hora em que escureceu. E lá se foram os óculos de meu primo Tota. Ele ficou às escuras mais tempo que todos nós. Quando clareou , já no ano seguinte, Tota conseguiu recuperar seus óculos que haviam caído atrás do muro baixo, no jardim do vizinho. Foi a história daquele réveillon.

Em outra casa animada, a de Flavinho, primo de minha mãe, a anfitriã, mulher dele, era a animação em pessoa. Não se continha em soltar piadinhas envolvendo o tema da noite. “Você não escova os dentes desde o ano passado, fulana”. No dia primeiro, sempre voltávamos pra tomar o primeiro banho do ano na pequena piscina feita de cimento que ficava no quintal dos fundos da casa. Em pleno calor do verão nordestino, era uma delícia!

Forró e Noel Rosa
Quem já era mais velho, virava a noite no forró da casa de outro primo, bem pertinho da Igreja. Era animadíssimo. E ninguém podia deixar de visitar, do outro lado da rua, Tia Lilía, que morreu com 107 anos, ainda lúcida e cuidando das contas da casa.

Houve um ano-novo em que viramos a noite na fazenda de tio Plínio, irmão de minha mãe, tocando violão e cantando Noel Rosa e Cartola. Isso importados por minhas primas moradoras do sudeste. Nunca as passagens de ano foram tão boas como as de Bezerros.

Instância turística
Por isso tudo, pra mim, visitar meus sogros em Piraju, cidade de 25 mil habitantes a 320 Km de São Paulo, não é nenhum sacrifício. Pelo contrário. Piraju é considerada instância turística e não é à toa. É banhada pelo Rio Paranapanema que, devido a uma barragem bem em frente à cidade, forma uma piscina bem em frente ao Iate Clube da cidade.

No momento em que escrevo, vejo dois homens em um stand up paddle e um casal com um filho em um dos pedalinhos que saem do restaurante Pira Bar- onde se come os melhores peixes da cidade! Do Iate, aqui ao lado, tomamos banho nesse rio limpíssimo, cercado de verde e das casinhas da cidade. Cidade com apenas duas ruas comerciais, com uma linda praça, a mais bela igreja neogótica do interior de São Paulo (que me obrigou a deixar o preconceito arquitetônico contra o “neo” de lado), cercada de árvores altas.

Desde que meu filho tem dois anos, dou banho nele neste rio, observando os adolescentes pularem do trampolim com cara de anos 40 do clube ou do cipó de uma árvore do outro lado do rio, de onde meu marido, ainda adolescente, já se aventurava.

Comemos aqui o melhor pastel que já comi, e daqui a pouco vou me aventurar de caiaque, enquanto João e o pai andam de pedalinho.

Outra alegria imensa é assistir aos encontros diários de João, 4, com os avós paternos, que ele raramente vê. No pátio da casa deles, João tomou seu primeiro banho de mangueira ao ar livro, quando tinha dois anos. E assim meu filho vai aprendendo a valorizar as temporadas no interior que tanto marcaram a infância de sua mãe.

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