Posts made in maio, 2013

Flamengo e Santos: um espetáculo

Quem foi ao jogo Flamengo e Santos no último domingo (26), no novo estádio Mané Garrincha, assistiu a um espetáculo. Um espetáculo de organização do transporte público de Brasília, um espetáculo de organização dos voluntários que “provavelmente” trabalharão também na Copa do Mundo de 2014- como me disse um deles-, um espetáculo do público ávido por um bom jogo em um estádio com nível de primeiro mundo. O metrô funcionou muito bem, os ônibus saíam cheios da rodoviária um após o outro, sem demora. As filas no estádio, embora longas, andavam rápido.

A despeito do que relataram repórteres de alguns jornais, que estavam lá mesmo para registrar as falhas, o que eu vi, como espectadora que levou o filho de cinco anos a um estádio de futebol pela primeira vez, foi muito mais organização do que falhas.

Houve, sim, falhas. As filas estavam grandes, afinal foi o jogo com maior público deste primeiro dia de Campeonato Brasileiro- 63 mil pessoas-, na última hora, a segurança afrouxou e parou de fazer qualquer revista nas pessoas. Uma falha gravíssima, em tempos de violência nos estádios. Fora no Rio ou em São Paulo, as críticas teriam sido muito maiores.

Por um lado, com razão, afinal, em Brasília, ainda não se registram muitos casos graves de violência. Mas por outro, só não se falou tanto nesta dispensa de revista, proposital, diga-se de passagem, porque Brasília não tem a mesma visibilidade que Rio e São Paulo quando o assunto são eventos esportivos e culturais. E também por uma característica da imprensa comercial brasileira que prefere cobrir os problemas só depois que eles dão origem a algo mais grave, como ferimentos e mortes. Imagine se algum torcedor estivesse portando um daqueles sinalizadores que causou a morte do menino boliviano no jogo do Corinthians na Libertadores há alguns meses? Teria passado pela “não revista” com tranquilidade e poderia ter feito um estrago ainda maior.

Jogo ruim, torcida boa
Por sorte, a maior torcida do Brasil se comportou bem até demais. Diante de um Flamengo que, a despeito das seguidas tentativas de passe do já veterano Léo Moura, não conseguia finalizar as jogadas, o público não parou de incentivar o time, gritando “Mengo” e outras palavras de ordem. Para a alegria das crianças presentes, até uma ôla rubro-negra se formou no início do jogo.

Neymar apático
Neymar raras vezes se pareceu com o craque que os brasilienses queriam ver em campo; lembrava mais um Romário em seus piores dias, parado ali na frente esperando a bola dar o ar da graça em frente a seus pés (foto abaixo, minha). Deu corda para os gritos de “Neymar, viado” da torcida do Flamengo ao cair diversas vezes em campo sem ter sofrido falta (foto mais abaixo, sem crédito). De ressaca após a noite de farra na festa de casamento do amigo Ganso, o atacante da seleção brasileira protagonizou uma despedida lamentável.

O verdadeiro personagem principal terminou mesmo sendo o estádio: lindo, com a grama verdinha contrastando com as cadeiras vermelhas (e pretas, também, já que os flamenguistas sempre foram maioria em Brasília), quase lotado e sob o céu azul-rosado que brinda nossos fins de tarde na época da seca. Um espetáculo, sim, que só não foi maior porque parte da torcida foi impedida de comparecer devido aos ingressos postos à venda: os mais caros do campeonato brasileiro, que só a classe média-alta teve coragem de pagar. Um dia capaz de emocionar os que conseguiram participar dele, que, como eu, devem ter ficado imaginando como será fantástico estar ali num jogo da Copa do Mundo.

 

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“Faroeste Caboclo”: Tarantino encontra Walter Salles e Shakespeare

“O filme não é um vídeo clipe, é uma adaptação da obra”, avisou logo o diretor de “Faroeste Cabloclo”, René Sampaio, ao público da primeira das oito salas do Espaço Unibanco de Cinema que exibiram ontem à noite, na pré-estreia brasiliense, quase simultaneamente, o longa-metragem baseado na música de Renato Russo. Uma pré-estreia, diga-se de passagem, digna de registro: mais de mil pessoas formaram uma fila sem precedentes na cidade- ou mesmo em premières de filmes no Rio e em São Paulo- que ía da bilheteria dos cinemas até a Livraria Cultura, dando toda a volta pelas lojas do 2º andar do Casa Park, shopping de vocação cultural da capital.

Um megainvestimento no boca a boca pós pré-estreia que provavelmente valerá a pena. A presença dos atores, Fabrício Boliveira (João de Santo Cristo), Felipe Adib (Jeremias) e Ísis Valverde (Maria Lúcia), com certeza ajudará na divulgação, mas o filme tem potencial para falar por si à alma do grande público brasileiro. A história do rapaz que sai do interior da Bahia após deixar a prisão por ter executado o homem que ele vira matando seu pai tem um quê de faroeste, modernizado a la Tarantino, e com a força de imagens semelhantes a um “Abril Despedaçado”, de Walter Sales. História de vingança, história de amor improvável e tudo sob uma aura fortemente brasileira, do sofrimento provocado pela fome e pela tradição da justiça feita com as próprias mãos. Tradição que, no caso do sertão, ganha as cores do ambiente de miséria e ignorância.

Renato aos 50
O compositor que um dia se intitulou “o trovador solitário” queria ser escritor de livros, por isso Shakespeare é um dos elementos principais de seu conto. Estão lá não só a vingança, mas o amor impossível e a tragédia, estas duas últimas com inspiração específica em “Romeu e Julieta”. “Ele dizia que aos 50 anos iria parar tudo de rock e só se dedicar a escrever”, me contou depois da exibição Dna Carminha Manfredini, a mãe de Renato, chiquérrima com um lindo colar com grandes pedras verdes e acompanhada de duas primas do músico morto em 1996 (foto abaixo). Será que Renato gostaria de saber que uma “obra” sua foi adaptada para o cinema?, eu quis saber. E gostaria do resultado?  “Ele ía gostar sim. O Júnior gostava dessas coisas. Dizia desde pequeno que seria cineasta. Sabia todos os diretores”, respondeu a mãe, que achou o filme “interessante”.

Beatles
“Faroeste Caboclo”, a canção, foi inspirada em “Rocky Racoon”, dos Beatles, também uma história de vingança envolvendo uma moça. Renato gostava da música e Carmem Manfredini, irmã dele, a gravou em seu CD “O fim da infância”, com uma citação melódica a Eduardo e Mônica no início.

Fabrício Boliveira (de “Tropa de Elite 2” e “400 contra 1 – A História do Comando Vermelho”, em que já mostrava a que vinha) é uma das grandes forças vitais do filme. Ator seguro, expressivo, belo, capaz de convencer o público de que a estudante de arquitetura da UnB (Universidade de Brasília), filha de um senador conservador (um dos últimos papeis de Marcos Paulo) que é dono de um Gálaxi, e moradora da Asa Sul, um dos bairros nobres de Brasília, se apaixonaria por um marginal. O maior mérito dos roteiristas e do diretor brasiliense René Sampaio, aliás, é exatamente ter conseguido, sem traumas, transpor para as telas o conflito principal do conto de Russo – o amor da patricinha pelo criminoso sertanejo, negro e pobre.

Escolha arriscada
A sequência em que João do Santo Cristo conhece Maria Lúcia acontece no parapeito de uma das quadras brasilienses, quando ele, fugindo do policial corrupto (Antônio Calloni) que o persegue por causa da guerra pelo domínio do tráfico de cocaína, invade o quarto da menina. Ela decide proteger o desconhecido, na escolha mais arriscada – porque poderia parecer pouco natural- feita pelos roteiristas do filme, entre os quais o escritor Paulo Lins, de “Cidade de Deus”.

E segue a história descrita na letra de “Faroeste Caboclo”: As brigas de João com Jeremias (Adib, o amante da personagem de Fernanda Torres no seriado global “Tapas e Beijos”, em seu primeiro papel de vilão fora do teatro), “maconheiro sem vergonha, traficante dali”; a incursão de Santo Cristo nas festinhas dos filhos da elite da capital federal; a briga dos amigos de João contra os de Santo Cristo durante a Rockonha (que aparece em mais detalhes do que em “Somos tão jovens”); o afastamento do casal por causa do tráfico; o casamento de Maria Lúcia com Jeremias; o final trágico shakespeariano.

Brasília como Cenário
Pra contar a história que todos já conhecemos (nada de spoilers aqui, portanto), René Sampaio, o diretor de fotografia Tiado Marques Teixeira e o diretor de arte, César Trancoso (que também chama a atenção ao interpretar o traficante Pablo), recorreram à matéria prima que também é personagem importante do conto: Brasília. Coisa de brasiliense mesmo a cena em que Maria Lúcia/ Isis Valverde fuma no topo de um bloco, com diversos outros blocos da quadra por trás emoldurados pelo pôr do sol que só nós conhecemos. Como Isis, aliás, contou ao público na pré-estreia, o elenco teve praticamente que se mudar para Brasília. Ela falou sobre como gostou de filmar aqui. Uma das boas locações é a da casa de Jeremias, no Lago Sul, modernista e com detalhes bem setentistas.

Janela Indiscreta
Atenção à citação de “Janela Indiscreta” de Hitchcock, na cena em que se vê de fora das janelas o quarto de Maria Lúcia, ao mesmo tempo em que, em imagem paralela, seu pai ouve música na sala. Uma delícia.

Trilha sonora
Outro apuro estético feliz foi com na forma de usar a trilha sonora, assinada por Philippe Seabra, da Plebe Rude. “Tivemos o cuidado de manter a ‘sujeira’ das gravações daquela época. E não colocamos a música (Faroeste Caboclo) durante o filme para não parecer um vídeo-clipe”, me disse Philippe após a exibição. “Isso valorizou o impacto da música no final”, explicou, se referindo ao aparecimento da longa canção apenas durante os créditos finais. Quem gostar do resultado, logo poderá leva-lo pra casa, já que a trilha sonora será lançada em CD, segundo o compositor e amigo de Renato Russo.

 

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“Somos tão jovens”- nossas respostas estão lá

Qual o fã que não sonhou em conversar com seu ídolo para saber a história por trás de uma determinada música? Que não quis saber onde o compositor daquela canção adorada estava quando pensou na sua letra? No caso das minhas bandas e compositores preferidos, eu sempre sonhei. E nunca escondi de ninguém que resolvi entrar na faculdade de jornalismo para entrevistar meus grandes ídolos de adolescência Sting, Bono, Morrissey, Robert Smith, Cazuza, Philippe Seabra, Renato Russo.

Realizei o sonho em relação a Sting e Bono, mas Cazuza e Renato morreram ou adoeceram antes que eu os pudesse entrevistar e satisfazer minha curiosidade. Saí muito feliz do cinema numa tarde tranquila da semana passada depois de assistir a “Somos tão jovens”, a cinebiografia de Renato Russo jovem, antes da Legião, da adolescência como professor da Cultura Inglesa ao trovador solitário, passando pela prolífica fase do Aborto Elétrico.

Aliás, por que Aborto Elétrico? A resposta está no filme. Em quem Renato, na época ainda Manfredini, se inspirou para escrever “Ainda é cedo”, figura, aliás, central do filme e de sua juventude? O filme responde. Eduardo e Mônica existiram de verdade? Que circunstâncias sugeriram a letra de “Tédio (com um T bem grande pra você)”, “Química” ou “Veraneio Vascaína”, que terminou gravada pelo Capital Inicial dos irmãos Fê e Flávio Lemos? O que têm em comum “Eu sei” e “Meninos e Meninas”? Está tudo lá no longa-metragem dirigido pelo carioca Antônio Carlos da Fontoura, que fez clássicos como “Copacabana me engana (1968) e “A rainha diaba” (1974), a princípio, não tinha nada em comum com a trajetória ou a geração de Renato que o credenciasse à disputada função de diretor de uma biografia tão esperada.

Os bastidores da criação das músicas aparecem tantas vezes que poderiam até parecer um pouco forçados. Mas para os fãs, são mais que bem vindos, já valeriam a ida ao cinema que, no fim de semana de estreia, teve salas lotadas e boa bilheteria, e obrigou muitos quarentões a voltar com a família no dia seguinte, de preferência de dia.

Boa surpresa
Confesso que não esperava muito de “Somos tão jovens” como disse no post “Uma noite com o Aborto Elétrico” que escrevi aqui no blog em agosto de 2011, após passar uma noite na UnB assistindo a uma das sequencias de shows do filme. Olhando de fora, sem ver o monitor, o show do Aborto parecia fake. Mesmo quem não tem idade para ter ido a um show da banda que deu origem ao Legião e ao Capital Inicial (o baterista Flávio e o baixista Fê que estão até hoje na banda de Dinho Ouro Preto começaram no Aborto junto com Renato), desconfiava que os punks fãs da banda não subiriam ao palco após o show para festejar alegres a ponto de subir uns nos ombros dos outros (foto abaixo).

A julgar pelo que esta cena parecia a quem assistia da arquibancada do teatro de arena, o filme poderia se tornar um ôba, ôba que só visava a arrebatar multidões aos cinemas. Talvez o próprio diretor tenha optado pelos planos mais fechados em Renato, talvez tenha sido salvo pelo montador brasiliense Dirceu Lustosa. O fato é que o filme terminou surpreendendo positivamente a quem assistiu àquelas filmagens.

Voz “quase” real
A escolha dos atores principais e o treinamento (coaching) feito com eles pelo tecladista e arranjador Carlos Trilha deram resultado. Trilha era da banda de apoio de Renato em sua fase solo, dos bons “Stonewall Celebration Concert” (1994) e “Equilíbrio Distante” (1995), e participou do ótimo CD da irmã do compositor, a cantora Carmem Manfredini, com a banda Tantra, “O fim da infância” (Ouça três faixas em “O fim da infância, entrevista com Carmem Manfredini”, aqui no blog).

Com a ajuda de Carlos Trilha, o ator Thiago Mendonça, que já havia cantado com a voz do sertanejo Luciano em “Os Filhos de Francisco”, parecia embebido da alma de Júnior, como os pais e a irmã sempre chamaram Renato. A voz ficou muito parecida e Thiago não deixou nada a dever ao cantor no filme. Sim, é dele a voz de Renato Russo que aparece em todo o longa, com exceção das homenagens documentais em que o próprio músico aparece. Homenagens, estas sim, provavelmente dispensáveis e cheirando a marketing.

Boas e más atuações
Menções honrosas pela atuação também merecem o premiado ator brasiliense Bruno Torres, que interpreta Fê Lemos; a carioca Laila Zaid como a melhor amiga Aninha; Bianca Comparato, que faz uma Carmem Tereza com a personalidade forte que ainda reconhecemos nos dias de hoje; e Edu Moraes, um Herbert Vianna impagável. Ibsen Perucci está a cara (e os trejeitos ajudam) de Dinho Ouro Preto (abaixo).

Infelizmente, outras escolhas não foram tão felizes como a Sandra Corveloni, premiada como melhor atriz em Cannes, mas tão diferente da verdadeira dona Carminha, mãe de Renato; e de Daniel Passi na pele de Flávio Lemos, que se revela um dos personagens centrais da trama e merecia interpretação mais segura.

O filme tem todos os ingredientes para deixar felizes os fãs de Renato Russo e muitos dos que acompanharam a Legião Urbana. Renato com todas as suas cores: o perfeccionismo, a ironia, as dúvidas sobre a sexualidade, as inseguranças, o otimismo, a sensibilidade. “Que barulho é esse?”, pergunta Carmem Tereza ao ouvir o punk que o irmão conseguiu introduzir entre os amigos da capital. “É a música do futuro”, responde certeiro.

Brasília radiante na tela

Claro que para os brasilienses, o prazer é ainda maior. Apesar do sucesso de Eduardo Belmonte, meu colega Zé do curso de cinema da UnB, e tantos curta-metragistas da capital- procure Adriana Vasconcelos e Catarina Acioly, por exemplo, ainda não estamos tão acostumados a ver Brasília na telona. Que deleite, então, ver, em muitas cores e com muita luz, o bloco A da 308 sul, quadra onde estudei aos 7 anos, que no filme passa pela 303 onde a família Manfredini morava! Ou a colina, cujo nome foi escolhido por reunir as mentes brilhantes como no Olimpo grego, me revelou o roteirista. Mas atenção: já senti em uma festa de locais no último fim de semana que as licenças poéticas podem nos irritar: pulem a cena em que Renato chora a morte de John Lennon. Ou você se lembra de ter frequentado um cais no Lago sul no início dos anos 80?

E hoje é dia de João de Santo Cristo na capital. Prometo contar depois como foi a pré-estreia de Faroeste Caboclo na cidade em que a Legião foi gerada.

 

 

 

 

 

 

 

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