“Faroeste Caboclo”: Tarantino encontra Walter Salles e Shakespeare

“Faroeste Caboclo”: Tarantino encontra Walter Salles e Shakespeare

“O filme não é um vídeo clipe, é uma adaptação da obra”, avisou logo o diretor de “Faroeste Cabloclo”, René Sampaio, ao público da primeira das oito salas do Espaço Unibanco de Cinema que exibiram ontem à noite, na pré-estreia brasiliense, quase simultaneamente, o longa-metragem baseado na música de Renato Russo. Uma pré-estreia, diga-se de passagem, digna de registro: mais de mil pessoas formaram uma fila sem precedentes na cidade- ou mesmo em premières de filmes no Rio e em São Paulo- que ía da bilheteria dos cinemas até a Livraria Cultura, dando toda a volta pelas lojas do 2º andar do Casa Park, shopping de vocação cultural da capital.

Um megainvestimento no boca a boca pós pré-estreia que provavelmente valerá a pena. A presença dos atores, Fabrício Boliveira (João de Santo Cristo), Felipe Adib (Jeremias) e Ísis Valverde (Maria Lúcia), com certeza ajudará na divulgação, mas o filme tem potencial para falar por si à alma do grande público brasileiro. A história do rapaz que sai do interior da Bahia após deixar a prisão por ter executado o homem que ele vira matando seu pai tem um quê de faroeste, modernizado a la Tarantino, e com a força de imagens semelhantes a um “Abril Despedaçado”, de Walter Sales. História de vingança, história de amor improvável e tudo sob uma aura fortemente brasileira, do sofrimento provocado pela fome e pela tradição da justiça feita com as próprias mãos. Tradição que, no caso do sertão, ganha as cores do ambiente de miséria e ignorância.

Renato aos 50
O compositor que um dia se intitulou “o trovador solitário” queria ser escritor de livros, por isso Shakespeare é um dos elementos principais de seu conto. Estão lá não só a vingança, mas o amor impossível e a tragédia, estas duas últimas com inspiração específica em “Romeu e Julieta”. “Ele dizia que aos 50 anos iria parar tudo de rock e só se dedicar a escrever”, me contou depois da exibição Dna Carminha Manfredini, a mãe de Renato, chiquérrima com um lindo colar com grandes pedras verdes e acompanhada de duas primas do músico morto em 1996 (foto abaixo). Será que Renato gostaria de saber que uma “obra” sua foi adaptada para o cinema?, eu quis saber. E gostaria do resultado?  “Ele ía gostar sim. O Júnior gostava dessas coisas. Dizia desde pequeno que seria cineasta. Sabia todos os diretores”, respondeu a mãe, que achou o filme “interessante”.

Beatles
“Faroeste Caboclo”, a canção, foi inspirada em “Rocky Racoon”, dos Beatles, também uma história de vingança envolvendo uma moça. Renato gostava da música e Carmem Manfredini, irmã dele, a gravou em seu CD “O fim da infância”, com uma citação melódica a Eduardo e Mônica no início.

Fabrício Boliveira (de “Tropa de Elite 2” e “400 contra 1 – A História do Comando Vermelho”, em que já mostrava a que vinha) é uma das grandes forças vitais do filme. Ator seguro, expressivo, belo, capaz de convencer o público de que a estudante de arquitetura da UnB (Universidade de Brasília), filha de um senador conservador (um dos últimos papeis de Marcos Paulo) que é dono de um Gálaxi, e moradora da Asa Sul, um dos bairros nobres de Brasília, se apaixonaria por um marginal. O maior mérito dos roteiristas e do diretor brasiliense René Sampaio, aliás, é exatamente ter conseguido, sem traumas, transpor para as telas o conflito principal do conto de Russo – o amor da patricinha pelo criminoso sertanejo, negro e pobre.

Escolha arriscada
A sequência em que João do Santo Cristo conhece Maria Lúcia acontece no parapeito de uma das quadras brasilienses, quando ele, fugindo do policial corrupto (Antônio Calloni) que o persegue por causa da guerra pelo domínio do tráfico de cocaína, invade o quarto da menina. Ela decide proteger o desconhecido, na escolha mais arriscada – porque poderia parecer pouco natural- feita pelos roteiristas do filme, entre os quais o escritor Paulo Lins, de “Cidade de Deus”.

E segue a história descrita na letra de “Faroeste Caboclo”: As brigas de João com Jeremias (Adib, o amante da personagem de Fernanda Torres no seriado global “Tapas e Beijos”, em seu primeiro papel de vilão fora do teatro), “maconheiro sem vergonha, traficante dali”; a incursão de Santo Cristo nas festinhas dos filhos da elite da capital federal; a briga dos amigos de João contra os de Santo Cristo durante a Rockonha (que aparece em mais detalhes do que em “Somos tão jovens”); o afastamento do casal por causa do tráfico; o casamento de Maria Lúcia com Jeremias; o final trágico shakespeariano.

Brasília como Cenário
Pra contar a história que todos já conhecemos (nada de spoilers aqui, portanto), René Sampaio, o diretor de fotografia Tiado Marques Teixeira e o diretor de arte, César Trancoso (que também chama a atenção ao interpretar o traficante Pablo), recorreram à matéria prima que também é personagem importante do conto: Brasília. Coisa de brasiliense mesmo a cena em que Maria Lúcia/ Isis Valverde fuma no topo de um bloco, com diversos outros blocos da quadra por trás emoldurados pelo pôr do sol que só nós conhecemos. Como Isis, aliás, contou ao público na pré-estreia, o elenco teve praticamente que se mudar para Brasília. Ela falou sobre como gostou de filmar aqui. Uma das boas locações é a da casa de Jeremias, no Lago Sul, modernista e com detalhes bem setentistas.

Janela Indiscreta
Atenção à citação de “Janela Indiscreta” de Hitchcock, na cena em que se vê de fora das janelas o quarto de Maria Lúcia, ao mesmo tempo em que, em imagem paralela, seu pai ouve música na sala. Uma delícia.

Trilha sonora
Outro apuro estético feliz foi com na forma de usar a trilha sonora, assinada por Philippe Seabra, da Plebe Rude. “Tivemos o cuidado de manter a ‘sujeira’ das gravações daquela época. E não colocamos a música (Faroeste Caboclo) durante o filme para não parecer um vídeo-clipe”, me disse Philippe após a exibição. “Isso valorizou o impacto da música no final”, explicou, se referindo ao aparecimento da longa canção apenas durante os créditos finais. Quem gostar do resultado, logo poderá leva-lo pra casa, já que a trilha sonora será lançada em CD, segundo o compositor e amigo de Renato Russo.

 

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7 Comentários

  1. Marcelo Costa |

    Parei em: “modernizado a la Tarantino.”
    Aquilo que vocês chamam de filme que o tal do Tarantino faz, não pode ser chamado de filme. Ele é um roteirista fantástico, e só. Os filmes dele são uma piada moderna.

    • Também não assisto mais ao Tarantino. Afora a questão do roteiro, em que ele é realmente muito bom, acho os filmes de uma violência gratuita enorme. Concordo com você. Mas no Faroeste a violência não é gratuita, é essencial à trama.

  2. to doido pra assistir……

  3. Mariana,
    Continuo adorando os seus textos.
    Renato Russo, seu ídolo e muita galera de uma geração especial que valorizavam o que tinha de melhor na cultura, merece todas as homenagens: Show, teatro, cinema e tantas mais.

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